BÍBLIA E TRADIÇÃO

Apesar de o movimento inaugurado por Martinho Lutero em 1517 ficar conhecido como “Reforma Protestante”, ele tem muito mais de inovação e ruptura do que propriamente de reforma. No sentido de que ele não reclamava um retorno à doutrina e aos costumes antigos da Igreja, como algumas pessoas defendem e outras acreditam piamente, mas, pelo contrário, apresentou doutrinas bem inovadoras, como é o caso do livre exame e da sola Scriptura (somente a Bíblia).

Pela doutrina protestante da sola Scriptura, a Bíblia é a única fonte de revelação. Porém, desde os tempos mais remotos os cristãos entendiam que havia duas fontes de revelação: As Sagradas Escrituras (a Bíblia) e a Tradição. A Tradição é nada mais, nada menos do que os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo aos seus Apóstolos e discípulos e que foram transmitidos a nós de viva voz.

O valor da Tradição pode ser perfeitamente provado nas Sagradas Escrituras em diversos trechos. Três deles são bem significativos:

“Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever” (Jo 21, 25).

“Apesar de ter mais coisas que vos escrever, não o quis fazer com papel e tinta, mas espero estar entre vós e conversar de viva voz, para que a vossa alegria seja perfeita” (2Jo 1, 12).

“Tu, pois, meu filho, fortifica-te na fé que em está Jesus Cristo, e o que o ouviste de mim diante de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que sejam capazes de instruir a outros” (II Tm 2, 1-2).

Em sua vida terrena, a preocupação principal de Cristo foi no sentido de que a Boa Nova fosse propagada, não que fosse escrita, a tal ponto que ordenou: “Ide e pregai”, não disse: “Ide e escrevei”[1]. A maioria da população era analfabeta, como poderia ter êxito a evangelização se o tempo maior fosse dedicado a escrever e não a pregar? Tanto é assim, que os únicos Apóstolos que, felizmente, preocuparam-se em escrever foram João e Mateus, do contrário, os Evangelhos só seriam transmitidos de viva voz.

Muitas doutrinas que nos são ensinadas pelo Magistério da Santa Igreja, como, por exemplo, a respeito de Maria, são verdades de fé reveladas através da Tradição e perpetuadas pelos escritos daqueles teólogos e escritores cristãos dos primeiros séculos, chamados Padres da Igreja ou Escritores Eclesiásticos. Eles escreveram sobre Nossa Senhora coisas belíssimas e deram testemunho de que a devoção a Ela existe desde os primeiros tempos da Igreja. São Dionísio, São Damasceno e Santo Efraim estão entre estes ilustres mestres da doutrina cristã.

A esse respeito, vejamos o que diz o Catecismo da Igreja Católica:

“A transmissão do Evangelho, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras:

1) oralmente – ‘pelos apóstolos, que na pregação oral, por exemplos e instituições, transmitiram aquelas coisas que ou receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo ou aprenderam das sugestões do Espírito Santo’;

2) por escrito – ‘como também por aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob inspiração do mesmo Espírito Santo, puseram por escrito a mensagem da salvação’.

[…] Esta transmissão viva, realizada no Espírito Santo, é chamada de Tradição enquanto distinta da Sagrada Escritura, embora intimamente ligada a ela. Por meio da Tradição, ‘a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê’. “O ensinamento dos Santos Padres testemunha a presença vivificante desta Tradição, cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja crente e orante.” (CIC, § 76-77).

Portanto, para conhecer a doutrina cristã em sua totalidade, não basta somente o conhecimento bíblico, é preciso beber também da Tradição, que tem igual importância como fonte de revelação.

[1] E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura (Mc 16, 15).

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