VI — Das penas do inferno: pena de dano Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Advertência. — Com grande sabedoria, Santo Inácio propõe a meditação das penas do inferno imediatamente após a meditação sobre o pecado, para que deteste e chore ainda mais este mal quem por desgraça o cometeu, vendo o reato que ele traz como consequência necessária. Pois ao delito se há de seguir infalivelmente o castigo na outra vida, se Deus não usar de misericórdia nesta, já que, logo que o homem peca, incorre no débito da condenação eterna e vem a ser como o malfeitor já sentenciado, sem recurso, a morrer no suplício.
Esta é a razão pela qual Santo Inácio, depois das meditações do pecado, põe imediatamente as do inferno: para retrair nosso coração de cometê-lo, naturalmente temeroso da pena e, com especialidade, das penas eternas "Temei aquele que pode perder a alma e o corpo na geena" (Mt 10,28).
Essa consideração é motivo justíssimo de arrependimento e de dor por ter pecado, e de implorar a divina misericórdia.
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Ponto 1 — A pena de dano
Palavras de Santo Inácio
"Primeiro preâmbulo, composição de lugar, que é aqui ver com a vista da imaginação o comprimento, a largura e a profundidade do inferno.
O segundo, demandar o que quero: será aqui pedir sentimento interno da pena que padecem os danados, para que, se por minhas faltas me esquecesse do amor do Senhor eterno, ao menos o temor das penas me ajude para não vir a cair em pecado.
O primeiro ponto será ver com a vista da imaginação os grandes fogos e as almas como em corpos ígneos.
O segundo, ouvir com os ouvidos lamentos, gritos, vozes, blasfêmias contra Cristo nosso Senhor e contra seus santos.
O terceiro, cheirar com o olfato fumaça, pez, enxofre, esgoto e coisas pútridas.
O quarto, tocar com o tato, isto é, como os fogos tocam e abrasam as almas."
Explicação
Deus é justo remunerador, que premia os bons com a glória do céu e castiga os maus com as penas eternas do inferno. Já vimos que o homem foi criado para amar e servir a Deus; por isso, quando peca, não ama nem serve a Deus, mas O despreza. "Criei filhos e engrandeci-os, mas eles me desprezaram" (Is 1,2).
Por isso, torna-se réu das penas eternas do inferno, e essas penas estão em proporção com a malícia do pecado e seu número.
No pecado encontram-se cinco malícias. A primeira malícia é um desprezo que o pecador faz de Deus; e por isso deve ser castigado com a pena de dano, que é a privação da visão de Deus.
A segunda malícia é um ato de rebelião ou independência, ou um abuso da liberdade; e por isso deve ser castigado com a escravidão e sujeição a Satanás, como diz Deus: "Porquanto não serviste ao Senhor teu Deus com alegria de teu coração, servirás a teu inimigo com fome, com sede, com nudez e com toda sorte de carência" (Dt 28,47-48).
A terceira malícia é amar mais a uma coisa criada, pela qual se peca, do que a Deus; pois bem, uma coisa criada, como é o fogo, o atormentará, e isto se chama pena de sentido.
A quarta malícia é o prazer sensual ou espiritual que tem o pecador; e por isso mesmo deve ser atormentado com dor, como manda Deus: "Quanto se glorificou e viveu em delícias, tanto lhe dai de tormento e pranto" (Ap 18,7).
A quinta malícia é a soberba, que consiste em o homem querer ser feliz por si mesmo, independentemente de Deus; e por isso no inferno encontra a humilhação, a confusão e todas as penas. Finalmente, como o pecador no inferno já se encontra obstinadamente em seu termo, como a pedra num poço, por isso mesmo a duração das penas há de ser eterna.
Comecemos pela pena de dano. — Vê, alma cristã, um homem com todos os males, sem nenhum bem. O cristão condenado no inferno perde a Deus, sumo bem e eterna felicidade. Perder a Deus é um mal que excede tanto a tudo o que nossa imaginação pode alcançar, que é tão impossível compreendê-lo como compreender o infinito bem que há em possuí-lo. No entanto, podemos conceber alguma ideia obscura: entra, pois, dentro de ti mesma, alma minha, e pondera seriamente o que quer dizer perder a Deus.
1. O condenado perde a fruição de Deus. — No momento em que uma alma entra no céu, Deus a reveste com uma luz tão clara, que ela pode conhecer perfeitamente, quanto é capaz uma criatura, todo o abismo de sua essência infinita, e a inflama em tão ardente desejo de gozá-Lo, que uma dilação, ainda que momentânea, lhe causaria dor infinita. Mas, porque ela deseja ardentissimamente esse bem e ao mesmo tempo o goza perfeitissimamente, com a certeza infalível de que o gozará eternamente, sente em si tal e tamanha inundação de gozo, que todos os demais deleites do paraíso podem ser reputados por nada em comparação a este.
No inferno acontece tudo ao contrário: ao entrar a alma nele, Deus derrama sobre ela uma luz tão viva, que ela pode conhecer, na medida em que alcança sua capacidade, a grandeza de sua essência infinita e divina, e a incendeia com um desejo tão impaciente de gozá-Lo, que até a dilação de um só instante lhe causa ânsias infinitas.
Por isso, desejando com tão grande ardor a posse de tão grande bem, e vendo-se ao mesmo tempo violentamente apartada, com a certeza de que não O gozará por toda a eternidade, nasce daí tal e tamanha tristeza que, diante dela, todos os outros tormentos do inferno são reputados por nada. Em suma, assim como é sobremaneira grande a alegria de uma alma no paraíso pela aquisição de Deus, tanto é desmedida a tristeza de uma alma no inferno pela perda do mesmo Deus.
2. O condenado perde a amorosa e especial providência de Deus sobre ele. — Enquanto o homem vive, Deus cuida dele, ilumina-lhe o entendimento com luzes soberanas, estimula-o e fortalece-o em suas penas. Mas nada disso pode esperar uma alma que já entrou no abismo eterno: Deus já não pensa nela e a vê como uma coisa que já não Lhe pertence; e assim, por toda a eternidade, não voltará a iluminar-lhe o entendimento, não excitará mais sua vontade para o bem, não despertará mais em seu coração nenhum desejo piedoso, e ela se tornará incapaz de toda obra boa.
Em sua imaginação não haverá senão espectros espantosíssimos; no entendimento reinarão apenas os pensamentos mais funestos; a vontade será agitada perpetuamente por furor, raiva e desespero; a memória estará sempre angustiada com as mais aflitivas lembranças; e, para onde quer que se volte a alma desgraçada, não encontrará outra coisa senão trevas, confusão e amargura.
3. O condenado, perdendo a Deus, perde também o afeto com que era amado pelas criaturas. — A Santíssima Virgem, o Anjo da Guarda, todos os santos amam o homem enquanto ele vive na terra; mas, uma vez reprovado por Deus, será também reprovado por eles. Não terão para com ele, por toda a eternidade, um pensamento benigno; antes, comprazem-se em vê-lo nas chamas como vítima da justiça de Deus; hão de aborrecê-lo "Alegrar-se-á o justo quando vir a vingança" Sl 58,11.
A própria mãe terrena, desde o paraíso, verá seu filho condenado sem se comover em nada, como se jamais o tivesse conhecido. O pior é que, de toda aquela imensa multidão de condenados no inferno, não há um só que não aumente os tormentos dos seus companheiros, em parte pelo horror que um causa ao outro, em parte pela raiva com que se enfurecem uns contra os outros e, além disso, pelo calor, fetidez e estreiteza.
4. Depois que o condenado perdeu a Deus e com Ele todas as coisas, cai ainda sob o poder do demônio. — Deus já não cuida dele e o deixa inteiramente ao arbítrio do inimigo. E ai! O que não fará ele com essa alma! Sendo o demônio uma criatura dotada de sabedoria e fortaleza eminentíssimas, tendo ódio implacável aos homens, estando cheio de furor e de raiva e com poder de atormentá-la segundo o número e a gravidade dos pecados cometidos e pelos quais é condenada, o que não fará?
Ele pode enroscar-se como serpente ao seu corpo e maltratá-lo cruelmente com os dentes; pode introduzir-se-lhe pela boca como áspide venenosa e, com suas mordidas, roer e destroçar o pulmão, o fígado, o coração e todas as entranhas; pode fazê-lo engolir metais derretidos e dar-lhe por alimento escuerzos venenosos; em suma, pode atormentá-lo como quiser e a seu bel-prazer, porque Deus se retirou e ele ficou como senhor despótico do miserável condenado.
Afetos
1. Confissão. — Ó Jesus! Quão terríveis são os vossos juízos, e quão severa a vossa justiça! Oh, que mal tão grande é o pecado, e quão amargos são os seus efeitos! Ser lançado por toda a eternidade fora do paraíso, maldito por toda a eternidade pelos escolhidos, despedaçado e oprimido eternamente pela tirania do demônio: eis aí qual é o prêmio do pecado. Tenho eu crido até agora nessas verdades? Ai, que isto é precisamente o que agrava a minha malícia! Tenho crido que um só pecado basta para me fazer perder a Deus e com Deus toda a minha felicidade para sempre, e, com tudo isso, pequei e o fiz sem nenhum reparo, sem nenhum temor; não saberei determinar se foi maior a minha cegueira ou a minha malícia. Ó Jesus! Não retireis de mim a vossa misericórdia.
2. Propósito. — Mas que farei eu? Que é o que resolvo? Ah! Eu quero de todos os modos poder contemplar-vos em vossa glória. Ó Deus supremo e último fim meu! Ainda que isso haja de custar-me mil vidas, hei de chegar absolutamente ao céu para abraçar-vos ali, Jesus meu, meu amado Redentor; ainda que não possa chegar a Vós senão por meio dos mais cruéis tormentos, hei de ver-vos e amar-vos a Vós, ó minha queridíssima Mãe, e a vós, caríssimos escolhidos no paraíso, ainda que seja ao custo de todo o sangue das minhas veias.
Esta é a minha resolução: querer antes mil vezes morrer que cometer um só pecado. Espíritos angélicos, sede testemunhas da sinceridade do meu coração. Sim, mil vezes morrer e nunca mais pecar; nunca mais! E me confessarei e arrependerei dos pecados que cometi até aqui.
Ponto 2 — Deus encontrado como sumo mal pelo condenado
O condenado no inferno encontra a Deus como sumo mal. — Assim é; quem perde a Deus como sumo bem, O encontra como sumo mal. Mas como pode ser que Deus, que é o sumo bem e a bem-aventurança do homem, se converta em sumo mal e única infelicidade do mesmo homem? Escuta com atenção, alma minha, o que Deus faz com os condenados, e conhecerás claramente esta verdade.
1. Deus infunde e conserva no réprobo um vivíssimo conhecimento de sua formosura, com o desejo mais ardente de gozá-Lo. Se a alma não tivesse no inferno um conhecimento muito maior do que tem nesta vida, poupar-se-ia o maior tormento; mas, porque esse conhecimento é vivíssimo nela e lhe representa vivissimamente aquela imensa felicidade e bem-aventurança que poderia gozar em Deus, daí provém uma amargura que não se pode conceber, sendo em todo momento impelida para Deus com os mais ardentes desejos e vendo-se também a cada instante rejeitada pelo Senhor.
Que tormento não experimentaria um sedento que, atado de pés e mãos por mil anos, estivesse vendo sempre diante de si uma grande vasilha da mais deliciosa bebida e não pudesse chegar a ela com os lábios, nem provar uma gota dela?
2. Deus conserva no réprobo a visão de seu rosto indignado. — Jamais se apresenta Deus aos olhos da alma condenada com outro aspecto que o de um Senhor sumamente indignado, sempre armado para a vingança e sempre ocupado em atormentá-la e persegui-la. Ela se esforça com todo seu poder por subtrair-se de tão atormentadora vista, por fugir de sua presença e livrar-se de sua indignação; mas quanto mais se esforça, tanto mais se lhe aproxima Deus, para fazê-la sofrer o peso de sua mão e toda a amargura de sua cólera.
Não será difícil conjeturar a atrocidade dessa pena. Assim como a só vista do amabilíssimo rosto de Deus basta para cumular todos os bem-aventurados de gozo infinito, assim também a vista do rosto irado de Deus basta para imprimir em todos os condenados um espanto infinito e uma pena infinita.
3. Deus conserva ao condenado a vida. — O desejo mais veemente que tem um condenado no inferno é morrer "Buscarão a morte, e não a encontrarão; desejarão morrer, e a morte fugirá deles" Ap 9,6.
Conhecendo a impossibilidade de aplacar jamais a seu Deus irado contra ele, deseja a morte como único meio para livrar-se das angústias; mas em vão a desejará, porque, enquanto Deus viver, viverá também o condenado. E assim como Deus conservará eternamente os santos no céu para recreá-los com novos prazeres, assim também conservará eternamente os condenados no inferno para atormentá-los sempre com novos tormentos.
4. Deus conserva sua ira contra o condenado. — Este desgraçado amaldiçoará mil e mil vezes seus pecados, embora obstinado neles; prorromperá em suspiros lastimosíssimos, capazes de mover à compaixão até as pedras; derramará lágrimas bastantes para inundar toda a terra; arderá por tanto tempo, que se poderia dizer que por cada pecado mortal já havia sofrido naquelas chamas mil milhões de anos. Mas tudo isso não acalmará o enojo de Deus, nem O moverá jamais à piedade.
O Senhor continuará mostrando-se indignado com ele, nem deixará de aborrecê-lo por toda a eternidade. Pois agora, sabendo isso o condenado, abandonar-se-á a um total desespero, enfurecer-se-á, encher-se-á de raiva e, com supremo despeito, morderá as próprias carnes. E, não satisfeito ainda com isso, conceberá um ódio eterno contra Deus: virá, por assim dizer, a ser demônio, vomitando contra o Senhor contínuas maldições e blasfêmias, e terá contra Ele tal rancor que, se lhe fosse possível, maquinaria sua total aniquilação.
Afetos
1. Temor. — Oh, quão consolador é ter Deus contente, e quão amargo é tê-Lo irritado! Quão doce é experimentar a Deus como remunerador, e quão sensível experimentá-Lo como vingador! Quão agradável é estar submerso num torrente de prazeres que Deus derramará sobre os escolhidos, e quão terrível é encontrar-se estagnado no abismo de todos os males, que Deus fará cair como chuva sobre os condenados! Quão doce é gozar de Deus por toda a eternidade, e quão amargo é perdê-Lo por toda ela!
Como farei eu para me livrar deste mal infinito? Ai, alma minha! Depois do pecado não há outro remédio senão uma íntima detestação dele e uma verdadeira confissão: a esta me acolho, e, voltando-me para Vós, Deus meu, chorando com todas as minhas forças e com os mais dolorosos suspiros, vos digo que me pesa de ter pecado e vos dou minha palavra de que me confessarei.
2. Arrependimento. — Ó meu Deus! Eu detesto e amaldiçoo de todo o meu coração todos os pecados que cometi até agora; reconheço quão mal procedi. O pecado é o sumo mal em relação a Vós, porque é uma ofensa cometida contra vossa infinita bondade e misericórdia; e é também o maior dos males em relação a mim, porque é a ruína da minha alma, que é imortal. Detesto-o, pois, e amaldiçoo-o de todo o meu coração.
Ó, quem me dera jamais ter pecado, Jesus meu! Ó, quem me dera jamais Vos ter ofendido, Sumo Bem meu! Mas o mal já está feito; perdi a Vós, meu último fim e única felicidade, e não posso reconciliar-me convosco senão por meio da penitência e das lágrimas. Ó meu coração! Arrepende-te e não te contentes com uma dor mediana, mas dilata-te e alarga-te quanto puderes para acumular em ti uma dor imensa.
Sede Vós minha testemunha, ó Jesus meu! Se tivesse mil vidas, queria consumi-las todas em penas e tormentos, se com isso pudesse aniquilar os meus pecados. E assim quero arrepender-me, e de fato me arrependo dos meus pecados, ó Deus meu! E esta vontade e este arrependimento é minha intenção renová-los em vossa presença tantas vezes quantas são as gotas de água que há em todos os rios e mares. Supri Vós, ó Jesus meu, o que me falta, e oferecei a vosso eterno Pai, em lugar da minha dor e arrependimento, aquela dor que tivestes no Horto por meus pecados.
3. Propósito. — Mas como me comportarei daqui em diante? Nunca mais pecar. Se não posso evitar o pecado senão com a morte, escolherei com gosto a morte, ainda que a mais atroz, para não pecar; se não posso evitá-lo senão à custa de ignomínias e desprezos, sofrerei de boa vontade ser desprezado e maltratado por todo o mundo, para não pecar. Antes morrer do que pecar; e, por isso mesmo, para este fim empregarei todos os meus dias, todas as horas e momentos, em amar a meu Sumo Bem e manter-me estreitamente unido a Ele. Gravai profundamente Vós, ó Jesus meu, estes meus propósitos em meu coração; conservai-os nele para que jamais me esqueça de praticá-los.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.