Meditação de hoje 29/03/2026 Meditação
Imitação de Cristo
Tomás de KempisLivro III - Da consolação interior
Capítulo 59 - Que só em Deus devemos firmar toda esperança e confiança
1. A alma: Senhor, que confiança posso eu ter nesta vida ou qual é minha maior consolação de tudo quanto existe debaixo do sol? Não o sois vós, Senhor, Deus meu, cuja misericórdia é infinita? Onde me achei bem sem vós, ou quando passei mal, estando vós presente? Antes quero ser pobre por vós, que rico sem vós. Prefiro peregrinar convosco na terra, que sem vós possuir o céu. Onde vós estais, aí está o céu; e lá existe a morte e o inferno, onde vós não estais. Vós sois o alvo de meus desejos, por isso por vós devo gemer, clamar e orar. Em ninguém, finalmente, posso plenamente confiar que me dê auxílio oportuno em minhas necessidades, senão em vós só, meu Deus. Vós sois minha esperança, vós minha confiança, vós meu consolador fidelíssimo em todas as coisas.
2. Todos buscam os seus interesses; vós, porém, só tendes em vista minha salvação e aproveitamento, e tudo converteis em bem para mim. Ainda quando me sujeitais a várias tentações e adversidades, tudo isso ordenais para meu proveito, pois de mil modos costumais provar os vossos amigos. E nessas provações não menos vos devo amar e louvar, como se me enchêsseis de celestiais consolações.
3. Em vós, portanto, Senhor meu Deus, é que ponho toda a minha esperança e refúgio; a vós entrego todas as minhas tribulações e angústias; porque tudo quanto vejo fora de vós acho fraco e inconstante. Nada me aproveitam os muitos amigos, nem me poderão ajudar os homens, nem os prudentes conselheiros me darão conselho útil, nem os livros dos sábios me poderão consolar, nem qualquer tesouro precioso me poderá salvar, nem algum retiro delicioso me proteger, se vós mesmo não me assistis, ajudais, confortais, consolais, instruís e defendeis.
4. Pois tudo que parece próprio para alcançar a paz e a felicidade nada é sem vós, nem pode trazer-nos a verdadeira felicidade. Vós sois, pois, o remate de todos os bens, a plenitude da vida, o abismo da ciência; esperar em vós acima de tudo é a maior das consolações dos vossos servos. A vós, Senhor, levanto os meus olhos, em vós confio, Deus meu, Pai de misericórdia! Abençoai e santificai minha alma com a bênção celestial para que seja vossa santa morada, o trono de vossa eterna glória, e nada se encontre nesse tempo da vossa divindade que possa ofender os olhos de vossa majestade. Olhai para mim segundo a grandeza de vossa bondade e a multidão de vossas misericórdias e ouvi a oração do vosso pobre servo desterrado tão longe, na sombria região da morte. Protegei e conservai a alma do vosso mísero servo entre os muitos perigos desta vida corruptível, e com a assistência de vossa graça guiai-o pelo caminho da paz à pátria da perpétua claridade. Amém.
Reflexões
Meu Pai, diz nosso dulcíssimo Salvador, em vossas mãos entrego o meu espírito (Lc 24,46). É verdade, queria ele dizer, que tudo está consumado, e que eu cumpri tudo o que me havíeis ordenado. Mas, mesmo assim, se for vossa vontade que eu permaneça por mais tempo nesta cruz para sofrer, estou contente. Entrego meu espírito em vossas mãos, podeis fazer dele o que quiserdes. Não deveríamos fazer o mesmo... em qualquer ocasião, seja quando sofremos ou quando desfrutamos a vida? Meu Pai, deveríamos dizer, entrego meu espírito em vossas mãos: fazei de mim tudo que quiserdes, deixando-nos assim conduzir pela vontade divina, sem jamais preocupar-nos com a nossa vontade particular.
Nosso Senhor ama com um amor extremamente terno aqueles que são tão felizes que, por abandonar-se totalmente em seu seio paternal e deixar-se governar por sua divina providência como lhe aprouver, não precisam perder tempo em considerar se os efeitos desta providência lhes são úteis, proveitosos ou prejudiciais, pois estão tão certos de que nada poderia ser-lhes enviado desse coração paternal e tão amável, ou que ele não poderia permitir que nada lhes aconteça sem que possam tirar disso o bem e a utilidade, contanto que tenham colocado toda a sua confiança nele, e que lhe digam de boa vontade: Em tuas mãos entrego o meu espírito; e não somente meu espírito, mas ainda minha alma, meu corpo e tudo que tenho, a fim de que façais de tudo isto o que vos aprouver (Sermon pour le vendredi saint, IV, 476).
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