Todas as orações

A prática do amor a Jesus Cristo

Santo Afonso Maria de Ligório

Capítulo V - A alma que ama a Jesus Cristo, ama o sofrimento

Purificação

Uma pessoa que ama a Deus só tem intenção de unir-se inteiramente a Deus. Mas ouçamos o que dizia Santa Catarina de Gênova: “Para se chegar à união com Deus são necessárias as tribulações, porque o Senhor, por meio delas, procura destruir em nós as más inclinações interiores e exteriores. Por isso as injúrias, os desprezos, as doenças, o abandono dos parentes e amigos, as confusões, as tentações e todas as contrariedades nos são necessárias. Oferecem-nos ocasião de combatermos e vencermos em nós todos os movimentos desordenados, até que, de vitória em vitória, cheguemos a extingui-los e a não mais senti-los. Dessa forma, as contrariedades sofridas por amor a Deus já não nos parecerão desagradáveis, mas suaves. Sem isso, nunca chegaremos à união com Deus” (Sta. Catarina de Gênova, Cattaneo Marabotto e Ettore Vernazza, Vita, c. 29).

Portanto, uma pessoa que deseja ser toda de Deus deve estar resolvida, como escreveu São João da Cruz, a procurar nesta vida não os prazeres, mas a acolher com amor os sofrimentos do dia a dia (S. João da Cruz, Opere, Milano 1928, v. I, Salita del Monte Carmelo, 1. 2, c.6, n. 3, 4,5), abraçando logo todas as mortificações, principalmente quando aparecem contra nossa vontade. Essas são as mais agradáveis a Deus.

“Mais vale o homem paciente do que o corajoso.” (Pr 16,32) Quem se mortifica com jejuns, sacrifícios, penitências, agrada sem dúvida a Deus pela coragem que emprega nestas mortificações; mais lhe agrada, porém, quem é forte em sofrer com paciência e alegria as cruzes que Deus lhe manda. Dizia São Francisco de Sales: “As mortificações que nos vêm de Deus ou dos homens, por permissão divina, são sempre mais preciosas do que aquelas que são filhas de nossa vontade. Como regra geral, o que tem menos de nossa escolha, é o mais agradável a Deus, e proveitoso para nossa alma” (S. Francisco de Sales, Oeuvres, Annecy 1895, v. VI, ap, II. D. p. 447-8). Também Santa Teresa dizia: “Ganhamos mais em um só dia de sofrimento vindo de Deus ou do próximo do que em dez anos de padecimentos que nós mesmos escolhemos” (Sta. Teresa, Camino de perfeccion, c. 36, Obras, III, p. 175). Santa Maria Madalena de Pazzi dizia generosamente não existir no mundo um sofrimento que não estivesse pronta a suportar com alegria, sabendo que vinha de Deus. E de fato, nas grandes provações que ela sofreu durante cinco anos, bastava-lhe recordar-se ser vontade de Deus que assim sofresse, para voltar à calma (Puccini, Vita, Padova. 1671, c. 83). Para conquistar Deus, esse grande tesouro, todo o nosso esforço é pouco. Dizia o Padre Hipólito Durazzo: “Custe Deus quanto custar, nunca será caro demais” (P. Hipólito Durazzo – Tom. Campora, S.I. Vita, 1. 2, c. 12).

Peçamos ao Senhor que nos faça dignos de seu santo amor. Se o amamos perfeitamente, todos os bens da terra parecerão fumaça e lodo; as humilhações e sofrimentos tornar-se-ão alegrias para nós. Eis como fala São João Crisóstomo de uma pessoa que se deu sem reservas a Deus: “Chegando alguém ao perfeito amor de Deus, é como se ele se achasse sozinho na terra. Não fez caso da glória nem da humilhação; não liga para as tentações e sofrimentos; encontra um outro sentido e sabor em todas as coisas. Não encontrando apoio nem descanso em coisa alguma, busca continuamente aquele a quem ama sem se cansar. Assim, quando come ou quando trabalha, quando está acordado ou quando dorme, em todas as palavras e ações, todo o seu pensamento e todo o seu esforço é encontrar o seu amado, porque tem seu coração onde está seu tesouro” (S. João Crisóstomo, In Ioannem. hom. 88 (al. 87) n. 3. MG 59-476; In Epist. ad Rom., hom. 9 n. 4: MG 60.474; In Genesim, c. 99, hom. 28, n. 3 e 6: MG 53-256, 259, 260; Expositio in PS. 41, n. 5. MG 55-163)

Neste capítulo falamos da paciência em geral. No capítulo XIV trataremos de vários casos particulares em que devemos especialmente exercê-la.


A prática do amor a Jesus Cristo
(Santo Afonso Maria de Ligório)
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