Todos as meditações

Oração Preparatória

Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.


Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.


Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.


Nota editorial: Recordação do caminho percorrido. — Até aqui, a alma foi conduzida a considerar o fim para o qual foi criada, a necessidade de ordenar todas as coisas para Deus, a malícia do pecado, as penas eternas que ele merece e a misericórdia do Pai que recebe o pecador arrependido. Agora, esta meditação ajuda a recolher os frutos dessas verdades. Não basta ter entendido o perigo do pecado e a gravidade da condenação; é preciso tirar disso arrependimento sincero, propósito firme, espírito de penitência e resolução de evitar até os pecados leves que abrem caminho para quedas maiores.

Prelúdio primeiro — Composição de lugar

Imagina que vês Jesus cravado na cruz e que te diz: Vê quanto fiz e sofri para te livrar do inferno e te salvar; e tu, por ti mesmo, não farás o que deves?


Prelúdio segundo — Petição

Ó meu Jesus, eu não quero me condenar; quero me salvar, custe o que custar. Dai-me, meu Salvador, os auxílios e a graça de que preciso para alcançar a minha salvação eterna. Amém.


Já ponderamos, minha alma, as terríveis desgraças que sofre uma alma que perde seu último fim. Mas de que adiantaria esse conhecimento se não puséssemos mãos à obra, valendo-nos de todos os meios necessários para não cair nessas desgraças e alcançar com segurança o nosso último fim?


Eu te exporei aqui o que deve ser feito; e tu, minha alma, recolhe teu pensamento e pondera tudo com atenção na presença do Crucifixo.


Ponto 1

O primeiro fruto que a alma deve tirar de todas as meditações precedentes é um arrependimento sincero e uma contrição perfeita dos pecados cometidos.


Dize-me, minha alma, em que estado se encontra atualmente a tua consciência? Se neste momento descesse um anjo do céu e te dissesse: prepara-te, porque dentro de uma hora morrerás, que te diria o teu coração? Sentes-te tranquila no caso de morrer no estado em que atualmente te encontras?


As tuas confissões foram tais que possas ter bom fundamento para confiar nelas e para esperar com segurança que teus pecados já estejam perdoados? Em suma, contentar-te-ia morrer nesta hora e no estado em que estás atualmente? Responde; mas diante do Crucifixo, que conhece teu coração.


Sabe, minha alma, que o primeiro passo para ir a Deus, o primeiro degrau para subir à santidade, o primeiro meio para adquirir a paz interior, é que o coração, mediante uma verdadeira penitência, se coloque em tal estado que esteja preparado para morrer em todo momento, até mesmo de morte repentina, e comparecer diante de seu divino Juiz.


A fim de que a alma se coloque em tão feliz estado, requerem-se necessariamente os dois propósitos seguintes:


Primeiro propósito


Durante o tempo dos Exercícios, fazer uma confissão geral de toda a vida, ou desde a última confissão geral, com um exame exato, com tanto fervor, com tão repetidos atos de contrição e com tal sinceridade na acusação dos pecados, que a consciência possa sempre dizer-te: fiz tudo o que Deus exige para perdoar os pecados; agora posso comparecer sem temor diante de seu Tribunal.


Ó minha alma! Que doce consolo, que paz interior tão fundamentada, que esperança tão segura da vida eterna se adquire com semelhante confissão.


Segundo propósito


Depois de te assegurares desta maneira, na medida em que é possível nesta vida, da graça presente e da glória futura, fazer doravante as confissões com exame tão exato, com contrição tão íntima, com tanta sinceridade como se soubesses com certeza que aquela era a última da vida.


Ponto 2

O segundo fruto que a alma deve tirar das meditações precedentes é dar a Deus toda a satisfação possível pelos pecados cometidos.


Volta de novo, minha alma, a consideração à prisão infernal e medita demoradamente os seguintes pensamentos: imagina que neste momento penetra um raio da divina misericórdia naquela sombria habitação e ressoa uma voz divina que diz: Caim, vamos, tu já estás há seis mil anos ardendo nessas chamas; eu quero usar de misericórdia contigo, mas com a condição de que, voltando ao mundo, deves sofrer em silêncio todas as dores, todas as enfermidades, todos os desprezos, todos os opróbrios, todas as cruzes e contrariedades por amor de mim, e assim te perdoarei os pecados e te salvarei.


Oh, que voz tão alegre não seria essa para o coração de Caim! Oh, bondade infinita! diria; oh, misericórdia imensa! Estou disposto a sofrer alegremente por mil anos tudo o que algum homem jamais pôde padecer, contanto que finalmente obtenha misericórdia, possa livrar-me das penas eternas do inferno e consiga contemplar-Vos em vossa glória.


Ai! Dize-me, alma minha, não mereceste tu ser lançada no inferno tanto quanto Caim? Mas essa graça que Deus te concedeu, de dar-te espaço de penitência, não é igual à que te teria feito se te houvesse tirado do inferno? Pois então, por que não te esforças em fazer uma verdadeira penitência e em compensar, com a paciência nas adversidades, as injúrias feitas a Deus com teus pecados?


Os propósitos para alcançar esse fim são os seguintes:

Primeiro propósito


Praticar com extraordinária diligência e fervor os meios satisfatórios que Deus ordenou para os pecados. Os principais são: 1. o santo sacramento da Penitência; 2. o santo sacrifício da Missa; 3. as santas indulgências; 4. frequentes atos de verdadeira contrição e o mais intensa possível; 5. as obras penitenciais e as mortificações.


Segundo exercício


Segundo exercício. — Suportar em silêncio, por amor de Deus, todos os incômodos que o próprio estado traz consigo, e todas as contrariedades que nos vêm da divina Providência; em todos os contratempos que te sobrevenham, seja este o suspiro do teu coração: Ó meu Bem misericordiosíssimo, o que eu mereci foi uma pena eterna e horrível no inferno, e o que aqui padeço é uma cruz bastante leve e breve.


Ponto 3

O terceiro propósito que a alma deve tirar dessas meditações é evitar todos os pecados veniais, especialmente aqueles que abrem caminho aos pecados graves.


Não basta, alma minha, ter um firme propósito de sofrer antes a morte do que consentir em qualquer pecado grave; é necessário ter igual propósito até mesmo com relação aos pecados veniais. Quem não descobre em si essa vontade não pode estar seguro.


Não há coisa que possa dar uma segurança tão certa da salvação eterna como uma contínua vigilância em evitar até mesmo os pecados veniais mais leves, e um fervor grande e universal que se estenda a todas as práticas da vida espiritual: fervor na oração e trato com Deus; fervor na mortificação e abnegação de si mesmo; fervor na humildade e tolerância dos desprezos; fervor na obediência e renúncia da própria vontade; fervor na caridade de Deus e do próximo.


Aquele que quiser adquirir esse fervor e conservá-lo deve necessariamente ter o propósito de querer sempre evitar os seguintes pecados veniais:


1. Dar entrada em seu coração a qualquer leve suspeita ou juízo sinistro contra o próximo.


2. Introduzir discursos sobre os defeitos alheios ou ofender de qualquer outra maneira a caridade, ainda que levemente.


3. Deixar por preguiça os exercícios espirituais ou realizá-los com negligência voluntária.


4. Ter alguma pequena afeição desordenada por alguma pessoa.


5. Ter alguma estima ou complacência por si mesmo e por suas coisas.


6. Receber os Santos Sacramentos com tibieza, com distrações e outras irreverências e sem uma preparação séria.


7. Impacientar-se nas coisas que lhe são contrárias, não as recebendo como vindas da mão de Deus, pondo assim obstáculos aos desígnios ou disposições da divina Providência sobre si.


8. Dar ocasião para que, ainda que remotamente, possa ser manchada a candura da santa pureza.


9. Ocultar conscientemente as más inclinações, fraquezas e faltas àqueles que devem sabê-las, querendo seguir o caminho da virtude não sob a direção da obediência, mas guiado pelo próprio capricho.


Alma minha, se não te resolves a deixar esses pecados veniais, não tirarás o menor fruto destes Exercícios espirituais; jamais porás o pé nem sequer no mais ínfimo degrau da perfeição espiritual, jamais conseguirás ter nem a comunicação com Deus, nem a paz e tranquilidade interior do coração, nem um estado no qual possas esperar a morte sem nenhum temor.


Mas, se te resolves a evitá-los, prostrada de joelhos com o Crucifixo na mão, apresenta-lhe teus propósitos na forma seguinte:


Ó meu Deus! Ó meu amor crucificado! Jesus meu! Por vossa infinita misericórdia me iluminastes suficientemente; agora sei o que é possuir-Vos eternamente e o que significa perder-Vos eternamente. Feliz de mim se chegar a possuir-Vos! Ó infeliz de mim se chegar a perder-Vos!


Sei bem que não poderei esperar o primeiro e que sempre deverei temer o segundo, enquanto não me entregar inteiramente em vossas mãos, evitando todos os pecados, até os mais leves, e começando a servir-Vos com diligência e fervor.


Sim, assim o resolvo; e com o afeto mais íntimo do meu coração Vos amo e Vos abraço, ó Jesus meu! Vós sois meu Sumo Bem, digníssimo de ser amado sobre todas as coisas, mais que todos os anjos e os homens, mais que minha alma e que minha vida. Viva Jesus!


Pai-Nosso e Ave-Maria.


Conclusão da Meditação

Ação de Graças

Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.


Oferecimento

Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.