Todos as meditações

Oração Preparatória

Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.


Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.


Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.

Prelúdio primeiro — Composição de lugar

Imagina que vês Jesus pregado na cruz em meio às maiores dores, e que O ouves rogar ao Pai em favor daqueles mesmos que O crucificaram.


Prelúdio segundo — Petição

Ó meu Jesus e meu Mestre! Vos suplico a graça, não só de perdoar meus inimigos, mas também de amá-los e fazer-lhes todo o bem.


Ponto 1

O amor de Jesus por Seus inimigos foi um prodígio de amor.


Transporta-te, alma minha, com o pensamento ao Calvário e pondera atentamente o amor de Jesus para com Seus inimigos. Olha-O pendurado por três cravos em um infame patíbulo, todo feito uma chaga, derramando sangue, afogado em um mar de dores e próximo a exalar o último suspiro.


Vê por outro lado a multidão de pessoas de toda idade, sexo, condição e estado, jovens e idosos, nobres e plebeus, hebreus e gentios, escribas e fariseus, senhores do povo e sumos sacerdotes, os quais, em vez de ter compaixão, que apenas alguns poucos manifestam à vista de Suas penas, todos ardem em um ódio irreconciliável e mortal contra Ele; e, ponderando as notabilíssimas circunstâncias desse ódio, considera se foi realmente duro e dificultoso amar uma gente tão bárbara e tão inumana.


A primeira circunstância foi o júbilo e o triunfo de Seus inimigos. Não deves aqui, minha alma, considerar a Jesus como puro homem, mas sim como o que era, homem e Deus juntamente, a cuja vista estavam patentes os corações de todos, e cujos mais ocultos pensamentos penetrava. Estando, pois, agonizando na cruz, que malignidade não descobriu nos corações daqueles bárbaros?


Viu a uns que se regozijavam ao vê-Lo encravado na cruz, e se congratulavam entre si de que finalmente houvesse chegado a hora tão desejada de ver Aquele que tinham por sedutor pendurado no patíbulo; viu que outros aprovavam a sentença pronunciada contra Ele, julgando que era muito justa e que a um malvado e blasfemo não convinha outro suplício senão o da cruz, no meio de dois assassinos.


Viu que estes se mostravam comprazidos e contentes de vê-Lo padecer e de que se Lhe negasse o mais mínimo alívio à Sua sede, e ainda de que se Lhe aumentasse esta, acrescentando-Lhe tormento ao dar-Lhe a beber fel e vinagre; viu que aqueles esperavam com impaciência Sua morte, desejando que Seu nome fosse apagado da memória de todos. Tudo isso viu Jesus, e no coração daqueles mesmos por quem havia descido do céu à terra, sujeitando-se às misérias humanas; viu-o no coração daqueles em cujo favor havia obrado tantos milagres, e pelos quais morria. E, à vista disso, de que caráter devia ser Seu amor para com tal classe de gente?


A segunda circunstância foram as zombarias e insultos de Seus inimigos. O compadecer-se de um miserável que está agonizando e é entregue nas mãos de um algoz para ser executado, é um ato de humanidade que não se nega nem ao mais perverso malfeitor. Ao comparecer no tribunal um delinquente, por mais merecedor que seja de morte, observa-se, no entanto, em todos um grande silêncio, e até os corações mais endurecidos lhe dão algumas amostras de piedade e compaixão, e estas são tanto mais visíveis, quanto mais atroz é o suplício ao qual é condenado.


Mas Jesus não foi digno de tanto: quanto mais cruéis foram Suas penas e quanto mais bárbaro foi o suplício, tanto mais mordazes foram as zombarias e as irrisões com que foi insultado por Seus inimigos. "Eia, vamos", diziam alguns, "se te orgulhaste de destruir o templo e reconstruí-lo em três dias, mostra agora teu poder e livra-te a ti mesmo da cruz." Outros replicavam: "se fizeste tanto alarde de ser Filho de Deus e de sempre ter confiado nEle, por que não vem agora livrar-te?"


A terceira circunstância foi a pertinácia de Seus inimigos. Não teria sido difícil para Jesus amar os Seus inimigos, se finalmente tivessem conhecido e detestado sua malignidade; mas a obstinação desses ímpios era grande demais. Os elementos, embora insensíveis, deram testemunho da inocência de Jesus. O céu se cobriu de luto, o sol se obscureceu, as pedras se despedaçaram, o véu do templo se dividiu em duas partes, a terra tremeu e se sacudiu.


Foram eles testemunhas oculares de tais prodígios, mas nem por isso deixaram de maltratá-Lo, e ainda, enfurecendo-se mais e mais contra o Senhor, continuaram a escarnecê-Lo, a amaldiçoá-Lo e a blasfemar contra Ele, não cessando de atormentá-Lo a não ser quando O viram já morto; e mesmo depois de morto, Lhe deram uma lançada.


E, no entanto, Jesus suportou tudo isso com uma paciência heroica; e ainda esquecendo-se de Suas dores e de tantas injúrias que, em situação tão crítica, vomitavam contra Ele em Seu próprio rosto, voltado para o eterno Pai, falou com Ele e assumiu por Sua conta a causa deles, a fim de obter-lhes o perdão de sua impiedade.


E poderá haver amor que se assemelhe a este? Não teria sido difícil para Jesus amar Seus inimigos se tivesse previsto que, ao menos depois de Sua morte, teriam cessado de aborrecê-Lo; mas nem mesmo este consolo pôde ter. Previu que a maior parte deles zombaria de todos aqueles milagres Seus que deveriam ser feitos depois de Sua ressurreição; previu que perseguiriam até a morte Seus Apóstolos, que deveriam anunciar Seu nome; previu que persistiriam em sua pertinácia até a morte e que blasfemariam dEle por toda a eternidade no inferno ainda mais do que os próprios demônios.


Coisa muito dura deveria ser certamente para Jesus amar um povo tão ímpio e protervo; ainda assim, em vez de se enfurecer e pedir vingança por Sua morte tão dolorosa e infame, não deixou de amar até mesmo os mais delinquentes e de desejar que Seu divino Sangue desse vida àqueles que tão barbaramente O haviam derramado para Lhe dar a morte.


Entra aqui, alma minha, dentro de ti mesma e vê quem são aqueles a quem sentes dificuldade de amar. Seriam acaso falsas testemunhas que te acusaram falsamente diante de um tribunal? São tigres que te fizeram beber em algumas ocasiões fel e vinagre de tristezas, trabalhos, privações e injustiças? São assassinos que estão sedentos do teu sangue e querem cravar-te numa cruz como a Jesus?


Ah! Haverá algum que talvez te olhe com o rosto torcido; haverá algum que deixará escapar de sua boca uma palavra pouco considerada: e terás dificuldade em amar a estes, ao ver que Jesus ainda ama os mais impiedosos algozes? Compara detidamente teus inimigos com os de Jesus: quem és tu e quem é Jesus.


Afetos

1. Vergonha. — Ó Jesus! Ó amantíssimo Jesus! Eu admiro a vossa magnânima caridade e, à vista dela, conheço quão débil é a minha. Vós conservais em vosso Coração um amor que se mantém firme no meio de todos os ultrajes. Vós, com a vossa vista, enxergais aqueles que há muitos anos abrigam no peito contra Vós um ódio mais que diabólico; aqueles que Vos amaldiçoam e abominam como se fôsseis o maior malfeitor do mundo; aqueles que fizeram gala de reduzir-Vos a tal estado, em que nem sequer podeis ser reconhecido; aqueles que, no meio do mais horrível destroço de Vós, zombam e Vos escarnecem.


Vós os vedes com os vossos próprios olhos, os ouvis com os vossos ouvidos, e Vos é bem conhecido todo o ódio e toda a raiva de seus corações; e tudo isso não basta para esfriar o vosso amor, nem o vosso Coração admite sombra de rancor, nem os vossos lábios proferem uma palavra de queixa, nem as vossas mãos se movem para a vingança. Antes, a todos amais. Vós a todos estreitais em vosso seio, por todos derramais o vosso Sangue preciosíssimo, a nenhum excluís do vosso Coração.


Tão forte e magnânimo como isto é o vosso amor, ó Jesus meu! E o meu? Ai!, que é um amor que não merece este nome, porque qualquer pequena injúria é suficiente para debilitá-lo, e alguma vez chega também a extingui-lo e talvez a convertê-lo em ódio.


2. Arrependimento. — Então eu sou um homem destituído de amor! Oh, quão triste e angustiante é esse pensamento! Eu sou um homem destituído de amor!, e, no entanto, quem sou eu? Eu sou uma alma escolhida entre milhares e milhares para seguir a Jesus. Eu sou uma alma cristã, que há muito tempo medita a cada dia a doutrina e os exemplos de Jesus Cristo, que amou até mesmo aqueles que O crucificaram; e apesar de tudo isso eu sou uma criatura destituída de amor!


E isso depois de tantos anos que se passaram desde que sou cristão, depois de tantas luzes, graças e inspirações interiores, depois de tantos meios e ocasiões! Oh! Quanta razão tenho para detestar minha frieza!


Ponto 2

O amor de Jesus foi um portento de amor, atendidas as circunstâncias em que amou a Seus inimigos.


Até agora consideramos as circunstâncias do ódio, da raiva e da barbárie inaudita que Seus inimigos mostraram com Jesus. Agora pondera, alma minha, as circunstâncias do amor que Jesus lhes mostrou no mesmo tempo de seu furor. A consideração desses dois pontos não duvido que te fornecerá motivos poderosíssimos para admirar este amor tão estupendo.


A primeira circunstância foi o tempo em que orou por aqueles que O crucificaram. Jesus falou a muitos da cruz: a Seu eterno Pai, para entregar-Lhe Seu espírito; à Sua querida Mãe, para confiá-La a Seu discípulo João; a João, para encarregá-lo do cuidado de Sua aflita Mãe; aos circunstantes, para pedir-lhes alívio em Sua extrema sede; mas, por quem se interessa primeiro quando fala?


Ah!, ainda espere a desconsolada Mãe, ceda o fiel discípulo, esqueça-se o próprio interesse; dirijam-se as primeiras palavras ao Seu eterno Pai em favor de Seus inimigos, implorando para eles o perdão: "Pai, perdoai-lhes." Oh, amor! Oh, que prodígio de amor é este!


A segunda circunstância foi a malícia de Seus inimigos, que crescia e aumentava cada vez mais, quanto mais ardente se mostrava o amor de Jesus. Parece que, para obter o perdão de Seus inimigos, Jesus tinha que esperar que antes reconhecessem o grande excesso que haviam cometido, e que, humilhados e compungidos, implorassem piedade e misericórdia. Mas Sua caridade era de outro tempero, a qual não Lhe permitiu esperar arrependimento, mas imediatamente se fez mediadora com o eterno Pai para obter dEle o perdão.


Eu amo, dizia Jesus, e porque amo, intercedo; amo e intercedo neste mesmo momento em que estou ouvindo suas zombarias e blasfêmias, e vejo seu ódio e experimento todos os efeitos de sua raiva e furor. Eu os amo, intercedo por eles, e por eles ofereço todo o Meu sangue. O que dizes tu, alma minha, à vista de um amor tão fino, tão heroico?


A terceira circunstância foi a desculpa que Jesus alegou em Sua oração. Não se pode negar que os judeus cometeram contra Jesus uma injustiça das mais atrozes e execráveis, levando sua sanha até procurarem-Lhe a morte mais cruel e afrontosa. Os milagros que Ele havia realizado, e que eles haviam visto com seus próprios olhos; a inocência de Sua vida, reconhecida até pelo presidente gentil; as mesmas acusações que eles haviam inventado e produzido em juízo, provavam até a evidência sua malignidade.


Não obstante, Jesus roga por eles e em sua defesa alega sua ignorância, dizendo: "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem"; como se quisesse dizer: Meu Pai, eu não digo que não tenham pecado, apenas digo que se pode desculpar sua impiedade: a ignorância tem grande parte nisso, de outro modo nunca Me teriam tratado assim; e por isso Vos rogo, Meu Pai, que os perdoeis como Eu os perdoo e que os ameis como Eu os amo.


Ó prodigioso amor de Jesus para com Seus inimigos, que O levou a amá-los e a amá-los assim! Alma minha, aprende também a amar tu a quem te ofendeu, e se queres fazê-lo, olha para os teus inimigos com aqueles olhos com que Jesus os olhou da cruz, e te será muito fácil.


E o que Jesus descobriu em Seus inimigos que pudesse inclinar Seu Coração a amá-los? Ah!, viu neles a fraqueza da natureza, inclinada ao mal desde seu nascimento; viu neles uma alma preciosíssima, formada à Sua imagem e semelhança e chamada à participação de Sua glória; viu neles as altíssimas disposições de Seu eterno Pai, que exatamente pelas mãos de Seus inimigos Lhe ofereceu o cálice que Lhe havia preparado; viu, finalmente, aquele número exorbitante de pecados, dos quais Ele espontaneamente se havia carregado para dar à divina Justiça a devida satisfação, e que esta os castigava nEle por meio de Seus inimigos: e esses foram os motivos eficacíssimos que O estimularam para rogar com empenho e interpor-se junto de Seu eterno Pai, para obter-lhes o perdão do grande excesso que haviam cometido.


Afetos

1. Arrependimento. — Ah, meu amado Jesus! Agora entendo a verdadeira causa da dificuldade que sempre experimentei em amar aqueles de quem fui ofendido. A causa foi que eu nunca os olhei com aqueles olhos com que Vós olhastes para os vossos inimigos, e esta é também a verdadeira causa do meu mal.


Se eu tivesse sempre olhado para aqueles que me ofendiam como gente por cujas mãos meu Pai celestial me apresentava o cálice que me havia preparado; se eu sempre tivesse olhado para eles como gente de quem a divina Justiça se utilizava para punir meus pecados, ai!, quantos atos perfeitíssimos de caridade eu não teria realizado até este momento, e quão bem se assemelharia o meu coração ao vosso amorosíssimo Coração!


Mas agora, qual é o meu coração e qual é a minha caridade? Ai, meu amado Redentor, deixai-me calar e esconder-me da vossa vista, porque a grande vergonha que sinto me impede de falar e olhar para Vós! Mas, o que me adianta calar e esconder-me de Vós? Melhor é que eu Vos confesse ingenuamente minha insensatez e que Vos implore humildemente o perdão da vossa misericórdia. Ah, meu Jesus! Certamente eu meditei com frequência nos eminentes exemplos do vosso amor, admirei-os, exaltei-os; mas, quando os tomei por matéria de imitação?


2. Propósito e súplica. — Agora bem, eu sempre me comportarei assim, ó Jesus meu? Ah, não! Pela vossa graça experimento em mim outros sentimentos no presente e me parece que meu coração está completamente mudado. Proponho amar de todo o meu coração aqueles que me ofendem; proponho suportar as injúrias com mansidão e em silêncio; e farei um estudo particular de retribuir o bem pelo mal. Assim amou Jesus e assim devo e quero amar também eu.


Mas, como farei isso sem uma luz que ilumine meu entendimento e sem um forte impulso que dê coragem ao meu espírito? A Vós recorro, amado meu crucificado e único mestre do amor; a Vós invoco pela maravilhosa mansidão com que perdoastes aos vossos inimigos; pela afetuosa súplica que fizestes em favor deles, e pelo preciosíssimo Sangue que por eles derramastes.


Concedei-me uma caridade que se estenda a todos os homens: uma caridade que me dê coragem para sofrer e tolerar com paciência todas as coisas, uma caridade que sempre estimule a retribuir o mal com outro tanto bem. Assim seja.


Pai-Nosso e Ave-Maria.


Conclusão da Meditação

Ação de Graças

Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.


Oferecimento

Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.