XXV — Das penas exteriores de Jesus Cristo Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina, minha alma, que vês Jesus Cristo cravado na cruz, pouco antes de expirar, e que O ouves dizer: "Ó vós todos que passais por este lugar, atentai e vede se há dor semelhante à Minha!"
Prelúdio segundo — Petição
Ó meu Jesus, fazei com que eu medite sempre e tenha sempre presentes as vossas dores.
Ponto 1
Nunca padeceremos nós tanto em nosso corpo quanto padeceu Jesus Cristo no Seu.
Para conceber alguma ideia da atrocidade das dores que Jesus Cristo padeceu em Sua Paixão, considera atentamente, minha alma, as seguintes circunstâncias:
Primeira circunstância. — As dores de Jesus Cristo foram universais, sem excetuar nenhuma parte de Seu corpo. Dirige teu olhar a Jesus Cristo, minha alma, e observa um por um todos os Seus membros, e diz-me se podes encontrar sequer um que esteja isento de uma grande dor. Vê Suas faces inchadas e arroxeadas pelas bofetadas; a boca atormentada pela sede e amargurada com o fel; os cabelos e a barba cruelmente arrancados; os olhos cobertos de sangue; a cabeça perfurada com agudíssimos espinhos; Suas carnes, os nervos, as costas, o peito, o ventre, os lados, por dentro e por fora, despedaçados sem piedade; a pele rasgada e rompida; as veias abertas vertendo sangue; as artérias feridas; os músculos descobertos, as carnes dilaceradas a ponto de se verem os ossos; os pés e as mãos atravessados com crudelíssimos cravos e todo aquele santíssimo corpo feito uma chaga.
Vendo-O muito tempo antes, Isaías O descreveu assim: "Não tinha figura nem aspecto de homem, e era como um verdadeiro varão de dores; verdadeiramente levou sobre Si nossas enfermidades e fraquezas, pelo que foi reputado como leproso, abandonado pela mão de Deus e humilhado."
Segunda circunstância. — As dores de Jesus foram extremamente cruéis e, sem nenhuma comparação, maiores do que todas as que jamais pôde padecer qualquer homem. Isso por duas razões: a primeira, por causa da suavidade e delicadeza de Seu santíssimo corpo, pois, como ensina São Boaventura, teve um corpo tão terno e delicado, tão fino e sensível, por ser obra do Espírito Santo, que uma dor nas plantas de Seus divinos pés Lhe era mais sensível do que aos demais homens uma dor na pupila dos olhos.
A segunda, porque foi atormentado nos lugares mais sensíveis. Que espasmo não deve ter experimentado quando Lhe cravaram na cabeça uma coroa de longos e agudíssimos espinhos, os quais Lhe atravessaram não só a pele, mas também o crânio e as têmporas, fazendo jorrar sangue que escorria fio a fio pelas faces e pelos olhos! Que dor não deve ter sentido quando, a golpes de martelo, Lhe traspassaram os pés e as mãos com duríssimos cravos, dilacerando-Lhe as carnes, rompendo-Lhe as veias e atravessando-Lhe os nervos!
Que martírio deve ter sido o Seu ao ficar suspenso entre o céu e a terra, Seu corpo chagado pendente dos cravos no lenho infame, onde mover-se para aliviar a dor de um membro era aumentar intoleravelmente a dor dos outros!
Terceira circunstância. — As dores de Jesus foram sem nenhum alívio. Já havia estado algumas horas pendente da cruz, já havia derramado Seu sangue, e deste não Lhe restavam mais que algumas gotas nas veias, quando, atormentado de uma sede insaciável e insuportável, pediu de beber. Pode haver alívio mais mesquinho que uma taça de água a um Deus feito homem, que desfalece e está morrendo em um mar de angústias? Pois, no entanto, nem isso Lhe foi concedido; mas em seu lugar Lhe apresentaram vinagre misturado com fel para atormentá-Lo ainda mais, e a fim de que Sua última angústia fosse sem alívio, como o haviam sido todas as demais penas que havia sofrido.
Afetos
1. Ação de graças. — Não sei o que dizer, nem o que pensar ao ver tal tragédia. Ó Jesus meu! Se Vós tivésseis cometido tantos pecados como eu cometi, e se vosso Pai tivesse sido tão ofendido por Vós como o foi por mim, ou se tivésseis merecido o inferno como eu mereci, teríeis podido padecer mais e fazer uma penitência mais rigorosa do que a que fizestes?
Ah! Vós Vos submetestes a penas tão duras, não por pecados que tivésseis cometido, porque sendo a própria santidade por essência, não podíeis pecar, mas por meus pecados. Sim, a fé me diz que Jesus, por meus pecados, suou sangue no horto; por meus pecados, foi todo o Seu corpo despedaçado a açoites; por meus pecados, foi escarnecido como louco; por meus pecados, teve de morrer, e morrer como malfeitor numa cruz.
Ó Jesus! Ó amantíssimo Jesus! Que bondade e que misericórdia é a vossa! Quisera ter mil línguas para poder Vos louvar e bendizer quanto desejo. Eu Vos rendo infinitas graças por todas as gotas de sangue que derramastes por meu amor; por todas as bofetadas e golpes que sofrestes por mim; por todos os opróbrios, ofensas e escárnios que padecestes por meu amor; por todas as penas e dores que suportastes na cruz por mim.
2. Propósito. — Mas isso não basta. Jesus não se contenta em rogar por mim; quis também padecer por mim. Daí devo concluir que é necessário padecer; portanto, quero corresponder ao amor de Jesus para comigo. Reconheço quão devido é isso e de quanta absoluta justiça, e desejo cumpri-lo. Por isso, desde agora Vos ofereço um sacrifício do qual não quero jamais me retratar.
1. Vós sabeis todas aquelas dores, enfermidades e demais adversidades que vosso eterno Pai decretou enviar-me; eu, desde este momento, adoro e aceito humildemente todas essas disposições, e desejo que se cumpram em mim perfeitissimamente.
2. É-Vos igualmente conhecido, Jesus meu, o modo e o tempo em que o eterno Pai determinou chamar-me a Si deste mundo por meio da morte; eu adoro também profundamente este decreto e me submeto a ele com toda a minha alma. Quero padecer e morrer, e quero padecer e morrer por puro amor, como Vós padecestes e morrestes por mim.
Ponto 2
Quão excessivas e cruéis foram as penas de Jesus Cristo, outro tanto foi insigne e estupenda Sua paciência. As circunstâncias pelas quais poderás conceber, alma minha, alguma ideia disso, são estas:
Primeira circunstância. — Jesus tolerou Suas penas em silêncio e sem queixas. O Espírito Santo, falando de Jesus Cristo, O compara a um cordeirinho, porque assim como este inocente animal se deixa tosquiar e conduzir ao matadouro sem balir nem oferecer a mínima resistência, assim Jesus se deixou maltratar até o extremo e conduzir à cruz, sem resistir e nem sequer se queixar. Sim, era açoitado e tinha todo o Seu corpo despedaçado, e calava; era coroado com agudíssimos espinhos, e calava; consumido até o extremo e sumamente debilitado, colocavam-Lhe uma cruz pesadíssima sobre os ombros, e calava.
Haviam-Lhe trespassado os pés e as mãos com cravos, e estava crucificado com inaudita barbárie em um patíbulo, e calava. "Emudeci, e não abri a boca", diz Ele mesmo pelo Real Profeta. Assim se comportou Jesus em Suas extremadas dores. E eu, como me comporto?
Segunda circunstância. — Jesus suportou Suas penas com inalterável mansidão. Nunca houve homem no mundo que tivesse razão tão justa para se irritar como Jesus teve na cruz. Os motivos foram: primeiro, o ódio universal. Estava diante dEle uma multidão inumerável de pessoas de todas as classes, e Ele penetrava o fundo de seus corações. Mas o que descobria neles? Nada além de ódio, rancor, má vontade; alegria, prazer e gozo com Sua dor e Sua morte; desejos e ânsias de que Seu nome fosse extirpado do mundo e apagado da memória de todos.
Segundo, as irrisões, as blasfêmias, os insultos com que os escribas e fariseus, balançando a cabeça, O escarneciam com amarguíssimos sarcasmos, dizendo: "Eis aí, eis aí o que destrói o templo e o reedifica em três dias!" "Salvou a outros, e não pode salvar-se a Si mesmo!" "Se é Filho de Deus, desça da cruz!"
A essas pungentes afrontas que Lhe eram lançadas no auge de Suas dores, não teria Jesus Cristo justa razão para se indignar? Mas não; Ele sofre tudo com inteira resignação, e com um afeto de caridade prodigiosa, que esquece Suas próprias ofensas e todas as Suas dores, e apenas se mostra solícito com a salvação de Seus próprios inimigos. E por isso já dissera antes às mulheres que Lhe demonstravam compaixão: "Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim, mas chorai por vós mesmas e por vossos filhos".
Terceira circunstância. — Jesus suportou Suas penas com fortaleza e com desejo de padecer mais. Jesus está pendente da cruz; Suas forças já estão esgotadas, Suas penas chegaram ao auge, Seu corpo, desangrado, já não pode resistir mais ao poder da morte. Pois bem, que faz Ele? Alma minha, lança um olhar ao Seu interior e admira Sua estupenda fortaleza! Os dois amores com que está inflamado acenderam nEle dois desejos.
Ama a Seu Pai celestial, e daí Lhe nasce o desejo de viver ainda mais tempo para poder padecer ainda mais por Seu amor. Ama-nos também a nós, os homens, e daí provém o desejar viver mais tempo para poder padecer mais prolongadamente por nosso amor. E isso precisamente quis significar quando manifestou Sua sede, e quando, voltando-se ao Pai, disse: Pai, por que Me abandonastes? Como se quisesse dizer: "Ó Pai! Por que não Me dais forças para viver mais e para padecer mais por vosso amor e por amor dos homens?"
Afetos
1. Vergonha. — Que temor não deveria me invadir, e de quanta confusão não deveria me cobrir, ó Jesus meu, ao contemplar vosso corpo pendente da cruz! Ah! Em que pecaste tu, ó venerável cabeça do meu Redentor, para ser perfurada com tantos espinhos? Em que, belíssimos olhos, para serem tão afundados e tão manchados de sangue? Em que, pés e mãos onipotentes, para serem trespassados com crudelíssimos cravos? Em que, ó Coração amantíssimo, para ser transpassado com a lança cruel?
Ah! Jesus é inocente, e tudo quanto nEle resplandece é flor de inocência. E por que, então, contra o inocente tantos e tão cruéis tormentos? Desgraçado de mim! Ai! Que Jesus padece, não por pecados Seus, mas pelos meus; meus pecados O reduziram a estado tão lastimoso; meus pecados O pregaram na cruz; meus pecados O conduziram à morte.
2. Confissão e propósito. — E eu, réu de gravíssimos pecados, não queria padecer; e, para cúmulo de malícia, nem sequer me persuado de que tantas vezes o mereci. Mas sejam dados eternos louvores a Vós, ó Jesus meu, que neste momento estou convencido disso: não há pena nem tormento no inferno que eu não tenha merecido por meus pecados. Tudo o que até agora padeci, tudo o que ainda tiver que padecer, não é suficiente nem para apagar um só dos meus muitos pecados, nem para Vos dar por eles a mínima satisfação.
Oh, quão injustas são minhas queixas em meio aos sofrimentos! Por muito que padeça, sempre padecerei muito menos do que mereci. Não é, pois, muito justo que eu me entregue inteiramente à vossa santíssima vontade, e que no meio das dores Vos louve e bendiga por todas as vossas amorosíssimas disposições a meu respeito? Sim, é justíssimo, e assim resolvo fazer daqui em diante.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.