Todos as meditações

Oração Preparatória

Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.


Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.


Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.

Prelúdio primeiro — Composição de lugar

Imagina que vês Jesus no Calvário, pregado na cruz, e no Tabor transfigurado, e ouves a voz do eterno Pai que diz: Este é Meu querido Filho, em quem tenho todas as Minhas complacências: a Ele deveis ouvir (Mt 17,5).


Prelúdio segundo — Petição

Ó meu Jesus! Peço-Vos graça para cumprir tudo o que Vós nos ensinais com o exemplo e com a palavra.


Ponto 1

Verdades que devem ser lembradas

Eis que, alma minha, chegamos ao ponto mais importante, do qual depende, na vida espiritual, todo o teu bem. Este ponto é que convém caminhar sobre as pegadas que Jesus Cristo deixou impressas, e, fazendo-Lhe fiel companhia, suportar pacientemente desolações e aflições do espírito, dores e trabalhos corporais, ultrajes, injúrias, aversões e perseguições de qualquer parte que venham.


Aquele que não tem ânimo para andar por este caminho nunca encontrará a Deus e muito menos poderá chegar ao Seu puro e perfeito amor, que é o objeto destes Exercícios Espirituais e ao qual deve dirigir-se toda a nossa vida. Considera, pois, com a mais atenta reflexão as seguintes verdades, e resolve-te a entrar de uma vez com coração magnânimo por este caminho com teu Redentor crucificado e a continuar nele enquanto Lhe agradar.


Primeira verdade. — O caminho das penas é o caminho mais nobre que pode levar uma alma. Dois foram os fins pelos quais o unigênito Filho de Deus desceu do céu. O primeiro foi para oferecer a Seu Pai celestial um sacrifício com o qual Lhe prestasse uma honra suprema e que fosse juntamente digno de Sua infinita grandeza e de condigna satisfação pelos pecados do mundo, fazendo ofício de Redentor.


O segundo foi dar ao homem um modelo daquela santidade perfeita à qual deveria aspirar. Qual foi o caminho que Jesus escolheu para alcançar esse duplo fim? Nenhum outro senão o das penas, as quais, começadas desde o primeiro instante de Sua Encarnação no seio de Maria, não terminaram senão com Sua morte. Convém, pois, dizer que este caminho é o mais nobre, ou que Jesus Cristo não deu aos homens um exemplar da mais perfeita santidade.


Segunda verdade. — O caminho das penas é o mais vantajoso que pode percorrer uma alma. Não é possível explicar em poucas palavras os frutos preciosíssimos que se encontram no caminho das penas. Indicarei somente dois. Sempre que Deus quer admitir uma alma à Sua união e fazê-la participante das doçuras de Seu santo amor, exige dela principalmente duas coisas: perfeita pureza de coração e perfeita posse das virtudes. Pois bem, para conseguir essas duas coisas, não pode haver outro caminho mais apropriado do que o das penas.


E quanto à perfeita pureza de coração, parece que não pode haver dúvida de que se obtém por esse caminho, porque, não encontrando nele a alma coisa alguma que a satisfaça, senão Deus apenas e Seu divino beneplácito, pouco a pouco aprende a se desprender de todas as criaturas, a desprezar toda satisfação e consolo criado e a se voltar com todos os afetos de seu coração ao Sumo Bem, no qual somente pode encontrar tudo aquilo que pode satisfazer seus desejos.


Por este mesmo caminho se chega também à posse perfeita das virtudes, porque não podendo a alma praticar seus atos no tempo de suas penas senão praticando um esforço extraordinário e heroico, com o qual triunfa de todas aquelas perversas inclinações que a elas se opõem, as mesmas virtudes vêm a se enraizar mais profundamente no coração e a adquirir novo lastro e perfeição. E é por isso que aquelas almas que são conduzidas pelo caminho das penas chegam mais rápido à íntima união e familiaridade com Deus.


Terceira verdade. — O caminho das penas é o mais seguro que uma alma pode percorrer. Houve almas que, favorecidas por Deus com iluminações muito sublimes no entendimento e com superiores consolos de espírito, pareciam tocar o auge da santidade e levavam uma vida mais angélica do que humana; mas, não estando suficientemente provadas e fundamentadas nas virtudes, especialmente na humildade, se envaideceram com essas graças e, da altura do estado em que se encontravam, precipitaram-se no abismo de toda miséria.


Nada disso deve ser temido por uma alma que anda pelo caminho das penas, sendo este sempre vantajoso e sempre seguro. Porque nele se exercitam as mais perfeitas virtudes, a humildade, a submissão, a mansidão, a caridade, a resignação ao divino beneplácito, e com elas se lança um firme fundamento, sobre o qual se podem estabelecer depois as graças mais grandes e a santidade mais sublime. E esta é a verdadeira imitação de Jesus Cristo e o caminho que nos ensinou com Sua doutrina e exemplo e que nunca falta.


Ponto 2

Práticas

Depois de ter ponderado bem essas verdades, aprende, alma minha, as práticas que é necessário observar no caminho das penas.


Primeira prática. — Imprimir profundamente no espírito, à força de oração, certas máximas e verdades que podem nos animar no tempo das penas. Estas, por exemplo, poderão ser: 1. Jamais poderei padecer quanto merece a aquisição de um Deus, porque embora padecesse todas as penas imagináveis por mil anos, seria nada em comparação com aquele bem. 2. Jamais poderei padecer quanto mereci pelos meus pecados e por muito que padeça nunca será um inferno de penas, que é do que me fiz réu. Estas verdades convém meditar tão frequentemente e com tal atenção, que se nos tornem em tudo familiares e as tenhamos presentes em todas as ocasiões que se nos possam oferecer.


Segunda prática. — Sofrer em silêncio as contradições leves e cotidianas e, desse modo, recuperar o fôlego e estar disposto a suportar outras maiores. Nesses momentos, é conveniente comportar-se dessa maneira: 1. Lembrar-se de algumas dessas máximas. 2. Oferecer a Deus a coisa de que se tratar com pura intenção e com um ato de fervorosa caridade. 3. Observar um perfeito silêncio, sem proferir uma única palavra de queixa, qualquer que seja.


Terceira prática. — Nas grandes e longas adversidades, oferecer-se a Deus como uma hóstia. Para esse efeito é necessário: 1. Começar desde a manhã a resignar-se perfeitamente na vontade de Deus e em todas as Suas divinas disposições, e confirmar durante o dia esta resignação. 2. Oferecer a Deus em todas as horas as penas que se toleram com pureza de intenção e fervor de caridade. 3. Não se queixar nunca das disposições de Deus nem de ninguém. 4. Exercitando estes atos com humilde paciência e com filial confiança em Deus, esperar o tempo que Ele estabeleceu para nos livrar.


Estas são, alma minha, aquelas eminentes virtudes em que consiste a verdadeira imitação de Jesus Cristo, e que abrem caminho à íntima união com Deus. Se tu quiseres praticá-las sem dilação, oferece-te com humilde sentimento ao teu Senhor crucificado e dize-Lhe assim com todo afeto:


Resolução. — Ó Jesus! Ó meu amado Jesus, que espetáculo se apresenta aos meus olhos quando Vos vejo pendurado na cruz! A alegria e a bem-aventurança por essência estão afligidas até a morte. A inocência e santidade infinitas estão condenadas à morte! A Majestade infinita está em um patíbulo acompanhada de dois infames malfeitores. O amor imenso é aborrecido. E tudo isso padecês por mim!


Para mim é esse sangue que corre em riachos de vosso inocentíssimo corpo; para mim essas feridas que Vos abriram; para mim todas as penas, tormentos e ignomínias que haveis padecido. Tudo isso eu creio, ó meu Jesus!, e no entanto, ó detestável maldade do meu coração!, e no entanto, ainda não Vos amo. Ah! Conheço muito bem a causa funesta disso; tudo provém do fato de que eu me amo muito a mim mesmo, não quero fazer nenhuma violência a mim mesmo, nem quero padecer; assim, amando-me deste modo não sobra em meu coração amor por Vós.


Alma minha, e tu persistirás sempre nesse estado? Tu não morrerás alguma vez para ti mesma? Não te resolverás, finalmente, a sofrer por teu amor crucificado? Ó meu Deus! Que vida tão vergonhosa seria esta para mim!


Eu mereci ser queimado em um fogo eterno e não quero sofrer uma pequena incomodidade! Eu mereci viver em uma eterna desesperação lá embaixo no inferno e não quero tolerar uma pequena desolação de espírito! Eu mereci ser eternamente aborrecido pelas criaturas, e não quero sofrer um leve desprezo! Eu mereci habitar eternamente na companhia dos demônios e condenados e não quero suportar uma fraqueza em meu próximo, embora talvez ele seja inocente!


Que vergonha é esta para mim! Mas ao mesmo tempo, que ingratidão para convosco, ó meu Jesus! Mas, bendito sejais, que agora, iluminado pela vossa graça, conheço o mal que até aqui fiz, e chamo o céu como testemunha da dor que experimento pela minha passada tibieza, e da resolução que tomo de seguir fielmente as vossas pegadas, ó meu Jesus! Fortalecei-me Vós.


Pai-Nosso e Ave-Maria.


Conclusão da Meditação

Ação de Graças

Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.


Oferecimento

Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.