XXXI — Do amor e amabilidade de Deus em Si mesmo Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que te achas na presença de Deus; que todos os Anjos e Santos louvam Sua bondade e intercedem por ti.
Prelúdio segundo — Petição
Ó Deus e Senhor meu, dai-me claro conhecimento, quanto seja possível, de vossa infinita bondade, para amar-vos e servir-vos com mais perfeição "Deus, porém, quanto mais perfeitamente é conhecido, tanto mais perfeitamente é amado" São Tomás.
Ponto 1
Deus merece ser amado por ser sumo bem.
Eis aqui, alma minha, o fundamento e a base sobre os quais se apoia o perfeito amor de Deus. Convém amar a Deus por ser sumo bem, que merece por Si mesmo ser amado com amor infinito. Mas, entendes tu o que quer dizer ser sumo bem? Quer dizer que Deus é um ser que contém infinitas perfeições, e as contém e as possui em Si mesmo, por Si mesmo, em grau máximo, sem ser devedor delas a ninguém. Para conceber de tudo isso uma débil ideia, considera, alma minha, apenas algumas de tantas perfeições Suas.
1. Deus é formosura infinita. — Aqui convém servir-se apenas de imagens, as quais, por mais vivas e expressivas que sejam, serão, no entanto, semelhantes às ideias de uma criança que começa a considerar o curso do sol e dos planetas que brilham no firmamento.
Seja esta a primeira imagem: a beatíssima Virgem Maria descobre muito mais Ela só da formosura de Deus do que todos os Anjos e os escolhidos juntos que estão no Paraíso. Figure-se agora que Deus eleva o Seu entendimento e Lhe dá a ver de Sua formosura outro tanto mais do que até agora havia visto; que, um momento depois, Lhe comunica nova luz, e que descobre o dobro do que havia descoberto no primeiro momento, e assim sucessivamente por milhões de anos.
Verá jamais a beatíssima Virgem toda a formosura de Deus que existe em Si? Ah! Depois de transcorridos tantos anos, restaria tanta formosura a contemplar quanta água resta no oceano depois de se tirar a que pode conter a palma da mão.
Seja a segunda imagem: o número dos Anjos é quase sem número, e o mínimo deles está dotado de uma beleza tão rara que nenhum homem poderia fixar a vista nele sem desfalecer imediatamente pela superabundância do gozo que o inundaria ao olhá-lo. Figure-se agora que Deus criasse um Anjo que contivesse em si só a beleza de todos os Anjos. Que beleza não seria esta? E, ainda assim, seria infinitamente inferior à formosura de Deus.
Figure-se, além disso, que Deus criasse pelo espaço de mil anos, a cada instante, um milhão de Anjos, dos quais cada um superasse tanto o outro em beleza quanto supera atualmente um homem o supremo dos Serafins. Passados os mil anos, estenda de novo o braço de Sua onipotência e tire do nada um Anjo que sozinho tivesse a formosura de todos esses Anjos juntos.
Poderá o entendimento humano imaginar uma beleza semelhante a esta? Pois, no entanto, tudo isso seria nada em comparação com a formosura de Deus, e seria infinitamente inferior a ela. Passa, pois, adiante quanto quiseres, alma minha, com essas imaginações, por dias, por anos, por toda a eternidade, que jamais te será possível figurar uma beleza tão excelente que não seja infinitamente superada pela formosura de Deus.
2. Deus é onipotência infinita. — Aqui também convém servir-se da imaginação para compreender alguma coisa dessa divina perfeição.
Seja a primeira imagem: suponha-se que o número de homens que viveram sobre a terra e que viverão até o dia do juízo chegue a duzentos mil milhões. Que número tão estupendo seria este! As almas desses homens, umas estão no Paraíso, outras no purgatório e outras no inferno, e os corpos se acham convertidos e reduzidos a pó.
Agora, amanheça o último dia e ressoe a trombeta do Anjo por todas as partes do Universo. Que sucederá? Em um abrir e fechar de olhos, em um só instante, os corpos ressuscitam, as almas voltam a entrar neles, e os duzentos mil milhões de homens se encontram outra vez vivos. Que prodígio tão estupendo! Mas, para realizá-lo, que foi necessário? Nada mais que estas duas palavras da divina onipotência: Ressuscitai, mortos.
Seja a segunda imagem: figure-se que Deus, descendo do céu, para sobre a ribera do mar, como ao criar o primeiro homem parou no campo damasceno, e que com voz imperiosa diz: "Compareçam aqui tantos homens quantos são os grãos de areia de toda esta ribera." A esses acentos de onipotência, não compareceriam logo, em um instante, tantos homens quantos eram os grãos da areia? Formem-se, pois, agora quantas imaginações se queiram; aumentem-se, multipliquem-se ao arbítrio de cada um: jamais poderá formar-se uma à qual não sobrepuje infinitamente a onipotência de Deus.
3. Deus é bondade infinita. — Três são os efeitos pelos quais poderás conhecer, alma minha, a grandeza da bondade de Deus.
O primeiro efeito é a paciência em tolerar os pecadores. Deus vê do céu inumeráveis homens que, deixando-se arrastar por suas desordenadas paixões, se entregam a toda sorte de vícios e O ultrajam diariamente, pisoteando Sua santa lei e profanando Seu santíssimo nome, e nesse gênero de vida prosseguem por vinte, trinta, quarenta e mais anos.
Deus o vê; poderia em um instante desfazer-se deles e vingar tantos agravos como Lhe fazem, e, contudo, cala como se não soubesse seu iníquo modo de agir. Antes, prolonga-lhes a vida e, como se O servissem fielmente, faz-lhes cada dia novos benefícios, fala-lhes ao coração, convidando-os à Sua amizade, como se o Senhor necessitasse deles, e não eles de Sua divina Majestade. Oh, paciência! Oh, bondade!
O segundo efeito é a amabilidade em acolher os pecadores. Figura-te, alma minha, um homem que, tendo vivido cem anos em contínuas ofensas a Deus, jamais tivesse pensado em toda a sua vida em fazer a mínima penitência. Se este se encontrasse em agonia, e não lhe restasse mais que um só momento de vida, crês tu que poderia receber de Deus o perdão de tantos pecados?
Ah! Admira a divina bondade e sabe que, se esse malvado enviasse ao céu um só ato interior de arrependimento, Deus lhe perdoaria todas as iniquidades de sua má vida, as esqueceria para sempre e o faria participante de Sua glória.
O terceiro efeito é o prêmio do justo. Figura-te, alma minha, um homem que, em todo o decurso de sua vida, não tivesse feito outro bem senão este único ato com um coração contrito e humilhado: Oh, meu Deus! Eu Vos amo sobre todas as coisas por serdes Vós sumo bem. E que, depois desse único ato bom, sem nenhum outro mérito, morresse e entrasse na eternidade; que prêmio pensas tu que Deus lhe daria? Nada menos que a posse de todo o céu, a visão e o gozo de toda a Sua formosura, e uma e outro por toda a eternidade. Tão admirável e tão infinitamente grande em premiar é a bondade de Deus.
Afetos
1. Vergonha própria. — Sim, ó Deus meu!, bem conheço, e a fé me ensina, que Vós sois um bem sumo, um bem que reúne em Si eminentissimamente e possui infinitas perfeições, um bem que é digno de ser amado com amor infinito. Mas, de onde provém, ó Deus meu!, que um coração criado por Vós unicamente para amar-vos e possuir-vos, com todo esse conhecimento e com esta fé, fique, no entanto, tão insensível, indiferente e frio?
Não me atrai tratar convosco; o silêncio, a solidão, o recolhimento me enfadam; não vejo em mim aqueles afetos que de ordinário costuma produzir o verdadeiro amor em quem o possui. E que quer dizer isso? Ah! Conheço, Deus meu, minha miséria, e nela terei de estar apodrecendo até que o fogo do divino amor se acenda em meu coração. Ah! Afastai de mim para sempre minha frieza e fazei que comece de uma vez a amar perfeitamente a vossa divina bondade, e que nunca jamais acabe de amá-la.
2. Propósito e arrependimento. — Mas quando começarás a fazê-lo assim, alma minha? Queres sabê-lo? Então começarás quando morreres perfeitamente a ti mesma e a todas as criaturas; então teu Deus usará contigo de misericórdia e inflamará teu coração neste santo fogo. Sim, assim é: eis aqui, Deus meu, que desde este ponto quero despojar-me inteiramente de mim mesmo, dar-vos todo o meu coração e amar-vos com todas as minhas forças; detesto todos os pensamentos e todos os afetos que alguma vez se dirigiram às criaturas e me arrependo de quanto fiz em minha vida que não foi feito por vosso amor. De agora em diante, só o vosso supremo beneplácito e só o vosso amor serão o objeto de todos os meus pensamentos, o alvo de todos os meus desejos, o fim de todas as minhas operações.
Mas, ó Deus meu!, por mais sincera que possa ser esta minha resolução, jamais poderei cumpri-la se não Vos dignardes fortalecer minha fraqueza com vossa graça. Voltai, pois, para mim vossos benigníssimos olhos; lembrai-vos de que derramastes todo o vosso preciosíssimo sangue com este único fim: que eu vos ame. Por esse sangue, suplico-vos que opereis em mim um dos habituais prodígios de vossa misericórdia, destruindo em meu coração tudo o que é contrário ao vosso amor e acendendo-o em tão grande chama que jamais se apague por toda a eternidade.
Ponto 2
Deus merece ser amado por ser único bem.
Esta é uma verdade importantíssima, alma minha, e, bem meditada, tem toda a força para atrair todo o nosso coração a Deus, e consiste nisto:
1. Que nem no céu, nem na terra, nem em nenhuma outra criatura existe um bem, por mínimo que seja, que não provenha de Deus. — Volta a vista ao redor de toda a terra; observa todas as criaturas que nela se encontram; olha tanta variedade de árvores, de frutos, de flores e de outras plantas; de animais na terra, de aves no ar, de peixes na água.
Desde a terra dirige os olhos ao céu e contempla as maravilhas de que ele faz gala; olha o sol, que com sua claridade ilumina o mundo; olha as estrelas que brilham no firmamento; olha a incompreensível amplidão e beleza do Paraíso, que é a habitação dos escolhidos.
Das criaturas inanimadas passa a considerar as racionais, e pondera no homem tantos dotes como o adornam de beleza, de sabedoria, de amor, de galhardia, de cordialidade e de outros semelhantes, sejam naturais, sejam sobrenaturais. Pondera nos Anjos, em todos os compreensores bem-aventurados, suas virtudes e seus méritos, sua santidade e suas excelências, suas prerrogativas, enfim, a glória com que são inteiramente felizes.
E depois, alma minha, entrando dentro de ti mesma, discorre assim contigo: antes que o mundo fosse criado, onde estavam essas nobilíssimas criaturas? Ah!, estavam sepultadas no seio de seu nada, e ainda estariam ali se Deus, com Sua onipotência e por um excesso de Sua infinita bondade, não as tivesse tirado à luz, como ensina a fé. Se, pois, têm o ser, e um ser tão formoso, não o têm de si; têm-no de Deus.
2. Tudo o que nas criaturas se chama bem não é outra coisa senão uma pura misericórdia que Deus lhes comunicou. — Toda a formosura das criaturas não é mais que um raio deste sol divino; toda a sua santidade não é senão uma gota do mar imenso da santidade de Deus; só Deus é bom, e o bem que há nas criaturas é apenas uma misericordiosa participação de Sua infinita bondade.
É artigo de fé e deve-se crer. Mas nossa vida concorda com essa fé? Ai, quão mal empregamos os mais nobres afetos de nosso coração! Por isso, considera bem, alma minha, as necessárias consequências que dessas estupendas verdades se derivam e penetra-as de maneira que não se apartem de tua memória.
Primeira consequência. — Deus merece ser infinitamente amado; a razão te ensina isso. Todo bem merece amor, e um bem infinito merece um amor infinito; Deus é bem infinito; merece, pois, ser infinitamente amado.
Segunda consequência. — Se Deus é uma bondade infinitamente amável, eu, portanto, não O amo quanto devo amá-Lo, se não O amo quanto posso.
Terceira consequência. — Eu, portanto, não cumpro a obrigação que tenho de amá-Lo com todas as minhas forças se admito em meu coração um afeto, ainda que passageiro, que a Ele não se dirija; se faço alguma coisa que não seja conforme ao Seu divino beneplácito; se uma só vez me oponho às soberanas disposições que sobre mim Ele formou.
Afetos
1. Vergonha. — Oh, Deus, único e sumo bem! Agora conheço o que Vós mereceis e qual deve ser o verdadeiro amor. Uma alma inflamada de vosso amor corta todo apego e não tolera inclinação alguma que não venha de Vós e que a Vós não volte; não faz coisa alguma que não Vos seja grata, e tudo faz apenas para cumprir o vosso divino beneplácito; tudo suporta, e não se opõe a nada do que dela dispondes; e, deixando-se toda em Vós, descansa sem temor no seio de vossa amorosíssima providência.
Oh, estado felicíssimo o dessas almas! Oh, santo amor, quão belo e desejável és! Mas de ti, quanto é o que se encontra em meu coração? Quantas horas poderei eu contar de minha vida nas quais tenha amado desta maneira? Quantas obras fiz e quantas adversidades padeci animada deste amor? Miserável de mim! Quem me dará fontes de lágrimas para chorar dia e noite esta falta de amor?
2. Amor e consagração. — Mas por que me aflijo? Ainda pode fazer-se tudo e reparar-se tudo com o fervor. Então, fora pusilanimidade! Por que eu também não poderei fazer o que fizeram, na flor de sua idade, tantos jovenzinhos e tantas delicadas virgenzinhas? Tudo posso, disse um dos maiores santos; não por mim, mas nAquele que me conforta; o mesmo digo eu. E com essa confiança em Vós, ó meu Deus, ó minha fortaleza, ó meu tudo!, começo a amar-vos, e me entrego todo a Vós.
Tomai, de bom grado, ó Sumo Bem! Minha liberdade; tomai minha memória, entendimento e vontade; quanto tenho e possuo, tudo é dom vosso, e tudo vos devolvo. Não desejo outra coisa nem anseio mais que vosso amor; só com isso ficam satisfeitos meus desejos, e com isso sou suficientemente rico.
3. Súplica. — Vinde, pois, ó santíssimo e divino Espírito! Vós sois amor por essência e origem daquele divino fogo que ardia nos corações dos santos. Vós sois santidade por essência, e a fonte daquelas graças eficazes que penetram os corações humanos e os arrebatam a Deus com todos os seus afetos. Ah! Dignai-vos vir ao meu coração, purificá-lo de todas as imperfeições e acendê-lo com vosso fogo. Estou pronto a fazer e padecer: disponde, pois, de mim como quiserdes, que eu não me oporei a nada. Só vos peço vosso amor, a fim de que seja a norma de toda a minha conduta!
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Ação de Graças
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.