Todos as meditações

Oração Preparatória

Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.


Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.


Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.

Prelúdio primeiro — Composição de lugar

Imagina que vês uma alma viva com a vida da graça, mas que, pelos pecados veniais, se encontra como um Jó num monturo, comida de vermes, asquerosa, macilenta, moribunda, e já quase a ponto de cair em pecado mortal e morrer com culpa grave; porque diz o próprio Deus que quem despreza as faltas pequenas, pouco a pouco acaba por cair em pecados graves "Quem despreza as coisas pequenas cairá pouco a pouco" Eclo 19,1.


Prelúdio segundo — Petição

Dai-me, Senhor meu, horror às faltas leves, para que nunca mais torne a cometê-las, e grande dor pelas que cometi até agora, a fim de que não tenha que pagá-las no purgatório.


Ponto 1

Considera, minha alma, o que é o pecado venial e por que se chama venial. É uma ofensa, embora leve, que a criatura faz ao Criador. Chama-se culpa leve, não em si mesma e absolutamente, mas em relação ao pecado mortal, em cuja comparação o venial, embora enorme em malícia, é chamado de mal pequeno.


Do mesmo modo, a terra, em si vastíssima, em comparação com o universo inteiro é chamada pequena; e o mar Mediterrâneo, que em si é muito grande, comparado com o Oceano, é pequeno.


O pecado venial é uma ofensa feita a Deus; e essa ofensa contém em si tanta malícia que não se deveria cometê-la, ainda que com ela se pudesse salvar a vida de um homem, nem salvar todos os habitantes do mundo. Se com uma mentira leve, por exemplo, se pudesse tirar todos os condenados do inferno, convertê-los em santos e salvá-los a todos, não se poderia dizer essa mentira, porque é uma ofensa feita a Deus.


São Camilo de Léllis costumava dizer que se deixaria dividir mil vezes em pedaços muito pequenos antes de cometer uma só culpa venial com advertência. O pecado venial é mais temível que as penas do inferno: convencido dessa verdade, dizia Santo Anselmo que, se de um lado visse o inferno aberto e de outro se visse obrigado a cometer deliberadamente um pecado venial, antes de cometê-lo escolheria cair no inferno.


O mesmo devo fazer eu em tais circunstâncias, porque o inferno é mal de pena, e o pecado venial é mal de culpa; e a pena, enquanto pena, não é ofensa a Deus. Por conseguinte, por mais atroz que seja a pena, é mal menor que a mais mínima culpa.


De modo que um só pecado venial é, em si, mal maior que a destruição do universo inteiro, que o desterro de todos os anjos e santos do céu, e que a condenação de todas as almas nas chamas do inferno.


E a razão é que todos esses males, embora grandes, tocam as criaturas finitas e limitadas; mas a culpa, ainda que leve, toca e ofende a Deus, que é infinito e digníssimo de toda honra e glória, que deve ser amado sobre todas as coisas e é desprezado por uma ninharia. Deus é amável, é amante, nos criou para o céu, nos conserva e nos dispensa toda espécie de benefícios naturais e sobrenaturais, visíveis e invisíveis, e não O amamos! Nós O ofendemos! Oh, que ingratidão!


Se é horrorosa a malícia do pecado venial, mais espantoso ainda é o seu número. Ai! Mal passa um dia sem que cometas muitos pecados veniais, seja por malícia, por fragilidade ou por inadvertência, com pensamentos vãos, inúteis, aversões aos teus próximos ou afetos desordenados; com palavras ociosas, soberbas, levianas, ásperas, mentirosas; com ações e omissões; com a comida e a bebida; ao deitar-te e ao levantar-te; com atos de preguiça; nas praças, ruas, casas e igrejas; no modo de andar, olhar e demais atitudes.


E até nas coisas boas, quantas faltas não cometes, fazendo-as com precipitação, com tibieza, frouxidão, distrações voluntárias e infidelidade às inspirações de Deus! Tantas e tantas são as faltas que cometes, que se pode dizer que excedem o número dos cabelos da tua cabeça.


Afetos

1. De admiração. — Ó meu Deus! Estou cheio de admiração e espanto; sim, meu Jesus, estou espantado ao considerar a malícia dos pecados veniais e a multidão dos que cometi; de maneira que posso dizer que, da planta dos pés ao alto da cabeça, não tenho senão chagas de pecados.


Também estou espantado, meu Jesus, de vossa paciência em sofrer tantas faltas com que Vos ofendi. Eu não posso suportar uma mosca que me incomode, pois logo a afasto. Eu não posso aguentar um cão que me morda. E Vós me tendes suportado por tanto tempo, a mim que, com meus pecados veniais, Vos tenho incomodado e mordido!


2. De arrependimento. — Perdoai-me, meu Jesus; não mais pecar. Agora que conheço a malícia e o número dos pecados veniais que cometi, arrependo-me e Vos digo com o Profeta: purificai-me, Senhor, de todos os meus pecados, graves e leves, conhecidos e ignorados; e ainda Vos peço perdão daqueles que eu não cometi, mas dos quais fui causa, dando ocasião para que outros os cometessem "Quem conhece os seus próprios delitos? Purificai-me dos que me estão ocultos, e preservai o vosso servo dos pecados alheios" Sl 19,13-14.


Ponto 2

Considera, alma minha, os efeitos que causa o pecado venial: ele faz na alma o que a doença faz no corpo. Dois são os males que a doença causa no corpo: um presente, que é a fraqueza, enfado, palidez, etc.; e outro futuro, que é a morte que ameaça.


Assim o pecado venial, que é uma doença da alma, no presente não lhe tira a vida e a beleza da graça, mas sim aquele esplendor especial e vivo que bastaria para arrebatar os olhos divinos com ternas e afetuosas complacências. É verdade que não a priva da amizade de Deus, mas sim de muitos e especiais favores.


Ai! O pecado venial torna a alma indigna das liberalidades de Deus, impede muitas graças singulares e extraordinárias, priva-a em grande parte do fruto dos Santos Sacramentos, principalmente da sagrada comunhão, colocando obstáculos àquela união mais íntima que o Senhor pretende.


E assim como no corpo os humores espessos entorpecem o movimento e os sentidos, isso mesmo — e muito mais — fazem os pecados veniais na alma: entorpecem os afetos, tornam insípidos e enfadonhos os exercícios espirituais, tornam repugnantes as obras de caridade, esfriam o fervor e a deixam absolutamente miserável.


A alma em pecado venial é como uma pessoa oprimida, que come sem gosto, dorme sem repouso, ri sem alegria, cansa-se com tudo e, cheia de tédio, mais se arrasta do que anda.


Assim é a alma em pecados veniais: estes ocupam tanto a alma com maus hábitos e inclinações, que a deixam como incapaz para todas as boas obras. Deixam-se muitas, e as poucas que se fazem são sem gosto, com tédio ou desânimo; omitem-se as orações e penitências, ou, se se fazem, é sem fervor, poucas em número e pequenas em mérito.


Com os pecados veniais, a alma pouco a pouco vai se debilitando, as graças vão se retirando e, finalmente, vem a cair em pecado mortal. Uma murmuração grave em que se cai, um ódio secreto que se forma no coração, um ímpeto de vingança que não se reprime, um desejo desonesto que se consente acabam por extinguir e apagar aquela moribunda centelha da graça de Deus.


As Sagradas Escrituras estão cheias de exemplos dessa verdade: a Davi, de um olhar curioso, veio o desejo, e do desejo a execução do adultério e homicídio; a Judas, de um amor desordenado às riquezas, que no princípio era falta leve, cresceu com o tempo tanto que chegou a vender Jesus Cristo, seu divino Mestre.


Os judeus começaram com uma leve emulação e inveja dos milagres e prodígios que Jesus Cristo operava; mas, ao ver que todo o mundo O seguia, a inveja tomou tão grandes proporções em seus corações que não pararam até que terminaram por crucificá-Lo. Quem não se horrorizará dos efeitos do pecado venial!


Afetos

1. De admiração. — Ai, meu Deus! Um doente tuberculoso causa pena, não serve para nada; pois, se uma só doença deixa tão abatido um corpo, como estará a minha alma com tantas doenças quantos são os pecados veniais que cometi? Porque cada pecado venial é um câncer que corrói a alma; é uma lepra que a enche de imundícies; é uma paralisia que a entorpece para o bem; é uma hidropisia que lhe dá sede dos bens do mundo; é gota que não a deixa caminhar com prontidão; é asma que lhe dificulta a respiração em direção ao céu; é uma surdez que não lhe permite ouvir a voz de Deus; é uma cegueira que não a deixa ver o caminho da perfeição.


2. De súplica. — Ó Jesus meu, Filho de Davi, tende piedade de mim como tivestes piedade do cego no caminho de Jericó; fazei que eu veja! Limpai-me, Senhor, como limpastes o leproso. Ó Jesus e meu Redentor! Ó verdadeiro Samaritano! Derramai o óleo da vossa misericórdia e o vinho da divina graça sobre minhas feridas e chagas que abriram os ladrões, que são os pecados veniais, em cujas mãos caí; Vede, Senhor, como me roubaram as virtudes e os méritos e me deixaram meio morto neste caminho.


Ponto 3

Para conhecer a malícia do pecado venial, é um meio muito oportuno observar as penas com que Deus o tem castigado, tendo em conta que quem castiga é um Deus sábio, que não age por ignorância; é um Deus justo, que não se deixa levar pela paixão; é um Deus misericordioso, que por isso mesmo está mais inclinado a perdoar do que a castigar; é um Deus bom, que não castiga senão por força; e, além disso, castiga o pecado venial numa alma que está em graça, que é sua amiga e herdeira do céu e, no entanto, Ele a castiga. Oh, quão grande deve ser a malícia do pecado venial!


Nas Sagradas Escrituras encontra-se uma infinidade de exemplos. Maria, irmã de Moisés, por ter murmurado levemente contra seu irmão, o Senhor a castigou repentinamente com a repugnante doença da lepra (Nm 12). A mulher de Lot, Deus a castigou e a transformou em uma estátua de sal por ter pecado venialmente ao voltar curiosamente os olhos para a cidade, contra o preceito do Senhor (Gn 19). Por uma pequena desconfiança em que incorreram Moisés e Aarão, não entraram na terra da promessa (Nm 20).


As mortes de Nadab e Abiú, filhos de Aarão, a de Oza, a de Ananias e Safira, e muitas outras, aconteceram por culpas leves. Quem não temerá? Quem não andará com cuidado para não cometer semelhantes faltas?


Não só castiga Deus as faltas leves com essas penas, mas também as castiga com outras ainda maiores no purgatório. Por uma mentira leve, por um sorriso menos decente, por uma palavra menos honesta, por uma pequena murmuração, etc., padecem lá as almas a pena de dano, sendo privadas de ver a Deus, e a pena de sentido em atrocíssimas chamas por mais tempo do que se imagina, e em tribulação maior do que todas as penas que neste mundo podem ser vistas ou sentidas.


Que conceito formarias, alma minha, dessas culpas leves que cometes com tanta facilidade, se neste momento te encontrasses no purgatório, como de fato mereceste por elas? Chamarias de leves faltas aquelas que te privam de um bem infinito, como é a visão de Deus e a posse da glória do céu? Considerarias bobagens ou coisas desprezíveis, como escrúpulos, essas culpas que te merecem uma prisão das mais terríveis, cadeias das mais apertadas e suplícios dos mais atrozes?


Se agora visses uma das pessoas mais importantes sendo tirada de sua casa ou palácio e levada para a prisão; e ali, no meio do pátio, acendessem uma fogueira e a colocassem dentro daquele grande fogo; e, ao perguntares qual foi o delito que essa pessoa tão importante cometeu, te respondessem que está sendo assim castigada por ter dito uma mentira, por uma murmuração ou outra falta venial, dirias que o pecado venial não é nada?


Pois saiba, minha alma, que os pecados veniais são castigados com penas de prisões e tormentos dos mais dolorosos no purgatório.


Afetos

1. De arrependimento. — Ó meu Deus, agora conheço um pouco da malícia do pecado venial! Ah, se eu tivesse compreendido isso antes, não o teria cometido! Até aqui o fiz como se fosse brincadeira; mas, de agora em diante, dou-Vos minha palavra, meu Deus, de que não tornarei a pecar, ajudado com a vossa divina graça. Perdoai-me, meu Pai, por serdes quem sois, bondade infinita, e prometo-Vos que farei frutos dignos de penitência.


2. De propósito. — Dou-Vos minha palavra, meu Pai, que de agora em diante me servirei daqueles meios que conheço serem mais oportunos para nunca mais cair em culpas leves, e assim Vos prometo, meu Deus, que todas as manhãs farei um firme propósito de não pecar venialmente naquele dia e, à noite, farei um exame de consciência e me arrependerei se por acaso tiver delinquido.


Evitarei as ocasiões de falhar, andarei com mais cautela nas conversas, terei mortificadas minhas paixões e sentidos, especialmente os olhos, que manterei sempre modestos e recolhidos.


Pondo mais cuidado na guarda da minha língua, guardarei silêncio e, quando tiver que falar, agirei com muita cautela para que minhas palavras não faltem com a verdade, com a caridade, com a humildade nem com a castidade.


Pensarei que estou em vossa divina presença, e que no dia do juízo haveis de me julgar por tudo, até mesmo por uma palavra ociosa (Mt 12,36), e até mesmo pelas coisas justas "Eu julgarei as justiças" Sl 75,3.


Pai-Nosso e Ave-Maria.


Conclusão da Meditação

Ação de Graças

Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.


Oferecimento

Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.