XX — Conclusão da 3ª seção e prática das virtudes Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que vês Jesus crucificado no Calvário, modelo de todas as virtudes, e que ouves a voz do Pai celeste que te diz: "Mira e faze segundo o modelo que no monte Calvário te foi proposto." "Olha e faze segundo o modelo que te foi mostrado no monte" Ex 25,40
Prelúdio segundo — Petição
Ó Jesus meu! Com vossa graça tudo poderei, mas sem ela nada, e por isso Vos suplico que me ajudeis de modo que eu Vos possa seguir e imitar.
Ponto 1
Tendo já considerado, alma minha, as excelsas virtudes dos exemplos de Jesus Cristo, vejamos agora de que maneira devemos e podemos imitá-Lo.
1. Tanto se sabe de virtude e perfeição, quanto se possui do espírito de Jesus Cristo. Se desejas saber, alma minha, qual progresso fizeste na perfeição, poderás facilmente conjecturá-lo pela grandeza ou pequenez do espírito de Jesus Cristo que há em ti. Se há pouco desse espírito em ti, pouca perfeição possuirás; se há muito, muito também haverá em ti de verdadeira santidade; se tudo o que se encontra em ti está conforme ao espírito de Jesus Cristo, terás já alcançado a verdadeira e perfeita santidade. Ele é a suma santidade e o modelo de toda ela: quanto maior for tua semelhança com esse modelo, tanto mais santo e perfeito serás.
2. Tanto se possui do espírito de Jesus Cristo, quanto se tem de sua humildade, obediência, mansidão e caridade. É indubitável que não há virtude alguma que não tenha resplandecido em Jesus Cristo com suma perfeição; mas também é muito certo que de nenhuma Ele deu exemplos mais luminosos do que dessas quatro virtudes. E duas delas nos insinuou com tanto ardor e empenho, como se nelas se convertesse toda a substância de seu espírito e o mais sublime de sua santidade. Aprendei de Mim, disse Ele, que sou manso e humilde de coração.
3. Aqui se descobre a causa pela qual são tão poucos os que chegam à santidade. A maior parte dos homens de bem se contenta com aquelas práticas que não incomodam muito à natureza corrompida. Aplicam-se à meditação e oração; desempenham com boa intenção os encargos que lhes foram confiados e cumprem as obrigações de seu estado; exercitam-se em obras de penitência e submetem-se a outros rigores prescritos por seu diretor; mas renunciar à própria vontade, estar dispostos com total indiferença a seguir as ordens dos superiores, extirpar todo broto de vanglória, aceitar de boa vontade os desprezos, reprimir vigorosamente a ira, tratar amistosamente e com sincero afeto os que lhes são contrários, retribuir o mal com o bem, subjugar em tudo o amor-próprio — essas são as práticas que poucos têm espírito para compreender, e só o fazem aqueles que têm um coração heroico.
E porque, desse modo, o coração nunca fica livre de suas inclinações desordenadas, nem adornado daquelas virtudes tão agradáveis a Deus, segue-se daí que também Deus não se comunica muito com esses tais e os deixa viver e morrer em sua mediocridade.
Portanto, se tu, alma minha, desejas de todo coração alcançar a perfeição e a união com Deus, e não descansar até consegui-la, é absolutamente necessário seguir as pegadas que Jesus Cristo deixou impressas e imitar suas virtudes. Eu exporei aqui brevemente a prática ou modo de fazê-lo.
Sobre a obediência
1. Colocar-se na presença de Deus com total indiferença em relação a todas as disposições dos superiores, e não desejar, nem buscar, nem rejeitar coisa alguma.
2. Olhar continuamente para Deus nos superiores em todas as circunstâncias, crendo firmemente que a vontade deles é a vontade de Deus.
3. Receber todas as suas ordens com reverência e cumpri-las com diligência.
Ponto 2
Sobre a humildade
1. Depor diante de Deus todo desejo de honra e de glória mundana, de modo que interiormente não se admita nenhuma estima vã nem complacência de si mesmo, e que exteriormente não se profira palavra, nem se faça coisa alguma por impulso de vanglória.
2. Colocar nas mãos de Deus sua honra e reputação, de tal maneira que o ânimo esteja disposto a ser desprezado a cada instante, se isso for do agrado de Deus.
3. Receber de boa vontade todos os desprezos e humilhações, venham de onde vierem, e suportá-los com prazer, com verdadeiro desprezo de si mesmo.
Ponto 3
Sobre a mansidão e a caridade
1. Ter um coração tão amoroso para com todos, que nunca se admita, de forma consciente e deliberada, qualquer suspeita, juízo, desprezo, ira ou aborrecimento contra o próximo.
2. No exterior, tratar a todos e em todas as circunstâncias com amizade e com sinceridade de afeto.
3. Tolerar em silêncio qualquer ofensa que o próximo nos fizer, e, se possível, retribuir o mal com o bem.
Esses são os pontos, alma minha, que encerram em si todo o espírito de Jesus Cristo e a verdadeira imitação de suas virtudes. Estás tu agora disposta a seguir este modelo e tornar-te imagem viva de Jesus Cristo? Se assim for, prostra-te a seus pés consagrando-te a Ele desta maneira.
Afetos
1. Colóquio com Jesus
Então este é, meu Jesus, o vosso espírito? Aborrecer a honra e amar o desprezo, renunciar à própria vontade e obedecer à dos outros; tratar a todos com amor e suportar em silêncio todas as fraquezas e ofensas; amar a todos de todo o coração e retribuir o mal com o bem? Sim, certamente este é o vosso espírito, meu Jesus; assim procedestes Vós, e assim devo eu também proceder, se quero viver segundo o vosso espírito.
E não apenas este é o vosso espírito, mas também é o único caminho que conduz ao vosso amor e à união Convosco. Vós sois a própria santidade por essência e não quereis fazer morada num coração que não esteja limpo de toda má inclinação e adornado com vossas virtudes. Oh, que amor tão ardente, que familiaridade tão íntima, que união tão estreita teria eu nesta hora Convosco, Jesus meu, se tivesse querido morrer para mim mesmo e viver segundo o vosso espírito! Infeliz de mim! De quantos bens imensos privei a mim mesmo!
2. Ação de graças
Mas graças Vos sejam dadas, e louvores e bênçãos infinitas, ó Jesus meu, meu sumo bem! Ainda não está tudo perdido. Agora conheço, graças à vossa piedade e misericórdia, o vosso espírito e o caminho que me conduz a Vós. Ainda é tempo de purificar meu coração de toda a imundície dos meus afetos perversos; ainda posso chegar a ter uma familiaridade Convosco e experimentar outros efeitos do santo amor; ainda posso chegar a transformar-me em Vós.
Ó Jesus meu! Ó doce esperança minha! Posso ainda alcançar a íntima união Convosco. Ó Jesus meu! Eu, que Vos ofendi tantas vezes; eu, que por tantos anos fechei os ouvidos aos vossos amorosíssimos convites. Ó bondade! Ó misericórdia! Seja, pois, assim; a Vós venho, Jesus meu, quero praticar essas virtudes. Assim seja.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.