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A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Santo Afonso Maria de Ligório

CAPÍTULO III - Reflexões sobre a flagelação, a coroação de espinhos e crucifixão de Jesus Cristo

Sobre a crucificação

1. A cruz começou a atormentar a Jesus Cristo antes mesmo de ser nela pregado, já que depois da condenação de Pilatos teve de levar até ao Calvário a cruz em que devia morrer e ele, sem oposição, tomou-a sobre seus ombros. “E levando sua cruz às costas, saiu para aquele lugar que se chama Calvário” (Jo 19,17). Falando desse acontecimento, escreve S. Agostinho: “Se se atender à crueldade, que usou com Jesus Cristo, fazendo-o carregar pessoalmente seu patíbulo, foi isso um grande opróbrio; mas se se olhar para o amor com que Jesus Cristo abraçou a cruz, foi um grande mistério (In Jo. trat. 117). Levando a cruz, quis o nosso capitão desfraldar a bandeira sob a qual deveriam arrolar-se e militar os seus sequazes nesta terra, para assim se tornarem depois seus companheiros no reino dos céus.

S. Basílio, falando deste passo de Isaías: Nasceu-nos um menino e foi-nos dado um filho e sobre seus ombros foi posto o principado (Is 9,6), diz que os tiranos da terra agravam seus súditos com encargos injustos, para aumentar o seu poder: Jesus Cristo, pelo contrário, quer aliviar-nos o peso da cruz e levá-la morrendo nela para obter-nos a salvação. É também certo que os reis da terra colocam seu poder na força das armas e no acervo de riquezas. Jesus Cristo, porém, fundou seu principado no ludíbrio da cruz, humilhando-se e padecendo, e de boa vontade se sujeitou a levá-la nessa viagem dolorosa para, com seu exemplo, dar-nos coragem de abraçar com resignação a sua cruz e assim segui-lo. Fala a todos os seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, abnegue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

2. Vem a pêlo notar aqui as belas expressões com que S. João Crisóstomo saúda a cruz. Ele a chama: “Esperança dos desprezados”. Que esperança de salvar-se teriam os pecadores, se não fosse a cruz em que Jesus Cristo morreu para remi-los? “Guia dos navegantes”. A humilhação que nos vem da cruz (isto é, da tribulação) é a causa de obtermos nesta vida como num mar cheio de perigos, a graça de observar a lei divina e, se a transgredimos, a de nos emendar, segundo afirma o Profeta: “Para mim foi bom que me humilhaste, para que eu aprenda as tuas justificações”. (Sl 118,17). “Conselheira dos justos”. Os justos tiram da adversidade motivo e razão para unirem-se mais com Deus. “Alívio dos atribulados”. Donde tiram os aflitos maior lenitivo senão do aspecto da cruz, na qual morreu, cheio de dores por seu amor, seu Redentor e seu Deus? “Glória dos mártires”. Foi esta a glória dos santos mártires, poder unir suas penas e morte às que Jesus Cristo suportou na cruz, como diz S. Paulo: “Para mim, não há outra glória do que a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). “Médico dos doentes”. Oh! que grande remédio é a cruz para muitos que estão enfermos de espírito! As tribulações os esclarece e os desprendem do mundo. “Fonte para os que têm sede”. A cruz, isto é, sofrer por Jesus Cristo, é o desejo dos santos. S. Teresa dizia: Ou padecer ou morrer, e S. Maria Madalena de Pazzi ia adiante e dizia: Padecer e não morrer, como se recusasse morrer e ir gozar no céu para ficar nesta terra a padecer.

Afinal, falando em geral dos justos e dos pecadores, a cada um toca a sua cruz. Os justos, apesar de gozarem da paz de consciência, têm as suas vicissitudes: ora são consolados pelas visitas de Deus, ora afligidos pelas contrariedades e enfermidades corporais e em especial pelas desolações, pelas trevas e tédio de espírito, pelos escrúpulos, pelas tentações, pelos temores da própria salvação. Muito mais pesada, porém, é a cruz dos pecadores, os remorsos de consciência que os atormentam, os temores dos castigos eternos que de quando em quando se apoderam deles, e as angústias que sofrem nas adversidades. Os santos nas contrariedades se resignam com a vontade divina e sofrem em paz. Mas como poderá resignar-se o pecador com a vontade de Deus, se ele vive em sua inimizade? As penas dos inimigos de Deus são só penas sem nenhum conforto. Por isso dizia S. Teresa que quem ama a Deus abraça a cruz e com isso não a sente, mas quem não ama a Deus, arrasta à força a cruz e assim não pode deixar de sentir-lhe o peso.


A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo
(Santo Afonso Maria de Ligório)
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