X — Da necessidade de evitar as ocasiões de pecar Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Advertência. — Até aqui foram feitas as meditações da primeira seção, cujo objetivo é arrepender-se de verdade de todos os pecados cometidos e confessar-se bem deles, com o firme propósito de não mais cometê-los. Esse propósito, portanto, de não mais pecar, é precisamente o objetivo das meditações da segunda seção, e a primeira delas é afastar-se dos perigos e ocasiões de cair, que são os laços de que se serve Satanás para apanhar os incautos; e Deus nos diz que quem evita os laços estará seguro (Pr 11,15).
Nota do autor. Durante os dias das meditações da segunda seção, no tempo livre, ler-se-á Nieremberg, Temporal e eterno, ou Catâneo, ou outro autor que o diretor indicar.
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que te vês neste mundo como em meio a um grande campo todo cheio de laços, do modo como viu Santo Antônio, ou também, como diz São Bernardo, rodeado de ladrões que querem roubar-te os ricos tesouros da graça e da virtude.
Prelúdio segundo — Petição
Senhor meu Jesus Cristo, dai-me asas de pomba para voar e afastar-me com presteza dos perigos de pecar, e refugiar-me em vossas santíssimas chagas.
Ponto 1
Deves considerar, minha alma, quão importante é fugir das ocasiões de pecar, e o conhecerás pelas seguintes razões. É uma máxima assentada entre os filósofos: quem tira a causa, tira o efeito que dela provém. Assim é que, apagado o fogo, extingue-se o calor; secando-se a fonte, cessa de correr o regato; e, não tirando a causa, em vão se procura impedir os efeitos.
O médico sábio e experiente, quando quer curar uma doença, procura investigar e eliminar a causa ou raiz que a produziu; do contrário, seria tempo perdido. Assim também perderia tempo em vão aquele que tentasse emendar-se, se não eliminasse as ocasiões e perigos de pecar.
Além disso, na guerra espiritual contra os vícios, e especialmente contra a impureza, vence mais gloriosamente aquele que foge com maior diligência. O próprio Deus diz que quem ama o perigo nele perecerá; quem toca o piche ficará manchado com ele; e quem toca o fogo experimentará seus ardores.
Da mesma forma, quem voluntariamente se coloca em ocasião próxima de pecar já peca, e fica manchado e desfigurado, pois ama o perigo e, por isso mesmo, perece nele. A ocasião faz o ladrão, diz o provérbio, e isso é tão verdadeiro como a experiência demonstrou em muitos que, sem intenção de pecar, foram precipitados pela ocasião em que se encontraram e não souberam fugir como fugiu o casto José, nem clamar como a casta Susana "Deixando o manto nas mãos dela, fugiu e saiu para fora" Gn 39,12 "Susana clamou em alta voz" Dn 13,24.
Afetos
1. De arrependimento. — Ó meu Deus! Agora reconheço que, se pequei, foi porque não fugi como José, nem clamei como a casta Susana. Ai de mim, que não só fui negligente, mas também temerário como Sansão, Davi e Salomão, que caíram por se colocarem na ocasião de pecar.
2. De propósito. — Proponho, Senhor, não pecar mais e, por isso, me afastarei dos perigos e ocasiões de cair em pecado. Para isso, lembrar-me-ei daquela máxima de São Filipe Néri que diz que, na guerra do sentido, os covardes, os que fogem, vencem.
Ponto 2
Considera, alma minha, que nosso inimigo capital, Satanás, nunca descansa de armar-nos ciladas, buscando todas as ocasiões possíveis para alcançar seu intento. Ele faz com que as pessoas não se preocupem em evitar conversas frequentes com pessoas do sexo oposto: no início, essas conversas parecem inocentes e honestas; depois, ele vai introduzindo brincadeiras e insinuações, até que, por fim, caem miseravelmente no pecado.
Acontece com elas o mesmo que com a pequena mariposa que gira em torno da chama: suas asas se queimam, e ela cai, perdida para sempre. Ah, quantas almas antes puras, mas que andaram como mariposas em torno da chama daquele perigo e daquela ocasião, acabaram chamuscadas, queimadas e perdidas para sempre! Quantos homens e mulheres caíram miseravelmente por frequentar bailes, teatros, namoros levianos e diversões semelhantes!
Com muitos acontece o mesmo que com a panela cheia de água fria: colocada junto ao fogo, vai aquecendo pouco a pouco, até finalmente ferver e transbordar. Assim também muitos iniciam amizades e relações, frequentam certos lugares sem o menor receio, mas, pouco a pouco e quase sem perceber como, encontram-se presos pela paixão, na qual depois fervem até transbordar.
Mas, assim como não há remédio mais eficaz para impedir que a panela transborde, e até para fazê-la esfriar por completo, do que afastá-la do fogo, assim também o remédio mais eficaz é afastar-se dos perigos e ocasiões de pecar.
Afetos
1. De temor. — Ai de mim! Estou assustado comigo mesmo e me admiro de não ter pecado ainda mais, considerando os perigos em que estive envolvido. Sinto-me como aquele que adormeceu e, ao despertar, percebe-se à beira de um precipício, ou nota ao seu lado uma víbora venenosa: ai, que medo sente! Oh, como se afasta com pressa!
2. De propósito. — Afastar-me-ei do pecado e das ocasiões de pecar como quem foge da vista da serpente "Foge dos pecados como da vista da serpente; se te aproximares deles, te apanharão. Seus dentes são dentes de leão, que matam as almas dos homens. Toda iniquidade é como espada de dois gumes" Eclo 21,2-3.
Não quero agir como Eva, que, estando ociosa e conversando com a serpente, caiu miseravelmente no pecado. Eu, ao contrário, procurarei manter-me sempre honestamente ocupado e me afastarei de todas as ocasiões de ofender a meu Deus e Senhor.
Ponto 3
Considera os meios de que deves valer-te para não te colocares em perigo de pecar. O primeiro será pensar que tens ao teu lado o Anjo da Guarda, que, como aio e guia, te aconselha com as palavras do Salmo: "Aparta-te do mal e faze o bem; busca a paz e segue-a" Sl 34,15
O segundo será que, se alguma coisa com o tempo vier a ser ocasião de pecar, corta-a, arranca-a, lança-a longe de ti, como te ensina e manda teu Mestre e Redentor Jesus Cristo; ainda que seja algo tão necessário como os olhos no teu rosto, arranca-o; ainda que seja uma pessoa tão útil como te são úteis as mãos e os pés, corta-a, afasta-a longe de ti: mais te convém salvar-te sem essa coisa ou pessoa do que com elas condenar-te (Mt 5,29-30).
O terceiro meio será o santo temor de Deus. Sim, Deus te vê, Deus te ouve, Deus vê todos os teus pensamentos e inclinações; esse Deus que te vê, te ouve e tudo sabe tem poder de tirar não só a vida do corpo, mas também de lançar corpo e alma aos infernos; portanto, é a Ele que deves temer, como te ensina o santo Evangelho (Mt 10,28).
Com o santo temor de Deus, não só te afastarás dos perigos e ocasiões de pecar, mas também darás a entender que és sábio, como diz o Espírito Santo: "O sábio teme e se afasta do mal; o insensato avança e confia" Pr 14,16
E, na verdade, aquele que se põe em perigo revela sua insensatez; dá a entender que ainda não se conhece a si mesmo, pois, se conhecesse que é tão frágil, e mais que o vidro, e que é mais fácil de se inflamar que a pólvora, não se colocaria, como se coloca, nos perigos de ofender a Deus.
Nem a pólvora se acende por si mesma, nem o cristal se quebra por si só; todo o mal lhe vem de fora, de modo que, ainda que sua fragilidade seja grande, se for bem guardado durará séculos "Mas, bem guardada, dura por séculos" Santo Agostinho.
Mas o homem, além dos perigos externos, tem os internos, que por isso mesmo o obrigam mais e mais a se afastar daqueles. Ai, alma cristã! Não sabes que vives em um corpo que gera em si mesmo a traça, e nele mesmo está a raiz da perdição? Oh, se fosses sábia, como salvarias tua alma! Oh, se te conhecesses, como te afastarias dos perigos! Teme a Deus e serás sábia; teme a Deus e te salvarás.
Afetos
1. Súplica. — Senhor, dai-me a conhecer o que sou eu e o que sois Vós "Conheça eu a mim, conheça eu a Vós." Ah! Se eu me conhecesse, com certeza não confiaria em mim mesmo nem me colocaria nas ocasiões. O soldado que sabe quão facilmente a pólvora se inflama não vai com um cartucho revolver as brasas, porque conhece e sabe muito bem que se incendiaria e o machucaria.
Se eu conhecesse bem quão fácil sou de me inflamar no fogo das paixões, não seria tão louco nem temerário a ponto de me colocar nas ocasiões de pecar. Oh, se eu Vos conhecesse mais a Vós, meu Deus, Vos respeitaria, Vos amaria e Vos temeria com um temor filial, e assim nunca mais pecaria.
2. De resolução. — Estou resolvido a me afastar sempre e prontamente daquelas pessoas, lugares e coisas que eu souber que podem ser ocasião de pecar. Se algumas ocasiões se apresentarem para me surpreender e fazer-me cair, direi, meu Deus, como o Profeta: "Ó Deus, vinde em meu auxílio; Senhor, apressai-Vos em socorrer-me."
E a Vós, Jesus meu, Vos direi como os Apóstolos: salvai-nos, que perecemos (Mt 8,25).
E a Vós, Santíssima Virgem, Vos suplico e Vos suplicarei que rogueis a Deus por mim agora, e sempre, e na hora da minha morte; e a vós, anjos e santos, recordo o encargo que tendes de meu Pai celestial: que me guardeis em todos os meus caminhos para que não caia em pecado e chegue felizmente à minha pátria do céu.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.