XXX — Do amor de Deus Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Advertência. — Antes de tudo, deve-se saber que o amor não consiste apenas em palavras, mas em obras e em sofrer pelo amado. E assim diz São João: "Meus filhinhos, não amemos apenas de palavra e com a língua, mas com obras e de verdade" (1Jo 3,18). Onde não há obra e sofrimento, não há amor.
Mas o verdadeiro amor consiste na mútua comunicação de bens entre o amante e o amado, e vice-versa; de modo que, se um tem ciência, honra, riqueza, comunica-o ao outro. Assim, é impossível haver verdadeiro amor sem sacrifício, isto é, sem sacrificar o que se tem e se quer em obséquio daquele a quem se ama.
O amor tem pensamentos contínuos, afetos acesos, palavras verdadeiras, grandes obras, sacrifícios heroicos e imolação perene.
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que te achas na presença de Deus e que todos os Anjos e Santos intercedem por ti.
Prelúdio segundo — Petição
Ó Deus e Senhor meu, dai-me claro conhecimento dos benefícios divinos, a fim de que, conhecendo-os e agradecendo-os, eu ame e sirva em todas as coisas a vossa divina Majestade!
Ponto 1
Deus merece ser amado pela infinita bondade e amor com que até agora nos tem amado e favorecido.
Para ver o abismo dessa bondade e amor, ponderarei suas circunstâncias. Reúne teus pensamentos, alma minha, e fixa-te quanto puderes para considerá-las bem.
1. A bondade e o amor de Deus para contigo são eternos. — Assim como Deus nunca teve princípio, mas sempre existiu em Si mesmo, assim Sua bondade e amor para contigo, alma minha, não tiveram princípio e são tão antigos quanto o próprio Deus, isto é, eternos "Amei-te com amor eterno; por isso, compadecido, atraí-te" Jr 31,3.
Traz a teu pensamento os tempos passados há dois mil anos, e dize-me: que eras tu então? Um mero nada. E que fazia Deus então? Ah! Ele te amava, e com aquele mesmo ardor que depois O impeliu a derramar todo o Seu sangue por ti. Translada-te com a imaginação ao que precedeu a criação do mundo, e volta a dizer-me, alma minha, o que havia então? Nada absolutamente: nem céu, nem terra, nem Anjos, nem homens; nada, um puro nada.
E então Deus, em que se ocupava? Ocupava-Se em amar-te, e te amava tanto que por teu amor criou o céu e a terra: esta, para que te servisse de morada nesta vida brevíssima; aquele, para que reinasses eternamente na outra.
Vai ainda mais atrás, alma minha, com teu pensamento, e mergulha na eternidade antecedente tanto quanto te for possível, e dize-me: que havia então? Nada senão Deus só, infinitamente glorioso e infinitamente bem-aventurado em Si e por Si mesmo. E qual foi Sua ocupação em toda aquela imensa eternidade? Foi, se não o sabes, amar-te; e não houve um momento em que Ele não pensasse em ti, em que não estivesse determinado a querer morrer por ti e a querer fazer-te participante de todos os Seus bens, de todas as Suas riquezas e de toda a Sua felicidade, para sempre e eternamente. Que prodígio de bondade e amor não é este!
2. A bondade e o amor de Deus para contigo são generosos e magnânimos. — Não é necessário que recordes uma a uma as graças que Deus te dispensou para persuadir-te dessa verdade. Somente o mistério da Encarnação, se te pusesses a considerá-lo, bastaria para torná-la palpável.
Imagina que um oficial de um príncipe tenha roubado fraudulentamente e desperdiçado uma grossa soma de ouro que lhe fora confiada; que esteja convencido disso e, por isso, tenha sido condenado a um castelo, a viver entre lágrimas e soluços até restituir inteiramente todo o furto. Figura que um homem rico e honrado, para pôr esse infeliz em liberdade, vende todos os seus bens e satisfaz ao príncipe; depois, reduzido à extrema mendicância, acolhe-se ao doloroso partido de trabalhar em uma oficina para ganhar com o suor de sua fronte o necessário para não morrer de fome.
Que prodígio de caridade não seria este? Mas, sabes tu, alma minha, com quem se realizou esse prodígio? Quem foi esse miserável preso? Quem foi o misericordioso salvador? Pensa nisso, alma minha, e pondera-o atentamente. O homem é o preso, e o Verbo é o salvador.
3. A bondade de Deus para contigo é paciente e constante. — Põe, alma minha, o olhar na prisão do inferno e vê um espetáculo que jamais viste! Que vês? Vês um número sem número de almas condenadas, que ardem nas chamas de um fogo devorador.
Pois eis que Jesus desce do céu e, de tantas almas que estão padecendo, toma uma só; tirando-a do inferno, une-a ao Seu próprio corpo e lhe concede espaço de penitência. Que dizes tu, alma minha, a tal vista? Não dizes que é incompreensível o amor de Jesus por essa alma? Talvez digas: este merecia o inferno igualmente às outras; merecia-o ainda mais do que outras mil que eram menos culpadas.
No entanto, todas as demais ficam lá embaixo, encerradas no inferno por toda a eternidade; só esta é tirada dele, ou, o que é ainda mais, foi preservada de cair nele; somente a esta se faz a graça, somente a esta se concede espaço de penitência. Oh, quão grande e quão particular deve ser o amor com que Jesus ama esta alma!
Mas não te virá talvez o temor de te enganares, alma minha, se nessa alma predileta te reconheces a ti mesma? E quê? Não é certo que há no inferno milhares de almas menos pecadoras que tu, as quais nem abusaram de tantos meios como aqueles de que tu abusaste, nem desprezaram tantas graças quantas tu desprezaste, nem se endureceram tanto na tibieza como tu te endureceste; e, no entanto, elas estão condenadas por toda uma eternidade, e tu vives ainda na abundância de todas as graças e dos divinos favores? Não se deverá dizer de ti o que diziam os judeus, vendo Jesus chorar sobre Lázaro: "Vede, vede como Ele a amava"?
Afetos
1. Confissão e admiração do amor de Deus. — Todas as vossas coisas, meu Deus, vosso ser e agir, em tudo, são admiráveis; mas, no entanto, nenhuma coisa me parece tanto assim como o amor com que me distinguis. Ah! E que amor é o vosso? Vós sois um ser infinito que não teve princípio nem terá fim; o tempo da vossa vida não é menos que uma eternidade inteira passada, e nesse imenso espaço não houve nem um momento em que eu não fosse objeto do vosso amor.
Vós me amastes com um amor eterno, me amastes com um amor mais ativo e forte do que se pode dizer; porque até onde o vosso amor para comigo não vos conduziu? Vós descestes do céu à terra e nascestes como um pobre Menino em um estábulo de animais; tivestes uma vida trabalhosa e fatigada, ganhastes o sustento com o suor do vosso rosto e, finalmente, terminastes os vossos dias pendurado em uma cruz como um malfeitor. Quem vos moveu para que tanto fizésseis por mim senão o amor?
Sim, Vós me amastes com um amor pacientíssimo; e, embora eu tenha cometido uma multidão inumerável de pecados, abusado de infinitos meios que me tínheis preparado e desprezado um número sem número de vossas misericórdias, com tudo isso, tantas indignidades minhas não foram poderosas para extinguir o vosso amor, nem sequer para esfriá-lo. Vós me amais também no presente, e me amais também com aquela ternura com que me haveis amado por toda a eternidade.
Oh, Deus admirável! Oh, Deus de amor e misericórdia imensa! Ah! Quanta verdade é que Vós mereceis que eu vos ame, e que vos ame com todas as minhas forças; e, se pudesse, quereria amar-vos com um amor infinito, já que com esse amor mereceríeis que eu vos amasse!
2. Arrependimento e amor. — Com que ingratidão procedi para com Deus, quando deveria tê-Lo amado com todo o meu coração! Eu o conheço, eu o confesso, oh, fidelíssimo amante meu e Deus meu: minha monstruosa ingratidão, e a detesto sumamente. Amei os que foram generosos comigo só de palavra, e não amei a Deus, a quem sou devedor de tudo o que sou e de tudo o que possuo. Amei os que nada fizeram por mim, e não amei a Deus, que chegou ao extremo de morrer na cruz por mim. Sim, reconheço minha ingratidão, detesto-a e me arrependo dela.
No presente tenho outros sentimentos, outros desejos. Vós vencestes, ó Divino Amante! Vós vencestes; meu coração não será mais meu; eu vo-lo dou irrevogavelmente para sempre e por toda a eternidade. Sim, eu vos amarei de agora em diante, eu vos amarei só a Vós, e vos amarei com tanta maior força e intensidade daqui para frente quanto mais tardei em amar-vos no tempo passado.
Ponto 2
Deus merece ser amado pelo que, em Sua infinita bondade e amor, está disposto a fazer contigo daqui em diante.
Que é o que Deus está disposto a fazer contigo daqui em diante, alma minha? Ah! Ele está disposto a dar-Se a ti inteiramente. Se não entendes a grandeza desse dom, desse portento de amor, recolhe todas as tuas potências e esforça-te como puderes por aprofundar um mistério que é o mais consolador entre os mistérios da nossa santa religião.
1. Possuir a Deus quer dizer chegar ao cúmulo de todos os desejos. — No ponto em que a alma se separa do corpo, uma luz sobrenatural, uma clareza surpreendente, a faz conhecer que Deus é o sumo e único bem, e sua suma e única felicidade. A esta luz sucede imediatamente um desejo tão impetuoso de gozar deste único e sumo bem, e desta única e suma felicidade, que estar privado dele forma no inferno a pena maior que padecem os condenados.
Pois Deus, para satisfazer esse desejo tão veemente, une intimamente a Si a alma e, dando-lhe a gozar todo o abismo de Sua divindade, faz com que experimente em um instante uma satisfação infinita e fique submersa em um oceano de prazeres.
2. Possuir a Deus quer dizer contemplar a Deus e amá-Lo. — Não haverá um momento em toda a eternidade em que a alma não veja a Deus, e, vendo-O, não descubra os infinitos tesouros de Sua onipotência, bondade, formosura e outras perfeições, que a arrebatarão em um êxtase infinitamente delicioso. Por toda a eternidade não haverá um instante em que não se sinta acesa sempre em novas chamas de amor, que com gozo infinito a elevarão à Sua divina esfera.
3. Possuir a Deus quer dizer ter uma felicidade infinita. — A felicidade com que serás bem-aventurada no céu, alma minha, será a mesma com que é bem-aventurado o próprio Deus. Sim, entende bem; tu gozarás os mesmos prazeres, as mesmas doçuras, os mesmos contentamentos que Deus goza.
Mas de que grandeza serão estes? Escuta, alma minha, uma verdade estupenda, porém incontrastável. Um só leve raio daquela eterna felicidade seria bastante para cumular todos os condenados de um gozo incomparavelmente maior que a dor de todas as penas que presentemente padecem.
Uma pequena amostra daquela interminável bem-aventurança bastaria para inundar com superabundância de alegria todos os escolhidos. Uma gotinha só daquele oceano infinito de gozos seria capaz de beatificar todas as criaturas juntas, ainda que de novo se criasse tão grande número delas que superasse as areias de todas as praias. Em suma: esses gozos são tais e tantos que bastam para saciar o próprio Deus, capaz, por outro lado, de uma felicidade infinita.
4. Possuir a Deus quer dizer ser amado por Deus com infinita ternura. — Deus jamais olha para a alma senão como para uma filha Sua ternamente amada, a quem quer enriquecer com todos os tesouros de Sua bondade, e como para uma esposa na qual encontra todas as Suas delícias e complacências.
Não há na terra ternura de amor que se possa comparar com a ternura do amor divino; pois assim como Deus é poder infinito que supera infinitamente todos os poderes humanos, assim é igualmente amor infinito que supera infinitamente todas as medidas da ternura humana.
Sim; só Ele pode acolher em Seu coração uma alma e dar-lhe de beber da torrente daquelas doçuras de que estão privadas todas as criaturas e que em vão espera compreender o entendimento humano.
5. Possuir a Deus quer dizer viver enquanto Deus vive e ser bem-aventurado enquanto Deus o for. — A bem-aventurança de Deus é uma bem-aventurança que não tem fim, nem admite interrupção, nem padece diminuição. Essas três propriedades terá também, alma minha, a tua bem-aventurança.
Primeira. Tua bem-aventurança será sem fim: transcorrerão tantos anos quantas são as areias de todos os mares, os átomos do ar, as gotas de toda a água que há nas fontes, nos rios e no oceano; mas, em tão longo tempo, não terá passado nem mesmo a metade, nem sequer um só ponto da bem-aventurança, porque será eterna e sem fim.
Segunda. Será uma bem-aventurança sem interrupção, porque em cada momento descobrirás em Deus sempre novas perfeições; já que, sendo Deus beleza infinita, ficará dela um abismo infinito por ver, que até então não terás visto; sendo bondade infinita, sempre ficará outro abismo infinito que não terás descoberto, e a cada instante te sentirás acender em novas chamas de amor para com Ele; sendo doçura infinita, ficará sempre outro abismo infinito que ainda não terás saboreado, e a cada momento encontrarás nEle novas torrentes de gozos e prazeres.
Terceira. Será uma bem-aventurança sem diminuição. Terás, em verdade, ardentíssimos desejos de saborear a Deus, e te parecerá que nunca te sacias dEle; mas sempre terás a satisfação de saboreá-Lo plenamente, e sempre O gozarás com uma plena posse.
Afetos
1. Amor. — Sumo e único bem meu, meu Deus, quão cego fui até agora! Não Vos conheci nem a Vós, nem o vosso amor; agora Vos conheço a Vós, e também conheço o vosso amor. Que posso fazer eu senão corresponder a um amor tão admirável e imenso com outro amor, mesquinho, sim, mas mais sincero que até o presente?
Sim, meu Deus, vede-me aqui prostrado em vossa divina presença para oferecer-vos o sacrifício de todo o meu coração, que é bem devido à vossa infinita bondade e amor. Eu vos amo, e vos amo com todo o afeto, com toda a alma, com todo o entendimento e com todas as minhas forças.
Aborreço e detesto todos aqueles afetos e inclinações que não foram dirigidos a Vós. Amo a Vós só, Sumo Bem meu; a Vós só quero amar enquanto viver, e preferirei a vossa honra, a vossa vontade, o vosso beneplácito a todas as criaturas, ainda às mais queridas que tenho no mundo.
2. Desejo de amar a Deus perfeitamente. — Mas por mais que eu vos ame assim, e faça quanto resolvi fazer, que é este meu amor em comparação com o amor com que Vós me amastes? Verdadeiramente é nada. Ah! Eu quisera poder concentrar em meu coração todo o amor que está repartido entre todos os escolhidos; quisera, sim, eu sozinho possuir os amores de todos os espíritos angélicos, para amar-vos com eles, Sumo Bem meu e fidelíssimo amante.
Mas de que serviriam esses meus desejos se Vós, que sois Sumo Bem, e por isso mesmo merecedor de ser amado infinitamente, não acenderdes em meu coração uma chama de amor verdadeiramente perfeito? Oh, Deus de amor! Tende piedade de mim, e neste dia fazei conhecer em meu favor a vossa onipotência, porque eu não anseio outra coisa nem desejo mais senão amar-vos com todo o meu ser.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Ação de Graças
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.