Meditação de hoje 05/02/2026 Meditação
Imitação de Cristo
Tomás de KempisLivro III - Da consolação interior
Capítulo 55 - Da corrupção da natureza e da eficácia da graça divina
1. A alma: Senhor, meu Deus, que me criastes à vossa imagem e semelhança, concedei-me a graça que declarastes ser tão importante e necessária para a salvação: que eu vença minha péssima natureza, que me arrasta ao pecado e à perdição. Porque sinto em minha carne a lei do pecado, que é contrária à lei do espírito e me cativa, querendo me levar a obedecer, em muitas coisas, à sensualidade; nem poderei resistir às paixões, se não me assistir vossa santíssima graça, e me inflamar o coração.
2. É necessária vossa graça, e grande graça, para vencer a natureza, propensa sempre ao mal desde a infância. Porque, viciada pelo primeiro homem, Adão, e corrompida pelo pecado, transmite a todos os homens a pena desta mancha, de sorte que a mesma natureza, por vós criada boa e reta, agora deve ser considerada como enferma e enfraquecida pela corrupção, visto que seus movimentos, abandonados a si mesmos, a arrastam ao mal e às coisas baixas. Porque a módica força que lhe ficou é como uma centelha oculta debaixo da cinza. Esta centelha é a razão natural, que, embora envolta em densas trevas, discerne ainda o bem do mal, a verdade do erro, mas não é capaz de fazer tudo que aprova, já que não possui a plena luz da verdade, nem a primitiva pureza de seus afetos.
3. Daí vem, ó meu Deus, que “segundo o homem interior me deleito em vossa lei” (Rm 7,22), sabendo que vosso mandato é bom, justo e santo, que reprova todo mal e ensina que se deve fugir ao pecado. Segundo a carne, porém, estou escravizado à lei do pecado, pois obedeço mais à sensualidade que à razão. Daí vem que “tenho vontade de fazer o bem, mas não sei realizá-lo” (Rm 7,18). Por isso faço muitos bons propósitos, mas, faltando-me vossa graça que auxilie minha fraqueza, com o menor obstáculo desfaleço e desisto. Assim sucede que bem conheço o caminho da perfeição e vejo claramente o que devo fazer. Entretanto, oprimido com o peso da corrupção, não me elevo ao que é mais perfeito.
4. Oh! como me é necessária, Senhor, vossa graça, para começar, continuar e completar o bem. Porque sem ela nada posso fazer, mas tudo posso em vós, se me confortar vossa graça. Ó graça verdadeiramente celestial, sem a qual nada valem os próprios merecimentos, nem apreço merecem os dons naturais! Nada valem diante de vós, Senhor, as artes e a riqueza, a formosura e a fortaleza, o engenho e a eloquência – sem a graça. Porque os dons da natureza são comuns aos bons e aos maus; mas a graça ou caridade é peculiar dos escolhidos, porque os torna dignos da vida eterna. Tão excelente é esta graça, que nem o dom da profecia, nem o poder de fazer milagres, nem a mais alta contemplação tem valor algum sem ela. Nem mesmo a fé, nem a esperança, nem as outras virtudes vos agradam, sem a graça e sem a caridade.
5. Ó graça beatíssima, que fazes rico de virtudes o pobre de espírito e tornas humilde de coração o rico dos bens de fortunas: vem, desce sobre mim e enche minha alma de tua consolação, para que não desfaleça, de cansaço e aridez, meu espírito. Suplico-vos, Senhor, que eu ache graça em vossos olhos, porque me basta a vossa graça, embora me falte tudo que deseja a natureza. Ainda que seja tentado e vexado com muitas tribulações, nada temerei, enquanto estiver comigo a vossa graça. Ela é a minha fortaleza, me dá conselho e amparo. Ela é mais poderosa que todos os inimigos e mais sábia que todos os sábios.
6. Ela é a mestra da verdade e da disciplina, a luz do coração e o alívio nas tribulações; ela afugenta a tristeza, dissipa o temor, nutre a devoção, gera santas lágrimas. Que sou eu sem a graça, senão um lenho seco e um tronco inútil, que se atira ao fogo? Previna-me, pois, Senhor, a vossa graça e me acompanhe sempre e me conserve continuamente na prática das boas obras, por Jesus Cristo, vosso Filho. Amém.
Reflexões
Infeliz de mim – dizia o grande Apóstolo – quem me livrará deste corpo de morte? (Rm 7,24). Ele sentia o corpo como uma guerra, composta de seus humores, aversões, hábitos e inclinações naturais; que havia conspirado sua morte espiritual; e, porque teme esses inimigos, ele confessa que os odeia; e porque os odeia, não pode suportá-los sem dor; e sua dor o faz lançar este grito ao qual ele mesmo responde que a graça de Deus, por Jesus Cristo, o garantirá não do temor, nem do terror, nem do alarme, nem do combate, mas sim da derrota, e o impedirá de ser vencido (103e lettre spirit., XI, 163).
Ó pobre ser humano, como podes confiar em teu trabalho e em tua habilidade? Não sabes que, na verdade, cabe a ti cultivar bem a terra, trabalhá-la e semear, mas que só Deus pode fazer as plantas germinar e crescer, e fazer que tenhas uma boa colheita, mandando a chuva favorável às tuas terras semeadas? Tu podes regar, mas isto de nada serviria, se Deus não abençoasse teu trabalho e não te desse, por sua pura graça, e não por teus suores, uma boa colheita. Dependes, portanto, totalmente de sua divina bondade. É verdade que devemos cultivar bem, mas cabe a Deus fazer que o nosso trabalho resulte em êxito. A santa Igreja o canta em cada festa dos santos confessores: Deus honrou teus trabalhos, para que tirasses fruto deles. Isto mostra que por nós mesmos não podemos nada sem a graça de Deus, na qual devemos colocar toda a nossa confiança, nada esperando de nós mesmos (VIIe Entretien, III, 353).
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