XVI — Do reino de Jesus Cristo Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Advertência. — Na primeira seção meditamos sobre aquilo que nos afasta de nosso fim, que são os pecados, e por isso nos arrependemos deles e os confessamos.
Na segunda seção, afirmamo-nos e confirmamo-nos cada vez mais nesse arrependimento, com o firme propósito de não voltar a pecar.
Na terceira seção, que é a presente, já limpos de todo pecado e com o propósito firme de não pecar mais, devemos ver como progrediremos no caminho da virtude e da perfeição, e amaremos a Deus com todo o nosso coração e com todas as nossas forças, para assim alcançar nosso último fim.
Justamente, por causa do pecado de nossos pais e pelos nossos próprios, ficamos quase cegos, e por isso devemos recorrer a Jesus Cristo para que nos dê a vista, como àquele cego do caminho de Jericó.
Devemos suplicar-Lhe que nos ilumine com sua divina graça, já que Ele é a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo "Era a luz verdadeira, que ilumina todo homem que vem a este mundo" Jo 1,9.
E, finalmente, a Ele devemos seguir e imitar, já que para isso o Pai eterno no-Lo deu, e o próprio Jesus Cristo nos diz: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida, e ninguém vem ao Pai senão por Mim" "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim" Jo 14,6.
Por isso, as meditações desta terceira seção serão sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, imitando seus exemplos e praticando suas virtudes. E para que essas meditações produzam resultados mais felizes, guardar-se-á um rigoroso silêncio; somente se falará com Jesus no passo considerado, ou com Maria Santíssima ou outras pessoas do mistério.
Nota do autor: Durante as meditações da terceira seção, no tempo livre, será lido o Santo Evangelho, ou o Kempis — A Imitação de Cristo, ou a vida dos Santos mais conformes ao estado de cada um, ou Granada, ou aquilo que indicar o diretor.
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Será aqui ver com a vista imaginativa sinagogas, vilas e castelos por onde Cristo Nosso Senhor pregava.
Prelúdio segundo — Petição
Eu Vos suplico, Senhor meu, a graça de que necessito para não ser surdo ao vosso santo chamamento e fazer com que, com presteza e diligência, eu siga a vossa santíssima vontade!
São palavras do Santo. — "O primeiro ponto é pôr diante de mim um rei humano escolhido pela mão de Deus Nosso Senhor, a quem fazem reverência e obedecem todos os príncipes e todos os homens cristãos."
"O segundo, olhar como esse rei fala a todos os seus, dizendo: A minha vontade é conquistar toda a terra dos infiéis; portanto, quem quiser vir comigo deve estar contente em comer como eu, e assim também em beber e vestir; do mesmo modo deve trabalhar como eu durante o dia, e vigiar à noite, para que assim depois tenha parte comigo na vitória, como a teve nos trabalhos."
"O terceiro, considerar o que devem responder os bons súditos a um rei tão liberal e tão humano e, por conseguinte, se alguém não aceitasse o pedido de tal rei, quanto seria digno de ser vituperado por todo o mundo e tido por perverso cavaleiro."
"A segunda parte deste exercício consiste em aplicar o exemplo acima do rei temporal a Cristo Nosso Senhor, conforme aos três pontos ditos."
"E quanto ao primeiro ponto, se tal vocação considerarmos do rei temporal a seus súditos, quanto mais digna de consideração é ver a Cristo Nosso Senhor, Rei eterno, e diante d'Ele todo o universo mundo, ao qual, e a cada um em particular, chama e diz: Minha vontade é conquistar todo o mundo e todos os inimigos, e assim entrar na glória de meu Pai? Portanto, quem quiser vir Comigo há de trabalhar Comigo, porque, seguindo-Me na pena, também Me siga na glória."
"O segundo, considerar que todos os que tiverem juízo e razão oferecerão todas as suas pessoas ao trabalho."
"O terceiro, os que mais quiserem se afeiçoar e se distinguir em todo serviço de seu Rei eterno e Senhor universal, não somente oferecerão suas pessoas ao trabalho; mais ainda, agindo contra sua própria sensualidade e contra seu amor carnal e mundano, farão oblações de maior estima e maior valor, dizendo: Eterno Senhor de todas as coisas, eu faço minha oblação com vosso favor e ajuda, diante de vossa infinita bondade, e diante de vossa Mãe gloriosa, e de todos os Santos e Santas da corte celestial, que eu quero e desejo, e é minha determinação deliberada (contanto que seja para vosso maior serviço e louvor) de imitar-vos em passar todas as injúrias, todo vitupério e toda pobreza, tanto atual quanto espiritual, querendo-me vossa Santíssima Majestade eleger e receber em tal vida e estado."
Ponto 1
Explicação: O seguimento de Jesus Cristo é coisa muito justa e muito devida. — São dois os motivos que demonstram claramente quão devido é que O sigamos; procura tu, minha alma, ponderá-los bem.
O primeiro motivo é o fim pelo qual Jesus Cristo veio ao mundo. Ah!, que desgraça se Jesus não tivesse vindo ao mundo. Nossos primeiros pais estavam caídos e haviam se despojado, não menos a si mesmos que a nós, do direito da glória; de tantos milhares de milhões de homens que haviam nascido desde o princípio do mundo e que nascerão até o fim dele, nenhum teria podido entrar no céu nem gozar de Deus por toda a eternidade.
Pode imaginar-se estado mais deplorável que este para o gênero humano? Igualmente, assim como de tantos milhares de milhões de homens nenhum teria podido entrar no céu nem gozar de Deus, assim tampouco haveria nenhum que pudesse louvá-Lo eternamente. Oh, quanta diminuição da glória extrínseca de Deus! Mas, tendo vindo Jesus Cristo ao mundo, todos nós podemos entrar no paraíso; já não nos estão fechadas suas portas, contanto que queiramos segui-Lo. No céu se encontram coros inteiros de Santos, os quais louvarão e bendirão o santo nome de Deus por toda uma eternidade. Dize-me, que fim mais nobre e mais sublime poderia jamais dar-se do que a glória eterna de Deus e a eterna bem-aventurança do homem?
O segundo motivo são as condições com que nos convida ao seu seguimento. Os reis da terra se sentam em seu trono e, quando hão de dar princípio a uma empresa de grande trabalho ou expor-se a algum empenho arriscado, não vão, em geral, eles em pessoa, mas enviam em seu lugar seus vassalos.
Tudo ao contrário faz Jesus Cristo: "Não exijo", diz Ele, "que aqueles que Me seguem tenham de se vestir ou alojar mais pobremente do que Eu, nem que tenham que guardar maior pobreza na comida e bebida do que a minha; não quero que se fatiguem mais, nem que sejam os primeiros no trabalho, porque Eu irei diante deles; verdadeiramente, a única coisa que Eu quero é que Me sigam."
Certamente que são estas condições maravilhosas: Jesus é inocente; eu, cheio de pecados; Jesus é Senhor supremo; eu, um punhado de terra; a Jesus pertence o céu, a mim o inferno; com tudo isso, Ele não exige de mim que me fatigue ou trabalhe mais do que Ele, mas apenas que O siga.
Afetos
1. Ação de graças. — Oh, meu Jesus! Se Vós não tivésseis outro fim ao convidar-nos a Vos seguir senão unicamente a glória de vosso Pai celestial, já eu estaria obrigado a obedecer-Vos. Ele é o Sumo Bem e meu supremo Dono e Senhor, de quem totalmente dependo, e por essa razão sempre teria estado obrigado a derramar até mesmo o sangue por sua glória.
Mas Vós não tivestes em vista apenas a glória e honra de vosso eterno Pai, como também olhastes para a minha salvação e eterna felicidade da minha alma; Vós me convidais a seguir-Vos para me tornar participante, juntamente Convosco, da mesma glória, da mesma felicidade, dos mesmos prazeres e deleites, e da mesma bem-aventurança. Ah! Que louvores, bênçãos e ações de graças não devo eu Vos tributar?
2. Propósito. — Pois, já que deste seguimento depende, ó Jesus meu!, a glória do vosso santíssimo nome e a salvação da minha alma, resolvo seguir-Vos incondicionalmente e com a maior perfeição que me for possível. Resista quanto quiser a natureza; custe o que custar vencer-me: eu sou uma criatura cheia de pecados, uma criatura a quem tirastes do nada, uma criatura que mereceu o inferno; como poderei me excusar de fazer e padecer o que fizestes e padecestes Vós, que sois a inocência e santidade por essência, supremo Senhor do céu e da terra, meu Deus, meu Criador, meu Redentor? Não, Jesus meu, isso jamais farei: vossa vida há de ser, de agora em diante, a norma da minha, e Vos seguirei observando vossas pegadas; e no passo que Vós caminhardes, caminharei eu com vosso auxílio.
Ponto 2
Seguir a Jesus Cristo é coisa fácil e leve. — Duas coisas são as que facilitam o seguimento de Jesus Cristo: iremos ponderá-las com atenção. A primeira é a paz interior, alegria e satisfação com que Jesus Cristo, ainda neste mundo, recompensa os que O seguem. A vida de Jesus Cristo neste mundo teve também delícias: no seu nascimento, os homens O obrigaram a estar em um estábulo, mas desceram os Anjos do céu para anunciar sua glória ao mundo; no deserto foi tentado pelo demônio, mas os Anjos O serviram; no tempo de sua pregação foi blasfemado e ultrajado, mas transfigurou-se no monte Tabor. Se a vida de Jesus Cristo teve suas delícias, também as terás tu, já que Ele impõe esta condição expressa: não quero que padeçam mais do que Eu.
Sim, sim, alma minha; quanto maior for a perfeição com que seguires a Jesus Cristo, tanto maiores serão os consolos com que o Pai celestial te cumulará. Ouve suas próprias palavras, que não podem faltar: Meu jugo é suave e minha carga é leve. Estar próximo de Jesus faz encontrar a doçura, mesmo no meio das adversidades; estar distante de Jesus é sempre amargo, mesmo em meio aos prazeres. É certo que, se caísse apenas uma gota de consolo do céu, esta cairia no coração daquele que segue fielmente a Jesus Cristo.
A segunda é uma glória e bem-aventurança infinita com a qual Jesus Cristo premia no outro mundo aos que O seguiram. Ah, dentro de poucos anos me encontrarei eu no paraíso! Quanto consola este pensamento e quanto deve aliviar nossas tribulações!
Imagina, alma minha, que te aparece o divino Redentor com uma pesada cruz sobre os ombros e que te olha atentamente com olhos benignos e amorosos; que ao mesmo tempo se abre o céu e se deixa ver um trono superior ao de muitos milhões de escolhidos, e de tão extraordinária beleza que jamais se viu semelhante, e que, voltando-se a ti, Jesus Cristo te diz: Vês? Esse trono é teu e o possuirás eternamente se Me seguires por alguns pouquíssimos anos.
Ai, alma minha!, não te resolverias a seguir Jesus cheia de alegria? E essa promessa de Jesus não te daria um singular alento em todas as tuas fadigas e tribulações? Pois por que não poderá operar a fé o que faria semelhante visão? Essa fé ensina que, se segues a Jesus Cristo, te espera um reino celestial, um reino eterno, um reino infinitamente delicioso.
Afetos
1. Esperança. — Eu creio, Jesus meu, e me vejo forçado a confessar que o vosso jugo é suave e vossa carga leve: essas palavras foram pronunciadas por vossa boca, a qual não pode enganar. O que pode tornar custoso o vosso seguimento é unicamente o meu amor-próprio e a minha covardia. Se eu, por brevíssimo tempo, me empenhasse em vencer a mim mesmo e seguir vossas pegadas, bem cedo a experiência me faria conhecer quanta verdade há em vossas promessas.
Na verdade, quão miserável não parecia a vida que levavam aquelas pessoas de todos os estados, sexo e condição, que em tempos passados viviam sepultadas nos desertos ou em grutas escuras sobre as montanhas! E, no entanto, eram elas aquelas em cujos corações o céu derramava torrentes de prazeres. Quão melancólica não parecia a vida daquelas pessoas que terminaram seus dias nas perseguições, na opressão, entre os opróbrios e contumélias, nas cruzes e tribulações! E, no entanto, eram elas com quem o divino Redentor se comunicava com a mais íntima familiaridade e a quem enriquecia com suas copiosas graças.
Serei eu o único e só a quem Jesus abandonará em meio às minhas penas, se eu O seguir, sem me fazer participante de algum consolo? Serei eu o único a quem Ele jamais concederá algum alívio? Só a mim não deixará sequer provar de suas doçuras? Ah, não! Não o fareis assim, Jesus meu; eu o espero e prometo isso de vossa misericórdia, e é ela que tornará suave o vosso seguimento; nessa confiança volto-me a Vós de coração e proponho... seguir-Vos em tudo e por tudo.
Ponto 3
Seguir a Jesus Cristo é necessário. — Eu me persuado, alma minha, de que tens uma séria vontade de ser perfeita; isso sendo assim, é absolutamente necessário que sigas a Jesus Cristo em todas as coisas quanto te for possível. Se queres ser perfeito, disse o divino Salvador àquele jovem, vem e segue-Me. Reconheces tu esta verdade?
Ah!, não é falta de conhecimento, mas me assusta o caminho demasiado áspero por onde vejo caminhar a Jesus Cristo. Mas justamente é necessário que assim seja, porque, primeiro: Jesus Cristo é sabedoria e bondade infinita; Ele desceu do céu à terra com o propósito de te mostrar, alma minha, o caminho que conduz à santidade; não é verdade?
Pois bem; se houvesse outro caminho mais plano e mais seguro que o que nos mostrou, seria preciso dizer, ou que Ele não é sabedoria infinita, por ter ignorado esse caminho, ou que não é verdade infinita, por não tê-lo ensinado. Mas quem poderia pensar assim sem blasfemar? Segundo, Jesus Cristo é amor e bondade infinitos; Ele não ama nem se compraz em nos fazer sofrer e atormentar sem motivo.
O que se conclui disso? Conclui-se que, se Ele soubesse que um caminho ameno e delicioso nos levaria à santidade e ao nosso fim último tanto quanto outro áspero e penoso, o amor que nos tem não Lhe permitiria decidir-se a nos conduzir precisamente pelo segundo.
Ai!, como via bem este Deus amante que pelo caminho ameno dos prazeres não se deve esperar outra coisa senão a condenação eterna, e por isso nos propôs o caminho áspero com preferência ao delicioso. E Ele mesmo quis caminhar por ele, e agora nos convida a segui-Lo também por esse caminho.
Detém-te aqui um momento, alma minha, e reflete assim contigo mesma. Neste mundo dois são os destinos a que podemos chegar: um infinitamente miserável, que é o inferno; o outro infinitamente ditoso, que é o céu. A esses destinos conduzem apenas dois caminhos: o caminho largo e agradável, por onde vai tão grande número de homens, conduz ao inferno; o caminho estreito e áspero, por onde caminha Jesus Cristo com seu pequeno séquito de escolhidos, conduz ao céu.
Oh, verdade importantíssima! Somente o caminho por onde foi Jesus Cristo conduz ao céu! É uma verdade pronunciada pelo próprio Jesus Cristo: Ninguém chega ao Pai senão por Mim. Que é o mesmo que dizer: ninguém chega ao Pai, ninguém chega ao céu, senão aquele que anda pelo caminho que Eu andei. O que deverei fazer? Qual dos dois caminhos escolherei?
Afetos
1. Arrependimento. — Ó Jesus meu! Eu verdadeiramente não encontro coisa alguma que possa me consolar ao refletir sobre minha vida passada. Tenho-Vos adorado até agora como meu Deus e Redentor, mas não Vos tenho seguido como meu capitão e guia; as virtudes que Vós chamais de jugo suave e carga leve, eu sempre as vi como um peso muito grave e desproporcional às minhas forças; não refleti que isso, de alguma maneira, era blasfemar contra vossa sabedoria, como se ela não soubesse medir minhas forças; ou contra vossa bondade, como se quisesse sobrecarregá-las.
Ó meu Deus e Redentor, meu Mestre e Capitão! Confesso meu erro e minha malícia e me arrependo de todo o coração. Oh, quão feliz eu seria agora se tivesse vivido sempre conforme ao vosso espírito e seguido sempre o caminho por onde Vós caminhastes!
2. Consagração. — Mas até quando persistirei nesse erro? Vós sois o caminho, a verdade e a vida. Ó Jesus meu! A Vós me consagro totalmente neste momento, de todo o coração e sem reservas; quero seguir vossas pegadas e andar pelo mesmo caminho que Vós seguis. Ide adiante de mim, Jesus meu, e sede meu Capitão.
Conduzi-me pelas ignomínias ou pelos opróbrios, exponei-me às perseguições e calúnias, eu Vos seguirei. Afligi-me com dores e adversidades, eu Vos seguirei. Colocai-me no estado de humilde subordinação e de total renúncia da própria vontade, eu Vos seguirei.
Onde Vós estiverdes, ó Jesus, minha vida!, quero estar eu também; o que Vós padeceis, também quero eu padecer; uma só coisa Vos peço e sei que não me haveis de negar: vossa ajuda, vossa assistência, vossa graça eficaz, ó Jesus meu!
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.