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O Abandono à Providência Divina

Padre Jean Pierre de Caussade

Livro Segundo: Da ação Divina e da maneira como ela trabalha sem cessar na santificação da alma

CAPÍTULO II - A ação divina é tanto mais visível aos olhos da fé, quanto são mais opostas as aparências sob as quais se esconde

A alma iluminada pela fé está bem longe de julgar das coisas como aqueles que as medem pelos sentidos, ignorando o tesouro inestimável que elas encerram. O que sabe que uma pessoa disfarçada é o rei, procede de modo bem diferente quando ela chega, do que aquele que vendo a figura dum homem vulgar, o trata segundo a aparência exterior. Do mesmo modo a alma que vê a vontade de Deus nas mais pequeninas coisas, nas mais desoladoras e angustiantes, recebe tudo com igual alegria, com igual reverência e júbilo; o que outros temem e fogem com horror, honra-se ela de o receber, abrindo-lhe de par em par as portas do coração. A bagagem é pequena, os sentidos desprezam-na; mas o coração, sob essa aparência vil, reverencia do mesmo modo a majestade real; e quanto mais ela se abate para vir em segredo e sem ruído, tanto mais o coração se sente penetrado de amor.

Não posso exprimir aqui o que sente o coração quando acolhe a divina vontade, tão pobre, tão abatida, tão diminuída. Oh como esta pobreza de Deus, este abatimento até habitar numa estrebaria, reclinado sobre um pouco de palha, chorando tremendo de frio, penetra no belo Coração de Maria! Interrogai os habitantes de Belém, vede o que pensam deste menino. Se ele estivesse num palácio, rodeado de fausto como um príncipe, não faltariam a lhe fazer corte. Mas perguntai a Maria, a José, aos Magos, aos pastores; e eles vos dirão que encontram nesta pobreza extrema uma coisa que não sabem definir mas pela qual Deus se lhes torna maior e mais amável. O que falta aos sentidos, realça-o, aumenta-o e enriquece-o a fé; quanto menos alimento há para os olhos, mais há para a alma.

Adorar a Jesus no Tabor, amar a vontade de Deus nas coisas extraordinárias, não é uma vida de fé em grau tão excelente como amar a vontade de Deus nas coisas comuns e adorar a Jesus sobre a Cruz; porque a fé não é excelentemente viva senão quando o aparente e o sensível a contradizem e se esforçam por destruí-la. Esta guerra dos sentidos torna a fé mais gloriosamente vitoriosa. Encontrar a Deus tão bom nas coisas mais pequenas e mais comuns como nas maiores, é ter uma fé invulgar, uma fé grande e extraordinária.

Contentar-se com o momento presente, é saborear e adorar a vontade divina em tudo o que temos de fazer e de sofrer, nas coisas que pela sua sucessão integram este momento atual. As almas assim dispostas adoram a Deus com redobrado amor e reverência, nos estados mais humildes; nada O esconde ao olhar perspicaz da fé. Quanto mais os sentidos teimam em afirmar “aí não está Deus", tanto mais essas almas abraçam e estreitam ao coração o ramalhete de mirra; nada as afasta nem as desvia. Maria há de ver os Apóstolos abandonaram a Jesus; porém Ela permanecerá junto à cruz e reconhecerá o seu Filho, por mais que os escarros e as chagas o tenham desfigurado. Pelo contrário, essas chagas que O desfiguram tornam-no mais adorável e mais amável à ternura dos olhos da Mãe, e quanto mais blasfêmias vomitarem os algozes contra Ele, mais crescerá o seu amor e veneração.

A vida da fé não é senão uma busca incessante de Deus através de tudo aquilo que o esconde, o desfigura e por assim dizer o destrói e aniquila. É verdadeiramente uma reprodução da vida de Maria, que desde o presépio ao Calvário se conserva unida a um Deus desconhecido, abandonado e perseguido por todos. De igual maneira as almas de fé passam além duma série continuada de mortes, de véus, de sombras e de aparências, que teimam em tornar irreconhecível a vontade de Deus, a qual elas buscam e amam até à morte da cruz. Sabem perfeitamente que é preciso deixar continuamente as sombras, para correr após este divino sol que, desde o seu nascimento até ao seu ocaso, mesmo encoberto por escuras e densas nuvens, de contínuo ilumina, aquece e abrasa os corações fiéis que o bendizem, louvam e contemplam em todos os pontos desse misterioso percurso.

Correi, pois, ó almas fiéis, alegres e infatigáveis, após este querido Esposo que faz o seu caminho a passos de gigante, dum extremo ao outro do céu, sem nada se poder ocultar a seus olhos. Caminha por sobre as ervinhas do prado do mesmo modo que por cima dos cedros das florestas. Sob os seus passos estão os grãos de areia da praia, como os dorsos das montanhas. Por toda a parte já Ele pousou os seus pés; é segui-Lo sem desfalecer, com a certeza de o encontrar onde quer que vos acheis.

Ó que deliciosa paz desfruta a alma a quem a fé ensinou a ver assim a Deus através de todas as criaturas, como através de um véu diáfano.

Então as escuridões tornam-se luminosas, suaves as amarguras. A fé, mostra-nos as coisas na sua verdadeira luz, muda-lhes a feiúra em beleza e a malícia em bondade. A fé é a mãe da doçura, da confiança e da alegria; não pode usar senão de ternura e compaixão para com os seus inimigos, que tanto a enriquecem à própria custa. Quanto mais a ação da criatura é malévola, tanto mais a ação de Deus a torna proveitosa. Ao passo que o instrumento humano se esforça em prejudicar, o divino artífice, em cujas mãos está, serve-se dessa mesma malícia para desviar da alma aquilo que lhe pode fazer mal.

A vontade de Deus não tem senão doçuras, favores, tesouros, para as almas submissas; nunca será demais a confiança que ponhamos nela, nem a ela nos abandonaremos demasiadamente. Ela pode e quer sempre o que mais há de contribuir para a nossa perfeição, contanto que de nossa parte não ponhamos obstáculos à ação de Deus. A fé não duvida. Quanto mais os sentidos se mostram inseguros, revoltados, desesperados, tanto mais a fé nos diz: aí está Deus, tudo vai bem.

Não há coisa alguma que a fé não possa penetrar e dominar. Dissipa todas as trevas; e por mais esforço que as sombras façam, passa através delas, para chegar à verdade, abraça-a sempre com firmeza e jamais a abandona.


O Abandono à Providência Divina
(Padre Jean Pierre de Caussade)
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