XV — Da glória do céu Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Com a visão da imaginação, verei uma cidade bela, alegre, resplandecente, corte do supremo Rei, que está sentado em trono de indizível majestade, assistido por Anjos e Santos; verei em espírito muitos de minha devoção que me convidam para que eu também seja concidadão deles e doméstico de Deus. Que cidade tão vistosa e aprazível! Que moradores tão amáveis e bem-aventurados! Que ditoso serei eu se, por fim, chegar a ser seu companheiro!
Prelúdio segundo — Petição
Senhor e Deus meu, dai-me luz para ver e conhecer a preciosidade da glória, e concedei-me a graça de ser em toda a minha vida um dos justos da terra, para ser depois um dos santos do céu.
Ponto 1
Se no mundo houvesse uma cidade cujas praças, ruas e edifícios fossem de pedras preciosas, de prata e ouro puríssimo; se essa cidade fosse habitada por homens todos riquíssimos, nobilíssimos, muito benignos, muito afáveis e corteses; se, além disso, essa cidade fosse governada por um rei pacífico, virtuoso, amigo de fazer o bem e que de fato fazia felizes a todos quantos quisessem ir viver em sua companhia, que pressa não teriam os homens em marchar para tão ditosa povoação? Não correriam das partes mais remotas do mundo para alistar-se sob suas bandeiras? Sabendo com certeza que poderia tornar-se rico, ilustre e ditoso, alguém se deteria por não querer padecer um pouco de trabalho no caminho?
Pois, coração meu, com um pouco que trabalhes durante esta vida, podes tornar-te cidadão da cidade de Deus e da glória celestial; podes habitar naquela paz interminável e centro de todos os bens; podes morar com um Rei infinitamente benigno, aprazível, rico, poderoso, que pode, quer e tem com que fazer felizes a quantos quiserem viver em sua companhia.
Ah! Que não terá criado Deus no céu para seus escolhidos? Se na terra fez coisas tão primorosas, que não terá reservado na Jerusalém celestial para seus filhos prediletos? Se eu dissesse que aquela cidade eterna é de prata finíssima e de ouro puríssimo, nada diria; se dissesse que aquela Sião bendita está fabricada de diamantes, rubis e esmeraldas, nada diria; se dissesse que naquela pátria bem-aventurada correm rios de leite e mel, que há flores e jardins ameníssimos, que se criam frutos de toda espécie, sazonados e riquíssimos, nada diria.
Ó paraíso! Tu és a obra-prima da magnificência de um Deus onipotente; tu és o preço do sangue de um Salvador infinitamente benigno e dadivoso; tu és o ponto central de todos os bens, com exclusão de todos os males. Ó paraíso! Em ti se acha uma torrente de delícias em que se engolfa o bem-aventurado; em ti reina a luz, a claridade, o resplendor mais brilhante, que faz fugir de teu recinto a escuridão e as trevas.
Ó doce pátria minha! Meu coração se deleita de modo maravilhoso ao contemplar-te; minhas entranhas sentem um gozo inexplicável ao meditar em teus átrios sagrados. Ó tabernáculos divinos! Quando entrarei em vossa posse? Ó céu! Quando sairei deste vale de lágrimas para gozar de tuas delícias?
Meus ouvidos, meus olhos, todos os meus sentidos e potências se voltam para ti, com a certeza de encontrar em tua posse o cumprimento de todos os meus desejos. Estarei enganado? Não. A fé e a razão me asseguram que Deus criou o homem para ser perfeitamente feliz; não se encontrando, portanto, na terra essa felicidade perfeita, a fé e também a razão me ensinam que o céu é o lugar destinado por Deus para preencher os vazios do coração humano.
Afetos
1. De esperança. — Ó céu! Ó minha pátria! Quando te possuirei? Aí tenho meu Pai, que é Deus; minha Mãe, que é Maria Santíssima; meus irmãos, que são os Santos. Eu espero subir em breve. Sim, Senhor, sim, tirai-me logo deste mundo; dai fim ao meu desterro; abri-me as portas do céu.
2. De petição. — Ó Maria, minha Mãe! Assim como uma criança pequena chora sempre por sua mãe, eu chorarei até que Vos veja, até que Vos veja na glória. Levai-me logo, minha Mãe; bem sabeis que eu sem Vós não posso viver, e morro porque não morro. Quero morrer para poder subir ao céu e estar Convosco por toda a eternidade.
Ponto 2
Sim; na bem-aventurança o homem encontra o cumprimento de todos os seus desejos. Revestido o corpo dos quatro dotes gloriosos, resplandecerá mais que o sol e as estrelas, gozará da agilidade e penetrabilidade de um anjo e será impassível, incorruptível e eternamente ditoso.
Seus olhos se recrearão com a vista daqueles céus belíssimos; seus ouvidos se alegrarão com os melodiosos concertos dos espíritos celestiais; seu olfato perceberá a fragrância requintada daquele lugar felicíssimo. Ó lugar de infinitas delícias! O bem-aventurado saboreará em ti o sabor mais doce e desfrutará da conversação mais agradável. Ah! Se conversar na terra com uma pessoa prudente, sábia, afável e carinhosa já serve de tanto consolo, que será conversar no céu com os Anjos e Santos, todos prudentíssimos, sapientíssimos, virtuosos, afáveis e carinhosos em grau superlativo? Que doçura sentirá a alma falando, vendo e ouvindo criaturas adornadas de tanta formosura, ciência e virtude?
Que prazer será ouvir, falar e ver os coros de Virgens belíssimas, de confessores e mártires formosíssimos, de Apóstolos, Profetas e Patriarcas brilhantíssimos? Que será contemplar, ouvir e conversar com os Anjos, Querubins e Serafins, abrasados no amor de Deus?
Minha alma desfalece ao contemplar as delícias da glória; meu coração quer sair do peito para ir gozar de tanta dita. Ali todos são príncipes coroados e riquíssimos; ali todas as virtudes são heroicas, toda santidade verdadeira, toda caridade abundante, todo amor sincero; ali reina a paz, a harmonia e a justiça nos prêmios; ali se encontra a abundância, a magnificência e a grandeza; ali nada há manchado, o pecado não tem entrada, nem a morte jurisdição. Ali... Mas para onde vou? Ainda há mais o que dizer? Como se há!
Maria Santíssima é o encanto dos bem-aventurados; Jesus Cristo é a alegria dos escolhidos, o Deus imenso e soberano em quem descansam os Anjos e Santos. Mas, o quê? Maria Santíssima é parte da herança dos justos? Sim. Pois que glória resultará de ver seu rosto belíssimo, seus graciosíssimos olhos e sua amabilíssima pessoa?
Que delícia será contemplar a Rainha do céu e da terra, cheia de todas as graças e adornada de todas as perfeições! Que alegria terá o justo em gozar da companhia de sua Mãe, de participar de seus dons e de experimentar seus carinhos! Ainda que no céu não houvesse outra glória senão gozar e ver Maria Santíssima, os anacoretas dariam por bem empregadas suas penitências, os mártires seus tormentos, os confessores e Virgens ficariam satisfeitos com todas as suas privações e trabalhos. E o que direi da felicidade que experimentarão os santos com a vista e posse de Jesus Cristo?
Este dulcíssimo Salvador se apresenta no céu com todo o resplendor de sua glória. Sua humanidade santíssima se deixará ver com toda a perfeição que lhe deu a mão do Onipotente. Vê-se sua sagrada cabeça coroada de resplandecentes estrelas; a madeixa de seus cabelos dourados se assemelha à púrpura de um grande rei; seus olhos brilham mais que mil sóis; seu rosto, belíssimo sobre os filhos dos homens, resplandece com a claridade de Deus; de seus pés e mãos brotam rios caudalosos de graças, e seu peito amoroso é um mar imenso de riqueza e bênçãos.
Ó humanidade santíssima de Jesus! Quando Vos verei à direita do Pai? Ó Deus infinito! Quando gozarei de vossa presença? Quando meus olhos Vos verão face a face? Quando, livre já minha alma das correntes que a aprisionam sobre a terra, atuará com toda sua atividade no céu?
Afetos
1. De propósito. — Proponho não pecar mais, nem mesmo venialmente; porque sei que coisa manchada ali não pode entrar. Farei penitência dos meus pecados, ainda que perdoados pela confissão, a fim de que eu não tenha que me deter no purgatório.
2. De resolução. — Todas as minhas obras as farei em estado de graça, a fim de que sejam meritórias para o céu; sim, todas as dirigirei para a maior glória de Deus. Sofrerei com grande paciência tudo o que neste mundo me possa causar dor, pensando na grande glória que me espera. Recordarei que os grandes prêmios não se alcançam senão com grandes trabalhos. Lutarei continuamente contra os inimigos da alma, o mundo, o demônio e a carne, tendo sempre presente que não será coroado senão aquele que legitimamente houver lutado.
Ponto 3
O bem-aventurado vê a Deus sem enigmas e O ama sem limites; vê o Criador do Universo e O quer sem medida; vê o Ser infinito e se engolfa em seu amor imenso.
Ali tem um claro conhecimento dos mistérios da Trindade, Encarnação, Eucaristia e demais; ali compreende o bom uso que os justos fizeram das graças e o desprezo que delas fizeram os réprobos; na própria Divindade, como num claríssimo espelho, vê o bem-aventurado tudo quanto sucedeu no mundo; conhece a força dos elementos, o curso dos astros e a influência dos planetas; entende todas as ciências e artes; em uma palavra: seu entendimento vê todas as coisas com uma vista clara e simples, e não deseja saber mais.
E sua vontade? Sua vontade, rodeada de um bem imenso, não apetece nem pode apetecer outra coisa por toda a eternidade: ama o quanto pode amar, tem o quanto pode ter, goza o quanto pode gozar, que é o próprio Deus. De Deus vive enamorada, em Deus se acha submersa e em Deus está engolfada. Sim, em Deus encontra todas as coisas a alma bem-aventurada: encontra tesouros e riquezas imensas; encontra doçuras e deleites inexplicáveis.
Deus é para ela um Pai amabilíssimo, um Esposo dulcíssimo, um Amigo fidelíssimo que jamais perderá. Isto é o que faz completa a bem-aventurança do justo: viver no céu sem temor de perdê-lo por toda a eternidade. Ó céu! Ó pátria celestial! Ó mansão dos bem-aventurados! Por que não corro arrebatado até ti?
A rainha de Sabá, ouvindo tantas maravilhas que se contavam de Salomão, voou para vê-lo; e vendo seus magníficos palácios, seus primorosos jardins, seus tesouros imensos, sua grande sabedoria e a boa ordem que reinava em seu serviço, exclamou arrebatada e como fora de si: "Bendito seja o Senhor teu Deus, a quem tu agradaste; benditos os que têm a dita de ouvir tuas palavras, e benditos quantos te servem e estão em tua companhia!"
Pois, alma minha, quão maior será a dita dos que estão na companhia do Criador, gozando de suas delícias imensas, ouvindo sua sabedoria infinita e vendo seus belíssimos palácios? Que dita resultará ao contemplá-lo rodeado de cândidíssimas Virgens, de mártires resplandecentes, de Patriarcas brilhantíssimos e de príncipes coroados? Que glória será ver a Rainha de todos eles reclinada sobre seu amado Filho?
Ah! Não tenho de viver sobre a terra senão quatro dias de desterro e pranto; depois deles, tenho a esperança de me unir para sempre com o bem que adora o meu coração. Essa esperança suaviza todas as minhas penas, ameniza todas as minhas aflições, torna doces todos os meus trabalhos. O mundano não tem outro prêmio de suas fadigas senão um pouco de terra; o céu é sempre o prêmio do cristão virtuoso; este trabalha por bens sólidos e eternos, e aquele por bens miseráveis e caducos, que por necessidade hão de se perder. Que diferença de esperança para esperança e de prêmio para prêmio!
Vamos, pois, alma minha! Corramos em busca de prêmio tão grande: o trabalho é breve e a felicidade, eterna. Um pouco de paciência, pois logo, logo se converterão em pranto as alegrias do pecador, e os prantos do justo em alegrias. Um pouco de paciência, alma minha; porque muito em breve chegará uma glória infinita e eterna que ninguém poderá tirar de ti. Então bendirás teus trabalhos e tuas lágrimas e te felicitarás eternamente. Então bendirás ao Senhor e a todos os que assistem em sua presença, com mais razão que a rainha de Sabá a Salomão e aos seus servos. Bom ânimo, meu coração, que logo descansarás com a posse do bem que desejas e pelo qual suspiras.
Afetos
1. De petição. — Jesus, meu Salvador, salvai-me; conduzi-me, Josué divino, à terra de promessa celestial! Tirai-me logo deste desterro do mundo.
Ó Pai eterno, pelos méritos de Jesus Cristo, vosso Filho e meu irmão, dai-me a glória do céu!
Ó Espírito Santo, santificai-me e levai-me logo à glória!
Ó Virgem Santíssima, rogai a Deus por mim, agora e na hora da minha morte, e que seja em breve, para que eu possa subir logo ao céu!
Ó Anjos e Santos, rogai a Deus por mim para que eu suba logo ao céu e cante convosco as eternas misericórdias do Senhor!
2. Resolução. — Nas repugnâncias e dificuldades direi: Oh, quão pouco é o que tens de fazer e sofrer! Oh, quão grande é o prêmio que te espera "Os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória futura que se revelará em nós" Rm 8,18!
Ouvirei a voz de Maria Santíssima, que me está dizendo as mesmas palavras que dizia aquela mãe dos Macabeus a seu filho: "Peço-te, filho meu, que olhes para o céu." 2Mc 7,28
Direi como Santo Inácio: "Ai, que asco me dá a terra quando olho para o céu!" "Ai, quão vil me parece a terra quando olho para o céu!" Santo Inácio
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.