Todos as meditações

Oração Preparatória

Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.


Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.


Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.

Prelúdio primeiro — Composição de lugar

Imagina, ó minha alma, que estás vendo Jesus no Horto das Oliveiras, em Getsêmani, triste, angustiado, posto em profunda agonia e suando sangue.


Prelúdio segundo — Petição

Ó meu Jesus, dai-me constância, silêncio e paciência para sofrer, conforme à vontade de Deus, todas as penas que Vos fordes servido enviar-me.


Ponto 1

Jesus Cristo padeceu antes de nós todas as penas interiores que se encontram no caminho da perfeição.


Figura-te vivamente, alma minha, que vês no Horto das Oliveiras o teu divino Redentor, e esforça-te por penetrar até o íntimo de Seu Coração e compreender aquelas terribilíssimas penas pelas quais Ele foi oprimido. Mas, nisso, tem em conta que a Divindade não prestou nenhum alívio à Sua santíssima Humanidade, exatamente como a alma de um eleito que está no céu não presta alívio ao corpo que deixou para apodrecer no sepulcro, porque Jesus padeceu da mesma maneira que teria padecido se fosse puro homem, como nós somos. Isto posto, começa.


A primeira pena de Jesus Cristo foi uma tristeza imensa. Duas foram as causas dela. A primeira foi o Seu ardentíssimo amor. Nunca houve mãe alguma tão afetuosa que amasse a seu único filho com tanta ternura como Jesus Cristo amava a todos e a cada um dos homens em particular. A segunda foi a Sua infinita ciência. Sabia o Senhor que, não obstante a Sua paixão, a maior parte dos homens viria a perecer eternamente. Daí se derivou nEle uma tristeza tal, que mesmo que Lhe faltassem as demais penas, esta só teria sido suficiente para causar-Lhe a morte.


Para conceber alguma ideia disso, imagina, alma minha, uma mãe que, tendo deixado alguns de seus filhinhos, aos quais amava ternissimamente, brincando no campo, ao voltar os vê todos despedaçados por uma fera que havia saído de um bosque vizinho, e feito neles um horrível estrago, espalhando por aqui e por ali seus ternos membros descarnados e feitos em pedaços. Poderá jamais compreender-se suficientemente a dor dessa terna mãe à vista de seus filhos tão amados, mortos assim tão desgraçadamente?


Entra agora, alma minha, no Coração de Jesus e vê se pode encontrar-se dor semelhante à Sua, ao ver a ruína de tantas almas compradas com o derramamento de todo o Seu preciosíssimo Sangue, e perdidas irremediavelmente por toda a eternidade no inferno.


A segunda pena interior de Jesus Cristo foi o temor. Não há coisa que oprima mais cruelmente o coração de um homem do que o temor da morte próxima. Não poucas vezes aconteceu que, ao ser anunciada essa morte, mesmo a pessoas jovens e de constituição muito robusta, em uma só noite tenham embranquecido como os anciãos mais decrépitos. Pois então, que impressão não devia causar no Coração de Jesus o temor de Sua morte iminente, que Ele previa visivelmente com todas aquelas terribilíssimas circunstâncias que a tornaram tão amarga?


A terceira pena interior de Jesus Cristo foi o combate interior que Ele teve. A natureza e a graça uniram-se juntas para suscitar no Coração de Jesus esse combate. A natureza, tanto pelo horror da morte, como pela amargura que sentia diante da ingratidão dos homens, tornava-Lhe insuportável a paixão e, por isso, voltou-se ao Seu Pai com aquelas palavras: Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. A graça Lhe exigia o grande sacrifício, e assim O fez acrescentar: Pai, não se faça a Minha vontade, mas a Tua. Mas, quem explicará a violência dessa luta interna que Ele sustentou? Basta saber que foi tal, que nem Sua santíssima Humanidade pôde resistir, sendo obrigada a expelir por todos os Seus poros um copioso suor de sangue vivo.


A quarta pena interior de Jesus Cristo foi Sua mortal agonia. O estado mais crítico e mais tormentoso para o homem é, certamente, o da agonia. Imagina, alma minha, que vês um moribundo. Um suor frio escorre por sua testa, causado pelo conflito interior que o desconcerta; as mãos e os pés estão gelados e rígidos; ele só consegue respirar com grandíssimo esforço; o coração treme e palpita e uma angústia se segue à outra, todas tão contínuas e apressadas. Só de vê-lo já se sente compaixão.


Considera agora tu, alma minha, teu Jesus no Horto das Oliveiras, reduzido por Suas penas interiores ao estado agonizante, e não há dúvida de que teria morrido, se um Anjo, que foi enviado do céu, não O tivesse confortado naquele momento, a fim de que pudesse consumar Seu sacrifício.


Afetos

1. Vergonha. — Ó Jesus meu, quão grandes são os vossos padecimentos, e quão grande é a vossa fortaleza em meio a eles! Estais imerso num mar de amargura, de angústia e de tristeza; tédios, terrores, aflições, desolações sem alívio e agonias mortais são as ondas que agitam o vosso Coração, e, no entanto, em meio a essa horrível tempestade, vossa constância se mostra invencível. Sim, continuais a orar e ainda prolongais vossa oração. Conformais vossa vontade à do eterno Pai; não recuais diante das penas, e nem mesmo recusais a morte de cruz.


Oh! Isso sim é amar de verdade; isso é verdadeiramente ser fiel a Deus; isso é cumprir perfeitamente o Seu divino beneplácito. Agora pois, comparada com o vosso padecimento, qual é o meu, ó Jesus aflito? Ai, que o meu padecimento, comparado com o vosso, é bem leve! E, no entanto, qualquer adversidade, por pequena que seja, basta para me fazer abandonar o bem começado. Tédio e tristeza na oração, falta de mortificação, inconstância nos bons propósitos, dispersão de espírito, pusilanimidade, desconfiança — tais são os desgraçados efeitos das penas com que Vós me brindais para me provar e dar-me ocasião de merecer. Quanto não deveria eu me confundir e encher de vergonha na vossa presença! Vós, que sois a própria inocência, Vos sujeitais às penas; e eu, que sou pecador, não quero senão consolações!


2. Propósito. — Que vergonha não é esta aos olhos de toda a corte celestial! Jesus está aflito até a morte sem ter nenhum pecado, e eu quero ter consolações até a morte depois de tantos pecados! Reconheço minha loucura, ó Jesus meu, e a detesto. Já não me queixarei nunca mais das minhas penas interiores. A desolação que Jesus padeceu por amor a mim, quero eu também padecê-la por amor a Ele. A mim me basta agradá-Lo. A Ele somente quero buscar. A Ele somente quero amar, tanto nas trevas como nas luzes; tanto nas aflições como nas consolações. Assim o resolvo, ó meu Jesus! Assim o farei com a vossa graça.


Ponto 2

O estado de desolação é muito mais vantajoso para nós do que o da consolação. Quão tranquila poderias viver, alma minha, entre as trevas e as desolações, se conhecesses a vantagem que a desolação traz consigo! Pelas verdades seguintes poderás formar o verdadeiro conceito.


Primeira verdade. — O estado de desolação é mais apropriado para oferecer a Deus um sacrifício aceitável do que o estado de consolação. Oh, quanto nos enganamos a nós mesmos, até mesmo nas coisas espirituais, alma minha! Se porventura se goza um pouco de quietude interior, se se experimenta no coração um pouco mais de devoção terna, se os olhos derramam algumas doces lágrimas, considera-se feliz o dia em que isso acontece. Mas, oh, quanto é sem comparação mais estimável um dia de desolação!


Chamas feliz ao dia em que Deus te deu a graça de te convidar à Sua mesa, de te dar uma amostra de Suas doçuras; é uma generosidade toda dEle, na qual tu não tens parte alguma. Ah, quantos há que, no tempo das consolações, se mostram fiéis a Deus, mas quão poucos se mostram assim também no tempo da desolação!


Ver-se privado de toda luz e vigor, sentir em si a rebelião das paixões alteradas, estar acometido por toda parte de todo gênero de tentações e, não obstante isso, perseverar com fidelidade no silêncio, na oração, no recolhimento, na mortificação e em todas as demais práticas virtuosas — esse é o sacrifício que é mais aceito a Deus, e a oblação que Sua Majestade contempla com os olhos da mais terna complacência.


Segunda verdade. — O estado de desolação conduz a alma ao perfeito amor de Deus, com mais segurança do que o estado da consolação. Amar a Deus perfeitamente não é outra coisa senão buscar única e puramente o Seu beneplácito, e fora disso não se importar com mais nada, nem na terra nem no céu. Aquele que chega a este estado entra imediatamente em posse do mais perfeito amor de Deus e torna-se perfeito e santo diante de Sua divina presença.


Mas, para chegar até aqui, o caminho mais seguro que se pode seguir é o estado de desolação, porque, ao se ver privada de todo consolo exterior e ao ser-lhe retirada por Deus toda doçura interior, a alma fiel fica como crucificada e pouco a pouco morre para si mesma e para todas as criaturas. Por isso, não encontrando nenhuma satisfação em outra coisa que não seja o divino beneplácito, nele repousa, e nele encontra o perfeito amor divino.


Terceira verdade. — O estado de desolação, mais do que o de consolo, conduz a alma com maior segurança e rapidez à íntima união com Deus. Saiba, ó minha alma, que assim como o fogo purifica o ouro e, ao eliminar toda a escória, o deixa belo e reluzente, do mesmo modo o estado de desolação purifica a alma: consome nela todo afeto desordenado que não se refere a Deus, tornando-a rapidamente agradável a Ele e dispondo-a proximamente para a íntima união com o Sumo Bem.


Ilumina-a com Sua luz celestial e inflama-a com Seu santo amor. Acontece com a alma o que se dá com um aposento: só é iluminado e aquecido pelo sol quando se lhe tira o véu que impedia a entrada de seus raios. Mas não se pode dizer o mesmo do estado de consolações, pois este se harmoniza facilmente com o amor-próprio. E entre mil almas, dificilmente uma só chegará à união com Deus enquanto permanecer nesse estado. Ora, quanto mais desejável se torna, então, o estado da desolação!


Afetos

1. Oblação. — Que farei eu, então? Vejo a Jesus no estado de desolação, angustiado até a morte. Compreendo que esse estado é imensamente proveitoso para mim, pois é ele que me conduz à união com Deus. Por que, então, resisto a entrar nele?


Ah, não. Neste momento, prostro-me de joelhos aos vossos santíssimos pés, ó meu Jesus, e me consagro inteiramente ao vosso divino beneplácito. Meu coração está pronto a ser privado de toda luz, de todo consolo, de toda satisfação, e a sofrer trevas, abandonos, tristezas, tentações e tudo aquilo que mais Vos aprouver, ó meu Deus!


Doravante, meu único consolo será o cumprimento do vosso divino beneplácito; minha única alegria, meu único alívio, será estar privado por Vós e Convosco de todo consolo e descanso, sabendo que assim se realiza em mim a vossa santíssima vontade.


2. Súplica para obter a fortaleza. — Mas é aqui, ó meu Jesus, que me vejo na necessidade de levantar para Vós as mãos, os olhos e o coração, suplicando o socorro de vossa dulcíssima misericórdia. Não buscar alívio nas criaturas e permanecer fiel a Vós; ter o entendimento obscurecido por densas trevas, a vontade angustiada por áridas aflições, e o coração afligido por contínuas desolações — e ainda assim não esfriar na fé; suportar os assaltos das mais horríveis tentações, sentir a mente despedaçada por pensamentos espantosos — e não desanimar; experimentar interiormente amarguras, ânsias, rebeliões e o desencadeamento de todas as paixões — e mesmo assim manter-se constante no vosso serviço divino.


Essa é uma virtude incomparável, que encerra em si a verdadeira abnegação de si mesmo, o total desprendimento de todas as criaturas, a verdadeira fidelidade, a pura caridade e a prova mais segura da união com Deus. Mas para alcançar uma empresa tão magnânima, é necessária uma graça portentosa e eficaz do céu. Por isso, volto-me para Vós com todas as minhas forças, ó meu Jesus! Ajudai-me, Senhor.


Pai-Nosso e Ave-Maria.


Conclusão da Meditação

Ação de Graças

Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.


Oferecimento

Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.