Todos as meditações

Oração Preparatória

Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.


Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.


Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.

Prelúdio primeiro — Composição de lugar

Imagina que vês Jesus Cristo acompanhado de seus Apóstolos, percorrendo a Palestina, ensinando a doutrina celeste e animando a todos ao exercício das virtudes.


Prelúdio segundo — Petição

Dai-me, Jesus meu, luz para entender vosso celestial ensinamento e graça para imitar vossos exemplos.


Ponto 1

Jesus Cristo suportou antes de nós todos aqueles incômodos que tornam tão penosa e amarga a prática da caridade e da mansidão com o próximo. Alma minha, vamos considerar uma virtude que, assim como é a mais essencial para a santidade, é também a que está mais sujeita a incômodos e dificuldades; aplica-te a considerar os exemplos que dela nos deu Jesus Cristo e decide-te a sofrer o que Ele sofreu antes de ti e por teu amor.


O primeiro incômodo é ter que lidar com gente com quem se perde o trabalho e o fruto. Ai, alma minha! Quanto não se fatigou Jesus para converter os hebreus! Correu por três anos de uma cidade a outra, de uma a outra aldeia, lhes pregou, os cumulou de benefícios, os convenceu com milagres e, como Pai amoroso, os convidou a todos ao seio de sua misericórdia.


E com que fruto? Uns zombavam dEle, chamando-O filho de um carpinteiro; outros ridicularizavam sua doutrina celestial; os fariseus O escarneciam como homem de má vida e transgressor da lei; os sumos sacerdotes O condenavam publicamente como falso doutor e não perdiam ocasião de prevenir a plebe para que não se deixasse seduzir por suas palavras, e chegaram até a não querer comunicar com os que O seguiam; e daí provém que, de tantos que O ouviram, apenas se converteu um pequeno número, ficando os demais obstinados e tornando infrutífero seu trabalho.


Pois agora, não deveria ser coisa bem dura para o coração de Jesus Cristo amar a tal gente? Nem mesmo o pai mais terno e amoroso pode olhar com bons olhos para um filho seu que, desprezando todas as suas advertências, lhe oferece continuamente motivo de novos desgostos.


O segundo incômodo é ter que lidar com pessoas que, por ódio e inveja, interpretam tudo do pior modo. Esse incômodo teve que suportá-lo Jesus Cristo durante todo o tempo de sua pregação. Curava frequentemente aos sábados algum enfermo, por compaixão de seus males, e os mal-intencionados O classificavam como inimigo de Deus por não santificar o sábado; sentava-se à mesa com os pecadores públicos para atraí-los com sua doçura e caridade à penitência, e eles O criticavam como um comilão, que só buscava matar a fome às custas dos outros; operava milagres para conduzir os homens ao conhecimento de sua divindade e eles os atribuíam, não à sua virtude, mas à do demônio, que os operava por Ele; enfim, não fazia coisa alguma que não fosse interpretada de modo perverso.


O terceiro incômodo é ter que lidar com gente que não reconhece nenhum benefício e que retribui o bem com o mal. Jesus foi a Nazaré, pregou na sinagoga e demonstrou a seus conterrâneos a mais fina e sincera caridade; que gratidão obteve de tudo isso? Justamente aquela que se pode esperar de quem retribui o bem com o mal. Levaram-no ao cume de uma rocha para precipitá-Lo dali. Pregou também em Jerusalém; disse que Ele era o Filho de Deus e o Messias prometido e há tanto tempo esperado por eles; mas, como recompensa pela verdade que lhes pregava, O tiveram por um blasfemo e pegaram pedras para apedrejá-Lo no ato.


O quarto incômodo é viver rodeado de gente dissimulada e fingida. Jesus sabia o que Judas abrigava em seu coração e todo o mau afeto que Lhe tinha; que ele era quem havia de vendê-Lo algum dia por alguns poucos siclos de prata, e entregá-Lo à morte.


O quinto incômodo é ter que lidar com pessoas das quais se sabe que se é extremamente odiado. Os sumos sacerdotes e os escribas já haviam há muito tempo condenado Jesus à morte em um concílio secreto; haviam declarado publicamente que expulsariam da sinagoga todos os que aderissem à sua doutrina; havia sido decretado que Ele fosse preso como um sedutor e haviam tramado contra Ele outras maldades semelhantes.


Vê, pois, agora, alma minha, quantos e quais incômodos teve que vencer a caridade de Jesus para poder amar esse tipo de gente, a qual, em vez de amor de pai, merecia ódio sempiterno. Mas, apesar de tudo isso, como se conduziu Jesus? Ouvirás dentro de pouco; por agora te direi apenas isto: que, com todos esses incômodos, os amou e com a maior ternura.


Afetos

1. De vergonha. — Ó Jesus meu, quão ardente e sólido é o vosso amor, e quão débil e frio é o meu! Vós tínheis que lidar com gente que Vos ultrajava e vomitava em vosso rosto injúrias e vilezas; que, sob o véu da amizade, buscavam como Vos entregar nas mãos dos vossos inimigos; que, de fato, haviam determinado resolutamente não descansar até que Vos tivessem posto na cruz; indignidades intoleráveis!


Mas tudo isso não pôde extinguir o vosso amor! Vós amastes até a cruz, até a morte. Infeliz de mim! Quão pouco há em mim da mansidão e caridade de Jesus Cristo! Um semblante fechado, uma palavrinha desprezativa, uma negativa, uma ofensa leve bastam para extinguir meu amor e trocar minha mansidão em ira e indignação.


Eis até onde eu cheguei, ó Jesus meu! Depois de tantas graças como me tendes concedido e de tantos meios como me haveis proporcionado, este é o progresso que eu fiz. Como comparecerei eu algum dia diante da vossa divina presença com tamanha escassez de virtudes?


2. Propósito. — Mas, e será sempre assim, Jesus meu? Ficará sempre este coração meu tão duro e frio? Deixar-me-ei sempre levar pela delicadeza? Não chegará o tempo em que eu tenha o consolo de possuir um verdadeiro amor e uma verdadeira mansidão? Oh, que desgraça seria esta para mim se esse tempo não chegasse! Vós me haveis chamado, Jesus meu, à vossa escola e me dizeis como Mestre que aprenda de Vós, que sois manso e humilde de coração. Como comparecerei ao exame, achando-me tão pobre dessa virtude? E que conta Vos darei de tantas graças como recebi e empreguei tão mal? Ah, Jesus meu! Eu me volto a Vós de todo o coração.


Ponto 2

As admiráveis propriedades do amor com que Deus amou os homens.


Esforça-te agora, minha alma, para penetrar bem no interior do Coração de Jesus e aprende a amar.


Primeira propriedade. — A caridade e mansidão do Coração de Jesus foi sempre afetuosa e ardente. Jesus tinha onipotência infinita, via diariamente milhares de pessoas que O aborreciam e que O tinham por sedutor, blasfemo e feiticeiro; via muitos outros que O despedaçavam com calúnias, opróbrios e vitupérios, e O escarneciam; e também os que desejavam ansiosamente crucificá-Lo.


Tudo isso Lhe era bem manifesto, pois nada podia ser-Lhe oculto; mas, no entanto, nunca se irou, nem deixou de amar a todos com extremo ardor. Em que disposição se encontraria teu coração se houvesse cem pessoas que te tivessem por perverso, te difamassem por toda parte com calúnias e mentiras, e ainda procurassem tirar tua vida?


Segunda propriedade. — A caridade e mansidão de Jesus Cristo se manifestou sempre afável, doce e engenhosa, tanto nas palavras como nos modos e ações, apesar de todos os ultrajes. Lembra-te novamente de Judas, alma minha. Jesus conhecia bem o ânimo dele, e sabia que no fim Lhe faria traição. No entanto, isso não foi suficiente para diminuir Sua caridade para com ele.


Durante três anos inteiros o teve sempre ao Seu lado, tratou-o com a mesma amabilidade que aos outros Apóstolos, comunicou-lhe como aos demais o dom de fazer milagres e também, assim como aos outros, lavou-lhe os pés, de modo que nem mesmo na última ceia puderam os outros Apóstolos perceber seu desígnio criminoso; pelo contrário, mesmo quando ele O entregou nas mãos de Seus inimigos, Jesus o chamou de amigo e lhe deu um beijo. Poderia ter tratado mais cordialmente a seu predileto Apóstolo João?


Terceira propriedade. — A caridade e mansidão de Jesus Cristo foi sempre liberal e benéfica, retribuindo com o bem àqueles que mais O maltratavam. Crescia a cada dia, nos ingratos judeus, o furor e a raiva contra Jesus, e em Jesus se manifestava cada vez mais liberal Sua magnificência para com eles.


Todos os dias Ele dirigia ardentes suspiros ao Seu eterno Pai pela salvação deles; multiplicava a cada dia os milagres para que reconhecessem Sua divindade; todos os dias os cumulava de novos benefícios para abrandar o coração empedernido deles, e, não contente com isso, mostrava-Se benéfico no mesmo momento em que mais furiosamente O ofendiam. Quão mau homem não foi Malco? Ele era um dos que foram prender Jesus no horto, e no exato momento em que executava esse atentado, Jesus Cristo estende sua mão divina e, restituindo-lhe a orelha, cura-o perfeitamente.


Afetos

1. Arrependimento. — Agora compreendo o que é amar, ó Jesus meu! Amar àqueles que nos amam, àqueles que nos são muito afeiçoados e que nos fazem o bem, isso é amar ao modo dos judeus e dos pagãos; amar àqueles que não nos amam, que murmuram de nós e nos ofendem, isso é amar como Vós amastes.


Pois bem, como tenho amado eu até agora? Ai, quanta corrupção abriga o meu coração e quão imperfeito é o meu amor! Em geral, tenho amado como amavam os judeus; raras vezes tenho amado como amava Jesus. Errei, pois, e errei naquela virtude que forma a essência do Cristianismo, a substância do verdadeiro discípulo de Jesus Cristo e a medula da santidade e perfeição.


Reconheço meu engano, e me arrependo; detesto com todo o meu coração, ó Jesus meu, tudo o que fiz contra essa virtude que Vos é tão agradável, e pelos méritos do vosso preciosíssimo sangue Vos peço humildemente perdão.


2. Ato de amor. — De agora em diante, o meu maior empenho e o meu mais solícito cuidado será amar a Deus de todo o coração e sobre todas as coisas, e ao próximo como a mim mesmo por amor de Deus. Estes são os dois preceitos principais que Vós tendes ensinado com as palavras e mostrado com os exemplos; submeto-me a ambos humildemente e neste mesmo instante quero exercitá-los.


Amo-Vos, pois, e abraço-Vos, ó Jesus meu, com todo o coração, sobre todas as criaturas do céu e da terra; amo-Vos com tanto amor e fervor, que estaria pronto a dar neste momento a minha vida e a derramar o meu sangue por Vós; e assim como Vos amo por Vós mesmo, assim também amo a todos os homens, sem exceção, por amor Vosso.


Vós morrestes por todos e me mandais amar a todos; amo-os, portanto, e os amo como a mim mesmo. Rogo-Vos, ó Jesus meu, que tenhais piedade de todos, concedendo a cada um tantos bens temporais e eternos quanto desejo para mim mesmo.


3. Propósito. — Este é um afeto santo, é verdade, mas afinal não sai dos limites do coração; é necessário que ele se manifeste, já que o amor deve agir e não pode permanecer ocioso; de outro modo, não seria amor.


Como, então, me comportarei com meu próximo? Farei com ele o que desejo que façam comigo. Eu desejo que todos tenham boa opinião de mim; pois também não admitirei jamais em meu entendimento suspeita ou juízo que possa redundar em desestima ou desprezo do próximo.


Eu desejo que todos sejam para comigo cordiais e agradáveis; também o serei eu com todos, e procurarei não dizer nem fazer coisa que possa causar ao meu próximo tristeza ou amargura.


Eu desejo que todos tolerem com paciência meus defeitos e debilidades e que ninguém fale mal de mim; assim o farei eu também, tolerarei de bom grado as faltas alheias e nunca falarei dos defeitos dos outros.


Eu desejo que os outros me prestem ofícios de caridade; e assim o farei eu com eles. Ó Jesus, que sois o verdadeiro amor por essência! Concedei-me tanta graça, que de agora em diante eu ame como Vós me haveis amado.


Pai-Nosso e Ave-Maria.


Conclusão da Meditação

Ação de Graças

Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.


Oferecimento

Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.