Todas as orações

Imitação de Cristo

Tomás de Kempis

Livro IV - Do Sacramento do Altar - DEVOTA EXORTAÇÃO À SAGRADA COMUNHÃO Voz de Cristo: Vinde a mim todos que penais e estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei, diz o Senhor (Mt 11,78). O pão que eu darei é a minha carne, pela vida do mundo (Jo 6,52). Tomai e comei, este é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim (Lc 22,19). Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim e eu nele (Jo 6,57). As palavras que eu vos disse são espírito e vida (Jo 6,64).

Capítulo 7 - Do exame da própria consciência e propósito de emenda

1. Voz do Amado: Antes de tudo cumpre ao sacerdote de Deus, para celebrar, administrar e receber este Sacramento, que se aproxime com grandíssima humildade de coração e profundo respeito, com viva fé e piedosa intenção de honrar a Deus. Examina diligentemente a tua consciência, procura limpá-la e purificá-la, quanto puderes, com sincera contrição e humilde confissão, de sorte que nada tenhas ou saibas que te pese na consciência, que te cause remorsos e te estorve o livre acesso. Detesta todos os teus pecados em geral, e lamenta mais em particular as faltas cotidianas. E, se o tempo o permite, confessa a Deus, no recôndito de teu coração, toda a miséria de tuas paixões.

2. Aflige-te e geme por seres ainda tão carnal e mundano, tão pouco mortificado nas paixões, tão cheio de movimentos de concupiscência, tão pouco recatado nos sentidos exteriores, tão emaranhado em muitas vãs ilusões, tão inclinado às coisas exteriores, tão descurado das interiores; tão dado ao riso e à dissipação, tão duro para as lágrimas e a compunção; tão pronto para os regalos e cômodos da carne; tão indolente para as austeridades e o fervor; tão curioso por ouvir novidades e ver coisas bonitas; tão remisso em abraçar as humildes e desprezadas; tão cobiçoso de possuir muito; tão parco em dar; tão tenaz em guardar; tão indiscreto no falar; tão insofrido no calar; tão desregrado nos costumes; tão precipitado nas orações; tão sôfrego no comer; tão surdo à palavra de Deus; tão ligeiro para o descanso; tão vagaroso para o trabalho; tão atento para conversas fúteis; tão sonolento para as sagradas vigílias; tão pressuroso por chegar ao fim; tão vago na atenção; tão negligente na recitação do ofício divino; tão tíbio na celebração da missa; tão seco na comunhão; tão depressa distraído; tão raramente bem recolhido; tão precipitado à ira; tão fácil de melindrar os outros; tão propenso a julgar; tão rigoroso em repreender; tão alegre nas prosperidades, tão abatido nas adversidades; tão fecundo em boas resoluções, tão preguiçoso em executá-las.

3. Confessados e chorados estes e outros defeitos, com pesar e vivo sentimento de tua própria fraqueza, toma o firme propósito de emendar tua vida e melhorá-la continuamente. Depois, com plena resignação e inteira vontade, oferece-te a ti mesmo como perpétuo holocausto em honra do meu nome, sobre o altar do teu coração, entregando-me confiadamente teu corpo e tua alma, para que assim mereças oferecer dignamente a Deus o sacrifício e receber com fruto o Sacramento do meu corpo.

4. Pois não há oblação mais digna, nem maior satisfação para expiar os pecados, que oferecer-se a si mesmo a Deus, pura e inteiramente, unido à oblação do corpo de Cristo, na missa e na comunhão. Se o homem fizer o que está em seu poder, e se arrepender verdadeiramente de seus pecados, quantas vezes a mim vier pedir graça e perdão, sempre dirá o Senhor: Por minha vida juro, não quero a morte do pecador, mas que se converta e viva; não mais me lembrarei dos seus pecados, mas todos lhe serão perdoados (Ez 18,22; 33,11).

Reflexões

A razão pela qual não recebemos a graça da santificação (uma vez que uma única comunhão bem feita é capaz e suficiente para tornar-nos santos e perfeitos) não provém senão do fato de não deixarmos Nosso Senhor reinar em nós como sua bondade o deseja. Ele vem a nós, este Bem-amado de nossas almas, e encontra nossos corações cheios de afeições, vontades e desejos mesquinhos. Mas não é isto que ele busca, porque quer encontrá-los vazios para tornar-se o senhor e regente deles. E para mostrar como deseja isto, ele diz à sua amante sagrada que ela o coloque como um selo sobre seu coração (Ct 8,6), a fim de que nada possa entrar nele a não ser com sua permissão e de acordo com seu bel-prazer. Ora, sei muito bem que o meio de nossos corações está vazio (de outra forma seria uma infidelidade muito grande); quero dizer que nós não só rejeitamos e detestamos o pecado mortal, mas todo tipo de afeição má. Mas, infelizmente, todos os cantos e recantos de nossos corações estão repletos de mil coisas indignas de aparecer na presença deste Rei soberano, as quais (como parece) lhe atam as mãos para impedi-lo de dispensar-nos os bens e as graças que sua bondade desejava conceder-nos, se nos tivesse encontrado preparados. Façamos, portanto, de nossa parte, o que podemos para preparar-nos para receber este pão supersubstancial, abandonando-nos totalmente à divina Providência, não somente no que diz respeito aos bens temporais, mas principalmente aos bens espirituais, manifestando na presença da divina bondade todas as nossas afeições, desejos e inclinações, para lhe sermos inteiramente submissos, e podemos estar certos de que Nosso Senhor, de sua parte, cumprirá a promessa que nos fez de transformar-nos nele, elevando nossa baixeza até ser unida com sua grandeza (XVIIIe Entretien, III, 520).

Oração

Porque sois infinitamente bom, Senhor, sábio, poderoso, justo e misericordioso, eu me arrependo de todo o meu coração e estou contrito sobretudo por causa de todos os pecados mortais e veniais que cometi, por pensamentos, palavras, obras e omissões, desde o instante que cheguei ao uso da razão, até a hora presente. E, no lugar de minha dor imperfeita, ofereço-vos a amarga contrição que tiveram de seus pecados o santo Profeta Davi, São Pedro e Santa Maria Madalena, junto com a contrição que tiveram todos os outros verdadeiros penitentes, desde o começo do mundo até o presente, decidido que estou, mediante vossa ajuda, na qual eu confio, de jamais vos ofender (Opusc., III, 116).


Imitação de Cristo
(Tomás de Kempis)
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