Todas as orações

O Abandono à Providência Divina

Padre Jean Pierre de Caussade

Livro Primeiro: Natureza e excelência da virtude do abandono

CAPÍTULO VIII - A perfeição das almas e a excelência dos diversos estados medem-se pela fidelidade à ordem de Deus

A ordem de Deus confere a todas as coisas, a respeito da alma que com ela se conforma, um valor sobrenatural e divino. Tudo o que essa ordem prescreve, tudo o que contém, todos os objetos aos quais ela se estende, tornam-se perfeição e santidade, porque a sua virtude não tem limites e diviniza todas as coisas em que toca.

Mas para não se desviar nem para a direita nem para a esquerda, a alma precisa de não seguir inspiração alguma que julgue recebida de Deus, antes de se ter certificado de que essa inspiração não se afasta dos deveres do seu estado. Estes deveres são a manifestação mais certa da ordem de Deus, e nada lhes deve ser anteposto; neste ponto nada há a temer, nada a excluir nem distinguir. Os momentos consagrados ao cumprimento dos próprios deveres são para a alma os mais preciosos e os mais salutares, por isso mesmo que lhe dão a segurança indubitável de que se conforma com o beneplácito de Deus.

Toda a virtude do que se chama santo reside nesta ordem de Deus; e assim nada se deve rejeitar sem procurar conhecê-la, mas antes abraçar tudo o que venha da sua parte, e nada sem ela. Os livros, os conselhos dos sábios, as orações vocais, os afetos interiores, se a ordem de Deus os prescreve, tudo isso instrui, tudo dirige e une. Erra o quietismo, ao desdenhar esses meios e tudo o que é sensível, porque há almas que Deus quer fazer seguir sempre por esse caminho, o qual os seus estados e as suas inclinações traçam claramente. Em vão se imaginam outras formas de abandono das quais esteja excluída toda a atividade própria; quando a ordem divina é que move a alma, está em ação a santidade.

Além dos deveres impostos a cada um pelo próprio estado, Deus pode ainda pedir certas ações que não estão contidas nesses deveres, conquanto não lhe sejam opostas. A inclinação e a inspiração são nesse caso o sinal da ordem divina; e o mais perfeito para as almas que Deus assim conduz é ajuntar às coisas prescritas as coisas inspiradas, mas com as precauções que a inspiração exige para não lesar os deveres de estado nem as coisas de pura Providência.

Deus forma os santos como bem lhe apraz; a sua ordem é que os faz a todos e todos devem ser sujeitos a esta ordem; esta sujeição é o verdadeiro abandono, é o que há de mais perfeito.

O cumprimento dos deveres de estado e a aceitação das disposições da Providência é o patrimônio comum de todos os santos. Vivem escondidos na obscuridade, para evitar os funestos escolhos do mundo; mas não é nisso que fazem consistir a própria santidade, a qual toda se resume na submissão à ordem de Deus. Quanto mais esta submissão se torna absoluta, tanto mais eles se santificam. Não se deve pensar que aqueles em quem Deus faz brilhar as virtudes por meio de ações singulares e extraordinárias, por inclinações e inspirações não suspeitas, vão por isso menos pelo caminho do abandono. Uma vez que a ordem de Deus lhes impõe como um dever estas obras esplendorosas, eles não se abandonariam a Deus e à sua santíssima vontade, e esta não seria neles a senhora de todos os seus momentos e todos os seus momentos não seriam vontade de Deus, se se contentassem com os deveres do próprio estado e com as coisas de pura Providência. Têm de estender-se e medir-se pela extensão dos desígnios de Deus neste caminho que lhes é assinalado pela inclinação. A inspiração deve ser para eles um dever, ao qual têm de permanecer fiéis. E como há almas cujo dever é totalmente marcado por uma lei exterior, em que se devem encerrar porque a ordem de Deus as encerra nele, é necessário que as outras, além do dever exterior sejam também fiéis a essa lei interior que o Espírito Santo lhes grava no coração.

Mas quem são os mais santos? Querer sabê-lo é curiosidade vã. Cada um de nós deve seguir o caminho que lhe foi traçado. A perfeição consiste em submeter-se à ordem de Deus e em nada deixar escapar do que nela se encontra de mais perfeito. A comparação dos diversos estados considerados em si mesmos não nos ajuda nada a adiantar no caminho da perfeição, pois não é na quantidade nem na qualidade das coisas previstas, que se deve buscar a santidade. Se o amor próprio é o princípio das nossas ações, ou se não é retificado quando nos damos conta das suas investigações e curiosidades, seremos sempre pobres numa abundância que não é repleta pela ordem de Deus. Contudo, para de algum modo decidir a questão, penso que a santidade corresponde ao amor que temos ao beneplácito de Deus; e que quanto mais esta vontade e esta ordem forem amadas, seja qual for a ação material que elas prescrevem, tanto mais santidade haverá. E isto é o que vemos em Jesus, Maria e José, pois na sua vida particular há mais amor do que magnificência, e mais forma do que matéria; nem se escreve de pessoas tão santas, que tenham procurado a santidade das coisas, mas unicamente a santidade nas coisas.

Deve, portanto, concluir-se que não há caminho particular que seja o mais perfeito; mas que o mais perfeito, em geral, é a submissão à ordem de Deus, quer no cumprimento dos deveres exteriores quer nas disposições interiores.

Julgo que se as almas que tendem seriamente para a santidade fossem instruídas sobre este modo de proceder que devem observar, evitariam muitas dificuldades. E isto digo, quer das pessoas do mundo quer das que abraçaram a vida religiosa. Se as primeiras soubessem o mérito escondido no que em cada instante têm entre mãos, isto é, nas suas obrigações de cada dia, e nos deveres ordinários do próprio estado; se as segundas chegassem a persuadir-se que o fundo da santidade consiste nas coisas de que não fazem caso e que consideram mesmo como sendo-lhes estranhas; se estas duas classes de pessoas compreendessem que para se elevarem ao mais alto grau de perfeição, as cruzes providenciais que o próprio estado lhes proporciona a cada instante, lhes abrem um caminho bem mais seguro e mais breve do que os estados e as obras extraordinárias; e que a verdadeira pedra filosofal é a submissão à ordem de Deus, que transforma em ouro todas as suas ocupações, os seus desgostos e os seus sofrimentos, ó como seriam felizes. Quanta consolação e quanta coragem tirariam deste pensamento, que para abraçar a amizade de Deus e todas as glórias do céu, não têm que fazer mais nada do que fazem nem sofrer mais nada do que sofrem; e o que deixam perder e têm em conta de nada, bastaria para conseguir uma santidade eminente!

Quanto eu desejaria, ó meu Deus, ser o arauto desta santa vontade, e ensinar a toda a classe de pessoas que não há nada tão fácil, nem tão comum, nem que esteja tanto à mão de toda a gente, como a santidade. Ó como eu desejaria fazer compreender bem, que assim como o bom e o mau ladrão não tinham coisas diferentes que fazer ou sofrer para ser santos, assim duas almas, uma das quais é mundana e a outra toda interior e espiritual, não têm que fazer ou sofrer mais uma do que a outra. A que se santifica adquire a eterna felicidade, fazendo com submissão à vossa vontade, aquilo mesmo que faz por fantasia aquela que se condena; e esta última condena-se sofrendo com amargura e murmuração o que suporta com resignação aquela que se salva. O que é diferente, portanto, é só o coração.

Ó queridas almas que ledes estas palavras, olhai que não vos há-de custar mais fazer o que fazeis, sofrer o que sofreis; só tendes que mudar o coração.

E pelo coração entende-se a vontade. Esta mudança consiste, pois, em amar com a vontade aquilo que nos sucede por ordem de Deus. A santidade é simplesmente um fiat, uma disposição de vontade conforme à vontade de Deus; haverá coisa mais fácil? De facto, quem não pode amar uma vontade tão amável e tão boa? Amemo-la, pois; e este amor bastará para tudo em nós se tornar divino.


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