XVII — Da Encarnação e Nascimento de Jesus Cristo Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Com os olhos da imaginação, estarás olhando para a casa de Nazaré e tudo o que nela pode haver; depois, observa o caminho que vai de Nazaré a Belém, se é largo ou estreito, se há subidas e descidas, com todas as demais circunstâncias; finalmente, entra na gruta de Belém, como está, que pessoas e coisas vês nela.
Prelúdio segundo — Petição
Dai-me graça, Jesus meu, para conhecer a humildade profundíssima que me ensinais e o amor tão grande que me manifestais. Desejo ser humilde e fervoroso no vosso santo serviço.
Proposição
Texto do Santo Evangelho segundo São Lucas (Lc 1,26-28.38; 2,4-7): Enviou Deus o Anjo Gabriel a Nazaré, cidade da Galileia, e lhe disse: "Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres." (...) Disse Maria: "Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra." (...) José, como era da casa e família de Davi, veio desde Nazaré à cidade de Davi chamada Belém, para alistar-se com Maria, sua esposa, a qual estava grávida. E aconteceu que, estando ali, chegou-lhe o tempo do parto. E deu à luz o seu Filho primogênito, envolveu-O em panos e reclinou-O numa manjedoura, porque não houve lugar para eles na hospedaria.
Ponto 1
Explicação. — Jesus Cristo, na sua Encarnação e Natividade, humilhou-se até o extremo. Oh, quantos e quão admiráveis aniquilamentos há para considerar neste mistério! Ponderaremos apenas alguns deles.
O primeiro aniquilamento é a assunção da natureza humana. Se tivesses a vista iluminada, jamais poderias admirar suficientemente este aniquilamento; explicá-lo-emos com uma comparação. Imagina, minha alma, um rei de uma vastíssima monarquia, de grande poder e riqueza, adornado de sabedoria e de todos aqueles talentos e qualidades que são convenientes a um príncipe. A nobreza, o exército e o povo o amam como a um pai; nada do que se possa imaginar lhe falta para ser feliz; esse grande monarca depõe secretamente a púrpura, abandona os seus domínios, cobre-se com um vestido grosseiro e roto e, indo para um país estranho, coloca-se a serviço de um lavrador, continuando assim a viver desconhecido nesse ofício vil até a morte. Que homem poderia admirar devidamente tal aniquilamento?
Oh, minha alma! Aviva a tua fé e dize-me: quem é aquele querido infante que vês no estábulo de Belém? Ele é o Filho unigênito do eterno Pai, o Senhor dos exércitos, o altíssimo Deus. Esse Senhor, não fazendo caso de sua grandeza e sublimidade, desceu do céu, onde era adorado e louvado por todas as hierarquias angélicas, escolheu a terra para sua morada; fez-se homem e, sob a desprezível forma humana, permaneceu aqui desconhecido até a morte. Pode acaso imaginar o entendimento humano uma aniquilação maior que esta?
O segundo aniquilamento é a assunção da natureza humana no estado de criança. Pode haver coisa de mais compaixão que este estado? Uma criança não pode manter-se em pé, muito menos andar, e sempre necessita estar nos braços de outrem; não pode alimentar-se nem prover a nenhuma de suas necessidades; precisa sempre de outras mãos; não pode falar e, se algo lhe causa incômodo, não pode manifestá-lo de outro modo senão pelo choro. Passaremos em silêncio tantas outras misérias às quais estão sujeitos, e que todos conhecem.
Nós pudemos suportá-las com facilidade, pois estávamos então privados do uso da razão. Mas Jesus Cristo, com a plenitude de sua sabedoria, sentiu toda a grandeza do peso desse aniquilamento. Ele poderia ter vindo ao mundo já homem formado, mas, para aniquilar-se a si mesmo de modo mais perfeito, não quis vir senão no estado de criança.
O terceiro aniquilamento é a assunção da natureza humana, ocultando todas as perfeições divinas e humanas de que estava dotado. Aqui não te peço outra coisa, minha alma, senão que lances um olhar a este pequeno menino no presépio. Vê, aqui jaz aquele Deus onipotente, que criou do nada o céu e a terra, e, no entanto, não pode dar um passo nem manter-se em pé. Aqui jaz aquele Deus de fortaleza infinita, que, podendo com um só dedo mover toda a imensa máquina do mundo, reduziu-se a um estado de tanta fraqueza, que necessita ser levado nos braços de sua Mãe.
Aqui jaz a sabedoria do Pai, tornada incapaz de proferir uma só palavra. Aqui jaz aquele Deus de infinita riqueza, a quem os príncipes mais temíveis se veem obrigados a pedir socorro, e que não tem outro abrigo senão um imundo estábulo. Oh, que humilhação! Oh, que aniquilamento o do meu Redentor!
Afetos
1. De vergonha. — Oh, Jesus, oh humildíssimo Jesus! Quão diversos são os desejos do meu coração dos vossos! Vós, por afeto de humildade, vos abateis descendo do céu à terra, e eu, por soberba, me exalto, erguendo-me da terra ao céu. Vós vos humilhais até o estado de um pobrezinho menino; eu me encho de orgulho, ansiando sempre pelos postos mais honrosos na estima dos homens. Vós ocultais todas as vossas infinitas excelências para evitar os louvores e honras; eu ponho à vista todo o bem que me parece ter, para procurar a estima e o aplauso: em suma, todos os vossos pensamentos se dirigem à humilhação e ao aniquilamento de Vós mesmo, e todos os meus se inclinam ao meu engrandecimento. Ai, que me vejo obrigado a confessar, oh Jesus meu, que ainda não tenho nada do vosso espírito, e que os meus pensamentos estão tão distantes dos vossos quanto o céu está da terra!
2. De arrependimento. — Bem sei, ó Jesus meu, quanto me enganei! Este não é o caminho por onde Vós haveis ido; mas, desde este momento, me arrependo de todos os desejos e complacências em que consenti, de todas as palavras de vanglória que proferi, de todas as obras que fiz por vaidade. A Vós somente é devida toda a honra e glória, e a Vós somente quero tributá-la, porque sois a origem e a fonte de todo o bem. De agora em diante, não olharei para outra coisa senão para o vosso aniquilamento e humildade, para amá-la e abraçá-la com todo o coração, segundo a norma da vossa doutrina e do vosso exemplo.
Ponto 2
Jesus Cristo, na sua Encarnação, no seu Nascimento e em toda a sua vida, aceitou voluntariamente aniquilar-se e ser desprezado pelos outros.
1. Considera, portanto, primeiramente, como foi recebido Jesus Cristo pelo mundo no seu Nascimento. Pode-se jamais fazer maior afronta a um homem do que ser rejeitado por seus próprios concidadãos e não se encontrar sequer um na sua própria pátria que lhe conceda um abrigo, nem mesmo por uma única noite? Pois isto exatamente aconteceu a Jesus Cristo em Belém: para todos os demais, velhos e jovens, homens e mulheres, nobres e plebeus, houve alojamento; somente Jesus, com sua Mãe, viu-se rejeitado por todos e se viu obrigado a contemplar a primeira luz do dia num estábulo.
Mas como suportou Jesus Cristo esta estranheza? Com tal alegria, que Ele mesmo dispôs que assim acontecesse, porque, de outro modo, se não o tivesse querido, poderia ter enviado adiante exércitos de Anjos para anunciar a sua vinda; poderia, ao entrar, fazer com que os cidadãos se movessem a venerar e adorar com respeito a sua majestade. Nada disso fez, precisamente para ter ocasião de sofrer afrontas.
2. Como foi tratado Jesus Cristo pelo mundo depois de seu nascimento? Ainda muito pior que na sua Natividade. Aparece uma nova estrela no céu; os reis do Oriente vão à Judeia e anunciam o nascimento do Salvador do mundo: agora sim, Jerusalém inteira acorrerá para adorar o Menino Jesus. Oh, quanta ingratidão a deste povo! De tantos milhares de homens, não houve sequer um que desse um só passo para ir ver e adorar Jesus. Pelo contrário, deliberam entre si sobre o modo de se desfazerem bem depressa dEle. Foi decretada a sua morte e marcado o dia para a ímpia execução, e Jesus Cristo, para evitá-la, viu-se obrigado a fugir da sua pátria.
3. Em que conceito teve o mundo a Jesus Cristo quando adulto? Nada menos desfavorável do que o que dele formou em seu nascimento. Jesus residia em Nazaré em companhia de sua amada Mãe, e sua ocupação, em sua casa e fora dela, era aplicar-se ao trabalho e à fadiga para ganhar, com o suor de seu rosto, juntamente com seu pai nutrício, o pão cotidiano.
Quem jamais teria pensado que, sob as aparências de um humilde artesão, pudesse ocultar-se um Deus feito homem? Seu eterno Pai quis manter escondido esse mistério e não permitiu que transparecesse que aquele fosse seu amado Filho. Maria e José também o guardaram em segredo, e o próprio Jesus ocultou sempre aos olhos dos homens os tesouros de sua divindade e humanidade.
E assim aconteceu que todos acreditassem que ele era um jovem filho de um carpinteiro, chamado Jesus, que estava sujeito fielmente à sua Mãe e àquele que lhe fazia as vezes de pai no ofício de artesão. Eis aqui, minha alma, todo o louvor que esse Deus humanado obteve do mundo pelo espaço de trinta anos inteiros. Ou seja, que aquele Senhor que criou o céu e a terra era tido como um carpinteiro aplicado.
Afetos
1. Desprezo de si mesmo. — Ah, que coisa tão odiosa será diante de Vós, ó meu Deus, a honra e a estima dos homens! E de quanta estima e valor será, em vossa presença, o desprezo! Faltava-Vos, acaso, o meio de procurar para Vós as honras, se as tivésseis querido? Em apenas uma hora, poderíeis ter enchido o mundo de milagres e atraído assim todas as admirações dos homens; mas, com tudo isso, não quisestes fazê-los e ocultastes todos os tesouros de vossas perfeições sob a humilde condição de artesão, para fugir, deste modo, de toda estima e honra.
Ó verdade amarguíssima para mim! Vós fugis das honras, e eu fujo dos desprezos; Vós amais viver desconhecido, e eu procuro dar-me a conhecer; Vós vos alegrais nas afrontas, e eu nas honras. Ó Jesus meu! Ai, pobre de mim! Em que péssimo estado me encontro! Se o vosso espírito é o caminho da santidade, o meu espírito é o da perdição; se a vossa humildade é a chave do céu, o meu orgulho é a do inferno.
2. Desejo de humildade. — O que manifesta mais claramente aos meus olhos o meu orgulho é que eu me vejo honrado muito mais do que Vós o fostes, e, mesmo assim, não estou contente: venera-se em mim o estado em que me encontro e, por ele, sou tratado com respeito e reverência; mas quem Vos trataria com veneração quando não mostráveis outra coisa senão a condição de um pobre artesão?
Ai de mim! Eu quero ser estimado mais do que foi o meu Redentor. Bem o reconheço, ó Jesus meu!, e, assim, não sei o que fazer; está muito enraizado em mim esse desejo, que Vos é tão odioso, de honras, e esse horror que tenho aos desprezos, que Vos é tão abominável; tudo há de ceder a este monstro: a vossa honra, o beneplácito de vosso eterno Pai, o progresso na virtude, a santidade da minha alma. Esta é uma chaga que só Vós podeis curar, ó Jesus meu!
Ponto 3
Reflexões sobre a humildade de Jesus Cristo. — Aqui tens, alma minha, um dos pontos mais importantes da vida espiritual; pede a Deus a luz e pondera-o bem.
Primeira reflexão. — Não pode haver nada numa alma que seja tão agradável a Deus como o desprezo e o aniquilamento. Imaginemos que estivéssemos no mundo antes do nascimento de Jesus Cristo e que o eterno Pai, para nos fazer conhecer bem o nosso orgulho, nos tivesse perguntado de que maneira deveria enviar ao mundo o seu Filho.
Que resposta teríamos dado? Teríamos dito, sem dúvida: convém que seu pai adotivo seja um grande monarca, sua mãe, uma grande rainha, e sua habitação um magnífico palácio; que sejam enviados esquadrões de Anjos para anunciar a sua vinda, e que a estes se ordene que vão depressa tributar ao Deus recém-nascido as suas mais humildes adorações; convém, além disso, que se sente sobre um trono muito sublime e ostente a sua majestade e sabedoria e domine no mundo com suprema autoridade. Assim teríamos nós pensado.
Mas o que faz o eterno Pai? — A Mãe do meu diletíssimo e unigênito Filho, diz Ele, há de ser uma pobre donzelinha; sua habitação, um estábulo; sua cama, um pouco de palha; não há de reinar, mas obedecer; há de estar oculto, ocupar-se em um ofício humilde, viver e morrer entre ignomínias e desprezos.
Ah, como somos muito cegos, minha alma! O que entre nós se tem na maior estima e apreço é a honra, o louvor e a glória mundana, e o Pai celestial só estima aqueles que se desprezam e se humilham diante dos homens. Volta os olhos para Jesus: que vês nele senão humilhações, afrontas e maus-tratos? E este foi exatamente aquele sacrifício tão sublime em que tanto se comprazia o eterno Pai e pelo qual se operou a salvação do mundo.
Segunda reflexão. — Não há coisa mais odiosa a Deus do que o apego à glória mundana. Quanto menos se assemelha uma alma a Jesus Cristo, tanto mais odiosa é a seu Pai celestial; pois agora, que semelhança pode ter jamais com Jesus Cristo uma alma que é afeiçoada aos louvores, às honras e à glória mundana?
Os pensamentos de Jesus eram todos de humilhação e aniquilamento de si mesmo; os desejos de Jesus não se dirigiam a outra coisa senão aos desprezos; a alegria e a satisfação de Jesus estavam todas fundadas em muito sofrer pela glória de seu Pai; a vida de Jesus começou e terminou entre afrontas. Aqui se calou... Mas tu, minha alma, coloca-te em paralelo com Jesus e vê se te assemelhas a Ele.
Afetos
1. Acusação de si mesmo e arrependimento. — Eu queria chorar antes que proferir qualquer palavra, ó meu Jesus! Quase estou para dizer que meu coração tem tanta semelhança com o vosso quanto o espírito de um condenado com o de um bem-aventurado: o vosso coração alimenta uma suma aversão a todo louvor, honra e glória humana, e possui ardentíssimos desejos pelos desprezos e afrontas, a fim de dar glória a vosso Pai; e o meu, ao mesmo tempo que experimenta repulsa por estas coisas, sente amor por tudo o que é contrário. Mas o que aumenta ainda mais a minha miséria é que converto em veneno o próprio remédio.
Os meios mais eficazes para extirpar o meu orgulho seriam as afrontas, menosprezos e irrisões; mas, ai de mim, infeliz!, eu amo a minha enfermidade e aborreço o seu remédio: defendo o meu orgulho e lanço para longe de mim a humildade. Haverá ainda para mim algum remédio, ó meu Jesus humildíssimo? Ah! À vossa misericórdia devo, ao menos agora, o conhecer meu estado deplorável e detestá-lo.
Sim, ó meu Jesus! Eu detesto e amaldiçoo todos os pensamentos e desejos vãos, todas as complacências que tive com os louvores e honras e todas as obras que fiz por vanglória. Sim, tudo isto eu detesto e amaldiçoo, e quero que seja maldito para sempre. Vós sois a fonte e a origem de todo o bem; a Vós somente se devem os louvores, honras e bênçãos; eu, que sou pecador, não mereço outra coisa senão a confusão e o desprezo de todos.
2. Propósito e súplica. — Ó meu Jesus! Se eu, tempos atrás, Vos supliquei com fervor que me concedêsseis alguma graça, agora especialmente Vos peço a de uma sincera e profunda humildade. Peço-Vos uma grande coisa, porque a humildade é o caráter do vosso espírito e o daqueles que verdadeiramente Vos seguem, é a chave para entrar em familiaridade Convosco e a porta do paraíso. Uma alma soberba jamais pode ter estreita amizade Convosco, porque é objeto de horror aos vossos olhos. Para obter esta virtude, qualquer preço, por mais custoso que seja, deve parecer-me pouco.
Duas coisas proponho, ó meu Jesus: primeira, não admitir jamais deliberadamente nenhuma complacência nem pensamento vão, nem dizer jamais palavra em meu louvor, e não fazer coisa alguma por vanglória; segunda, aceitar de bom grado e em silêncio os desprezos que me vierem de qualquer parte. Mas, ó meu Jesus! Tanto é fácil prometer, quanto é difícil observar constantemente os propósitos.
Só Vós, ó meu Jesus, podeis ajudar-me; só Vós sois a minha esperança, meu auxílio, minha fortaleza; abraço-me estreitamente Convosco, ó Amor humilhado, desprezado e aniquilado!
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.