Todos as meditações

Oração Preparatória

Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.


Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.


Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.

Prelúdio primeiro — Composição de lugar

Imagina que vês Jesus em uma carpintaria, trabalhando e obedecendo à sua Mãe, a Virgem Santíssima, e a São José.


Prelúdio segundo — Petição

Ó Jesus! Reconheço que todos os males que existem no indivíduo e na sociedade provêm da desobediência e, pelo contrário, todos os bens vêm da obediência; por isso, Vós a ensinastes e inculcastes com tanto empenho e a praticastes com tanto heroísmo até a morte, e morte de cruz. Dai-me graça, Senhor, para que eu Vos imite e seja obediente até a morte.


Ponto 1

Minha alma, Jesus Cristo Se submeteu antes de ti a todas as dificuldades que traz consigo a perfeita obediência, e todas as venceu por amor de seu eterno Pai e por teu amor.


Submeter-se a viver até a morte segundo o juízo e a vontade alheia é algo que está sujeito a muitas e grandíssimas dificuldades; e deves saber, minha alma, que todas essas dificuldades são efeito da divina Providência, e que Jesus Cristo as experimentou antes de ti e por ti. Consideremos isso.


O primeiro obstáculo que a obediência traz consigo são os encargos e os ofícios que ela mesma nos designa, conforme a obrigação e o estado em que te encontras. Talvez imaginemos que nos coube um estado ou ofício demasiado vil para nós; persuadimo-nos de que aqueles que foram preferidos a nós certamente têm menos talento do que possuímos; lisonjeamo-nos de ter tantas qualidades que bastariam para desempenhar qualquer cargo.


Mas o que é isso que ouço, minha alma? Como assim, este ofício é demasiado vil para ti? Lança um olhar a Jesus: quem é Ele? É o Rei dos Reis, o Deus dos exércitos, o Monarca supremo do universo. Que talentos Ele possui? Estava dotado de tamanha sabedoria que podia, sem dificuldade, comunicar o conhecimento de sua divindade a todos os homens; de tanto poder que podia encher o mundo inteiro de milagres; de tanta eloquência que podia mover todos os corações a amá-Lo; de tanta virtude e eficácia que podia converter, sem esforço, todo o mundo.


No entanto, qual é o ofício deste grande Senhor? Oh, milagre sobre todos os milagres! Durante quase trinta anos, ocupou-se numa oficina, na condição de ajudante de um artesão, e nesse vil ofício obedeceu em tudo a São José, que fazia com Ele as vezes de pai. Aqui, portanto, a esta oficina, volta teu olhar; observa bem este divino operário e depois queixa-te, se quiseres, do teu ofício, se é que a vergonha não te impede.


A segunda dificuldade ligada à obediência nasce dos superiores que nos governam. É muito certo que, ao longo de toda a vida, seja no lar doméstico, seja no exercício do ofício, seja na sociedade ou em alguma comunidade, haveremos de encontrar, por vezes, superiores cujo governo nos seja bastante penoso: a um falta o discernimento necessário para conhecer o caráter dos súditos e saber conduzi-los devidamente; a outro, a caridade para agradar-lhes e ter o devido cuidado com eles; este não possui mansidão suficiente para, com a afabilidade de seus modos, conquistar-lhes o coração e tornar-lhes mais suave o jugo da obediência; aquele não será condescendente nem imparcial para com todos e cada um. Quem quiser praticar a verdadeira obediência deve elevar o coração acima de todas essas fraquezas.


Jesus Cristo se apresentou como modelo dela. Olha para Ele, de pé, lá no tribunal de Pilatos. Este profere contra Ele a sentença e O condena à morte. Que Lhe teria custado a Jesus Cristo livrar-se dela? Poderia ter convencido o mundo inteiro, de maneira evidente, da injustiça dessa sentença; poderia precipitar Pilatos do tribunal ao inferno; poderia, como fez em outras ocasiões, tornar-se invisível e assim escapar de suas mãos.


Mas Jesus não se vale de nenhum desses meios. Aceita a sentença de morte da boca de Pilatos como se fosse da boca de seu eterno Pai; obedece prontamente e obedece até a morte, e morte de cruz. Agora, pois, quem haverá que possa queixar-se dos superiores, depois que Jesus Cristo prestou uma obediência tão heroica aos mais injustos juízes da terra?


A terceira dificuldade ligada à obediência provém da natureza e essência da própria obediência. No lar doméstico, e até mesmo na vida em sociedade, ou ainda mais, no seio de uma comunidade, serão ordenadas muitas coisas que não concordam com a nossa opinião e que não nos pareçam nem úteis, nem necessárias, nem sensatas; serão ordenadas coisas pelas quais sentimos uma natural aversão; serão ordenadas muitas outras inteiramente contrárias à nossa vontade e que sejam difíceis por si mesmas, sobretudo se tiverem de continuar por longo tempo ou até a morte.


Mas dize-me, alma minha, como fez Jesus Cristo antes de ti e por teu amor? Crês que seja coisa fácil passar trinta anos numa oficina, obedecendo a qualquer insinuação de um artesão? Crês que não Lhe seria muito penoso peregrinar três anos, passando de um lugar a outro entre contínuos insultos e muitos outros maus-tratos e perseguições, sendo constantemente procurado para Lhe tirarem a vida? Seria coisa agradável para Jesus Cristo ouvir a sentença de morte e morrer ignominiosamente no patíbulo da cruz? Em todas essas coisas, Ele obedeceu sem contradição, sem demora, sem indignação e com perfeitíssima submissão. Ah! Qual é a nossa obediência em comparação com a de Jesus Cristo?


Afetos

1. Humilhação. — De qualquer lado que eu olhe para a minha alma, não consigo encontrar nem a mínima semelhança convosco, que sois o modelo da santidade. Eu deveria despir-me totalmente da minha própria vontade: nos meus superiores, deveria ver-Vos com fé viva, ó meu guia! Estar atento em tudo às suas insinuações, e não apenas receber de má vontade as suas ordens, mas antes executá-las até com alegria.


Assim deveria obedecer, pois assim o requer o estado de filho de família em que me encontro, ou o estado social de cujo corpo sou membro, e assim o exigem os luminosos exemplos que me deixastes. Mas será que me tenho portado assim? Vós sabeis, ó meu Jesus!, quantos pecados cometi a este respeito, eu mesmo não saberia contá-los; quantos com a obstinação do meu entendimento; quantos com a ousadia da minha vontade; quantos com lamentos, murmurações e outras faltas de respeito; e quantos cumprindo o que me foi mandado da pior maneira possível. Não bastariam apenas esses pecados, mesmo que eu não tivesse outros para levar diante do vosso Tribunal?


2. Arrependimento. — Agora reconheço a minha infidelidade, ó meu Jesus, e arrependo-me dela de todo o coração. Oh, quanto pesam aos vossos olhos estes pecados, que até agora me pareciam tão leves! Na autoridade dos meus pais e superiores, eu deveria ter considerado não a autoridade do homem, mas a vossa; por isso, não foi ao homem que ofendi com a minha desobediência, mas à vossa suprema Majestade.


Quantas vezes preferi o meu juízo ao de meus pais e superiores, outras tantas desprezei a vossa infinita sabedoria; quantas vezes, interior ou exteriormente, censurei as ordens de meus pais e superiores, outras tantas vilipendiei as disposições da vossa infinita bondade e amor. "Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos despreza, a Mim despreza" (Lc 10,16). Estas são as vossas próprias palavras, ó meu Jesus!, e por elas compreendo o mal que fiz. Oh, quão cego fui! Oh, quão pouco reconheci estes pecados! Agora os reconheço e me arrependo deles, Jesus meu, de todo o coração.


Ponto 2

Deus quer a obediência. Esta virtude foi exigida de nossos primeiros pais no paraíso; esta virtude da obediência Ele ordena a todos os filhos que a tenham para com seus pais, que estão no lugar de Deus; a impõe aos soldados para com seus chefes; a todos os súditos, para com seus senhores; e a todos os fiéis, para com a Igreja. Quando a obediência é praticada perfeitamente, tudo permanece bem ordenado, tudo é paz e felicidade; mas, se ela falta, tudo se torna desordem, confusão, anarquia e perdição.


Jesus Cristo, com suas palavras e exemplo, quis ensinar esta virtude da obediência. Oh, que vantagens tão admiráveis possui uma alma que, em tudo e por tudo, se guia pela obediência, exceto naquilo que é contrário à lei de Deus, pois, nesse caso, é pecado, e quem ordena o pecado não representa a Deus, mas sim a Satanás. Tu viste, minha alma, a obediência de Jesus Cristo; considera agora as vantagens que esta virtude traz consigo.


Primeira vantagem. Uma alma obediente tem a certeza de fazer, em todo momento, a vontade de Deus. Imaginemos que, por especial disposição de Deus, o Anjo da Guarda, que assiste aos demais invisivelmente, te acompanhasse sempre visivelmente, de dia e de noite, e te indicasse, em todas as circunstâncias, o que Deus quer de ti e o que Lhe desagrada.


Pode haver felicidade maior que esta? Ó minha alma, tens tu viva a fé? Pois fica sabendo que, com a obediência cega, estás sempre e em todo momento segura de fazer a vontade de Deus, com tanta certeza como se to assegurasse um Anjo que, em forma visível, te acompanhasse. Estás tão segura de cumprir a vontade divina quanto esteve Jesus Cristo em Nazaré. Podes estar tão persuadida disso como o estavam os Apóstolos, que recebiam as ordens da própria boca de Jesus Cristo.


Segunda vantagem. Uma alma obediente eleva suas obras a um valor imenso diante de Deus. Não há nada tão excelente no mundo que, em valor, possa igualar-se à obediência: toda obra, por mínima que seja, feita por obediência, torna-se grandíssima diante de Deus; ao contrário, as obras maiores, feitas contra a obediência, perdem todo o seu valor diante de Deus.


Comer e beber moderadamente por obediência é uma obra tão preciosa aos olhos de Deus, que por ela se adquire um mérito totalmente inestimável. Um jejum a pão e água, feito contra a vontade de quem nos governa, ainda que se prolongue por um ano inteiro, não merece o agrado divino; antes, Deus o olha com desprezo.


Pouca coisa é lavar um prato, varrer um cômodo; grandíssima é peregrinar por todo o mundo pregando o Evangelho. Com tudo isso, aquilo feito por obediência Deus o estima muitíssimo, e isto outro, feito contra a obediência, Ele o considera como nada. A única regra para medir a excelência de uma obra é a vontade de Deus: sempre que Deus a queira, ainda que não seja outra coisa senão entretecer um cesto, como faziam os antigos eremitas, é uma obra tão grande que nenhum homem na terra, nem nenhum Anjo no céu, podem realizar maior.


Volta novamente, alma minha, à oficina de São José; olha para Jesus Cristo e sabe que o humilde ofício que exerce é tão nobre que não se pode dizer mais; e por quê? Porque esta é a vontade de seu eterno Pai.


Terceira vantagem. Uma alma obediente alcança infalivelmente, e em pouco tempo, a perfeita santidade, por duas razões: a primeira é a própria essência da santidade e perfeição. Pois, se ser santo não quer dizer outra coisa senão cumprir a vontade de Deus e viver do modo que Ele quer, uma alma obediente, que não faz senão o que Deus quer, quer durma, quer trabalhe, quer medite, quer realize qualquer outra ação, empregando assim todos os momentos do dia e da noite para cumprir o beneplácito divino, necessariamente chegará a uma perfeita santidade, e chegará a ela em pouquíssimo tempo.


A segunda razão é que o próprio Senhor assim o determinou. Porque Deus ama uma alma obediente, leva-a no seio de sua providência, como uma mãe leva ao colo seu terno filho; dirige-a, guia-a e cuida de tudo o que lhe pertence. Assim, ainda que todo o inferno e todo o mundo se conjurem contra ela, e até mesmo que os próprios superiores usem de artifícios para oprimi-la, todos esses esforços serão absolutamente vãos, pois ela goza da proteção de um Deus de sabedoria, de poder e de caridade infinitas, o qual a conduzirá infalivelmente, nesta vida, ao grau de santidade que quer que alcance e, na outra, àquele trono de glória que desde a eternidade lhe destinou.


Afetos

1. Fé. — Assim é: os superiores não governam senão em nome de Jesus Cristo. As ordens que eles me dão devo aceitá-las com gosto, não porque sejam a vontade deles, mas porque são a vontade de Jesus Cristo. As palavras deste Senhor são bem claras, e quem não lhes desse plena fé trataria Jesus Cristo como mentiroso: "Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos despreza, a Mim despreza."


A esta vossa declaração, ó meu Deus, submeto a minha razão. Creio que a vontade dos meus superiores é a vossa vontade; creio que o que eles ordenam, Vós o ordenais. Creio que não posso afastar-me de suas disposições sem afastar-me da vossa providência. Assim o creio, Jesus meu, e creio-o apoiado unicamente na vossa palavra.


2. Esperança e confiança. — Tão viva como é a minha fé, assim é grande a minha confiança, ó Jesus meu. Eu Vos prometi obediência e Vos entreguei, perpétua e inteiramente, minha vontade e liberdade. Vós, como espero, aceitastes este sacrifício e me prometestes querer reger-me e guiar-me por meio da voz dos meus superiores. Abandono-me, pois, ao seio da vossa providência e vivo seguro.


Vós sois sabedoria infinita, e sabeis quais são as disposições dos superiores que mais me convêm. Vós sois bondade infinita, e cuidareis para que meus superiores sempre disponham aquilo que me seja mais proveitoso. Vós sois fidelidade infinita, e me prometestes fazê-lo. Espero, pois, e confio em Vós, Jesus meu. Vós ordenareis as coisas de tal maneira, que os superiores sempre façam aquilo que mais contribua para o meu último fim e, por vossas disposições, eu chegue àquele grau de glória que me haveis preparado desde toda a eternidade no paraíso.


3. Ato de entrega.


Ato de entrega de Santo Inácio

Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo. Vós mo destes; a vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso. Disponde de tudo segundo a vossa inteira vontade. Dai-me o vosso amor e a vossa graça, que isto me basta. Amém.


Pai-Nosso e Ave-Maria.


Conclusão da Meditação

Ação de Graças

Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.


Oferecimento

Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.