Todas as orações

Lembrai-Vos, Senhor, da Vossa Congregação, que desde o princípio Vos pertenceu e em quem pensastes desde toda a eternidade; que seguráveis na Vossa mão onipotente quando, com uma palavra, tiráveis do nada o universo; e que escondíeis ainda em Vosso coração quando Vosso Filho, morrendo na cruz, a consagrou por Sua morte e a entregou, qual precioso depósito, à solicitude de Sua Mãe Santíssima: Memento esto Congregationis tuae, quam possedisti ab initio (Sl 73, 2).

Atendei aos desígnios de Vossa misericórdia; suscitai homens da Vossa destra, tais quais mostrastes a alguns de Vossos maiores servos, a quem destes luzes proféticas: a um São Francisco de Paula, a um São Vicente Ferrer, a uma Santa Catarina de Siena e a tantas outras grandes almas no século passado, e até neste em que vivemos.

Memento: Onipotente Deus, lembrai-Vos desta Companhia, ostentando sobre ela a onipotência de Vosso braço, que não diminuiu para dar-Lhe à luz e produzi-la, e para conduzi-la à perfeição. Innova signa, immuta mirabilia, sentiamus adiutorium brachii tui (Sb 5, 17).

Ó grande Deus, que podeis fazer das pedras brutas outros tantos filhos de Abraão, dizei uma só palavra como Deus, e virão logo bons obreiros para a Vossa seara, bons missionários para a Vossa Igreja.

Memento: Deus de bondade, lembrai-Vos de Vossas antigas misericórdias e, por essas mesmas misericórdias, lembrai-Vos da Vossa Congregação; lembrai-Vos das promessas reiteradas que nos tendes feito por Vossos profetas e pelo Vosso próprio Filho, de sempre atender favoravelmente a todos os nossos pedidos justos. Lembrai-Vos das preces que, desde tantos séculos, Vossos servos e servas para este fim Vos têm dirigido; venham à Vossa presença seus votos, seus soluços, suas lágrimas e seu sangue derramado, e poderosamente solicitem Vossa misericórdia. Mas lembrai-Vos, sobretudo, de Vosso amado Filho: respice in faciem Christi tui (Sl 83, 10). Contemplem Vossos olhos Sua agonia, Sua confusão, o Seu amoroso queixume no Jardim das Oliveiras, quando disse: Quae utilitas in sanguine meo? (Sl 29, 10). Sua cruel morte e Seu sangue derramado altamente Vos clamam misericórdia, a fim de que, por meio desta Congregação, seja Seu império estabelecido sobre os escombros do de Seus inimigos.

Memento: lembrai-Vos, Senhor, desta Comunidade nos efeitos de Vossa justiça. Tempus faciendi, Domine; dissipaverunt legem tuam (Sl 118, 126). É tempo de cumprir o que prometestes. Vossa divina fé é transgredida; Vosso Evangelho, desprezado; abandonada, Vossa religião; torrentes de iniquidade inundam toda a terra e arrastam até os Vossos servos; a terra toda está desolada: Desolatione desolata est omnis terra; a impiedade está sobre um trono, Vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo. E assim deixareis tudo ao abandono, justo Senhor, Deus das vinganças? Tornar-se-á tudo afinal como Sodoma e Gomorra? Calar-Vos-eis sempre? Não cumpre que seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu, e que a nós venha o Vosso Reino? Não mostrastes antecipadamente a alguns de Vossos amigos uma futura renovação de Vossa Igreja? Não se devem os judeus converter à verdade? Não é esta a expectativa da Igreja? Não Vos clamam todos os santos do céu: “Justiça! Vindica?” Não Vos dizem todos os justos da terra: Amen, veni Domine? Não gemem todas as criaturas, até as mais insensíveis, sob o peso dos inumeráveis pecados de Babilônia, pedindo a Vossa vinda para restabelecer todas as coisas? Omnis creatura ingemiscit (Rm 8, 22).

Senhor Jesus, memento Congregationis tuae. Lembrai-Vos de dar à Vossa Mãe uma nova Companhia, a fim de, por Ela, renovar todas as coisas e de terminar por Maria Santíssima os anos de graça, assim como por Ela os começastes.
Da Matri tuae liberos, alioquin moriar (Gn 30, 1): dai filhos e servos à Vossa Mãe; quando não, fazei que eu morra.

Da Matri tuae. É por Vossa Mãe que Vos imploro. Lembrai-Vos de Suas entranhas e de Seu seio, e não rejeiteis minhas súplicas; lembrai-Vos de quem sois Filho e atendei-me; lembrai-Vos do que Ela é para Vós e do que sois para Ela, e satisfazei a meus votos. Que Vos peço eu? Nada em meu favor, tudo para Vossa glória. Que Vos peço eu? O que podeis e, até ouso dizer, o que deveis conceder-me, como verdadeiro Deus que sois, a quem todo poder foi dado no céu e na terra, e como o melhor dos filhos, que amais infinitamente Vossa Mãe.

Que Vos peço eu? Liberos: Sacerdotes livres de Vossa liberdade, desprendidos de tudo, sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem irmãs, sem parentes segundo a carne, sem amigos segundo o mundo, sem bens, sem embaraços, sem cuidados, e até sem vontade própria.

Liberos: Escravos de Vosso amor e de Vossa vontade; homens segundo Vosso coração, que, sem vontade própria que os macule e os faça parar, executem todas as Vossas vontades e derrubem todos os Vossos inimigos, quais novos Davids, com o cajado da Cruz e a funda do Santíssimo Rosário nas mãos: in baculo Cruce et in virga Virgine.

Liberos: almas elevadas da terra e cheias de celeste orvalho, que, sem obstáculos, voem de todos os lados, movidas pelo sopro do Espírito Santo. Em parte, foi delas que tiveram conhecimento Vossos profetas, quando perguntaram: Qui sunt isti qui ut nubes volant? (Is 60, 8).

Liberos: almas sempre à Vossa mão, sempre prontas a obedecer-Vos à voz de seus superiores, como Samuel: Praesto sum (1 Rs 3, 16); sempre prontas a correr e a sofrer tudo por Vós e convosco, como os apóstolos: Eamus et nos, ut moriamur cum eo (Jo 11, 16).

Liberos: verdadeiros filhos de Maria, Vossa Mãe Santíssima, engendrados e concebidos por Sua caridade, trazidos em Seu seio, presos a Seu peito, nutridos de Seu leite, educados por Sua solicitude, sustentados por Seus braços e enriquecidos de Suas graças.

Liberos: verdadeiros servos da Santíssima Virgem que, como outros tantos São Domingos, vão por toda parte, com o facho lúcido e ardente do santo Evangelho na boca e na mão o santo Rosário, a ladrar como cães fiéis contra os lobos que só buscam estraçalhar o rebanho de Jesus Cristo; que vão ardendo como fogos e iluminando como sóis as trevas deste mundo; e que, por meio de uma verdadeira devoção a Maria Santíssima — isto é, uma devoção interior, sem hipocrisia; exterior, sem crítica; prudente, sem ignorância; terna, sem indiferença; constante, sem versatilidade; e santa, sem presunção — esmaguem, por todos os lugares em que estiverem, a cabeça da antiga serpente, a fim de que a maldição que sobre ela lançastes seja inteiramente cumprida: Inimicitias ponam inter te et mulierem, et semen tuum et semen illius; ipsa conteret caput tuum (Gn 3, 15).

É verdade, grande Deus, que o demônio há de armar, como predissestes, grandes ciladas ao calcanhar dessa Mulher misteriosa, isto é, à pequena Companhia de Seus filhos que hão de surgir perto do fim do mundo; é verdade que há de haver grandes inimizades entre essa bendita posteridade de Maria Santíssima e a raça maldita de Satanás; mas é essa uma inimizade toda divina, a única de que sejais autor: Inimicitias ponam. Porém esses combates e essas perseguições dos filhos da raça de Belial contra a raça de Vossa Mãe Santíssima só servirão para melhor fazer resplandecer o poder de Vossa graça, a coragem da virtude dos Vossos servos e a autoridade de Vossa Mãe, pois que Lhe destes, desde o começo do mundo, a missão de esmagar esse soberbo pela humildade de Seu coração: Ipsa conteret caput tuum.

Alioquin moriar. Não é melhor para mim morrer do que Vos ver, meu Deus, todos os dias, tão cruel e impunemente ofendido, e a mim mesmo ver todos os dias em risco de ser arrastado pelas correntes de iniquidade que aumentam a cada instante, sem que nada se lhes oponha? Ah! mil mortes me seriam mais toleráveis. Enviai-me o socorro do céu, ou então chamai a minha alma. Sim, se eu não tivesse a esperança de que, mais cedo ou mais tarde, haveis de ouvir este pobre pecador, nos interesses de Vossa glória, como já ouvistes a tantos outros — Iste pauper clamavit et Dominus exaudivit eum (Sl 33, 7) — pedir-Vos-ia do mesmo modo que o profeta: Tolle animam meam (cf. 3 Rs 19, 4).

A confiança que tenho em Vossa misericórdia faz-me, porém, dizer com outro profeta: Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini (Sl 117, 17), até que, com o velho Simeão, possa dizer: Nunc dimittis servum tuum, Domine, in pace, quia viderunt oculi mei… (Lc 2, 29-30).

Memento: Divino Espírito Santo, lembrai-Vos de produzir e formar filhos de Deus, com Maria, Vossa divina e fiel Esposa. Formastes Jesus Cristo, Cabeça dos predestinados, com Ela e n’Ela; e com Ela e n’Ela deveis formar todos os Seus membros. Nenhuma Pessoa divina engendrais na Divindade; mas só Vós, unicamente Vós, formais todas as pessoas divinas fora da Divindade; e todos os santos que têm existido e hão de existir até ao fim do mundo são outros tantos produtos de Vosso amor unido a Maria Santíssima. O reino especial de Deus Pai durou até ao dilúvio e foi terminado por um dilúvio de água; o reino de Jesus Cristo foi terminado por um dilúvio de sangue; mas Vosso reino, Espírito do Pai e do Filho, continua presentemente e há de ser terminado por um dilúvio de fogo, de amor e de justiça.

Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda a terra de um modo tão suave e tão veemente que todas as nações — os turcos, os idólatras e os próprios judeus — hão de arder nele e converter-se? Non est qui se abscondat a calore eius (cf. Sl 18, 7).

Accendatur: seja ateado esse divino fogo que Jesus Cristo veio trazer à terra, antes que ateeis o fogo de Vossa cólera, que há de reduzir tudo a cinzas. Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terrae. Enviai à terra esse Espírito todo de fogo, para nela criar sacerdotes todos de fogo, por cujo ministério seja a face da terra renovada e reformada por Vossa Igreja.

Memento Congregationis tuae: é uma congregação, uma assembleia, uma seleção, uma escolha de predestinados que deveis fazer no mundo e do mundo: Ego elegi vos de mundo (Jo 15, 19). É um rebanho de pacíficos cordeiros que deveis ajuntar entre tantos lobos; uma companhia de castas pombas e de águias reais entre tantos corvos; um enxame de laboriosas abelhas entre tantos zangãos; uma manada de céleres veados entre tantos cágados; um batalhão de leões destemidos entre tantas lebres tímidas. Ah! Senhor: Congrega nos de nationibus (Sl 105, 47); congregai-nos, uni-nos, para que de tudo se renda toda a glória a Vosso Nome santo e poderoso.

Predissestes esta ilustre Companhia a Vosso profeta, que dela fala em termos muito obscuros e misteriosos, mas divinos (Sl 67, 10-17).

Qual é, Senhor, essa chuva voluntária que separastes e escolhestes para Vossa enfraquecida herança, senão esses santos missionários, filhos de Maria, Vossa Esposa, aos quais deveis congregar e separar do comum, para o bem de Vossa Igreja, tão enfraquecida e maculada pelos crimes de seus filhos?

Tais são os missionários que quereis enviar à Vossa Igreja.

Memento Congregationis tuae. Só a Vós compete formar, por Vossa graça, essa assembleia; se o homem nela meter mãos à obra antes de Vós, nada se fará; se quiser misturar algo que é dele com o que é Vosso, estragará tudo, destruirá tudo. Tuae Congregationis: é trabalho Vosso, grande Deus. Opus tuum fac.

Erguei-Vos, Senhor, por que pareceis dormir? Erguei-Vos em todo o Vosso poder, em toda a Vossa misericórdia e justiça, para formar-Vos uma companhia seleta de guardas que velem a Vossa casa, defendam Vossa glória e salvem tantas almas que custaram todo o Vosso sangue, para que só haja um aprisco e um pastor, e que todos Vos rendam glória em Vosso santo templo: Et in templo eius omnes dicent gloriam (Sl 28, 9).

Amém.

São Luís Maria Grignion de Montfort, rogai por nós!