Tratado da Conformidade com a Vontade de Deus
(Santo Afonso Maria de Ligório)

Composto por Santo Afonso Maria de Ligório

Capítulo VII

Feliz de vós amado leitor, se sempre fazeis outro tanto! A santidade será a consequência, e, tendo passado uma ditosa vida, concluirá com uma não menos ditosa morte. Quando se passa desta para outra vida, a esperança que os que ficam, concebem da salvação do que foi, procede do conhecimento que haja, de que morrer com resignação. Se abraçamos todas as vicissitudes da vida, como vindas da mão de Deus, e mesmo a morte, com submissão à Sua vontade, por certo que morreremos santos, e seremos salvos. Abandonemo-nos, pois em tudo à boa vontade d’Aquele Senhor, que sendo o mais sábio, conhece o que melhor nos convém: e sendo o mais amante, pois que deu a Sua vida por nosso amor, quer também o que é melhor por nós. Fiquemos certos e persuadidos, diz São Basílio, que Deus procura o nosso bem, sem comparação melhor, do que nós o podemos procurar ou desejar. Mas prossigamos e consideremos em que coisas nos devemos unir com a divina vontade.

1.º Devemos unir-nos a vontade de Deus nas coisas naturais, como quando faz frio, calor, quando chove, ou em tempo de escassez ou epidemia, e em outros casos iguais. Devemos abster-nos de dizer: que intolerável frio, que horroroso calor! que desagradável estação! Ou fazermos uso de algumas expressões que mostrem a nossa repugnância para com a vontade de Deus. Devemos querer tudo como é, porque Deus de tudo dispõe. São Francisco de Borja, indo uma noite a um convento da sua ordem, enquanto que nevava muito, bateu à porta muitas vezes; porém os padres que estavam dormindo não lh’a abriram. Quando amanheceu, muitos deles lastimavam tê-lo feito esperar tanto fora de casa; mas o Santo lhes disse «que ele tirara muita consolação durante aquele tempo, pensando que era Deus quem fazia cair os flocos de neve sobre ele»

2.º Devemos unir-nos à divina vontade, quando padecemos fome, sede pobreza, desolação e desonra. Em todo o caso devemos dizer «Senhor, Vós fazes e desfazes, e eu estou contente, desejando unicamente o que Vós queres» E o mesmo devemos dizer, diz Rodrigues, naqueles casos imaginários sugeridos por Satanás, na intenção de nos fazer cair em alguma maldade, ou pelo menos para nos inquietar. Se alguém vos dissesse estas e aquelas palavras, ou vos fizesse estas ou aquelas ofensas, que diríeis? Que faríeis? Devemos responder: «Eu diria e faria o que Deus quizesse» E assim nos livraríamos de toda a falta de inquietação.

3.º Se temos algum defeito natural, ou no nosso espírito ou no nosso corpo, como ter pouca memória, engenho rude, pouca habilidade, falta de algum membro, saúde fraca, não nos lastimemos. Pois que merecimento tínhamos para que Deus nos desse uma alma mais sublime, ou um corpo mais bem organizado? Não podia Ele permitir que nascêssemos na classe dos brutos? Não podia Ele deixar-nos no nosso nada? Demos graças ao Senhor por tudo que Sua bondade nos tem concedido, e por tudo que faz. Quem sabe, se tendo nós tido maiores talentos, uma perfeita saúde, um corpo extremamente bem organizado, nos teríamos perdido! A quantos a sua ciência e o seu saber tem sido a origem da soberba e do desprezo com que tratam os outros, e por isso causa da sua perdição? Em tal perigo estão outros muitos, que se adiantam nas ciências e nos talentos. A quantos outros a beleza e suas forças tem sido causa de muitos crimes! E ao contrário quantos por serem pobres, enfermos e disformes na sua figura, se tem salvado, e sido santos? E quantos se fossem ricos, instruídos e de boa presença, se teriam perdido e condenado? Portanto, contentemo-nos com o que Deus nos tem concedido. Não é necessária a beleza, a saúde, nem um engenho agudo, só é necessário o salvar-nos, disse Jesus Cristo.

4º Devemos particularmente ser resignados nas enfermidades corporais, e voluntariamente abraçá-la de maneira e pelo tempo que Deus tenha determinado visitar-nos com elas. Devemos tomar remédio, para restaurarmos a saúde: porque tal é a vontade de Deus: porém, não aproveitando estes, devemos unir-nos à vontade divina, o que nos será de maior vantagem do que a mesma saúde; e devemos dizer em ocasiões tais: «Senhor, eu não desejo a saúde nem a doença, desejo unicamente que a Vossa vontade seja feita.» É sem dúvida grande virtude, não lamentar nossas aflições, durante o tempo da dor ou enfermidade; porém, quando estas pesam sobre nós, não nos é vedado descrevê-la a nossos amigos, nem mesmo rogar a Deus que nos livre delas. Falo daquelas dores ou enfermidades que atacam severamente, que muitos há tão insofridos, que pela mais leve indisposição ou fadiga, pretendem obter a compaixão de todos. O mesmo Jesus Cristo, começando a Sua Paixão, deu a conhecer a Seus discípulos a Sua tribulação: «A minha alma está triste até a morte» (Mt 27 38) E Ele rogou ao Seu Eterno Pai o livrasse dela: «Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice» (ibid. 39)

Mas o mesmo Jesus nos ensinou, que o que devemos fazer depois de tais preces, é re-signar-nos imediatamente à vontade divina, dizendo: «Não como eu quero, mas como Vós quereis»

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