XXIX — Da Ressurreição de Jesus Cristo Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Advertência. — Para entender bem o fim que é próprio desta quinta seção, convém lembrar toda a ordem com que estão distribuídos os mesmos exercícios. No princípio, meditamos sobre nosso último fim, que é amar a Deus perfeitamente nesta vida e gozá-Lo depois na outra; e resolvemo-nos a querer seguir isso a todo custo.
Para conseguir isso, é necessário em primeiro lugar que choremos nossos pecados, extirpemos nossas más inclinações e conservemos imaculado nosso coração; e isso se obtém com as meditações da primeira e segunda seção. É necessário, além disso, que imitemos nosso Senhor Jesus Cristo e adornemos nossas almas com aquelas virtudes que Ele nos ensinou, com Sua doutrina e exemplos, e isso se consegue com as meditações da terceira seção.
Mas como não é possível exercitar essas virtudes sem vencer grandes dificuldades e sem morrer para si mesmo, propõe-se na quarta seção a consideração da paixão e morte de nosso divino Salvador para facilitar isso. Depois que a alma fizer tudo isso e tiver chegado a morrer completamente para si mesma, então entrará no perfeito amor de Deus, no qual consiste nosso último fim na terra. E esse perfeito amor de Deus será o tema das meditações a serem realizadas nesta quinta seção.
A introdução a esta será a meditação da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de que, com a consideração de tanta bem-aventurança, desprezemos as coisas temporais, nos afeiçoemos aos sofrimentos, nos firmemos mais nos propósitos feitos e nos habilitemos para entrar na perfeita amizade e comunicação com Deus.
Nota editorial: Recorda, portanto, os principais propósitos que recolheste até aqui: fugir do pecado, evitar as ocasiões de queda, seguir mais de perto Jesus Cristo, praticar suas virtudes e unir-te a Ele também nas penas. A Ressurreição vem agora confirmar esses propósitos com esperança e alegria.
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que vês Jesus Cristo ressuscitado, belíssimo, glorioso e triunfante e que ouves a voz de São Paulo, que diz: "Se padecemos com Cristo, com Ele seremos glorificados." Rm 8,17
Prelúdio segundo — Petição
Dai-me, Senhor, gozo e alegria para acompanhar-Vos, e virtude para imitar-Vos na paciência com que sofrestes as penas e trabalhos, a fim de participar das glórias.
Ponto 1
Quão grande e atroz foi a amargura da paixão de Jesus Cristo, tanto foi alegria e glória o triunfo de Sua Ressurreição.
Quatro foram as principais amarguras que experimentou Jesus Cristo em Sua paixão: 1. dores muito terríveis em Seu corpo; 2. extrema aflição na alma; 3. ofensas inauditas em Sua honra; 4. uma incrível malevolência de Seus inimigos. Agora pondera, alma minha, as bem-aventuranças em que se transformaram estas amarguras.
1. Jesus ressuscitou com uma admirável beleza em Seu corpo. Para formar alguma ideia dessa beleza, reflete, alma minha, em primeiro lugar, que se o corpo glorificado de qualquer escolhido fosse colocado para fazer as vezes do sol, ele emitiria tal luz que todo o mundo ficaria iluminado com uma clareza incomparavelmente maior que a daquele planeta tão luminoso.
Em segundo lugar, considera que se Deus reunisse em um corpo apenas as belezas de todos os escolhidos juntos, tantas belezas juntas desapareceriam imediatamente diante da beleza do único corpo de Jesus Cristo; e, no entanto, esse é aquele corpo que três dias antes foi alvo da crueldade e da barbárie, e que não parecia senão corpo de leproso, feito uma chaga.
2. Jesus ressuscitou com uma imensa alegria em Sua alma. Para compreender essa alegria, reflete, minha alma, que assim como a amargura que experimentou a alma de Jesus no Horto de Getsêmani foi tal que, se tivesse sido distribuída entre todos os corações dos homens, teria sido suficiente para dar a todos a morte, assim a alegria que experimentou em Sua Ressurreição foi tal que, se tivesse sido comunicada a quantos homens há no mundo, teria sido suficiente para tirar a vida de todos, em razão da doçura em que seus corações teriam sido inundados e submersos. Tanto foi o gozo de que se viu penetrada.
3. Jesus Cristo ressuscitou infinitamente glorificado em Sua honra. Ah, que mudança é esta, alma minha! Jesus, neste momento, forma a glória dos Anjos, que descem do céu para se extasiar com a glória de Sua Ressurreição. Ele é a alegria dos antigos Pais, e todos se prostram de joelhos para honrá-Lo e magnificá-Lo como seu Redentor. Ele é o juiz dos vivos e dos mortos; assim, os escolhidos como os condenados O adorarão com reverência no dia do juízo universal. Ele é a coroa dos predestinados, e não haverá nenhum entre eles que não O bendiga incessantemente por toda uma eternidade.
Sim, esta é a brilhante perspectiva com que, neste dia, se deixa ver Jesus, aquele Jesus que três dias atrás foi zombado como mentecapto por Herodes, escarnecido pelos soldados como rei de cena, pregado em uma cruz como malfeitor pelos hebreus.
4. Jesus ressuscita com o prazer de um amor universal. Deixo de lado aquele amor em que ardiam por Jesus neste dia todos os espíritos bem-aventurados; omito também o amor com que os Pais do limbo se perderam em Seu santíssimo Coração, para se recrear nEle; falo apenas do amor de que estão penetrados todos os moradores do céu. Ali, por toda a eternidade, não haverá um só momento em que não pensem em Jesus; nem um ponto em que não se derretam elogiando e bendizendo a Jesus; nem um instante em que não amem ternissimamente a Jesus.
Afetos
1. Complacência pela glória de Jesus. — Agora acabou o sofrimento, ó meu Jesus! Amanheceu finalmente o dia da glória, e o vosso santíssimo corpo, feito o ornamento de todo o paraíso, brilha mais do que todas as estrelas do firmamento. A vossa alma está submersa na alegria; o vosso santíssimo Coração é um mar de prazeres; o vosso nome é adorado no céu e na terra. Vós sois a alegria de todos os escolhidos; afetuosamente desejado pelos viadores na terra e pelos compreensores no céu.
Eu me comprazo extremamente desta vossa glória e bem-aventurança e me alegro por ela mais que se fosse minha. Eu me congratulo convosco, com todo o afeto do meu coração. Regozijai-Vos, bem-aventurado, nesta vossa coroa e gozai-a eternamente. Justíssimo é que seja remunerado com tanta glória Aquele que com tanta fortaleza quis morrer pela glória de Seu eterno Pai.
2. Desejo de uma bem-aventurança semelhante. — Ó, que felicidade seria a minha se algum dia eu tivesse a sorte de ressuscitar assim também! Quem poderia algum dia explicar minha alegria ao contemplar a beleza do rosto de Jesus com meus próprios olhos, e ouvir Suas vozes amorosas, amá-Lo e ser por Ele amado; abraçar-me com Ele, e ser por Ele abraçado; estar sempre em Sua companhia, e não ser separado dela por toda a eternidade! Hora bem-aventurada! Tu és o alvo de todos os meus desejos, tu o fim de todos os afetos do meu coração!
Ponto 2
Santas considerações e resoluções que devem ser tiradas desta meditação.
Depois de ter meditado bem a Ressurreição de Jesus Cristo, volta, alma minha, o olhar sobre ti mesma e aplica-te a ponderar as seguintes considerações:
Primeira consideração. — Assim como é certo que Jesus Cristo ressuscitou gloriosamente do sepulcro, também é certo que tu ressuscitarás um dia gloriosamente, se imitares Seu exemplo. Depois de Jesus ter sofrido em Sua carne, diz o Apóstolo, vós deveis também armar-vos com sentimentos semelhantes, sabendo que Aquele que ressuscitou a Jesus Cristo também vos ressuscitará com Jesus Cristo.
Ó doutrina cheia de consolo! Ó palavras capazes de desterrar do coração toda tristeza! Com estes teus olhos, com os quais atualmente vês na terra, verás um dia no paraíso! Com estas tuas mãos abraçarás um dia Jesus! Com estes teus ouvidos ouvirás um dia as melodias dos Anjos! Com esta tua boca provarás um dia as delícias celestiais! Com estes teus pés passearás um dia sobre as estrelas!
Segunda consideração. — Assim como é certo que Jesus Cristo, por Sua cruz e paixão, obteve a glória da Ressurreição, também é certo que não há meio melhor de alcançar a mesma glória do que a cruz e a tribulação. Assim novamente ensina o Apóstolo, são palavras verdadeiras: Se morremos com Jesus Cristo, se padecemos com Ele, reinaremos também com Ele. Ó meu Deus! Que impressão me causarão então as aflições e as contradições passadas? Ó bem-aventuradas dores!, direi eu então. Ó benditas aflições que me elevastes a tanta glória!
Terceira consideração. — Quanto mais conforme eu estiver nos padecimentos, tanto mais parecido serei com Ele na glória de Sua Ressurreição. Ouve novamente o Apóstolo dos gentios, dizendo: Assim como sois companheiros de Jesus na tribulação, assim o sereis na consolação. Nota bem, alma minha, estas duas palavras: assim como, assim; porque significam que quanto mais se padecer com Jesus na terra, tanto mais se gozará com Ele no céu na ressurreição, e quanto mais graves forem os trabalhos sofridos com Jesus na terra, tanto mais esplêndida será a glória que se logrará na ressurreição.
À vista de tal verdade, com que aspecto se te apresentam, alma minha, as adversidades, os desprezos, as desolações e as penas? Não são elas umas disposições as mais amorosas de Deus, os meios mais eficazes para a santidade, a mais bela herança de Jesus Cristo, o penhor mais certo da ressurreição e de sua eterna e imortal glória? Sim, elas realmente o são, porque assim ensinou Jesus Cristo.
E tu te afligirás e te chamarás infeliz se vierem sobre ti? Ó, que cegueira seria a tua! Tu deverias, na verdade, elevar as mãos ao céu e bendizer a divina misericórdia, se nisso fosse generoso contigo. E se os próprios homens se levantassem contra ti e te carregassem de opróbrios e injúrias, e te maltratassem das maneiras mais estranhas, sabe, alma minha, que eles seriam precisamente aqueles meios pelos quais Deus cumpriria em ti Seus amorosos desígnios.
Seriam eles que te colocariam em mãos os mais belos meios para tua santificação; seriam eles que te tornariam conforme ao teu Senhor crucificado; seriam eles que aumentariam tua glória no céu e te lavrariam aquela coroa que levarás eternamente na cabeça. Sim, sem a menor dúvida, eles seriam exatamente: assim também ensina Jesus Cristo. E a estes eu os olhei como inimigos! Ai! Ai, perverso amor-próprio! Quantas belezas e excelentíssimas verdades me ocultaste até agora e quanto me afastaste e fizeste desviar do caminho da santidade e do seguimento de Jesus Cristo!
Afetos
1. Fé. — É assim: Jesus vive, ressuscitou da morte; Ele entrou em Sua glória, e atualmente goza no corpo e na alma um mar de prazeres. Sim, não há como duvidar; assim eu creio, ó meu Jesus! E eu creio assim por ter sido Vós quem o disse, que sois verdade por essência. Mas: eu também viverei eternamente se seguir a Jesus. Eu triunfarei sobre a morte e entrarei na Jerusalém celestial, e estes olhos verão a Jesus, meu Redentor; sim, tenho certeza disso, e eu creio, ó meu Jesus!, porque Vós, verdade eterna, o revelastes. Além disso, ainda mais: eu, naquele momento, conseguirei o prêmio de todos os sofrimentos que tenha padecido. Por uma dor momentânea, terei uma bem-aventurança eterna; por uma zombaria, uma glória eterna; por uma breve tristeza, alegrias eternas.
Sim, não há dúvida alguma; e eu creio porque Vós, verdade infalível, atestastes isso. Ó fé santa, que verdades tão estupendas me descobres e quanto consolo dás ao meu coração!
2. Arrependimento. — Mas esta esplendidíssima luz de fé, ó, que objeto de amargura não apresenta à minha vista! Se é verdade que Deus dá um prêmio particular por cada mortificação, incomodidade ou dor que se sofra, quantos desses prêmios não me fez perder minha impaciência e meu amor-próprio? Se é verdade que Deus, após a ressurreição, recompensará todas as humilhações, injúrias e afrontas que tenham sido suportadas com paciência por Seu amor com uma coroa de glória particular, quantas coroas não perdi por minha soberba e vaidade?
Se é verdade que Deus por cada ato de resignação nas tentações e desolações interiores concederá uma particular bem-aventurança, de quantas dessas bem-aventuranças não me privei por minha pusilanimidade e preguiça? E eu desperdicei todos esses bens! E por quê? Ó, quanto deveria me encher de amargura essa perda! Quantas e quão amargas lágrimas eu deveria derramar! Mas consola-te, alma minha, porque sabendo como Jesus entrou em Sua glória, também poderás entrar seguindo-O e reparar essa perda. Prostrado a vossos pés, ó meu Jesus! Assim eu proponho fazer.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.