Meditação de hoje 17/01/2026 Meditação
O Abandono à Providência Divina
Padre Jean Pierre de CaussadeLivro Primeiro: Natureza e excelência da virtude do abandono
CAPÍTULO I - Toda a santidade dos justos da antiga lei, bem como a de S. José e a da própria Virgem Santíssima, constitui na fidelidade à vontade de Deus.
Deus fala, ainda hoje, como falava a nossos pais, quando não havia diretores nem métodos. A fidelidade à vontade de Deus era toda a espiritualidade; mas esta não se encontrava posta em arte que a explicasse de maneira tão sublime e tão pormenorizada, com tantos preceitos, tantas instruções e tantas máximas. As necessidades presentes exigem-no, sem dúvida; mas não era assim noutros tempos, em que havia mais retidão e simplicidade. Sabia-se que em cada momento temos um dever a cumprir com fidelidade, e isto bastava aos homens de então. Nele se ia concentrando sucessivamente a sua atenção, como o ponteiro do relógio que vai marcando as horas, e em cada minuto aponta o espaço que deve percorrer. O seu espírito, movido sem cessar pelo impulso divino, encontrava-se insensivelmente voltado para o novo objeto que se lhes oferecia, segundo a disposição divina, em cada hora do dia.
Tais eram os segredos do proceder de Maria, a mais simples das criaturas e a mais entregue a Deus. A resposta que deu ao Anjo, quando se limitou a dizer-lhe: Faça-se em mim segundo a tua palavra, continha toda a teologia mística dos seus antepassados. Tudo aí se reduzia, como no presente, ao mais puro e ao mais singelo abandono da alma à vontade de Deus, qualquer que fosse a forma por que esta se apresentasse.
Tão digna e tão nobre disposição, que constituía todo o fundo da alma de Maria, brilha admiravelmente nessa palavra tão simples: Fiat mihi. Notemos que ela está perfeitamente de acordo com a que Nosso Senhor deseja que nós tẹnhamos, sem cessar, nos lábios e no coração: Fiat voluntas tua. É certo que aquilo que se exigia a Maria nesse momento de tamanha transcendência, era gloriosíssimo para ela. Mas não se deixaria deslumbrar por todo o brilho dessa glória, se a vontade de Deus, o único objeto capaz de a impressionar, não tivesse detido o seu olhar.
Essa divina vontade é que a regia em tudo. Quer as suas ocupações fossem comuns ou elevadas, a seus olhos eram somente sombras, escuras umas vezes outras vezes resplandecentes, nas quais encontrava matéria para glorificar a Deus e reconhecer as obras do Todo Poderoso. O seu espírito, transportado de alegria, considerava tudo o que tinha de fazer ou de sofrer em cada momento, como um dom d’Aquele que sacia de bens os corações que só d’Ele se alimentam e não das espécies ou aparências criadas.
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