XXXII — Da devoção que devemos ter a Maria Santíssima Exercícios Espirituais de Santo Inácio - Meditações
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que vês sempre Maria Santíssima com Jesus: com Jesus a verás em Belém, no Egito, em Nazaré, em Jerusalém, nas bodas de Caná, no Calvário e no céu.
Prelúdio segundo — Petição
Deus te salve, Maria; cheia és de graça, o Senhor é contigo, bendita tu és entre todas as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus! Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte! Amém, Jesus.
Ponto 1
Um dos meios mais poderosos que Deus nosso Senhor nos deu para alcançar e aumentar a graça e o divino amor é, sem dúvida, a devoção a Maria Santíssima.
A razão é evidente. Tudo temos por Jesus, e como Maria é Sua Mãe, tudo o que Ela quer alcança. Jesus é como o depósito de todas as graças, e Maria é o canal por onde elas nos são comunicadas; e este precioso canal vemos que sempre está encostado ao depósito; isto é: Maria sempre está com Jesus, em Belém, no Egito, em Nazaré, em Jerusalém, nas bodas de Caná, no Calvário e no céu, à direita de Seu mesmo Filho, que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores.
Para acertar na verdadeira devoção a Maria Santíssima, hás de considerar três coisas, a saber: quem é essa Senhora, que benefícios recebeste e deves esperar dEla e em que consiste Sua verdadeira devoção.
Quem é Maria Santíssima? Ai, pergunta difícil! Só Deus conhece bem quem é Maria Santíssima, diz São Bernardino. No entanto, deves saber que Maria é uma grande Senhora, concebida sem mancha de pecado original, cheia de graça e de virtudes, Virgem e Mãe de Deus, Rainha dos céus e da terra e advogada dos pecadores.
1. Maria é uma grande Senhora, concebida sem mancha de pecado original. — Com efeito, é Senhora; a própria palavra Maria quer dizer Senhora; com este nome o Anjo a chama quando Lhe diz: Não temas, Maria, porque encontraste graça aos olhos de Deus. Para que se veja que Seu nome não é capricho dos pais, mas disposto por Deus com grande acordo, pois a Santíssima Trindade A criou e Lhe impôs o nome de Maria, para que fosse Filha do eterno Pai, Mãe do eterno Filho, Esposa do Espírito Santo e Senhora de tudo o que foi criado.
A dignidade de Mãe de Deus é uma dignidade quase infinita, diz Santo Tomás, por ser Mãe de um ser infinito, que é Deus; e criando-A o Senhor para esse fim, preservou-A do pecado original, adornou-A com todas as graças de que é possível uma criatura, enriqueceu-A com virtudes e méritos, confiou-Lhe o tesouro das misericórdias e A fez dispensadora delas.
2. Maria é distinguida por Deus com todos os privilégios e condecorada com todas as prerrogativas. — É Mãe sem deixar de ser Virgem, e Virgem singular, Virgem por antonomásia; e, como diz o Evangelista, o nome da Virgem é Maria. Ela é Rainha do céu e da terra, Rainha dos Anjos, Rainha dos Patriarcas, Rainha dos Profetas, Rainha dos Apóstolos, Rainha dos Mártires, Rainha das Virgens e de todos os Santos.
Se aqui se apresentasse uma senhora que fosse rainha de todos os reinos e impérios do mundo, quanto seria admirada e venerada! Mais deves, alma minha, venerar Maria Santíssima, que é Rainha universal do céu e da terra: no céu, na terra e no inferno dobram o joelho ao dulcíssimo nome de Maria, por ser Mãe de Jesus; e o que se deve a Jesus por natureza e méritos, isso mesmo se dá a Maria Santíssima por graça.
3. Maria é destinada para Mãe e advogada dos pecadores. — O Verbo eterno Se encarnou, Se fez homem, Se fez nosso irmão, e como irmão quer que tenhamos um mesmo Pai que Ele e uma mesma Mãe. Já nos havia dado Pai; já nos havia dito: "Quando orardes, direis: Pai nosso que estais nos céus"; e depois nos dá Sua Mãe por Mãe nossa: Eis aqui tua Mãe.
Sim; Maria em Belém deu à luz Seu Filho primogênito, e no Calvário os segundogênitos, que somos todos os discípulos de Jesus Cristo, figurados no Discípulo amado. Quer que essa mesma Mãe Sua e nossa seja a advogada imediata a quem confiemos nossas causas, e Ela as apresentará a Jesus, que é o advogado que temos com Deus Pai. Oh, quão grande confiança devemos ter!
Afetos
1. Ação de graças. — Infinitas graças vos sejam dadas, ó Trindade beatíssima!, por haverdes criado Maria Santíssima sem pecado, por havê-La honrado com tantas graças e prerrogativas e por havê-La dado por Mãe e advogada nossa. Não podemos, ó Deus meu!, dar-vos as graças que vos são devidas por esse grande e admirável favor, e suplicamos a Vós, Virgem Santíssima, Mãe e advogada nossa, que Vós as deis por nós.
2. Louvor e súplica. — Deus te salve, Rainha e Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, Deus te salve. A Ti chamamos os desterrados filhos de Eva; a Ti suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, Senhora, advogada nossa, volvei a nós esses vossos olhos misericordiosos, e depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, fruto bendito do vosso ventre; ó clementíssima, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria! Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos de alcançar as promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Ponto 2
Uma das virtudes mais agradáveis a Deus e à Santíssima Virgem, e mais útil aos homens, é, sem dúvida, a gratidão. Esta verdade vemo-la comprovada pelo Antigo e pelo Novo Testamento e pela própria natureza.
Quando Deus livrava o Seu povo de males e lhes fazia benefícios, exigia-lhes o tributo do agradecimento; e, para que não se esquecessem facilmente, fê-los guardar as doze pedras que recolheram no Jordão, e uma porção de maná era custodiada dentro da arca. No Novo Testamento, vemos que Jesus Cristo Se manifestou comprazido com o estrangeiro que, ao ver-se curado da lepra, veio dar-Lhe graças, e Se queixou dos nove igualmente curados, mas que não foram agradecidos.
E ainda vemos na natureza que os animais são agradecidos a quem os cuida, e a terra corresponde generosa a quem a cultiva. A gratidão é tão apreciada que não só se vê com ela pago o benfeitor, mas, além disso, ele se sente como obrigado a dispensar novos favores. Eis aqui as razões pelas quais todos devemos ser muito devotos de Maria.
1. Pelos muitíssimos e grandes benefícios que recebemos. — Diz São Bernardo que Deus dispôs que tudo tivéssemos por Maria. E São Germano acrescenta que ninguém se salva senão por Maria, que intercede por nós e nos alcança os méritos de Jesus Cristo, Filho Seu e Redentor e Salvador nosso. Ninguém se livra dos males senão por Maria, e nenhum alcança favores senão por Maria.
As luzes e inspirações que tão frequentemente recebes, pensa que são benefícios que te vêm pela intercessão de Maria. Se não caíste em pecado mortal ou não cometeste maior número de faltas, ou mais graves, é graça de Maria. Se não morreste em pecado e não te encontras atualmente nos infernos, é graça de Maria. Se Deus te conserva a saúde e a vida, se a cada instante te dispensa grandes favores, pensa que é pela intercessão de Maria. Não há mãe tão solícita para preservar seus filhos como Maria o é para preservar Seus devotos de todo mal e desgraça.
2. Não só, alma minha, te deve mover ao agradecimento e a ser devota de Maria a multidão de benefícios que recebeste de Maria, mas também os muitíssimos que deves esperar, e que a Virgem Maria te concederá se fores fiel e verdadeiro devoto Seu. Tu não podes duvidar nem de Seu poder, nem de Sua piedade e vontade.
Como Mãe de Deus, é poderosíssima; como tua Mãe, quer todo o bem para ti. Por isso, com razão e verdade, é o refúgio dos pecadores, o consolo dos aflitos, a saúde dos enfermos, a Mãe da misericórdia e da divina graça. Ela roga por ti agora e sempre, e especialmente rogará por ti na hora de tua morte, e te alcançará e concederá em toda ocasião quanto hás mister.
Com especial providência, Jesus Cristo dispôs que o primeiro que santificou na lei da graça, que foi o Batista, e o primeiro milagre que operou, fossem pela intercessão de Maria, Sua Mãe, quando assistiram às bodas de Caná, em que converteu a água em vinho; para que entendessem os discípulos e todas as gentes o coração compassivo de Maria e quão poderosa é Sua intercessão para nos alcançar todas as graças espirituais e corporais, temporais e eternas.
Aproximemo-nos, pois, com confiança de nossa Mãe, Maria, como do trono que é da graça, para que consigamos misericórdia.
Afetos
1. Confiança. — Três motivos tens, alma minha, para confiar em Maria Santíssima:
Primeiro. É tua Mãe; o Criador imprimiu muito fortemente em todo coração maternal a lei do amor aos filhos, e quanto maior é a necessidade destes, tanto maior e mais solícito é o amor e a ânsia da mãe para com eles, como vemos pela experiência em todas as mães racionais e ainda entre as feras. Pois que filho e devoto de Maria não confiará em sua Mãe Maria, sendo Ela tão boa Mãe, e o filho tão necessitado, e em necessidade tão urgente e de tanta transcendência, como é a de salvação ou condenação eterna?
Segundo. Maria, ainda que não fosse nossa Mãe, é de coração muito bom e muito compassivo, e isso só bastaria para nos socorrer, como vemos que fazem aquelas boas senhoras que, por seu bom coração, socorrem a todos. Terceiro. Tem preceito de Jesus e encargo de testamento, que Ele Lhe fez antes de expirar na cruz; ainda que não fosse nossa Mãe, ainda que não fosse de coração tão bom, basta que tenha o preceito de Jesus para que, sem falta, nos socorra e cuide de nós como de filhos muito queridos.
2. Propósito. — Minha Mãe, lembrai-vos de que sois minha Mãe, e fazei com que eu me lembre de que sou vosso filho! Sim, eu me lembrarei, e a Vós invocarei, a Vós acudirei em todos os meus apertos e necessidades de alma e corpo, e espero que Vós me tirareis bem de todas elas. Amém.
Ponto 3
A verdadeira devoção a Maria Santíssima é um dos sinais mais certos de predestinação; mas é preciso que seja verdadeira, pois, se a devoção é falsa, não serve; de maneira que se pode comparar à moeda, que, se não é boa, mas falsa, nada vale. A fim de que, alma minha, não padeças equívoco e engano em coisa de tanta transcendência, hás de meditar muito detidamente se a devoção a Maria Santíssima tem todos os requisitos necessários para que seja boa.
1. A devoção a Maria consiste em abster-se de todo pecado. — O amor encontra ou faz semelhante. Pois bem; se tu, alma minha, amas Maria, deves fazer-te semelhante a Maria; Ela foi concebida sem pecado, nem jamais consentiu em pecado algum. Para que tu sejas semelhante a Maria, depois do batismo, em que se te apagou o pecado original, hás de ter grande horror ao pecado pessoal, nunca hás de consentir nele; e, se alguma vez tiveres a desgraça, o que Deus jamais permita, de cair em algum pecado mortal, não hás de ter repouso até que te tenhas levantado e confessado bem.
Não hás de fazer como aqueles que dizem que são devotos de Maria e permanecem assentados no pecado mortal. Esses não são devotos de Maria, são Seus maiores inimigos, pois, segundo São Paulo, tornam a crucificar Jesus; e, crucificando Jesus, como podem amar e ser devotos de Maria, Sua Mãe? Isso não pode ser.
2. A verdadeira devoção a Maria Santíssima consiste em imitar Suas virtudes. — São Boaventura dizia: "Se queremos ser devotos de Maria, imitemo-La na caridade, na modéstia, na humildade, na pureza, na paciência e no amor de Deus." Assim como uma mãe procura e deseja que seus filhos se vistam segundo sua classe, assim deseja nossa Mãe que Seus filhos vistam, como Ela, a roupagem de todas as virtudes. E assim como uma mãe se envergonha, porque é uma desonra, se seus filhos andam andrajosos, sujos, feios e com rasgões, assim também é desonra de Maria que Seus filhos andem feios, com vícios, culpas e pecados.
3. A verdadeira devoção a Maria procura tributar-Lhe alguns obséquios e frequentar os Santos Sacramentos. — É impossível viver livre de pecados se não se recebe a sagrada comunhão; o próprio Jesus Cristo o assegura dizendo: "Se não comerdes Minha carne e não beberdes Meu sangue, não haverá vida em vós."
Se não há vida, menos poderá haver virtudes sólidas; mas, se há frequência de Sacramentos, então, animada com o pão dos fortes, a alma tem valor para vencer os inimigos; supera as dificuldades e se faz superior a si mesma, pratica os atos mais heroicos e até sofre o martírio, se for necessário.
4. A verdadeira devoção a Maria Santíssima cuida de fazer bem, com prontidão, alegria e perseverança, suas orações e demais coisas de Seu serviço. — Para, alma minha, nessas últimas palavras que dizem: em fazer bem! Se, quando se faz uma coisa para um alto personagem, se atende a fazê-la bem, muito mais se deve atender ao que se faz em obséquio de Maria Santíssima, já que Ela é Rainha dos céus e da terra.
Oh, quão repreensível serias se fizesses as obras e orações com tibieza, frouxidão e pouco cuidado! Também hás de fazer as coisas em Seu obséquio com prontidão e logo que puderes; imita Abel e Abraão, que ofereciam a Deus com prontidão o que conheciam ser de Sua divina vontade e agrado; não imites Caim, que ofereceu o pior e tarde: Deus, por isso, o desprezava, não lhe fazia caso.
Oh, alma minha! Quanto ofereceres a Maria seja o melhor que tenhas e possas, e faze-o logo; imita Abel e Abraão, e guarda-te muito de imitar Caim e aqueles maus cristãos que oferecem o pior, tarde e mal; ouvem missa, mas lá pelo fim; rezam o Rosário e outras orações e devoções, mas lá pelo fim, já muito de noite e mal, porque rendidos pelo sono o fazem com desgosto, e finalmente deixam tudo. Estes não são filhos de Maria, são apóstatas e desertores. Ai deles! Não os imites tu; pelo contrário, valer-te-ás de todos aqueles meios que a prudência te ditar e a experiência te ensinar serem mais apropriados para enfervorizar teu coração na devoção a Maria.
Afetos
1. Meios e propósito. — Conheço que os meios de que me tenho de valer são:
Primeiro. Ter alguma imagem de Maria à vista, para me lembrar sempre dEla; assim, pois, o proponho, e tudo o que fizer dirigirei a Deus por Suas santíssimas mãos, e tudo o que me der pena sofrerei, lembrando-me de Suas dores e da paixão de Jesus.
Segundo. Todos os dias rezarei ao menos uma parte do Rosário com atenção e devoção, sem cochilar nem falar. Terceiro. Rezarei as orações de manhã, ao meio-dia e à noite; e, além disso, cada vez que o relógio der a hora, rezarei uma Ave-Maria.
Quarto. Alistar-me-ei em alguma de Suas confrarias; usarei o escapulário; frequentarei os Sacramentos, ao menos uma vez por mês; lerei livros que tratem de Sua devoção, farei com que outras pessoas os leiam e as exortarei a terem devoção a Maria; e, finalmente, para mim e para todos, farei o que conhecer que será mais do agrado de Maria Santíssima, minha doce Mãe.
2. Súplica. — Minha Mãe! Vós sois minha Mãe, e isto me basta; como boa Mãe, Vós cuidareis de mim. Uma mãe natural às vezes conhece o que seu filho há mister e não tem com que socorrê-lo; mas Vós tendes com que: tendes bom coração, tendes preceito de Jesus; assim estou seguro e confiante de que cuidareis de mim e me dareis o que hei mister.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Ação de Graças
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.