XIV — Do juízo final Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que vês Jesus Cristo sentado em um magnífico trono, para julgar a todos e, particularmente, a ti; e que ali, rodeado dos Apóstolos e Santos, na presença de todas as pessoas que houve, há e haverá, Ele te pede contas de tudo o que fizeste de bom e de mau, de tudo quanto fizeste ou omitiste, até mesmo de uma palavra ociosa.
Prelúdio segundo — Súplica
Senhor, Vos suplico que me concedais a graça de que preciso para viver bem e santamente, a fim de que, quando vierdes para me julgar, não tenhais que me condenar.
Ponto 1
Ao aproximar-se o dia do juízo, tudo será horror e confusão. O sol, a lua e as estrelas não darão luz, e o mundo ficará em trevas. Os astros não vivificarão as plantas, ervas e flores; e assim se murcharão e não darão frutos. As doenças e contágios, multiplicados e malignos, deixarão os pais sem seus amados filhos, os filhos sem seus queridos pais, as casas sem herdeiros e os povoados sem habitantes.
As guerras prolongadas e cruéis devastarão os reinos mais florescentes, e os homens, ensanguentados uns contra os outros, acabarão em uma anarquia espantosa. A fome dizimará famílias inteiras, e a miséria fará descer ao sepulcro milhares de viventes.
A isto se seguirá o mais cruel tirano que se viu no mundo, aquela besta sanguinária, o anticristo, que levará o engano e o terror até os confins do orbe. Que tormentos! Que calamidades! Que aflições tão grandes! Quem quererá viver naqueles dias tão amargos? Os mortais chorarão sem haver quem enxugue suas lágrimas, cheios de dor sem encontrar quem os alivie; mas que digo alívio? Sua dor aumentará a cada momento.
Sim, a ira de Deus, represada por tantos séculos, dará liberdade aos elementos, e estes, unânimes, se levantarão contra o pecador. O ar lançará centelhas e raios, que derrubarão os edifícios; cairão horríveis granizos e pedras que devastarão os campos. Ouvir-se-ão trovões espantosos que estremecerão os homens. A terra se sacudirá com terremotos horríveis; abrir-se-ão bocas que engolirão povoados inteiros; tremerão e se arruinarão os mais suntuosos palácios e os mais fortes castelos.
O mar romperá seus diques e, levantando suas encrespadas ondas até as nuvens, cobrirá toda a terra, estremecerá os mortais com bramidos espantosos, destruirá os campos e sepultará em suas ondas as feras e os homens com suas famílias e tesouros. Os ricos e os pobres, os grandes e os pequenos, todos os que puderem se livrar dessa inundação universal, correrão para se refugiar nas cavernas dos altos montes, e de lá verão vir um dilúvio de fogo para reduzir a cinzas tudo o que escapou à fúria dos outros elementos. Que susto! Que angústia!
Que choro se ouvirá por toda parte! Quem se livrará daquelas imensas chamas? Ninguém: nem o rico, nem o pobre, nem o príncipe, nem o vassalo, nem a criança, nem o ancião. Tudo se abrasará: os reis com seus exércitos, as cidades com suas fortalezas, os palácios com suas tapeçarias, tudo será pasto daqueles vulcões abrasadores.
Aquele nublado de fogo correrá do Oriente ao Ocidente, subirá ao mais alto e descerá ao mais profundo; tudo percorrerá e reduzirá a cinzas: o ouro, a prata, as pedras preciosas, os seres racionais, os brutos, os peixes, as aves, as colinas, as ilhas e os montes.
E assim acabará o mundo com todas as suas vaidades. É possível, alma minha, que este seja o fim de tudo o que foi criado? E então? Ainda há homens que ambicionam cargos e riquezas? Ainda há insensatos que, esquecidos do último dia dos tempos, vivem entregues a seus desejos criminosos?
Afetos
1. De desprezo. — Não quero nada deste mundo; Deus me ensina nesta meditação que devo olhar todas as coisas do mundo como móveis que serviram e foram tocados por pestilentos; e assim não os quero. Que sejam, pois, todos eles entregues às chamas; não os quero, não seja o caso de que eles me façam arder a mim nas chamas do inferno.
2. De propósito. — Os bens que não serão queimados neste incêndio são as virtudes; pois estas quero reunir e entesourar; estas procurarei com todo empenho e diligência. Ajudai-me, Jesus e Maria, para alcançá-las e praticá-las. Amém.
Ponto 2
Oh, quanto o chorarão quando o anjo chamar ao juízo todos os mortos! Sim; reduzidas a cinzas todas as coisas do mundo, soará a voz do Anjo e dirá: "Levantai-vos, mortos, e vinde ao juízo." Essa voz terrível será ouvida no céu, no purgatório e no inferno.
Ninguém poderá resistir ao mandato de Deus intimado por seu Anjo. Todos ressuscitaremos com os mesmos corpos que tivemos, mas não todos da mesma maneira. As almas santas descerão gloriosas do alto e darão a seus corpos aquele dulcíssimo abraço que os unirá para sempre; o corpo, revestido dos quatro dotes gloriosos, e a alma feliz e ditosa se bendirão mutuamente com indizível consolo.
"Oh, pés benditos", dirá a alma, "que caminhastes pelas sendas da virtude! Oh, mãos ditosas, que praticastes o bem! Oh, língua bem-aventurada, que dissestes a verdade e cantastes os divinos louvores! Oh, sentidos todos, que vos fechastes à iniquidade e abraçastes a justiça! Agora recebereis o prêmio da mortificação e penitência; agora gozareis de todas as delícias e consolações; agora, corpo meu, desfrutarás de uma glória eterna, que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem entendimento algum pôde compreender o que Deus tem preparado para seus escolhidos."
"Bendita sejas, alma minha", dirá o corpo; "bem-aventurada sejas, porque me regeste e governaste, porque me ensinaste o caminho da santidade, porque me obrigaste a guardar os preceitos de Deus e da Igreja. Vem, companheira minha, fiel e ditosa; vem, gozemos juntos do prêmio das virtudes; unamo-nos para gozar de Deus eternamente." Assim falarão os justos.
Mas quão ao contrário os réprobos! Que diferentes saudações se darão os condenados! Olhar-se-ão mutuamente e, vendo-se corpo e alma sujos, feios e horríveis, se amaldiçoarão com grande raiva e furor.
"Oh, corpo abominável!", dirá a infeliz alma. "Oh, saco de corrupção! Nesse lamaçal de imundície hei de me meter? Oh, corpo maldito! Por te dar gosto, vejo-me condenada. E queres que eu esteja em tua companhia? Volta, infeliz, ao sepulcro, para ser pasto de vermes, e deixa-me ir sozinha ao inferno."
"Oh, alma traidora!", responderá o corpo. "Tu tens a culpa de minha perdição. Para que Deus te criou, senão para me governares? Não devias tu mortificar meus apetites brutais? Não estavas obrigada a dirigir-me pelo caminho do céu? Pois por que me deixaste correr pela senda dos vícios? Oh, maldita, tira-te de minha presença, pois antes quero ver o demônio do que a ti!"
Assim se amaldiçoarão estes antigos companheiros da maldade; assim repugnarão juntar-se os que antes se amavam tão desordenadamente; mas terão que fazê-lo, apesar de seu despeito. Desse modo se verificará a ressurreição dos mortos; e todos, os justos mais resplandecentes que o sol, os réprobos mais horríveis que um monstro, todos se reunirão em um ponto e esperarão o juízo de Deus.
Afetos
1. De admiração. — Oh, ressurreição! Sim, eu hei de ressuscitar; e como ressuscitarei? Estarei entre o número dos justos ou pertencerei à classe dos réprobos? Olha para tuas obras, e elas te dirão.
2. De propósito. — Senhor e Deus meu! Detesto e abomino todos os meus pecados; procurarei, daqui em diante, fazer todas as boas obras que puder, já que são elas que me hão de valer naquele dia terrível; são estas que me merecerão a ressurreição triunfante e gloriosa, singularmente a comunhão frequente e fervorosa.
Ponto 3
Oh, juízo formidável para uns! Oh, juízo consolador para outros! Descerá do alto o soberano Juiz com grande resplendor e majestade. Sua vista causará alegria aos escolhidos e espanto aos pecadores. Aqueles se colocarão à direita, e estes, à esquerda.
Que desgosto, alma minha, para os príncipes e senhores da terra ver-se confundidos e nivelados com os malfeitores e os mais vis escravos! Que doce consolo para os pobrezinhos do mundo encontrarem-se na companhia dos santos príncipes da terra e dos Anjos do céu! Quanto daria então a ímpia e soberba Jezabel para ver-se ao lado da humilde e piedosa Ester?
Quanto daria naquele dia o apóstata Juliano para estar na companhia do católico São Fernando? O que não faria o pérfido Judas para estar à direita de seu Divino Mestre? Oh, como se encontrarão confundidos os miseráveis réprobos! Que lamentos tão lastimosos darão!
E o que será quando se veja com toda clareza a consciência de cada um? O que será quando se descubram diante de todo o mundo as intrigas, os monopólios, os furtos, as desonestidades, os homicídios, todos os crimes dos pecadores? Santos céus, que vergonha tão grande! Que dor tão extrema! Rugirão de raiva os pecadores; pedirão aos montes que caiam sobre eles e os sepultem entre suas ruínas; mas nada lhes aproveitará. Mesmo contra sua vontade, terão que sofrer a rigorosa prestação de contas que Deus lhes exigirá. Ouvi, homens; atendei, povos; escutai, nações!, dirá o Senhor.
Que deveria Eu ter feito pelos pecadores que não tenha feito? Eu os convidei com a paz, os chamei com misericórdia, adiei os rigores de minha justiça; mas esses miseráveis sempre se mantiveram obstinados na culpa. Eu lhes falei por meus varões evangélicos, os avisei por meio dos ministros da penitência, os ameacei com castigos; mas esses pecadores desprezaram tanto as vozes de clemência como as vozes de justiça.
Eu os tirei do nada, conservei-lhes a vida, redimi-os ao preço de meu sangue; mas esses ingratos abusaram de tantos benefícios, ultrajaram meu santo Nome e pisaram meu sangue precioso. Eu calei diante de tudo, suportei tudo com muita paciência e esperei por longo tempo sua conversão; mas qual foi o fruto de tanta demora? Pecados, injúrias, desonestidades, ódios, sacrilégios, toda espécie de iniquidades. Pensáveis que Eu haveria de calar para sempre? Agora falarei em meu poder e vos lançarei nos abismos. Ide, malditos, para o fogo eterno; afastai-vos de Mim para sempre.
Depois, voltando-se para seus escolhidos com um semblante benigno e aprazível, lhes dirá: "Vós sois minha porção escolhida, minha honra e minha coroa; vós, que, sendo da mesma carne e sangue que os réprobos, não vivestes como eles; vós, que ajustastes vossa vida aos meus preceitos e leis; vós gozareis de minha recompensa eterna. Vinde, benditos de meu Pai, possuir o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo..."
Que sentenças tão diferentes, alma minha! Ao ouvirem a primeira, os réprobos rugirão enfurecidos, blasfemarão de seus pais e de si mesmos; enfurecer-se-ão contra tudo, e entre despeitos, raivas e desesperos descerão como raios ao inferno. Ao ouvirem a segunda, pronunciarão mil bênçãos os justos: bendirão suas mortificações e trabalhos; bendirão sua fé, sua esperança, sua caridade e demais virtudes, e entre bênçãos e regozijos entrarão na posse da glória.
Desde esse momento, estes serão felizes por toda a eternidade, e aqueles, desditosos para sempre; uns gozarão de bens imensos, outros padecerão males infinitos; os escolhidos desfrutarão sem fim de todas as delícias; os réprobos experimentarão sem alívio todos os tormentos.
Afetos
1. De confusão. — Que confusão não sofreria uma pessoa de honra se diante de uma grande multidão fossem divulgadas suas fraquezas ocultas! Pois no dia do juízo serão expostas diante de todo o mundo todas as fraquezas nas quais caíste por pensamento, palavra e obra, a menos que te confesses bem de todas elas; então sim, todos os teus pecados, bem confessados, ficarão perdoados, encobertos e apagados, ou ao menos com certeza não sofrerás confusão no dia do juízo.
2. De propósito. — Proponho-me confessar bem todos os meus pecados, sem ocultar nenhum por vergonha; pois se agora tenho vergonha e me causa confusão dizer meus pecados ao padre confessor, que vergonha terei que suportar, que confusão terei que passar naquele dia, quando o Senhor publicar todos os meus pecados não confessados ou mal confessados diante de todo o mundo?
Não quero mais pecar, nem mortal nem venialmente. Quero ser bom, e o serei, se Deus quiser; abster-me-ei de todo pecado, praticarei as virtudes, guardarei a santa lei, seguirei os conselhos evangélicos recebendo com frequência os Santos Sacramentos, serei devoto de Maria Santíssima e me exercitarei em todas as catorze obras de misericórdia.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.