XII — Da morte Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Advertência. — Não há coisa que tanto contenha o homem para não pecar como pensar na morte. Do pensamento da morte se valeu Deus para que nossos pais Adão e Eva guardassem o preceito que lhes havia intimado; e, na verdade, não quebrantaram tal preceito, nem pecaram, até que Satanás os fez desprezar esse pensamento e santo temor da morte "De modo algum morrereis." Não sejas tola, não sejas boba, disse a Eva; não morrereis. Ai! Retirada essa barreira, caiu miseravelmente no pecado. Pensemos, pois, nós continuamente na morte; e assim nunca jamais pecaremos.
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que te encontras e que te vês a ti mesmo enfermo em uma cama, com o aviso de te confessares e de receberes o Santíssimo Viático e a Santa Unção; depois, que te encontras moribundo, que te dizem a recomendação da alma, que vais perdendo os sentidos e que finalmente morres.
Prelúdio segundo — Petição
Ó meu Jesus! Pela vossa santíssima Morte Vos suplico que me concedais a graça de nunca me esquecer da minha morte e de sempre me preparar para bem morrer, afastando-me e abstendo-me forte e constantemente do mal e exercitando-me sem cessar nas obras boas, já que estas serão as únicas que tornarão feliz a minha morte.
Ponto 1
Que é morrer? Separar-se a alma do corpo. Morrer é uma privação eterna de todas as coisas da terra. É uma separação da fortuna e de todos os interesses, propriedades e posses; é uma perda total dos títulos, prazeres e diversões. Morrer é despedir-se e separar-se do pai, mãe, filhos, filhas, esposo, esposa, irmãos, irmãs, amigos e conhecidos, sem esperança de voltar a vê-los jamais sobre a terra até o dia do juízo final.
Morrer é tirar de casa esse teu corpo e levá-lo ao campo santo e ali deixá-lo sozinho, de dia e de noite, rodeado de caveiras e ossos de outros mortos. Morrer é deixar teu corpo sozinho, morto, cadáver, para que o comam os vermes; pois é isso que quer dizer cadáver: carne dada como alimento aos vermes. Cadáver também quer dizer que já caiu.
Sim, aquele homem, aquela mulher já caiu, como uma árvore que caiu e está abandonada para que dela faça lenha quem quiser. Vede o que acontece com aquele corpo, antes tão bonito e idolatrado, agora morto: já está sepultado, já caiu.
Logo se aproximam as moscas varejeiras, os escaravelhos, sapos e bichos rastejantes e se deliciam e se comprazem com o mau cheiro que exala e com a podridão que começa a manar; também se aproximam os ratos, perfuram seus vestidos ou mortalha, enroscam-se entre os cabelos, entram na boca e começam a comer a língua, saem em seguida e vasculham todo o corpo entre carne e roupa.
Enquanto isso, a putrefação aumentou; já se vê pulular uma grande multidão de vermes que vão comendo a carne do ventre, do rosto e de todo o corpo; já se concluiu a refeição; já os vermes morrem de fome, deixando ali uns ossos enegrecidos e descarnados que eventualmente se calcinarão e se mudarão em pó.
Lembra-te, homem, que, em relação ao corpo, tu és pó e ao pó retornarás, pois és feito de poeira e terra.
Afetos
1. Desengano. — Não te desenganas, alma minha, ao olhar para um corpo sem vida? Teu corpo, aquele que tanto mimas, cuidas e idolatras, enfrentará o mesmo destino. Sim, tu também morrerás e passarás pela mesma experiência.
2. Propósito. — Para agradar aos sentidos do meu corpo, ofendi a Deus muitas vezes; porém, de agora em diante, mortificarei minha carne para crucificá-la com todos os seus vícios e concupiscências, como o apóstolo São Paulo me aconselha.
Ponto 2
A morte alcança a todos, tanto ao justo quanto ao pecador, mas o destino de ambos é muito diferente. O justo se vê neste vale de lágrimas como um encarcerado em meio às mais duras prisões; considera-se neste mundo como um escravo que sofre a escravidão mais penosa; tem-se como um marinheiro agitado pela mais horrível tempestade.
E como a morte é o término de suas cadeias, o fim da escravidão e o porto de sua salvação, não cessa de clamar com Davi: Ai de mim, que se prolonga muito meu desterro! Não cessa de perguntar com o Apóstolo: Quando me verei livre desta carne mortal? Assim é que o justo não se espanta à vista da morte.
É certo que tem que deixar as coisas deste mundo, os bens, as riquezas, as dignidades; mas que é tudo isso na estima de uma alma justa? Uma flor que amanhece fresca e à noite está murcha; um vapor que se desvanece num instante; uma sombra que foge com rapidez sem deixar rastro de si mesma.
E a alma que tem deste mundo esses conhecimentos, sentirá muito deixar todos os seus bens falazes? O justo aprende que não foi criado para o mundo, nem o mundo para ele; sabe que seus prazeres são quiméricos e enganosos; reconhece que os empregos e dignidades são vaidade e nada mais.
Com essas luzes, que apreço dará a essas coisas? E se não as aprecia, como há de afligi-lo sua privação? Se as aborrece e detesta, como lhe causará pena separar-se delas? Não é uma loucura inquietar-se por bens que hão de acabar? Por honras que hão de se destruir? Por prazeres que trazem tantas amarguras e desgostos?
Não, o justo não se comove, como o perverso Baltasar, ao ouvir a sentença de sua morte; não ruge como o soberbo Nabucodonosor; não se desespera como o ímpio Antíoco. Ao contrário, é então que diz o que o angélico Luís Gonzaga disse a um companheiro religioso: "Não sabes a boa notícia que me deram, que terei que morrer dentro de oito dias? Ajudai-me, por caridade, a dizer o Te Deum laudamus em ação de graças por esta mercê que Deus me concede."
É então que o justo diz com o salmista: "Assim como o cervo deseja as fontes das águas, assim a minha alma te deseja a ti, ó meu Deus." Então é quando o justo se despede com alegria de seus irmãos, de seu pai e até de sua terna mãe, como o marquesinho de Castellón: "Minha mãe, não chore como se estivesse morto aquele que há de viver diante de Deus. Esta ausência não será longa; lá nos tornaremos a ver e a gozar para nunca mais nos separarmos."
Assim se despedem, assim suspiram, assim exclamam os Davis, os Paulos, os Luízes, todos os justos ao tempo de morrer. É verdade que também os justos sentem naquela hora as dores e aflições da enfermidade; mas em que paz tão doce estão suas almas! Deus as põe sob seu manto sagrado e à sua sombra estão sossegadas e tranquilas. Ó morte preciosa a do justo! E quem a faz tão preciosa? Quem senão uma vida santa?
Sim, uma vida santa é aquela que conduz o homem a uma morte ditosa. Isso é tão natural quanto o é que uma árvore boa produza bons frutos. A morte é o eco da vida.
Que prazer tão requintado então causa a memória das virtudes praticadas, dos sacramentos bem recebidos e das obras de misericórdia que foram realizadas! Que grande consolo para a alma ter amado a Deus com ternura e tê-Lo servido com fidelidade! Que doce alegria para o justo moribundo ter-se afastado dos perigos, não ter participado de diversões pecaminosas e ter-se privado dos deleites ilícitos!
Poderá esse gozo ser comparado com alguma coisa do mundo? Um litigante se alegra com a notícia de ter ganho um pleito de importância; um desterrado se consola quando acaba seu desterro penoso e triste; um príncipe se enche de regozijo com uma vitória completa que lhe assegura uma coroa.
Mas o que é tudo isso em comparação com o triunfo que se declara em favor da alma santa na hora da morte? Ela ganha de seu inimigo um pleito de importância infinita; para ela se acaba um desterro tristíssimo, penosíssimo e cheio de perigos; ela consegue uma vitória que lhe acarreia uma bem-aventurança pura, perfeita e eterna; uma vitória que lhe assegura a coroa imarcescível, incorruptível e de um preço imenso.
Ó afortunadas mortificações! Oh, ditosas lágrimas! Oh, felizes jejuns, que tanto alegram o justo no momento da morte! Então ele bendiz seu nascimento e aos pais que lhe deram o ser; então bendiz o dia de sua justificação e aos ministros dos quais Deus se valeu para esse efeito; louva seus dias passados no serviço de Deus e glorifica suas piedades e engrandece suas misericórdias.
O passado o consola sobremaneira; o presente lhe agrada, porque se aproxima o fim de seus trabalhos; e o porvir o enche de prazer, pela esperança bem fundamentada da felicidade eterna. Assim, a morte do justo é como um gosto antecipado da bem-aventurança.
Afetos
1. De alegria. — Ai, Senhor, muito me alegrei quando me disseram que eu iria em breve à vossa santa casa da glória do céu! Oh, morte, como és doce para a alma que deseja com fervor ir ver a Jesus!
2. De propósito. — Proponho abster-me de toda falta, exercitar-me nas virtudes, especialmente no amor de Deus e nos desejos de morrer como Maria Santíssima, São Paulo e outros santos.
Ponto 3
É certo que a visão de seus pecados pode causar algum temor ao servo de Deus que teve a desgraça de ofendê-Lo; mas as orações da Igreja o animam, a proteção dos anjos e santos o conforta, o amparo de Maria Santíssima lhe inspira a mais grande confiança e a consideração de um Deus crucificado por seu amor infunde, em uma alma pura e penitente, uma indizível segurança, que não são capazes de esfriar nem a tentação, nem a perturbação em que pode encontrar-se, nem o horror natural da morte.
Também é verdade que o demônio acomete o moribundo com mais fúria do que nunca; mas aquele que já se preparou para a morte, aquele que já chorou seus pecados, poderá insultá-lo com as palavras de São Martinho: "Que fazes aí, besta sanguinária? Eu já confessei todos os meus pecados; já tenho todos os meus assuntos resolvidos; não encontrarás em mim coisa alguma de que me possas acusar."
Tampouco há dúvida de que o juízo que se segue à morte atemoriza e espanta o pecador, mas o justo suaviza seus temores com a morte preparada. Não se encontrará um que mais temesse os juízos do Senhor do que São Jerônimo; no entanto, com que ânsias tão vivas desejava a morte! Com que expressões tão ternas a chamava!
"Vem", dizia ele, "vem, amiga minha, irmã minha, esposa minha: manifesta-me já o amado da minha alma. Ó morte! Tu estás rodeada de trevas, mas essas trevas me descobrem a luz inacessível em que habita o meu Deus; tu és terrível para os reis da terra, porque os degradas de seu esplendor e majestade; tu és espantosa para todos aqueles que põem suas esperanças nos bens deste mundo, mas para mim és o objeto mais agradável, porque me privas de quanto aborreço e me levas à posse do que amo."
Que dizes, minha alma, ao ouvir isto? Amiga, irmã, esposa chama São Jerônimo à morte. Por quê? Porque ela lhe abre a porta de uma glória sem fim; porque é o termo de seus trabalhos e o princípio de sua felicidade; porque o transporta à eterna posse do celeste Esposo.
Sim, esta ditosa esperança consola o justo no último momento; os anjos e santos rodeiam sua cama; as portas do céu se lhe abrem de par em par; Maria Santíssima o convida com misericórdia; Jesus Cristo o chama com os braços abertos, e toda a Beatíssima Trindade lhe oferece a mansão da glória.
Assim o justo fecha docemente os olhos e entrega o último suspiro com a maior tranquilidade. Os anjos e santos recebem sua bendita alma; todos juntos, com sua piedosíssima Rainha, a apresentam a Jesus; o dulcíssimo Jesus lhe dá o ósculo da paz, a abraça com ternura e, entre alegres cânticos, a introduz naquela região dos bem-aventurados. Desse modo se verifica que a morte dos justos é preciosa aos olhos do Senhor.
Queres, minha alma, alcançar essa dita? Pois não te é pedido, para isso, que jejues toda a vida a pão e água; tampouco que tomes contínuas e sangrentas disciplinas; não te mandam que te encerres para sempre numa caverna. Só te é pedida uma confissão frutuosa e a reforma da tua vida; só te mandam observar constantemente a suave lei de Deus e da Igreja.
Somente com isso morrerás sem aflições nem angústias; não te perturbará a privação dos bens, parentes nem amigos; não te atormentará o temor do juízo nem da eternidade. Muito pelo contrário, consolar-te-ás grandemente ao ver que deixas bens caducos por outros sólidos, companheiros terrenos por outros celestiais, uma vida cheia de trabalhos por outra cheia de felicidades. Ânimo, minha alma, ânimo; um pouco de trabalho te traz uma vida tranquila, uma morte feliz e uma eterna glória.
Afetos
1. De resolução. — Estou resolvido a pôr em prática os meios necessários para ter a morte do justo. Farei uma boa confissão geral de todos os pecados que cometi até aqui, e espero que Deus, por sua bondade e misericórdia infinita, me perdoará; e assim já não terei que temer quanto ao passado.
E, no que diz respeito ao futuro, procurarei guardar bem os preceitos da lei de Deus e da Igreja e cumprir com exatidão as obrigações do meu estado, abstendo-me de todo pecado, não só mortal, mas também venial. Receberei com frequência e fervor os santos sacramentos da Penitência e Comunhão e me exercitarei em obras de caridade e em tudo que reconheça ser do agrado de Deus e para o bem dos meus próximos e irmãos.
2. De súplica. — Ó Virgem Santíssima e Mãe de Deus, rogai por mim agora para que eu viva bem, e rogai na hora da minha morte! Ó glorioso São José, rogai por mim, assisti-me na hora da morte! Ó príncipe São Miguel, segurai-me, defendei-me de Satanás na hora da minha morte! Amém.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.