As obras de misericórdia não se realizam de vez em quando. Não. Como são todas – corporais e espirituais – centradas em Jesus, elas pautam a nossa própria vida de cristãos, todos os dias.

1. DAR BONS CONSELHOS
O verdadeiro conselheiro é o próprio Deus e o seu Espírito Santo que nos ilumina o caminho e nos fala ao coração. Para aconselhar bem, é necessário antes de mais viver aquilo mesmo que o Espírito nos ilumina, ou seja, viver como Jesus viveu e nos ensinou. Como Ele disse: «Um cego pode guiar outro cego?» (Lc 6,39) Quem é aconselhado tem de descobrir em si próprio aquilo que é bom para si e descobrir como pôr em prática os meios para realizar esse fim. Aconselhar não é tanto apresentar soluções, mas mostrar caminhos, valorizar, dar ferramentas, dar testemunho e ser próximo.

2. ENSINAR OS IGNORANTES
O mestre é sempre Jesus Cristo, por isso, os primeiros passos para ensinar o ignorante são os passos que conduzem em direção a Jesus, à sua palavra e à sua vida. Como o Papa Francisco escreveu: «Todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, mas algumas delas são mais importantes por exprimirem mais diretamente o coração do Evangelho.» E acrescentou: «Neste núcleo fundamental, o que sobressai é a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado.» (Evangelii gaudium, n.º 36) Como os alicerces de um arranha-céus, o ensino deve estar fundado em Jesus Cristo.

3. CORRIGIR OS QUE ERRAM
A correção pretende reconduzir o errante. É um serviço de amor, como vemos no Evangelho de Mateus: «Se o teu irmão pecar, vai e mostra-lhe o seu erro, mas em particular, só entre vós os dois. […] Se ele não te der ouvidos, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas.» (18,15-17) A relação entre aquele que corrige e aquele que é corrigido não é uma relação jurídica, institucional ou de conhecidos. Nem mesmo de amigo para amigo. É uma relação fraterna, entre irmãos. Não é um juízo de valor ou uma condenação, e «no momento em que é aplicada, qualquer correção parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza; porém, mais tarde, produz um fruto de paz e de justiça naqueles que foram corrigidos» (Hb 12,11).

4. CONSOLAR OS AFLITOS
Madre Teresa de Calcutá disse que «não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz». Esta é a máxima do cristão, e é necessária sobretudo para quem está em aflição e necessita de consolação, esperança. Deus é o Consolador e Jesus fala-nos do Paráclito, o Defensor que vem em nosso auxílio. Consolar é, então, tornar presente a presença desse Consolador na vida do irmão. Escreveu o compositor Francisco Palazón: «Quando basta uma palavra, evitemos o discurso. Quando basta um gesto, evitemos as palavras. Quando basta um olhar, evitemos o gesto. E quando basta um silêncio, evitemos inclusivamente o olhar.» (Citado por José Carlos Bermejo em A morte ensina a viver, PAULUS Editora)

5. PERDOAR AS INJÚRIAS
Talvez esta seja a obra mais óbvia para os cristãos, mas a mais difícil de praticar. Jesus disse que devemos perdoar sempre (70 vezes 7). E falou até em amar os inimigos: «Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.» (Mt 5,43-45) Isto é mais do que um simples perdoar. Tudo se centra no amor. William Blake dizia que é mais difícil perdoar o amigo com quem até me cruzo do que o inimigo distante. Com razão, a maioria das vezes, é com aqueles com quem nos relacionamos diariamente que há maior necessidade de perdão. É a estes que esta obra é necessária.

6. SOFRER COM PACIÊNCIA AS FRAQUEZAS DO NOSSO PRÓXIMO
«O amor é paciente», escreveu São Paulo no Hino do Amor na sua carta à comunidade de Corinto. Não espanta ver em Jesus essa paciência de amor. Como afirma Pie Ninot: «Longe de ser implacável com os pecadores, [Jesus] era tolerante, porque “o Pai que está no céu faz nascer o sol sobre maus e bons” (Mt 5,45).» De facto, nós somos bons e somos maus. Na tolerância para com o próximo esperamos a tolerância de Jesus para connosco. Como o Papa Leão XIII escreveu na sua obra A prática da humildade: «Sofre com paciência os defeitos e a fragilidade do próximo, tendo sempre diante dos olhos a tua própria miséria pela qual também tu hás de ser alvo da compaixão dos demais.»

7. ROGAR A DEUS POR VIVOS E DEFUNTOS
Salvador Pié Ninot escreveu: «Quando se reza por alguém ainda vivo, essa pessoa está sob o olhar amoroso e providente de Deus e para ele se invoca o dom de Deus e a sua bênção, para ser apoiada no caminho da vida.» Poderíamos esperar que com essa bênção se cumprissem todos os nossos desejos de felicidade, contudo, a bênção de Deus é a bênção de um Deus que é Pai que nos dá esperança mas que é também um Absoluto que ultrapassa a nossa compreensão. O que nos acontece, sabemos que acontece segundo o seu desígnio “infinito e incompreensível”, e por vezes não nos resta senão o abandono à sua vontade, uma entrega com esperança e confiança. Apesar de tudo, Ele não nos abandona e, como Jesus na cruz, a Ele nos entregamos, nós e aqueles por quem rezamos, vivos ou mortos.