Todas as orações

A Oração

Santo Afonso Maria de Ligório

NECESSIDADE DA ORAÇÃO

Maria, medianeira de todas as graças

Neste mesmo sentido, exorta-nos São Bernardo a recorrer sempre a esta divina Mãe, porquanto todas as suas súplicas são atendidas por seu divino Filho: “Recorre a Maria! Sem a menor dúvida, eu digo, certamente o Filho atenderá sua Mãe”. E ajunta: “Filhinhos, esta é a escada dos pecadores, esta é a minha maior confiança, esta é toda a razão de minha esperança”. O santo dá a Maria o nome de escada, porque assim como na escada não se sobe ao terceiro degrau, sem antes passar pelo segundo, não se atinge o segundo, sem se passar pelo primeiro, assim também não se chega a Deus, senão por meio de Jesus Cristo, e não se chega a Jesus Cristo senão por meio de Maria. O mesmo São Bernardo chama Maria de sua máxima confiança e toda a razão de sua esperança, porque Deus, como ele supõe, quer que passem pelas mãos de Maria todas as graças que nos dispensa. E conclui, finalmente, dizendo que todas as graças, que desejamos, temos de pedi-las por meio de Maria, porquanto ela obtém tudo o que deseja e os seus rogos não podem ser repelidos: “Busquemos a graça, mas busquemos por intermédio de Maria! Por ela acha-se o que se busca e não se pode ser desatendido”.

Com os mesmos sentimentos fala-nos Santo Efrém: “Fora de vós, não temos outra confiança, ó Virgem puríssima”, Santo Ildefonso: “Todos os benefícios que a sua Majestade decretou fazer aos homens, decretou confiá-los às vossas mãos”. “A vós pois, estão confiados os tesouros e as riquezas da graça”. São Germano: “Se vós nos abandonardes, que será de nós, ó vida dos cristãos?” São Pedro Damião: “Em vossas mãos estão todos os tesouros da misericórdia de Deus”, Santo Antonino: “Quem pede, sem Maria, tenta voar sem asas”, São Bernardino de Sena diz: “Vós sois a dispensadora de todas as graças. Nossa salvação está em vossas mãos”. Em outro lugar não só diz que por Maria se transmitem a nós todas as graças, mas também afirma que a Santíssima Virgem, desde que foi feita Mãe de Deus, adquiriu uma certa jurisdição sobre todas as graças que nos são dispensadas: “Pela Santíssima Virgem as graças vivificantes se transmitem de Cristo, como da cabeça, ao seu Corpo místico, desde o momento em que a Virgem Mãe concebeu o Verbo Divino, ela obteve, por assim dizer, certa jurisdição sobre toda a processão temporal do Espírito Santo, de sorte que nenhuma criatura recebeu graça alguma senão pela distribuição desta piedosa mãe”. E conclui: “Por isso, pelas suas mãos, dá a quem quer todos os dons, graças e virtudes”. O mesmo escreveu São Boaventura: “Já que toda a natureza divina esteve nas entranhas da Santíssima Virgem, não duvido dizer que em toda distribuição de graças tem certa jurisdição esta Virgem, de cujas entranhas, como de um oceano da divindade, emanam os rios de todas as graças”.

Por isso, pois, muitos teólogos, fundados na autoridade destes santos, com piedoso zelo e muita razão, defenderam a tese que nenhuma graça nos é dispensada, senão pela intercessão de Maria. Assim Vega, Mendozza, Paciucchelli, Segneri, Poiré, Crasset e muitos outros autores, como o douto Padre Natal Alexandre, que escreveu: “Deus quer que esperemos todos os bens Dele pela intercessão poderosíssima de Maria, quando a invocamos como se deve”. Em confirmação alega o texto de São Bernardo acima referido: “Tal é a vontade de Deus, que quis que tenhamos tudo por Maria”. E sobre as palavras: “Eis a tua Mãe”, que Jesus disse na Cruz a São João o Padre Contenson diz a mesma coisa expressando-se assim: “É como se dissesse: Ninguém terá parte no meu sangue, senão pela intercessão de minha Mãe. Minhas chagas são fontes de graças, mas estas correntes de graças são levadas unicamente pelo canal que é Maria. Oh, João, meu discípulo, serás tanto amado por mim, quanto amares a ela”.

Além disso, é certo que se nos tornamos agradáveis a Deus, invocando os santos, tanto mais lhe seremos agradáveis, se invocarmos a intercessão de Maria, para que ela supra com seus merecimentos a nossa indignidade, segundo o que diz Santo Anselmo: “Que a dignidade do intercessor supra a nossa indignidade”. Por isso, invocar a Santíssima Virgem não é desconfiar da misericórdia divina, mas temer a própria indignidade. Falando da dignidade de Maria, Santo Tomás a qualifica de quase infinita: “Por ser Mãe de Deus, tem uma dignidade quase infinita”. Portanto, com toda a razão se diz que as orações de Maria são mais poderosas diante de Deus, do que as de todo o paraíso.


A Oração
(Santo Afonso Maria de Ligório)
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