XXII — Das três classes de homens Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que vês Jesus Cristo sentado e coroado de espinhos como rei de escárnio; e que Ele te diz: Aprende de mim, que sou manso e humilde de coração, e assim encontrarás descanso para tua alma. Sim, encontrarás descanso neste mundo e depois no outro.
Prelúdio segundo — Petição
Ó meu Jesus e meu Mestre, instruí-me, ensinai-me e iluminai-me; dai-me também docilidade, para que eu possa sair bem aproveitado da vossa escola!
Ponto 1
A primeira classe compreende aqueles que querem aspirar à perfeição e seguir a Jesus Cristo, mas apenas com palavras e não de coração. Se queres conhecer esta classe de homens, vem comigo ao quarto de um enfermo. Eis aqui alguém já meio consumido pelo ardor da febre; a enfermidade se agrava a cada instante e está prestes a morrer.
Nessas circunstâncias, aproxima-se um médico e, depois de tê-lo examinado completamente, diz assim: A doença é muito perigosa, mas, se o enfermo quiser fazer uso dos remédios que eu lhe prescrever, ainda poderá recuperar a saúde.
Mas é justamente isso que não agrada ao enfermo; eu, de todo o coração, diz ele, desejo recuperar a saúde, mas não me obrigueis a tomar remédios, porque esses nem posso nem quero tomá-los de modo algum.
Dize-me agora: esse enfermo tem realmente vontade de curar-se? Deste enfermo do corpo passemos agora ao quarto do enfermo da alma: vê como jaz abandonada no seio de uma tibieza habitual; dizem-lhe que seu mal ainda tem remédio, que não é necessário mais do que resolver-se a fazer com fervor suas orações, agir com espírito de amor e com pura intenção de agradar a Deus, caminhar em Sua presença, unir-se a Ele frequentemente por meio de santos afetos, mortificar-se animosamente e oferecer a Deus cada dia esse sacrifício que Lhe é tão agradável; e que, fazendo isso, ainda está aberto para ela o caminho que conduz à santidade.
Mas, ai! É justamente isso que ela não quer. "Desejo", diz, "de todo o coração alcançar a perfeição; mas colocar em prática esses meios para chegar a ela é, para mim, algo demasiado duro e difícil." Dize-me agora: essa alma tem uma vontade séria de alcançar a perfeição?
Mas, ai dela! Quantos males a ameaçam! Porque:
1. Uma vontade tão tíbia faz com que Deus a deixe cair em pecados graves. Assim se expressou o próprio Senhor em duas parábolas. A primeira é a da terra estéril. Um terreno, diz Ele, que é regado com chuvas frequentes e não dá fruto algum, está prestes a ser amaldiçoado. A segunda é tirada da água morna, que não pode ser retida no estômago sem causar náusea. "Quisera", diz Ele, "que fosses frio ou quente, mas porque és morno, começarei a vomitar-te." Alma minha, quem foi que falou assim? De quem Ele falou?
2. Uma alma que tem uma vontade tão tíbia, permite Deus que venha finalmente a se arruinar. Também declara o Senhor essa verdade com duas parábolas. A primeira é tirada de uma árvore plantada num campo, na qual, não tendo encontrado senão folhas, Ele a amaldiçoou com estas palavras significativas: "Nunca mais darás fruto algum." A segunda é tirada de uma árvore de um jardim que, não tendo dado fruto, foi condenada ao machado, sendo dada ao hortelão a ordem: "Corta esta árvore. Para que ocupará inutilmente a terra?" Repito minha pergunta: quem disse isso, alma minha? De quem Ele disse isso?
Afetos
1. Temor. — Que temor e espanto me surpreendem, meu Deus, ao considerar estas verdades, que saíram da vossa boca! Eu ainda posso me condenar. Eu, que fui chamado por Deus à fé e à perfeição! Eu, a quem Deus distinguiu com tantas graças! Eu, que fui escolhido por Deus para uma glória eminente no céu! Sim, eu posso me condenar, e apenas por minha tibieza. Oh, tibieza! Oh, detestável tibieza! Quão grande mal é preciso dizer que és, quando podes causar tanta náusea no coração do misericordiosíssimo Deus, a ponto de obrigá-Lo a lançar-me para fora de Sua boca!
2. Arrependimento. — Tende ainda um pouco de paciência comigo, ó meu Jesus! Eu detesto e abomino de todo o coração todas as minhas negligências e o abuso que fiz de todas as graças e meios que generosamente me haveis concedido. Até agora, passei a vida sem ter nenhum cuidado nem pela glória do vosso santíssimo nome, nem pela salvação da minha alma. Vós, por um efeito da vossa misericórdia, me iluminastes neste dia para conhecer minha malícia; eu a detesto novamente, a abomino, e resolvo seriamente querer, daqui em diante, ser bom e perfeito, como Vós me estais pedindo.
Ponto 2
A segunda classe é formada por aqueles que têm uma vontade verdadeira de aspirar à perfeição, mas que não é universal nem magnânima. Voltemos aos enfermos.
Vê ali, alma minha, outro enfermo muito diferente do primeiro: ele deseja recuperar a saúde, e para obtê-la está também pronto a servir-se dos remédios; mas, não querendo que se use com ele nem o ferro, nem o fogo, nem outros medicamentos desagradáveis semelhantes, não quer, por conseguinte, servir-se também de todos os que são necessários. Que se deverá dizer deste enfermo? É verdade que ele tem boa vontade, mas não forte, não universal, não magnânima.
Semelhante à disposição deste enfermo é também a disposição em que se encontram muitas pessoas espirituais. Elas desejam adquirir a perfeição, e para obtê-la estão também prontas a valer-se de alguns meios, mas não de todos. Tolerar por muitos anos desolações interiores e graves tentações, sofrer humilhações e desprezos sem ter dado ocasião alguma para isso, e outras coisas repugnantes à natureza corrompida, parece a tais almas um peso demasiado grande para seus ombros.
O que se dirá dessas almas? Dir-se-á que têm boa vontade, mas semelhante à do enfermo que não quer sujeitar-se a todo gênero de cura que lhe seja necessária. Mas de uma vontade tão pela metade, o que se seguirá? Nota-o bem, alma minha, e grava-o profundamente em teu coração.
Sabe, pois, que uma alma nessa disposição terá sempre uma vida desconsolada. Faltando a santa indiferença da vontade e a inteira resignação ao querer divino sem nenhuma reserva, não morrerão jamais nela as más inclinações; o orgulho e a vanglória, o capricho e o apego à própria vontade e ao próprio juízo, o desregramento da língua, a ira, a melancolia e o trato áspero com o próximo estarão, depois de muitos e muitos anos de leitura espiritual, oração mental, frequência aos sacramentos e obras de misericórdia, tão vivos como quando começou a carreira da virtude.
Antes, irão crescendo com os anos e se desenvolverão à semelhança de uma árvore erguida, que a cada ano adquire sempre mais altura e robustez. Para uma alma assim, tornar-se-á cada dia mais pesado o fardo da obediência a seus superiores e cada vez mais intoleráveis os desprezos; sua conversação será cada vez mais livre e desagradável, e seu trato com o próximo, mais descortês e enfadonho.
Que paz e que consolo poderá jamais abrigar-se num coração tão mal disposto? Uma inclinação não mortificada é para uma alma o que uma áspide viva é no corpo de um homem, o qual descansa enquanto a áspide está adormecida e não o morde nem o envenena; mas, no instante em que a áspide desperta, morde e atormenta o infeliz.
Não de outro modo uma tal alma gozará de paz e quietude enquanto as paixões não se ressentirem; mas, se estas despertam, seja com uma ofensa que lhe façam, seja com um desprezo que receba, ou com uma coisa pouco agradável que lhe ordenem, oh, que tumulto e que tormento ela terá que sofrer!
Uma alma assim pode comparar-se à pederneira, que de si mesma é fria e suave, mas basta feri-la com o aço para que no mesmo instante lance faíscas de fogo. É também semelhante essa alma a um tanque com o fundo sujo, que, assim que o revolvem, turva a água, e ela já não é tão clara e formosa como parecia. E, no entanto, somos tão cegos que não vemos a origem da nossa miséria e, podendo facilmente descobri-la em nosso coração, voltamo-nos para qualquer outra parte para não nos depararmos com ela.
Uma alma semelhante passará sua vida sem fazer nenhum progresso na perfeição. O próprio Deus é quem assim se expressou, e não há que esperar que Ele desminta Sua palavra. "Quem não renuncia a todas as coisas não pode ser Meu discípulo." E quer dizer: aquele que não renuncia a todas as criaturas que aprisionam o coração e não se abandona totalmente às Minhas disposições, sem nenhuma reserva, nunca poderá chegar ao Meu amor, nem a tornar-se uma só coisa Comigo. E por quê? Escuta as razões disso, alma minha.
1. Deus é sabedoria infinita. Está em Seu poder conceder aquelas graças particulares que são necessárias para adquirir a perfeição. Ora, Ele estabeleceu não concedê-las a uma alma que não se entrega totalmente à Sua Majestade sem reserva. Poder-se-ia acaso censurar essa conduta?
2. Deus é alteza infinita. Pertence-Lhe por direito que Lhe seja dado todo o coração com todos os seus afetos. Jamais será possível que Ele ceda de Seu direito, nem que admita à Sua união uma alma que não Lhe se entregue sem reservas.
Afetos
1. Confissão. — Este enfermo é uma viva imagem da minha alma, ó Jesus meu! Ele quer recuperar a saúde, mas sem esforço, sem sofrimentos e sem tomar remédios desagradáveis. Tal é pontualmente a disposição da minha alma. Quisera ter humildade perfeita, mas sem desprezos; obediência perfeita, mas sem ordens penosas; caridade e mansidão perfeitas, mas sem suportar maus tratos; em suma, quisera ser santo, mas sem padecer.
Não é isso opor-se diretamente à vontade do Pai celeste, à doutrina e ao exemplo de Jesus Cristo, às disposições e inspirações internas do Espírito Santo? Oh, e quão insensato sou! Antes de mim não houve um só, nem haverá tampouco depois, que tenha chegado a ser santo sem padecer e sem seguir os passos de Jesus Cristo.
É necessário, absolutamente, padecer, morrer para mim mesmo e aniquilar-me, se quero adquirir a perfeição. Sim, esta é vossa doutrina, ó meu Jesus, este é o caminho que conduz à santidade; quero, pois, padecer Convosco e padecer até que desapareçam do meu coração todas as desordens e estejam mortificadas todas as suas perversas inclinações.
2. Propósito. — E por que não? Serei eu tão estúpido a ponto de querer livrar-me de uma cruz menor para carregar outra maior, sem nenhum proveito? Ah, meu Deus, iluminai-me e fazei-me conhecer e ver o que até agora não vi nem conheci! Um pouco de soberba causa no coração maior inquietação e perturbação do que poderiam causar os atos da mais profunda humildade. Um breve acesso de cólera excita no coração um tumulto muito maior do que aquele que provocam os atos da mais heroica mansidão. Uma leve repugnância da vontade atormenta mais o coração do que o aperto da mais exata obediência.
Vamos, pois, já que necessariamente é preciso padecer, seja pela virtude ou pelo vício, e não há como escapar do sofrimento, quero padecer pela virtude, quero padecer pelo céu, quero padecer por Vós, ó Jesus meu!
Ponto 3
A terceira classe é composta por aqueles que têm uma vontade séria e magnânima de aspirar à perfeição, quero dizer, que estão prontos e dispostos, não só a executar tudo o que Deus quer, mas também a padecer tudo o que Ele dispõe para adquirir a perfeição. As vantagens que a alma deve prometer a si mesma neste estado são as seguintes:
1. Uma alma semelhante chega infalivelmente à perfeição. A medida com que Deus se comunica ao homem é exatamente a mesma com que o homem se dá a Deus. Logo, entregando-se a alma, neste estado de que tratamos, inteiramente e sem reservas a Deus, de modo que esteja pronta a fazer e padecer tudo o que Lhe aprouver, também Deus, por Sua parte, se comunica total e sem reserva à alma e a eleva em muito breve tempo a essa perfeição.
2. A alma assim disposta chega certamente à união com Deus. A união e a íntima familiaridade com Deus é o prêmio que está prometido à caridade perfeita. "Se alguém Me ama", diz o divino Redentor, "Meu Pai o amará, e Eu e Meu Pai o visitaremos e faremos nele nossa morada." Mas quem é aquele que tem a caridade perfeita, à qual está vinculada a promessa de uma graça tão eminente? É, sem dúvida, aquele que se entrega a Deus inteiramente.
3. Uma alma semelhante obtém de Deus infalivelmente muitas outras graças muito sublimes. Se Deus é infinitamente generoso, não deixará de derramar abundantemente Suas graças, e as derramará precisamente sobre o meu coração, que se entrega inteiramente a Ele. Essas graças consistem numa dulcíssima quietude, paz e gozo do coração; numa terníssima devoção e afeto para com Deus, e em outros dons que são próprios do Espírito Santo. Este é aquele ditosíssimo "cem por um" que prometeu Jesus Cristo aos que, por Seu amor, negam-se a si mesmos e se despojam de tudo.
Afetos
1. Temor. — Oh, Deus meu, quão generoso e misericordioso sois para comigo! É um puro efeito da vossa graça que eu conheça agora o caminho que conduz à santidade; que eu saiba com certeza que posso chegar a ela, contanto que me abandone inteiramente em vossas mãos. Oh, que bondade! Oh, que misericórdia! Oh, que graça! Mas essas mesmas graças me fazem tremer, oh, Deus meu! A quem muito foi dado — são palavras vossas —, muito também lhe será pedido; e muito deverá restituir aquele a quem muito se confiou.
Oh, que desgraça seria a minha, se justamente esta superabundância de graça, que deveria levar-me a um grau altíssimo de glória no céu, me precipitasse no profundo do inferno! É certo que para muitas almas não há estado intermediário, mas ou serão elevadas a um altíssimo posto no paraíso, ou cairão com mais profunda ruína no abismo eterno. Poderia eu ser uma dessas? Não o sei. Oh, pensamento espantosíssimo! Não o sei!
2. Propósito. — Cuidarei, pois, com tempo dos meus interesses, e começarei a caminhar por aquela carreira que Vós, ó meu Jesus, me fizestes conhecer neste dia. Sim, neste instante eu me abandono totalmente às vossas disposições; uma só graça Vos peço: que torneis minha alma digna do vosso amor e que me permitais chegar à íntima união Convosco, e todo o mais o entrego à vossa santíssima vontade.
Tudo o que me acontecer de adverso o olharei como disposição da vossa paternal providência, e o abraçarei com perfeita submissão como meio de minha santificação. Meu Jesus, conservai em mim esta vontade.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.