XXVI — Das ignomínias e penas que tolerou Jesus Cristo Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que vês Jesus nos tribunais e palácios de Anás, Caifás, Herodes e Pilatos, e admira-te da paciência com que sofreu as ignomínias mais atrozes e as penas mais sensíveis.
Prelúdio segundo — Petição
Ó Jesus meu! Dai-me a graça de que necessito para sofrer com silêncio e humildade as ignomínias e penas que tenho de passar neste mundo.
Ponto 1
Não houve nem haverá jamais homem algum que tenha padecido ou venha a padecer tantas injúrias e ignomínias como padeceu Jesus Cristo.
Não é possível reunir em uma só meditação todas as ignomínias às quais se sujeitou Jesus Cristo. Portanto, ponderaremos somente algumas, e só estas, alma minha, serão suficientes para te envergonhar do teu orgulho.
A primeira espécie de injúrias foram as falsas imputações e calúnias. Não há coisa que fira mais profundamente um homem de coração nobre e sincero do que imputar-lhe delitos falsos, que ele nem sequer sonhou em cometer. Agora entra, alma minha, no tribunal de Anás e Caifás, e escuta quais atrocíssimas maldades se imputam a Jesus.
As testemunhas já estão prevenidas e instruídas, e eis aqui as acusações que Lhe fazem: dizem que é um homem dado ao vinho; que gosta de comer com publicanos e pecadores; que está dominado por uma soberba intolerável, chegando até a proclamar-se por uma Divindade; que quer destruir o templo de Jerusalém; que espalha uma doutrina ímpia e introduz no povo a idolatria; que é um feiticeiro, e opera milagres com a ajuda do demônio, com quem tem secreta aliança; que é um sedutor, e astutamente maquina a ruína do povo escolhido.
De tais delitos culparam a Jesus nos tribunais dos sumos sacerdotes e no de Pilatos; e estes se divulgavam entre o povo, e se espalhavam pelos bairros e praças de Jerusalém.
A segunda espécie de injúrias foram os escárnios e zombarias. Não bastava à impiedade acusar Jesus de blasfemo e facínora; era necessário também declará-Lo insensato e mentecapto. Eis que está diante de Herodes; e porque às perguntas reiteradas que Lhe fazem nada responde, mas se cala por efeito de Sua infinita sabedoria, imediatamente o rei e os cortesãos O declaram louco, e como tal é coberto com uma vestidura branca, e entre zombarias e irrisões da plebe insolente é conduzido a Pilatos pelas ruas mais públicas.
A essa afronta sucede outra, não saberia dizer se mais feroz ou mais contumeliosa, no palácio do presidente romano. Os soldados deste, instigados pelos hebreus, decidem fazer de Jesus uma diversão que só o demônio poderia ter sugerido. Lançaram-Lhe sobre os ombros um trapo de púrpura, depois puseram uma cana em Sua mão, e tecendo uma coroa de agudas espinhas, cravaram-na em Sua cabeça para zombar dEle como de um rei de farsa.
E não parou aí o jogo, pois para escarnecê-Lo ainda mais, dobravam diante dEle o joelho como se fosse um ato de homenagem; mas em seguida Lhe arrojavam ao rosto asquerosas salivas e O cobriam de bofetadas. E enquanto o céu se assombra diante dessa cena, e os Anjos choram amargamente, uma multidão inumerável para para ver tão insólito espetáculo e, com as festas que faz dele e com seus aplausos, aumenta a Jesus as injúrias e os escárnios.
A terceira espécie de injúrias feitas a Jesus foi Sua condenação à morte, tão cheia de opróbrio. Pilatos, para livrar Jesus, cuja inocência conhecia perfeitamente, apresentou dois condenados ao povo que se achava reunido debaixo da galeria de seu palácio, para que escolhesse um, a quem deveria ser concedida a graça de perdoar a vida em atenção à Páscoa: Jesus e Barrabás.
Quem acreditaria nisso? A escolha, contra a esperança de Pilatos, recaiu sobre Barrabás, e todo o povo gritou: "Que este fique livre e Jesus seja condenado." Mas como é possível que se queira que Jesus seja condenado e Barrabás absolvido? Quem é esse? Um facínora, um sedicioso, um homicida. E é a esse que se deve absolver, e condenar a Jesus? Sim, assim o queremos: viva Barrabás e morra Jesus. Que mal fez Jesus? Mas se Jesus deve morrer, a que morte deverá ser sentenciado? Seria ainda muita severidade fazê-Lo morrer ao golpe de uma espada; não, Ele deve morrer de uma morte a mais dolorosa e, ao mesmo tempo, a mais ignominiosa: deve morrer cravado numa cruz, como costumam morrer os malfeitores mais infames e perversos; e deve morrer entre dois assassinos, a fim de que todos saibam que excedeu a todos em maldade.
Assim o quis o povo, e assim o sentenciou Pilatos. Assim foi Jesus conduzido à morte de cruz, entre a alegria festiva dos sumos sacerdotes, entre as ignominiosas blasfêmias dos escribas e fariseus, e entre as mais mordazes irrisões de um imenso povo.
Então se cumpriu pontualmente a predição do Profeta, que em pessoa de Jesus Cristo declarou: "Eu sou um verme, não um homem; o ludíbrio dos homens e o desprezo da plebe." Detém-te aqui um pouco, alma minha, e responde a algumas perguntas que vou te fazer.
Pergunto em primeiro lugar: o eterno Pai deu uma sentença injusta quando destinou para Seu Filho unigênito tantas e tão surpreendentes ignomínias? Não, alma minha, certamente que não. Jesus havia se feito fiador por nossos pecados, e nossos pecados exigiam tal paga.
Pergunto em segundo lugar: faria o eterno Pai alguma injustiça contigo permitindo contra ti tantas ignomínias e afrontas quantas Ele quis que sofresse Seu Filho unigênito? Não, porque tanto quanto isso merece o pecado, e bem o compreendes pelas afrontas e ignomínias feitas a Jesus, e bem te acusa tua consciência de que és réu de muitos pecados.
Pergunto em terceiro lugar: Se crês que o pecado merece tais ignomínias, sabendo tu que pecaste, não será intolerável tua soberba se recusas a suportar sequer um leve desprezo? E que ingratidão seria a tua se não quisesses sofrer, por amor a Jesus, uma leve ofensa, depois que Ele sofreu tantas e tão extraordinárias por teu amor?
Afetos
1. Admiração da humildade de Jesus. — Ó Jesus, amado Redentor meu! Que milagres tão estupendos não propõe a vossa humildade aos meus olhos! Vós, que sois infinita sabedoria e governais o céu e a terra, sois proclamado mentecapto e louco; Vós, zombado como rei de teatro, e cuspido no rosto como o homem mais vil do universo! Vós, santidade infinita, de onde procedem todos os dons e graças celestiais, sois tido por hipócrita e beberrão! Vós, acusado como sedutor e blasfemo, chamado de samaritano e feiticeiro, e reputado como pior que um homicida e um assassino!
E tudo isso suportais, e suportais com um silêncio portentoso, sem a mínima queixa, com uma mansidão incomparável, sem rancor, e com uma resignação plena, sem qualquer lamento das disposições do céu. Oh humildade! Oh silêncio do meu Jesus! Este sim é um sacrifício que por si só é suficiente para dar ao eterno Pai uma complacência infinita, e para insinuar a humildade em todos os corações dos homens.
2. Confusão. — Mas essa vossa humildade, ó Jesus meu, quão abominável faz aos vossos olhos a minha soberba! Eu, um homenzinho vilíssimo, com uma inteligência cheia de ignorância e trevas, quero ser tido por sábio e prudente, enquanto Jesus, que é a própria Sabedoria, é vestido como louco e conduzido pelas ruas públicas para ser o escárnio de todo o povo! Eu, pecador, quero ser considerado inocente, quando o inocente Jesus é tido por sedutor, blasfemo e feiticeiro!
Eu, pobre de toda virtude e cheio de vícios, pretendo ser preferido a todos, quando Jesus, que é a própria Santidade, é preterido a um Barrabás e condenado à morte em um patíbulo infame entre dois ladrões! Oh, quão odiosa e abominável deve parecer aos olhos do meu Redentor uma soberba tão intolerável! Ó Jesus meu, tende piedade de mim, e concedei-me que eu tenha no entendimento sentimentos totalmente diferentes, e na vontade inclinações completamente contrárias às que tive até aqui!
Ponto 2
Não houve homem no mundo que tenha suportado ignomínias e ultrajes como os suportou Jesus Cristo. O Real Profeta expressou essa humildade verdadeiramente portentosa com que Jesus suportou as ignomínias e os ultrajes com as seguintes palavras: "Tornei-me semelhante a um surdo, que não ouve, e a um mudo, que não abre a boca." "Eu, porém, como surdo, não ouvia; e como mudo, não abria a boca" Sl 37,14
Pondera, minha alma, estas breves palavras e admira a estupenda humildade que se esconde sob este portentoso silêncio.
1. Jesus foi inocente, tão inocente que jamais se pôde atribuir a Ele algo que não fosse reto ou que com razão pudesse ser censurado. As acusações que lançaram contra Ele eram invenções maliciosas dos Seus inimigos. E, se Jesus tivesse desejado falar, bastaria uma só palavra para tornar evidentíssima diante de todos a Sua inocência, silenciar Seus acusadores e cobri-los de vergonha e confusão diante do povo.
2. Jesus era onipotente. Bastaria uma única palavra Sua para fazer cair do céu raios sobre todos os Seus inimigos e lançá-los no abismo. Com apenas uma palavra, Ele poderia ter revelado Sua divindade a todos os homens e feito com que toda Jerusalém O adorasse como o Messias há tanto tempo esperado.
3. Jesus era infinita sabedoria. Ele sabia perfeitamente que Seus inimigos se aproveitariam de Seu silêncio e que não descansariam até vê-Lo morrer num patíbulo, com a mais infame das mortes. Sabia que Sua Mãe Santíssima e os Apóstolos sofreriam imensamente por causa desse Seu silêncio.
Sabia que, ao calar-se, os malvados teriam ocasião de desacreditar os milagres que realizara, de condenar Sua doutrina como erro, e de se enfurecer ainda mais contra a nascente Igreja. Sabia de tudo. E, mesmo assim, motivos tão graves não foram suficientes para arrancar uma palavra sequer de Sua boca em defesa própria. Ele quis calar, e calar até Sua última respiração.
Oh, Jesus! Oh, meu admirável Jesus! Quão estupendo e eloquente é esse vosso silêncio! Quão sublime é essa vossa doutrina! Quão singular é esse vosso exemplo! Mas, ai de nós, quão poucos são os que O imitam! Onde estão as almas que, ao serem afrontadas com ignomínias e ultrajes, sabem calar com Jesus? Talvez se encontrem algumas que suportem outras mortificações e dificuldades, especialmente quando são escolhidas por seu próprio juízo. Mas calar diante das ignomínias, amar as humilhações, não se defender das calúnias... ah, isso pesa demais para a maioria das almas!
E, no entanto, é uma verdade inabalável: o exemplo de Jesus Cristo é o único caminho para a santidade. Quem não O imita nesse caminho será sempre pequeno aos Seus olhos e não terá esperança de alcançar um dia a perfeição.
Afetos
1. Estima e apreço dos desprezos. — Ó quão admirável é a vossa doutrina, Jesus meu! Quanto sobrepuja a toda a sabedoria do século! Vós não vistes nas ignomínias, nos desprezos, nas ofensas, senão coisas dignas de estima, e, podendo com uma só palavra procurar-Vos tantas honras quantos foram os desprezos que recebestes, quisestes preferir estes àquelas; e o vosso Coração, tanto quanto esteve alheio às honras, outro tanto se mostrou desejoso das ignomínias.
Pois, por que não hei de ter eu os mesmos sentimentos que Vós tivestes, e por que não hei de amar o que Vós amastes? Sim, meu Jesus, eu olharei doravante o desprezo como coisa que abate o meu mais feroz inimigo, que é a soberba; que me abre a entrada ao Coração de Jesus; que há de formar a mais bela parte da minha glória no paraíso.
2. Contrição e propósito. — Ó quão cego eu fui no tempo passado, Jesus meu! Eu também desejei poder-Vos amar como Vós sois amado pelos Serafins no céu; e certamente desejei poder-Vos demonstrar o meu amor com a oferenda de algum sacrifício que Vos fosse grato e aceito. E que outro sacrifício podia ser-Vos agradável senão o da própria honra, suportando em silêncio as ignomínias e as afrontas? E por que eu não o fiz assim?
Ah! Que não foi o mais belo momento da minha vida aquele em que o meu coração se achou penetrado de um terno afeto sensível para com Deus, e sentiu derreter-se de amor por Sua infinita bondade; não, mas sim o mais belo instante foi aquele em que as minhas ações foram interpretadas sinistramente e censuradas; e a mais bela ocasião de oferecer a Deus um sacrifício perfeito foi aquela em que me desprezaram e escarneceram solenemente.
Errei, pois, ó meu Jesus! Errei entristecendo-me quando deveria regozijar-me, e fugindo do que deveria buscar, e murmurando quando deveria calar. Que deverei fazer, ó meu Jesus, agora que conheço o meu engano? Exatamente aquilo que Vós fizestes ao aproximar-se a hora das vossas ignomínias. "A fim de que o mundo conheça que Eu amo o Pai, levantai-vos, e vamos" (Jo 14,31). Assim dissestes Vós, entregando-Vos animosamente aos vossos inimigos, dos quais não podíeis esperar outra coisa que maus-tratos e opróbrios.
Assim também eu, quando me sobrevier alguma ocasião de desprezo e de humilhação, me animarei dizendo: "A fim de que o céu conheça que eu amo a Jesus, eia, alma minha, vamos de boa vontade abraçá-los por Seu amor".
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.