Meditação de hoje 16/03/2026 Meditação
Imitação de Cristo
Tomás de KempisLivro III - Da consolação interior
Capítulo 58 - Que não devemos escrutar as coisas mais altas e os ocultos juízos de Deus
1. Jesus: Filho, guarda-te de disputar sobre assuntos altos e os ocultos juízos de Deus; não queiras investigar por que este é deixado em tal estado, aquele elevado a tanta graça, este tão oprimido, aquele tão exaltado. Isso excede o alcance humano, e não há raciocínio nem discussão que possam escrutar os desígnios de Deus. Quando, pois, o inimigo te sugere tais pensamentos, ou os curiosos questionarem sobre eles, responde com o profeta: Justo sois, Senhor, e justo é o vosso juízo (Sl 118,37), ou, também: Os juízos do Senhor são verdadeiros e justificados em si mesmos (Sl 19,10). Meus juízos devem se temer, e não discutir, porque são incompreensíveis ao entendimento humano.
2. Não queiras também inquirir ou disputar sobre os méritos dos santos, qual seja o mais santo ou o maior no Reino dos Céus. Daí nascem muitas controvérsias e contendas inúteis, que nutrem a soberba e a vanglória, donde procedem invejas e discórdias, porque este prefere soberbamente um santo, aquele quer dar a preeminência a outro. Querer saber e investigar tais coisas não traz proveito algum, antes desagrada aos santos, porque “eu não sou Deus de discórdia e sim da paz” (1Cor 14,33), e esta paz consiste antes na verdadeira humildade que na própria exaltação.
3. Alguns, por um zelo de predileção, se afeiçoam mais a este ou àquele santo, mas este afeto é antes humano que divino. Sou eu que fiz todos os santos; eu lhes dei a graça, eu lhes outorguei a glória. Eu sei os merecimentos de cada um, eu os preveni com as bênçãos da minha doçura (Sl 20,4). Eu conheci os meus amados antes dos séculos, eu os escolhi do mundo, e não eles a mim. Eu os chamei por minha graça e os atraí por minha misericórdia: eu os fiz passar por várias provações. Eu os inundei de maravilhosas consolações, dei-lhes a perseverança e coroei a sua paciência.
4. Eu conheço o primeiro e o último e abraço a todos com inestimável amor. Eu devo ser louvado em todos os meus santos, bendito sobre todas as coisas e honrado em cada um deles, que eu tão gloriosamente exaltei e predestinei, sem prévio merecimento algum de sua parte. Quem desprezar, pois, um dos menores dos meus deixa também de honrar o maior, porque fui eu que fiz o pequeno e o grande. E quem menospreza a qualquer dos santos, a mim menospreza e todos os mais que estão no Reino dos Céus. Porquanto todos são um pelo veículo da caridade; todos têm o mesmo parecer, o mesmo querer, e se amam mutuamente com o mesmo amor.
5. Além disso – o que é mais sublime ainda –, eles me amam mais a mim que a si e seus merecimentos. Porque, arrebatados acima de si mesmos e desprendidos de todo amor-próprio, se transformaram inteiramente no meu amor, no qual descansam com sumo gozo. Nada há que os possa desviar ou deprimir, porque, repletos da eterna verdade, ardem no fogo inextinguível da caridade. Calem-se, pois, os homens carnais e sensuais, e não discutam sobre o estado dos santos, porque não sabem amar senão seus próprios gozos. Eles diminuem ou acrescentam conforme a sua inclinação, e não como agrada à eterna Verdade.
6. Em muitos é isso ignorância, mormente naqueles que, pouco iluminados, raramente sabem amar um santo com amor puramente espiritual. Leva-os ainda muito a natural afeição e a amizade humana, que os inclina a este ou àquela, e, como se portam nas coisas terrenas, assim se lhes afiguram também as celestiais. Há, porém, incomparável distância entre o que pensam os imperfeitos e o que alcançam os homens espirituais pela revelação superior.
7. Guarda-te, pois, filho, de discorrer curiosamente sobre coisas que excedem teu entendimento; cuida antes e trata de seres ainda o ínfimo no Reino de Deus. E dado que alguém soubesse quem seja deles o mais santo ou o maior no Reino dos Céus, que lhe aproveitaria esse conhecimento, se dele não tomasse motivo de humilhar-se diante de mim e louvar mais fervorosamente o meu nome? Muito mais agrada a Deus quem cuida na grandeza dos seus pecados, na escassez das virtudes e na grande distância que o separa da perfeição dos santos, do que aquele que disputa sobre a maior ou menor glória deles. Melhor é implorar os santos com devotas orações e lágrimas, suplicar-lhes com humildade de coração sua gloriosa intercessão, que perscrutar, com vã curiosidade, seus segredos.
8. Os santos estão bem contentes e satisfeitos; oxalá também os homens soubessem estar contentes e refrear suas vãs palavras. Não se gloriam dos próprios merecimentos, pois nenhum bem atribuem a si mesmos, mas tudo referem a mim que lhes dei tudo por infinita caridade. Tão cheios estão do amor da divindade e de abundantíssima alegria, que nada falta à sua glória, nem pode faltar à sua bem-aventurança. Quanto mais elevados estão os santos na glória, tanto mais humildes são em si mesmos e mais perto de mim e de mim amados. Por isso lês na Escritura que depunham suas coroas diante de Deus e se prostravam diante do Cordeiro e adoravam aquele que vive nos séculos dos séculos (Ap 4,10).
9. Muitos perguntam qual seja o maior no Reino de Deus e não sabem se serão dignos de ser contados entre os menores. Grande coisa é ser ainda o menor no céu, onde todos são grandes, porque serão chamados filhos de Deus, e, na verdade, o são. O menor valerá por mil, e o pecador de cem anos morrerá (Is 60,22; 65,20). Pois, quando os discípulos perguntaram quem era o maior no Reino dos Céus, receberam esta resposta: Se vos não converterdes e vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus (Mt 18,3.4).
10. Ai daqueles que recusam humilhar-se espontaneamente com os pequenos; porque é baixa a porta do reino celeste e não lhes dará entrada. Ai também dos ricos, que têm neste mundo suas consolações, porque, quando os pobres entrarem no Reino de Deus, eles ficarão de fora, chorando. Regozijai-vos, humildes, e “exultai, pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6,20) contanto que andeis no caminho da verdade.
Reflexões
É obvio que, como não encontramos jamais duas pessoas perfeitamente semelhantes em dons naturais, também não se encontram duas perfeitamente iguais em dons sobrenaturais. Os anjos, como garantem o grande Santo Agostinho e Santo Tomás, receberam a graça segundo a variedade de suas condições naturais. Mas eles são todos de espécie diferente, ou pelo menos de diversas condições, uma vez que são distintos uns dos outros. Portanto, assim como há anjos diferentes, também há graças diferentes. E, ainda que, tratando-se dos seres humanos, a graça não seja dada de acordo com suas condições naturais, no entanto, como a divina doçura se compraz e se alegra, se assim podemos dizer, na criação das graças, ela as diversifica de infinitas maneiras, a fim de que esta variedade se torne o brilhante colorido de sua redenção e misericórdia...
Devemos precaver-nos de jamais procurar saber por que a suprema Sabedoria distribuiu uma graça de preferência a uma pessoa do que a outra, nem por que ela faz abundar seus favores num lugar e não em outro. Não, Teótimo, não te deixes levar por esta curiosidade, porque, tendo todos o suficiente, e até mais do que se requer para a salvação, que razão pode ter alguém no mundo de queixar-se, se apraz a Deus distribuir suas graças mais abundantemente a uns do que a outros?... Por conseguinte, é uma impertinência querer saber por que São Paulo não teve a graça de São Pedro, nem São Pedro a de São Paulo; por que Santo Antônio não foi Santo Atanásio, nem Santo Atanásio São Jerônimo; porque se responderia a essas perguntas que a Igreja é um jardim matizado de flores infinitas, de diversos tamanhos, de diversas cores, de diversos perfumes e, em suma, de diferentes perfeições. Todas têm seu preço, sua graça e seu esplendor, e todas, no conjunto de sua variedade, fazem uma agradabilíssima perfeição de beleza (Amour de Dieu, 1. II, cap. VII. I, 400 e 401).
Oração
Ó Santa e imensa onipotência de meu Deus, meu entendimento vos adora, sentindo-se muito honrado de reconhecer-vos e homenagear-vos com sua obediência e submissão. Oh! como sois incompreensível e como sou feliz de saber que o sois! Não, eu não gostaria de poder compreender-vos, porque seríeis pequeno, se uma capacidade tão mesquinha vos compreendesse (Opusc., III, 239).
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