Todas as orações

A Esmola

Venerável Padre André Beltrami

CAPÍTULO XIV

A ESMOLA DEVE SER FEITA DURANTE A VIDA

O preceito da esmola há de ser praticado durante a vida. Alguns há que raciocinam deste modo: «Agora penso em desfrutar o meu capital e não quero diminuí-lo com doações e esmolas; quando estiver à morte, deixarei um legado para os pobres, mandarei rezar muitas Missas...» Não! Esses tais se enganam crassamente. Jesus Cristo ordena que se dê esmola do supérfluo dia a dia, toda a vida, porque se os pobres têm fome, não podem esperar até a vossa morte. Além disso, o bem que fazemos durante a vida vale muito mais do que na hora da morte quando somos obrigados a deixar tudo.

Costumava dizer S. Leonardo de Porto Maurício: «Ilumina mais um lume diante, que não dois atrás». E queria dizer com isso que vale mais o pouco em vida do que o muito na morte e depois da morte.

Ademais, tendes certeza de que a vossa vontade será executada? Quantas vezes não se faz desaparecer o testamento, ou é contestado no tribunal ou interpretado em outro sentido!

Quase todas as obras pias se lamentam de alguma injustiça na execução de testamentos em seu favor. O bem que se pode fazer hoje não se deve deixar para amanhã, pois a vida é incerta e pode chegar improvisadamente a morte. Fazendo bom uso do nosso dinheiro, impedimos o mal, salvamos mais almas, somos úteis à religião e à sociedade civil, afastamos as desgraças corporais e espirituais, temporais e eternas da cabeça de muitas pessoas, às quais, se tardia, a nossa caridade seria inútil.

Apraz-me repetir ainda uma vez, que não se trata de conveniência ou de conselho, mas de grave obrigação. O preceito da esmola é cotidiano, e obriga a dar o supérfluo aos pobres, vez por vez; se são indigentes, têm necessidade de alimento todos os dias. Horroriza ouvir contar que todos os anos, principalmente no coração do inverno, morrem de fome e de frio tantos infelizes! A sua morte horrível pede vingança contra aqueles ricos que talvez os tenham despedido de sua porta sem um auxílio, e quem sabe se com desdém os tenham mandado trabalhar se quisessem comer.

Muito embora se tratasse de vadios, nós recebemos do mesmo modo a recompensa prometida por Jesus Cristo, se dermos esmola. Se, às vezes, falsos pobres nos enganassem, nem por isso nós deixaremos de receber o prêmio temporal e espiritual prometido aos misericordiosos.

Determinemos, pois, dar esmola em vida enquanto temos tempo, forças e meios e não deixemos para o fazer na hora da morte. É agora que os pobres pedem o nosso auxílio, é agora que os orfanatos esperam o nosso contributo para educar as crianças abandonadas; é agora que os hospitais esperam víveres, remédios para aumentar o bem que já fazem a tantos doentes; é agora que as missões católicas têm necessidade de meios para propagar a religião e a civilização entre os infiéis.

Santo Jó se alegrava com o pensamento de que sobre sua cabeça descesse a bênção do pobre que ele socorria. Os ricos que dão esmola experimentarão a mesma alegria e os mesmos favores.

S. Vicente de Paulo, o apóstolo da caridade, dizia: «Quem ama os pobres durante a vida, nada tem a temer na hora da morte; observei sempre isto, daí o insinuar esta máxima às pessoas a quem vejo angustiadas pelo pensamento da morte».


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A Esmola
(Venerável Padre André Beltrami)
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