Todos as meditações

Oração Preparatória

Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.


Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.


Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.

Prelúdio primeiro — Composição de lugar

Imagina que vês Jesus Cristo cercado por Seus Apóstolos e discípulos, e que Ele lhes diz: "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Nisto conhecereis se sois Meus discípulos, se vos amais uns aos outros. Tudo o que fizerdes aos vossos irmãos Eu o tomarei como feito a Mim."


Prelúdio segundo — Petição

Dai-me, Senhor, esse espírito de caridade com que ame o meu próximo como a mim mesmo, mais do que a mim mesmo; que o ame como Vós o haveis amado, até dar por ele a vida.


Ponto 1

Deves saber, alma minha, que Deus é o mesmo amor, Deus é caridade; esta virtude é a maior das virtudes, é mais que a fé e que a esperança; é como o sol entre os astros e como o ouro entre os metais. Ela dá vida a todas as virtudes, e sem ela nenhuma ação tem valor nem merece para o céu, ainda que sejam as obras mais heroicas.


Esse amor ou caridade é como um centro de onde saem os raios, ou um vértice de onde arrancam duas linhas, uma que se dirige a Deus e a outra ao próximo. Nessas duas linhas, ou nesses dois preceitos, está contido quanto disseram os Profetas e a Lei.


Com o amor de Deus se conhece o amor que se tem ao próximo, e o amor que se tem ao próximo revela o amor que se tem a Deus, porque aquele que diz que ama a Deus e não ama seu próximo falta à verdade; pois é impossível que ame a quem não vê, que é Deus, aquele que não ama a quem vê, que é seu irmão. Deves considerar detidamente, alma minha, acerca desse amor ou caridade para com teu próximo, três coisas:


1. O que é esta caridade. — A caridade é uma virtude universal que abraça a todos: nacionais e estrangeiros, amigos e inimigos; a todos se estende, a todos abraça e a todos faz bem. Portanto, aqueles que limitam seu amor aos seus compatriotas, aos de sua nação e aos de seu gênio, amigos ou parentes, e não cuidam de amar os demais, esses tais não têm verdadeira caridade.


2. Qual é o caráter dessa virtude. — O Apóstolo a explica com estas palavras: a caridade é paciente, benigna; alegra-se com os bens alheios como com os próprios; não se indigna com ninguém, nem fala mal de ninguém; faz bem a todos e de todos se compadece; socorre quanto lhe é possível as necessidades de todos; procura e promove o bem, e com todas as forças impede o mal. Em uma palavra: a caridade anima e faz praticar com gosto todas as obras de misericórdia, corporais e espirituais.


3. Deves examinar de que espírito estás animado quando amas teu próximo: se te move o amor de Deus ou, antes, teu amor-próprio. Talvez descobrirás que nem assim o amas; talvez encontrarás inveja em vez de caridade, rancor em vez de amor; vê se te entristeces nas prosperidades do teu próximo e te alegras em suas desgraças e adversidades.


Da abundância do coração fala a boca, diz Jesus Cristo; portanto, se teu coração está cheio de amor e caridade para com teu próximo, falarás bem dele; mas, se está vazio de caridade e abriga alguma maligna paixão de inveja, rancor ou má vontade, no momento falarás mal dele: ora murmurarás, já criticarás, já ridicularizarás; exagerarás suas faltas e diminuirás seu mérito, quando não o negares de todo ou o atribuíres a uma má intenção.


A pessoa invejosa ou falta de caridade é como a aranha que tira veneno das mesmas flores de onde as abelhas tiram mel. As pessoas invejosas, destituídas de caridade, são como aquelas moscas grandes que sempre andam à caça de chagas e, quando encontram alguma, detêm-se com muito prazer para sorver o pus. Assim se conhecem as pessoas invejosas e destituídas de caridade: pelo modo de indagar as faltas do próximo e de murmurar delas; miseráveis, comprazem-se e se deleitam em revolver tais misérias.


Já vês, pois, alma minha: deves ter caridade, e assim imitarás as abelhas. Forma o rico favo, que será para ti de grande utilidade, para o próximo de edificação e para Deus de maior glória.


Afetos

1. Propósito. — Dou-vos minha palavra, meu Deus, que farei todo o bem que puder ao meu próximo com esmolas, conselhos, orações e bom exemplo; e, além disso, sofrerei com mansidão e humildade suas fraquezas, seu gênio e tudo o que me possa incomodar. Nunca murmurarei nem me queixarei das ofensas que ele me fizer; perdoar-lhe-ei e rogarei por ele, à imitação de Jesus Cristo, Filho vosso e meu soberano Mestre, a quem quero seguir e imitar.


2. Súplica. — Jesus meu, dai-me graça para poder praticar as virtudes que Vós vos dignastes ensinar-me com palavras e exemplos, singularmente a mansidão e a caridade, que tanto nos haveis recomendado.


Ponto 2

A virtude da caridade, ou amor que devemos ter para com nossos próximos, é muito nobre e santa, de maneira que deveria praticar-se só pelo que é em si; mas, além disso, tem motivos tão poderosos que nem a soberba nem o amor-próprio lhes podem resistir; basta refletir sobre eles.


O que há é que não se meditam; por isso vemos a terra desolada e perdida, sem caridade ou amor ao próximo, porque não há quem medite os poderosos motivos que temos para exercitar esta virtude. Vamos, pois, meditá-los; são os seguintes:


1. É preceito de Deus, e isso basta. — Deves saber, alma minha, que, depois de amar a Deus sobre todas as coisas, devemos amar o próximo como a nós mesmos, ainda que seja nosso inimigo. Talvez o amor-próprio ou a soberba resista, mas no momento se deve dizer: assim o manda Deus; e, se o inimigo não merece ser amado, bem merece Deus ser obedecido; e por amor de Deus e pela obediência que Lhe devemos, devemos amar nossos inimigos.


2. O segundo motivo é a própria natureza humana. — Há um princípio que diz: todo animal ama seu semelhante; amar é querer e procurar o bem; logo, devemos procurar o bem uns dos outros. Todos formamos um corpo moral e social, porque o homem por natureza é social; logo, como membros de um mesmo corpo, devemos procurar-nos o bem mutuamente, como observamos que fazem os membros do corpo físico.


3. Somos cristãos; a religião nos ensina que todos somos irmãos, que todos temos um mesmo Pai, que é Deus; uma mesma Mãe, que é Maria Santíssima; e que o maior prazer que Lhes podemos dar é que nos amemos uns aos outros como bons irmãos. Temos um mesmo Redentor e Advogado, que é Jesus Cristo; todos somos criados para um mesmo fim, que é o céu; todos temos os mesmos preceitos que devemos guardar, os mesmos Sacramentos que receber, verdades que crer, promessas que esperar e castigos que temer.


4. Somos discípulos de Jesus Cristo, que com Suas palavras e exemplos nos ensinou essa verdade tão interessante, e com tal encarecimento que chega a dizer que nisso conheceremos se somos Seus discípulos: se nos amamos uns aos outros como Ele nos amou. E acrescenta que tudo o que fizermos ao nosso próximo Ele tomará como feito a Si mesmo.


E, para elevar ainda mais essa caridade, revela-nos uma verdade assombrosa: quando, lá no fim do mundo, vier julgar-nos, elogiará e premiará os que O amaram e fizeram bem ao próximo como se fosse a Si mesmo; e, pelo contrário, aos que não houverem amado e favorecido seu próximo, como se a Ele o tivessem negado, envergonhará e repreenderá publicamente, e por último os condenará ao fogo eterno.


5. A conveniência. — Ainda que este amor não fosse preceito do Senhor, por necessidade se deveria amar o próximo. Observa bem, alma minha, o que acontece em uma casa ou povoação onde não há amor ao próximo, ou caridade fraterna, ou onde não se amam uns aos outros como bons irmãos. Oh, meu Deus, que desordem! Que confusão! Mais parece um inferno do que uma casa ou povoação.


Deus retira dela Suas graças e bênçãos, e os abandona a si mesmos; eles vêm a ser o joguete de suas paixões. Não fazem bem nenhum e estão expostos a cometer muito mal: juízos temerários, suspeitas, ódios, murmurações, rixas, escândalos e muitos outros males gravíssimos. Por isso diz São João que quem não ama como deve ao seu próximo está morto.


Deus é tão amante desse amor ou caridade, que Se chama caridade; e onde há caridade, ali está Deus, e ali há paz e felicidade. Mas onde não há caridade, não há paz nem tranquilidade; não se guardam leis, não se observam preceitos, não se cumprem obrigações, não se praticam virtudes, perdem-se os bens temporais, contraem-se doenças, acelera-se a morte, e a alma vai para os infernos, depois de ter padecido muitíssimo neste mundo.


Afetos

1. Resolução. — Reconheço que a caridade é uma virtude tão necessária que sem ela não pode haver sociedade. Estou bem convencido dos motivos poderosíssimos que tenho para praticar esta virtude, e assim, mediante Deus, me exercitarei nela quanto puder.


2. Súplica. — Dai-me graça, Jesus meu, para ser caritativo com o meu próximo, que eu o auxilie quanto puder, e que nunca jamais lhe dê motivo de sentir com minhas desordens e altivezes; que lhe fale sempre com afabilidade e doçura, e nunca com palavras ásperas, rústicas e de menosprezo; que me compadeça de suas penas e trabalhos e que os remedie quanto puder.


Ponto 3

Considera, alma minha, os meios de que te hás de valer para exercitar bem esta virtude da caridade ou amor para com teu próximo.


1. Não olhes de propósito suas faltas e defeitos; pelo contrário, contemplarás o bem com que Deus o favoreceu; e, se nele não vês coisa que te possa mover a apreciá-lo, pensa que é imagem de Deus, redimido com o sangue de Jesus Cristo e destinado ao céu; que talvez lá terá mais glória que tu; e que, embora hoje seja mau, talvez se converterá, fará penitência, será fervoroso e contrairá mais méritos que tu, como aconteceu a São Paulo, à Madalena, à Samaritana e a outros.


2. Hás de saber distinguir o pecado do pecador; ao pecado hás de aborrecer, mas ao pecador hás de amar. Quando vires alguém que cometeu um delito, pensarás que, se tu te tivesses achado na tentação em que ele se achou, tu terias cometido o mesmo pecado que ele; e que, se ele se achasse na posição em que tu te achas, e assistido pela graça com que Deus te assiste, seria melhor do que tu és.


Não murmures por isso do teu próximo; teme a Deus; pensa que a fragilidade que um tem outro também pode ter, e que no pecado em que caiu teu próximo cairás tu se Deus não te ajudar de modo especial. Além disso, não poucas vezes acontece que Deus permite que nós ou nossos parentes mais próximos venhamos a cair nas mesmas faltas que censuramos nos demais. Assim devemos tratar os outros como nós quereríamos ser tratados se tivéssemos incorrido naquelas faltas.


3. Para conservar a caridade, também devemos cumprir as obrigações de nosso estado, ofício e faculdade. — Não poucas vezes há desgostos, rixas e repreensões por faltar ao seu cumprimento; assim, os pais e superiores se incomodam, os iguais se queixam, e os inferiores murmuram quando não se cumprem as obrigações correspondentes.


4. Também se devem respeitar os interesses alheios, não tomar nem desejar o alheio. O homem é mais delicado quando se trata do bolso do que do sangue; não poucas vezes acontece que os vínculos mais estreitos de parentesco se rompem por um vil interesse. O mesmo se deve dizer da amizade: oh!, quantas amizades se rompem por um mesquinho interesse; quantas companhias começam em nome de Deus e, por um sórdido interesse, acabam em nome do demônio, armando mil pleitos em que se perde a caridade, a paz e até os próprios interesses.


Por isso Jesus Cristo nos diz em Seu santo Evangelho que não façamos resistência ao agravo; se alguém nos quiser mover pleito para tirar-nos a túnica, que lhe estendamos a capa; e, se alguém nos ferir na face direita, que lhe voltemos a outra. Que se perca tudo antes que a caridade. Deixemos tudo nas mãos de Deus, que poderoso é para nos dar mais do que nos tiram, e justo é para restaurar a nossa honra. Não desejemos a vingança; antes, pelo contrário, encomendemos ao Senhor todos os que nos prejudicaram, à imitação de Jesus.


5. Para conservar a caridade, não só se devem respeitar os interesses e as pessoas, mas também sua honra, tratando a todos com urbanidade e delicadeza; não descontentar ninguém com grosserias, palavras descompostas, apelidos e ridicularizações, pois tais maneiras não só vão contra a caridade, mas também revelam um ânimo vil, mal-educado e indigno da sociedade humana.


Afetos

1. Súplica. — Dai-me, Deus meu, aquela caridade paciente, que por nada se altera; aquela caridade benfeitora, que a todos faz bem; aquela caridade universal, que a nenhum excetua.


2. Resolução. — Nunca me enfadarei com meus próximos. Se alguma vez me sentir enfadado, calarei até que me tenha passado aquela incomodidade. Nunca falarei mal de ninguém. Nem escutarei os que dizem mal do próximo. Farei a todos o bem que puder, com a ajuda de Deus nosso Senhor e a proteção de Maria Santíssima.


Pai-Nosso e Ave-Maria.


Conclusão da Meditação

Ação de Graças

Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.


Oferecimento

Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.