Apresentação

“Toda Santidade consiste em amar a Deus e todo o amor a Deus consiste em fazer a sua vontade”

Apresentamos aqui a coleção de meditações católicas diárias escritas por Santo Afonso de Ligório. Obra esta compilada em 3 Tomos e que compreendem todos os dias e festas do ano, todas tiradas de suas mais de 120 obras publicadas. Para facilitar e organizar todo o conteúdo, colocaremos as meditações separadas por tempo, assim, tornar-se-á mais fácil de encontrar um artigo desta preciosa obra deste grande Santo da nossa Santa Igreja dentro do Pocket Terço.

Recomendamos que faça essas meditações seguindo a Meditação Dirigida disponível aqui no aplicativo. Quando chegar no momento de realizar a leitura meditada, volte aqui para ler.

Fonte:
LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921.

(rumoasantidade.com.br/meditacoes-santo-afonso)
1ª dezena

 Dezembro

Dia 25 de Dezembro: Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo

Dia 26 de Dezembro: Festa de Santo Estevão, Proto mártir
Dia 26 de Dezembro à tarde: Uma visita à Gruta de Belém

Dia 27 de Dezembro: Festa de São João Evangelista
Dia 27 de Dezembro à tarde: Oferecimento do coração a Jesus Menino

Dia 28 de Dezembro: Festa dos Santos Inocentes
Dia 28 de Dezembro à tarde: Felicidade de quem nasceu depois da Redenção e na Igreja Católica

Dia 29 de Dezembro: Alegria trazida ao mundo pelo nascimento de Jesus Cristo

Dia 30 de Dezembro: Vida de tribulações que Jesus Cristo começou a levar desde seu nascimento

Para o último dia do ano: Devemos aproveitar o tempo
Para o último dia do ano à tarde: Jesus Cristo tem feito e padecido tudo por nosso amor

 25 de Dezembro

Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo

Impleti sunt dies ut pareret (Maria); et peperit fikium suum primogenitum – Completaram-se os dias em que (Maria) devia dar à luz; e deu à luz o seu filho primogênito (Lc 2,6)

Sumário. Imaginemos ver a Jesus já nascido na gruta de Belém, e ouvir os anjos cantar glória a Deus e paz aos homens de boa vontade. Quais devem ter sido os sentimentos que então se despertaram no coração de Maria, ao ver o Verbo divino feito seu filho! Qual a devoção e ternura de São José ao apertar contra o coração o santo Menino! Unamos os nossos afetos com os desses grandes personagens.

I. Quando Maria Santíssima entrou na gruta, pôs-se logo em oração. De súbito vê uma refulgente luz, sente no coração um gozo celestial, abaixo os olhos, e, ó Deus! Que vê? Vê já diante de si o Menino Jesus, tão belo e tão amável, que eleva os corações. Mas treme e chora; segundo a revelação feita a Santa Brigida, estendia as mãozinhas para dar a entender que deseja que Maria o tome nos braços. Maria, no auge de santa alegria, chama José. – Vem, ó José, disse ela, vem e vê, pois já nasceu o Filho de Deus. – Aproxima-se José, e vendo Jesus nascido, adora-o por entre uma torrente de doces lágrimas.

Em seguida, a santa virgem, movida de compaixão maternal, levanta com respeito o amado Filho, e conforme a já citada revelação, faz por aquecê-lo com o calor de seu rosto e do seu peito. Tendo-o no colo, adora o divino Menino como seu Deus, beija-lhe os pés como a seu Rei, e beija-lhe o rosto como a seu Filho e procura depressa cobri-lo e envolvê-lo nas mantilhas. Mas ai, como são ásperos e grosseiros os paninhos! Além disso, são frios e úmidos, e naquela gruta não há lume para aquentá-los.

Consideremos aqui os sentimentos que surgiram no coração de Maria, quando viu o Verbo divino reduzido por amor dos homens a tão extrema pobreza. Contemplemos a devoção e a ternura que ela experimentou quando apertava o Filho de Deus, já feito seu filho, contra o coração. Unamos os nossos afetos aos de tão boa Mãe e roguemos a Deus Pai “que o novo nascimento do seu Unigênito feito homem, nos livre do antigo cativeiro, em que nos tem o jugo do pecado (1)”.

II. Jesus nasceu! Vinde, ó reis, príncipes e todos os homens da terra, vinde adorar o vosso Rei. Mas quem é que se apresenta?… Ah! O Filho de Deus veio ao mundo, e o mundo não o quis conhecer. Porém, se não veem os homens, veem ao menos os anjos adorar o seu Senhor, e cantam jubilosos: Gloria in altissimis Deo, et in terra pax hominibus bonae voluntatis (2) – Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens de boa vontade. Glória à divina Misericórdia, que, em vez de castigar os homens rebeldes, fez o próprio Deus tomar o castigo sobre si, e assim os salvou. Glória à divina Sabedoria, que achou meio de satisfazer à Justiça, e ao mesmo tempo, de livrar o homem da morte merecida. Glória ao divino Poder, que de um modo tão admirável venceu as forças do inferno. Glória finalmente ao divino Amor, que induziu um Deus a fazer-se homem e a levar uma vida tão pobre, humilde e penosa. – Meu irmão, unamos as nossas adorações às dos anjos e digamos com a nossa santa Madre Igreja:

Gloria in excelsis Deo! Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens de boa vontade. Nós Vos louvamos, Vos bendizemos, Vos adoramos, Vos glorificamos. Graças Vos damos por vossa grande glória, Senhor Deus, Rei do céu, Deus Pai todo-poderoso. Ó Senhor, Filho unigênito de Deus, Jesus Cristo, Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho de Deus Pai: Vós, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós. Vós, que tirais os pecados do mundo, aceite as nossas súplicas. Vós, que estais sentado à mão direita do Pai, tende piedade de nós. Porque só Vós, ó Jesus Cristo, sois Santo, só Vós o Senhor, só Vós o Altíssimo, com o Santo Espírito, na glória de Deus Pai. Assim seja. (3)

Referências:
(1) Or. fest.
(2) Lc 2, 14
(3) Miss. Rom.

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OBS: Santo Afonso indulgenciou esta Novena da seguinte forma: para cada dia da Novena, recebemos Indulgência de 300 dias. Para o dia do Natal ou num dia da Oitava, recebemos Indulgência Plenária se fizermos e cumprirmos as obras prescritas da Confissão e da Comunhão.

 26 de Dezembro

Festa de Santo Estêvão, Protomártir

Elegerunt Stephanum, virum plenum fide et Spiritu Sancto – Elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo (At 6, 5)

Sumario. Eis ai o belo elogio com que a Sagrada Escritura presta homenagem às virtudes de Santo Estêvão: chama-o cheio de fé, cheio de graça, cheio de fortaleza, em uma palavra, cheio do Espírito Santo. Alegremo-nos com o santo Protomártir, e em seu nome demos graças a Deus. Volvendo depois os olhos a nós mesmos, vejamos se ainda, e em que grau, as mesmas belas virtudes se acham em nossa alma, visto que nos foram infusas pelo Sacramento do Batismo.

. Considera o belo elogio com que o Espírito Santo presta na Sagrada Escritura homenagem às virtudes do Protomártir Santo Estêvão. Chama-o em primeiro lugar de cheio de fé: Elegeram Estêvão, homem cheio de fé – Elegerunt Stephanum virum plenum fide (1). Ser cheio de fé, segundo Santo Tomás (2), quer dizer, não somente ter uma firmeza eminente em crer todas as verdades reveladas, junto com um amor ardente à revelação e uma conformidade perfeita com a vontade de Deus que revela; mas quer dizer além disso, possuir o depósito inteiro da fé conhecimento explícito de todas as suas partes. Por esta razão São Jerônimo diz que Santo Estêvão era doutíssimo na lei.

O Espírito Santo chama Santo Estêvão em segundo lugar cheio de graça e de fortaleza: plenus gratia et fortitudine (3), porque advogava a causa de Jesus Cristo ao mesmo tempo com doçura e com zelo ardentíssimo. Temos a prova naquele sublime discurso que fez antes de morrer. Depois de pedir ao povo e aos anciãos que o escutassem em quanto lhes pregasse a salvação, Santo Estêvão expôs-lhes em seguida todos os favores que tinham recebido de Deus e a negra ingratidão com que lhe haviam pago. Vendo, porém, que com bons modos não conseguia abrandar-lhes o coração, começou a deitar-lhes à cara os seus defeitos, e com coragem heroica concluiu dizendo que eram homens duros de cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos, que sempre resistiam ao Espírito Santo (4).

Afinal a Sagrada Escritura chama Santo Estêvão cheio de todos os carismas celestiais: Cum autem esset plenus Spiritu Santo (5). Por isso se diz que fazia grandes prodígios e milagres entre o povo (6); que não se podia resistir a sua sabedoria (7); que o seu rosto era refulgente como o de um anjo (8); e que pouco antes de expirar teve a ventura de ver os céus abertos, a glória de Deus, e Jesus à direita de Deus (9). Alegra-te com o santo Diácono e dá graças a Deus por havê-lo enriquecido com tantas virtudes. Volvendo em seguida os olhos à tua própria alma, vê se em ti se acham as mesmas virtudes e o modo como as praticas, visto que te foram infusas no Sacramento do Batismo.

II. Muito embora Santo Estêvão se avantajasse em todas as virtudes, distinguiu-se todavia particularmente pelo amor de Deus e do próximo. Deu prova de seu amor de Deus sofrendo, o primeiro entre os fiéis, um doloroso martírio pela pregação da fé. Portanto os judeus, “ouvindo as suas repreensões e ameaças, se exasperaram em seus corações, e rangeram os dentes contra ele. E levantando um grande clamor, taparam os seus ouvidos, e todos juntos arremeteram contra ele, e expelindo-o para fora da cidade, o apedrejaram”(10).

Mostrou igualmente o seu amor para com o próximo. Desprezando a desmembração de seu próprio corpo e lamentando unicamente a obcecação dos seus algozes, opôs benefícios à injúria, amor ao ódio, doçura à ira, bondade à malquerença (inimizade). Com uma palavra, o Santo pôs em prática o ensino do divino Mestre: Rogai pelos que vos perseguem (11); por isso, “pondo-se de joelhos, clamou em alta voz, dizendo: Senhor, não lhes imputeis este pecado. E tendo disto isto, dormiu no Senhor”(12). Esta caridade heroica agradou de tal forma a Jesus Cristo, que, na opinião de Santo Agostinho, mereceu a conversão do Apóstolo São Paulo, que “dera consentimento à morte de Estêvão”.

Que lição para ti, se a souberes aproveitar! Examina o teu coração para ver se nutre sentimentos de aversão ou de antipatia contra o próximo, e roga ao Senhor, te dê força para perdoar de boa vontade todas as injúrias, ainda que imerecidas, para suportares os defeitos dos outros, assim como estes suportam os teus, e para te mostrares sempre amável para com todos, sem nenhuma exceção.

“Concedei-nos, Senhor, a graça de imitar o que veneramos neste dia, para que, celebrando o natalício daquele que soube rogar pelos seus perseguidores, aprendamos a amar os nossos inimigos (13)”. Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e da nossa amada Mãe Maria.

Referências:
(1) At 6, 5
(2) Suma Teológica 2 2, q. 6, a. 4
(3) At 6, 8
(4) At 7, 51
(5) At 7, 55
(6) At 6, 8
(7) At 6, 10
(8) At 6, 15
(9) At 7, 55
(10) At 7, 54-57
(11) Mt 5, 44
(12) At 7, 59
(13) Or. fest. curr.

 26 de Dezembro à tarde

Uma visita à Gruta de Belém

Transeamus usque Bethlehem, et videamus hoc verbum, quod factum est – Cheguemos até Belém, e vejamos o que é isto que sucedeu (Lc 2, 15)

I. Tende ânimo, Maria convida todos, os justos e os pecadores, a entrarem na Gruta para adorarem seu divino Filho e beijarem-lhe os pés. Eia pois, ó almas devotas, entrai e vede sobre a palha o Criador do céu e da terra, feito Menino pequenino, mas tão encantador, tão radiante, que para toda a parte irradia torrentes de luz. Já que Jesus nasceu, a gruta não é mais horrorosa, senão foi feita um paraíso. Entremos e não temamos.

Jesus nasceu, e nasceu para todos. Ego flos campi, et lilium convallium: Eu, assim manda-nos avisar Jesus, eu sou a flor do campo, e a açucena dos vales (1). Jesus se chama açucena dos vales, para nos dar a entender que, assim como ele nasceu tão humilde, assim somente os humildes o acharão. Por isso o anjo não foi anunciar o nascimento de Jesus Cristo a Cesar nem a Herodes; mas sim a pobres e humildes pastores. Jesus chama-se também flor dos campos, porque, segundo a interpretação do cardeal Hugo, quer que todos o possam achar. As flores dos jardins estão reclusas e não se permite a todos procurá-las e tomá-las. Ao contrário, as flores dos campos estão expostas à vista de todos, e quem quiser as pode tirar: é assim que Jesus Cristo quer estar ao alcance de todo aquele que o desejar.

Entremos, pois a porta está aberta: Non est satelles, qui dicat: non est hora – “Não há guarda”, diz São Pedro Crisólogo, “para dizer que não são horas”, cercados de soldados, e não é fácil obter-se audiência. Quem deseja falar com os reis, tem de afadigar-se muito, e bastantes vezes será mandado embora com o conselho de voltar em outro tempo, por não ser dia de audiência. Não é assim com Jesus Cristo. Está na gruta de Belém, como criancinha, para atrair a quem vier procurá-lo. A gruta está aberta, sem guardas nem portas, de modo que cada um pode entrar à vontade, quando quiser, para achar o pequenino Rei, para falar com ele e mesmo abraçá-lo, e assim satisfazer a seu amor.

II. Almas devotas, contemplai naquela manjedoura, sobre aquela pobre palha o tenro Menino que está a chorar. Vede como é formoso; mirai a luz que irradia, e o amor que respira; esses olhos atiram setas aos corações que o desejam, esses vagidos são chamas abrasadoras para os que o amam. No dizer de São Bernardo, a própria gruta e as próprias palhas chamam e vos dizem que ameis aquele que vos ama, que ameis um Deus que é digno de amor infinito, baixou do céu, se fez menino e menino pobre para manifestar o amor que vos tem e para cativar por seus sofrimentos e vosso amor.

Pergunta-lhe: Ó formoso Menino pequenino, dizei-me, de quem és filho? Responde-lhe: Minha mãe é esta linda e pura Virgem, que está a meu lado. E teu pai, quem é? Meu pai é Deus. Mas como? Tu és o Filho de Deus, e és tão pobre, tão humilde? Nesse estado quem te reconhecerá? Quem te respeitará? A santa fé, responde Jesus, me fará conhecer por quem sou, e me fará amar pelas almas que eu vim remir e inflamar em meu amor. Não vim para me fazer temido, senão para me fazer amado, e por isso, quis manifestar-me, a primeira vez que me vedes, como criança tão pobre e humilde, afim de que assim me ameis com mais ternura, vendo a que estado me reduziu o amor que vos tenho.

Mas dizei-me, meu Menino, porque volves os teus olhos para todos os lados? Que estás esperando? Ouço que suspiras, dizei-me: para que são esses suspiros? Ó Deus, ouço que estás chorando, dizei-me porque choras?

Ah, responde Jesus, eu olho ao redor de mim, porque estou procurando alguma alma que me queira. Suspiro pelo desejo de ver junto de mim algum coração abrasado em meu amor, assim como estou abrasado em seu amor. Choro, sim, e choro porque não vejo corações, ou vejo-os nimiamente poucos, corações que me procurem e me queiram amar.

Ó Maria, Mãe do belo amor, fazei que o meu coração seja também do número daqueles que buscam e amam Jesus.

Referências:
(1) Ct 2, 1

 27 de Dezembro

Festa de São João Evangelista

Discipulus ille quem diligebat Iesus — “O discípulo a quem Jesus amava” (Io. 21, 7).

Sumário. Consideremos as provas de predileção especial que Jesus deu a seu discípulo João. Chamou-o um dos primeiros, ao apostolado; fê-lo seu confidente, na última ceia permitiu-lhe que reclinasse a cabeça sobre o seu peito; finalmente, no Calvário fê-lo herdeiro do que tinha de mais caro, dando-lhe como mãe a Maria. Nós também temos recebido de Deus muitas provas de predileção; mas que diferença entre a nossa correspondência e a de São João!

I. Considera as provas de predileção que Jesus deu a São João. Chamou-o um dos primeiros, ao apostolado; e ainda que fosse o mais jovem de todos, Jesus lhe comunicou os arcanos mais recônditos do seu coração, fê-lo seu confidente, de sorte que o Príncipe dos Apóstolos, não se animando a interrogar o Senhor na última ceia, rogou a João que o fizesse. Junto com São Tiago, seu irmão, e São Pedro, Jesus o fez testemunha do milagre da ressurreição da filha de Jairo, da sua gloriosa Transfiguração no Tabor e de sua agonia no horto. Também na última ceia, quando Jesus quis fazer os supremos esforços de seu amor, e deu a todos, pela instituição da santíssima Eucaristia, um penhor especial do seu afeto, deu todavia um penhor especialíssimo para o seu amado João. Fê-lo sentar-se a seu lado e permitiu-lhe reclinasse a cabeça sobre o seu peito. Desse contato, diz Santo Agostinho, João tirou os sublimes conhecimentos de mistérios incompreensíveis, que depois registrou no seu Evangelho e que lhe alcançaram o nome de teólogo divino por excelência, e de águia entre os evangelistas.

Mas a mostra mais patente de afeto deu Jesus Cristo a este seu Benjamin no Monte Calvário, quando, prestes a expirar, lhe deu Maria por mãe, instituiu-o herdeiro do que havia mais caro, e declarou-o primogênito entre os filhos adotivos da Mãe de Deus. — Detém-te aqui para te alegrar com o Santo; escolhe-o para teu protetor especial, e dá graças a Jesus Cristo por lhe haver concedido tantos favores singulares. Mas ao mesmo tempo dá-lhe graças pelos mesmos benefícios que te fez, chamando-te ao seu seguimento, vindo dentro de teu peito na santa Comunhão e dando-te Maria Santíssima por teu refúgio, tua advogada e tua mãe.

II. Se São João foi tão amado de Jesus Cristo, é forçoso dizermos que São João amou também muito a Jesus, porque Jesus assegura-nos que ama os que o amam — ego diligentes me diligo (1). Com efeito, toda a vida do Apóstolo foi um modelo luminoso de amor. Apenas chamado na margem do lago Genezaré, deixou as redes, seu pai e sua mãe e foi em seguimento do Redentor. Chegando a saber que a pureza virginal faz as delicias de Jesus, que é amigo das virgens e se apascenta entre as açucenas (2), resolveu guardá-la sempre em sua pessoa. — Durante a vida do divino Redentor, o amor fez com que São João continuamente contemplasse as amabilidades infinitas de Jesus, e se esmerasse em agradar-Lhe mais e mais, por meio de atos internos e externos das virtudes mais sublimes. — No tempo da Paixão o amor o fez avantajar-se aos outros apóstolos, impeliu-o a seguir o Senhor até ao Calvário, e a deixar-se ficar intrépido ao pé da Cruz, a fim de lhe trazer, se não defesa, ao menos alívio.

Finalmente, depois da Ascensão de Jesus, o amor estimulou São João a pregar a fé não só na Judéia e na Samaria, mas também em várias partes da Ásia. E como se não lhe bastasse a pregação de viva voz, quis ainda escrever o seu Evangelho, as suas Epistolas e o livro do Apocalipse, livros estes que respiram caridade e amor em todas as páginas. Ademais, quis expor-se generosamente ao martírio, ainda que o Senhor o livrasse, guardando-o para coisas maiores. Pôde São João responder melhor à predileção da parte de Jesus Cristo?… Que confusão para ti! Depois de teres recebido tantas mostras de afeto especial do Senhor, em vez de amá-Lo, respondeste-Lhe com ingratidões e pecados. Roga a Deus, que te perdoe pela intercessão do santo Apóstolo.

“Ó Senhor, ilustrai benignamente a vossa Igreja para que, instruída com as doutrinas do Bem-aventurado João, vosso Apóstolo e Evangelista, alcance os dons sempiternos.” (3) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e de Maria Santíssima.”

Referências:
(1) Pv 8, 17
(2) Ct 2, 16
(3) Or. festi.

 27 de Dezembro à tarde

Oferecimento do coração a Jesus Menino

Dilectus meus mihi et ego illi, qui pascitur inter lilia. — “O meu amado é meu e eu sou dele, que se apascenta entre as açucenas” (Cant. 2, 16).

I. Alma devota, aviva a tua fé e a tua confiança. O mesmo Jesus que, por nosso amor, baixou do céu à terra e quis nascer numa gruta fria, está agora, abrasado no mesmo amor, escondido no Santíssimo Sacramento. Que é o que faz ali? Respiciens per cancellos (1) — “Olha por entre as grades”. Qual amante aflito pelo desejo de ver seu amor correspondido, Jesus de dentro da Hóstia consagrada, como que por entre uma grade estreita, olha-te sem ser visto, espreita os teus pensamentos, os teus afetos, os teus desejos, e convida-te suavemente achegar-te a si. Eia pois, dá contento ao Amante divino e aproxima-te d’Ele.

Lembra-te, porém, do que ordena: Non apparebis in conspectu meo vacuus (2) — “Não aparecerás em minha Presença com as mãos vazias”. Quem se chegar ao altar para me honrar, não se chegue sem me presentar alguma oferta. Na noite do Natal, os pastores que foram visitar o Menino Jesus na gruta de Belém, trouxeram-lhe os seus presentes. É pois mister que tu também Lhe ofereças o teu presente. Que poderás oferecer-lhe? O presente mais precioso, que possas trazer para o Menino Jesus, é um coração penitente e amante: Praebe, fili mi, cor tuum mihi (3) — “Meu Filho, dá-me o teu coração”.

Ó meu Senhor, eu não devia ter ânimo de me chegar a Vós, vendo-me tão manchado de pecados. Mas já que Vós, Jesus meu, me convidais com tamanha benevolência e me chamais com tamanho amor, não quero resistir. Não quero fazer-Vos esta nova afronta que, depois de Vos ter tantas vezes virado as costas, deixasse agora por desconfiança de aceder a vosso doce convite. Mas sabeis que sou pobre de tudo e que não tenho nada que oferecer-Vos. Não tenho senão o meu coração, e este Vô-lo dou. Verdade é que este meu coração durante algum tempo Vos tem ofendido, mas agora está arrependido, e contrito como se acha, eu Vô-lo ofereço. Sim, meu divino Menino, pesa-me de Vos ter dado desgosto. Confesso-o: tenho sido um traidor, um ingrato, um desumano fazendo-Vos sofrer tanto e derramar tantas lágrimas no presépio de Belém; mas as vossas lágrimas são a minha esperança. Sou um pecador e não mereço perdão, mas dirijo-me a Vós, que, sendo Deus, Vos fizestes criança para me perdoar. — Pai Eterno, se eu mereci o inferno, vede as lágrimas desse vosso Filho inocente; são elas que Vos imploram o meu perdão. Vós não negais nada às súplicas de Jesus Cristo. Atendei-O, visto que Vos pede que me perdoeis nestes dias santíssimos, que são dias de alegria, dias de salvação, dias de perdão.

II. Ó meu pequenino Jesus, espero que me perdoareis; mas só o perdão de meus pecados não basta. Neste santo tempo do Natal dispensais às almas graças grandes. Eu também quero uma graça bem grande, e deveis conceder-ma: é a graça de Vos amar. Agora que me chego aos vossos pés, abrasai-me todo em vosso amor e prendei-me a Vós, mas prendei-me de tal modo que eu nunca mais me afaste de Vós. Assim, ó meu Deus amabilíssimo, espero que Vos amarei sempre e que Vós sempre me amareis: assim, ó meu amado Jesus, espero que serei sempre todo vosso e que Vós sempre sereis todo meu: Dilectus meus mihi et ego illi — “O meu amado é para mim e eu sou para ele.” Creio em Vos, ó Bondade infinita; espero em Vós, ó Bondade infinita; amo-Vos, ó Bondade infinita. Amo-Vos, ó meu Deus, feito Menino por meu amor, amo-Vos, e sempre o hei de repetir, amo-Vos, amo-Vos. † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas (4).

Mas, não Vos amo bastante; quero amar-Vos muito, e Vós deveis fazer que assim seja. Ofereço-Vos o meu coração, entrego-o todo inteiro, não o quero mais. Mudai-o e guardai-o para sempre. Não mo entregueis mais, pois, se o entregardes em minhas mãos, tenho medo que Vos tornará a trair.

Maria Santíssima, vós sois a Mãe desse grande Filho, sede também minha Mãe; em vossas mãos deposito o meu coração, apresentai-o a Jesus; se Lho apresentardes, Jesus não o rejeitará. Apresentai-o, pois, e rogai que o queira aceitar. Amém.

Referências:
(1) Ct 2, 9
(2) Ex 23, 15
(3) Pv 23, 26
(4) 50 dias de indulg. para quem rezar esta jaculatória ou a ensinar aos outros.

 28 de Dezembro

Festa dos Santos Inocentes

Herodes… mittens occidit mones pueros, qui erant in Bethlehem, et in omnibus finibus eius, a bimatu et infra — Herodes… espalhando emissários, fez matar os meninos todos que havia em Belém, e em todo o seu termo, que tinham dois anos e daí para baixo (Mt 2, 16).

Sumário. Devemos considerar bem que o Senhor é a Sabedoria infinita, que sabe tirar o bem do mal. Por isso, o que nós chamamos um mal, é as mais das vezes uma graça singular. De tantas crianças que hoje veneramos sobre os altares e que formam a corte de Jesus, se não tivessem sido mortas por Herodes, quem sabe quantas no tempo da Paixão teriam gritado: Crucifige eum: Crucifica-o; quantas se teriam condenado!

I. Depois que os Magos ofereceram os seus presentes místicos ao Menino Jesus, foram avisados em sonho pelo anjo, que não voltassem a Herodes, como tinham prometido, mas que por outro caminho voltassem para sua pátria. Por isso o príncipe cruel, receoso de que Jesus lhe quisesse tirar o reino, e vendo que os Magos o haviam enganado, irritou-se fortemente e mandou que fossem mortos todos os meninos que havia em belém e em todo o seu termo, que tivessem dois anos e dai para baixo, segundo o tempo que havia colhido das informações dos Magos: Mittens occidit omnes pueros – Enviando emissários mandou matar todos os meninos.

Considera aqui os profundos juízos de Deus. Encarando a matança dos Inocentes com olhos humanos, não se sabe explicar como é que o Senhor, que é um Pai amoroso, pode ver tantas mães em desolação e uma cidade inteira com os seus contornos inundada de sangue inocente. – Devemos, porém, ponderar que Deus é a Sabedoria infinita, que sabe tirar o bem do mal. O que nós chamamos um mal, é as mais das vezes uma graça singular. Quantos dentre os Meninos inocentes teriam levado vida cheia de trabalhos e afinal talvez se tivessem condenado! Alguns talvez tivessem chegado ao extremo de tomar parte na Paixão do Redentor e gritado com os outros judeus: crucifige eum – crucifica-o. Em lugar disso, com a morte padecida por causa de Jesus Cristo, ficou-lhes segura a eterna salvação. Mais, são a corte nobre do Deus Menino e com suas pequeninas palmas adornam o berço do Cordeirinho imaculado. Pelo que Santo Agostinho diz que “Herodes com os seus obséquios nunca pudera favorecer tanto as crianças bem-aventuradas, quanto as favoreceu com o seu ódio”.

Regozija-te com os Santos inocentes, que glorificaram Jesus, derramando o seu sangue, e não podendo anunciar com a língua o nascimento do Filho de Deus, anunciaram-no com a sua morte. E tu, convence-te bem de que tudo o que te faz segura a eterna bem-aventura, é uma grande graça, muito embora aos olhos humanos se te afigure miséria e prejuízo.

II. Quando na Judeia se executava o ímpio mando da matança dos Inocentes, Jesus Menino já estava fora de perigo. Porque “apareceu um anjo do Senhor em sonhos a José e lhe disse: Levanta-te, e toma contigo o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito e fica lá até que eu te avise; porque Herodes procurará o Menino para o matar. E, levantando-se José, tomou consigo, ainda de noite, o Menino e sua Mãe, e retirou-se para o Egito” (1). Contempla como o divino Menino devia sentir a crudelidade de que Herodes usava para com os Inocentes mortos por usa causa. Toda a facada que traspassava as entranhas daquelas criancinhas, também lhe feria o coração.

Desde então ficou decretado o castigo do autor de tamanha barbaridade. Com efeito, por causa de tão horrível carnificina, Herodes tornou-se objeto de opróbrio e de execração do mundo inteiro, ao passo que fez mais conhecida a natividade do Messias, porque a morte de tantas crianças lhe foi o mais claro testemunho. Além disso deus deixou Herodes morrer de uma doença asquerosa e nojenta. Nasceram-lhe no corpo um número incalculável de bichos, que o devoravam vivo e causavam um fedor insuportável, preludio daquele que em breve havia de atormentá-lo eternamente no inferno. Eis a que estado de desgraça foi reduzido Herodes por se ter deixado dominar pela ambição desregrada de reinar. – Afim de que não te colha semelhante desgraça, examina qual seja a tua paixão dominante, a soberba ou a inveja ou a ira… e faze o firme propósito de nunca tomares uma decisão qualquer enquanto teu coração estiver em agitação e as paixões excitadas. Para obteres a graça de o executar, roga ao Senhor pela intercessão dos Santos Inocentes.

Ó Deus, cujos louvores os Inocentes Mártires confessaram hoje, não falando, senão morrendo, mortificai em nós todos os males dos vícios, para que nossa vida dê com santos costumes testemunho da fé, que a nossa língua confessa (2). Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo, vosso divino Filho, e de Maria Santíssima, minha querida Mãe.

Referências:
(1) Mt 2, 13
(2) Or. festi.

 28 de Dezembro à tarde

Felicidade de quem nasceu depois da Redenção e na Igreja Católica

Ubi venit plenitudo temporis, misit Deus Filium suum, ut eos, qui sub lege erant, redimeret – Quando chegou a plenitude do tempo, enviou Deus a seu Filho, para que remisse aqueles que estavam debaixo da lei (Gl 4, 4)

I. Que graças devemos dar a Deus por nos haver feito nascer depois de já realizada a grande obra da Redenção humana! É isso o que quer dizer a palavra plenitudo temporis — “plenitude do tempo” — , tempo venturoso pela plenitude da graça que Jesus Cristo nos mereceu pela sua vinda. Infelizes de nós, se, réus de tantos pecados como somos, tivéssemos vivido nesta terra antes da vinda de Jesus Cristo!

Antes da vinda do Messias, ah! Em que lamentável condição se achavam os homens! O verdadeiro Deus era apenas conhecido na Judeia; em todas as outras partes do mundo reinava a idolatria, de modo que os nossos antepassados adoravam a pedra, a madeira e os demônios.

Adoravam um sem-número de falsos deuses. Somente o verdadeiro Deus não era amado, nem mesmo conhecido. Ainda em nossos tempos, quantos países não há onde é reduzido o número de católicos e todos os demais são pagãos ou hereges, dos quais a maior parte com certeza se condenarão! Quanto mais nós devemos ser agradecidos a Deus, porque não somente nos fez nascer depois da vinda de Jesus Cristo, mas além disso em um país católico!

Senhor meu, graças Vos dou. Ai de mim, se, depois de cometer tantos pecados, vivesse no meio dos infiéis ou dos hereges! Reconheço, ó meu Deus, que me quereis salvo, e eu desgraçado tantas vezes quis perder-me perdendo a vossa graça. Redentor meu, tende piedade de minha alma que tanto Vos custou!

II. Misit Deus Filium suum, ut eos, qui sub lege erant, redimeret (1) — “Deus enviou seu Filho, para que remisse aqueles que estavam debaixo da lei”. Peca o escravo, e pecando entrega-se ao poder do demônio; e eis que vem seu Senhor mesmo para o resgatar com a sua morte! Ó amor imenso, ó amor infinito de Deus para com o homem!

Portanto, ó meu Redentor, se Vós não me tivésseis remido com a vossa morte, o que seria de mim? De mim, digo, que pelos meus pecados tantas vezes tenho merecido o inferno. Se Vós, ó Jesus meu, não tivésseis morrido por mim, já Vos teria perdido para sempre, nem haveria mais para mim esperança alguma de recuperar a vossa graça, nem de ver um dia no paraíso o vosso belo rosto. Meu caro Salvador, graças Vos dou, e espero ir ao céu para Vos agradecer eternamente. Pesa-me acima de todos os males, de Vos ter desprezado em outro tempo. Para o futuro proponho antes sofrer toda a pena, qualquer morte, do que ofender-Vos. Mas como em tempos passados Vos tenho traído, posso tornar a trair-Vos para o futuro. Ó meu Jesus, não queirais permiti-lo. Ne permittas me separari a te (2) — “Não permitais que eu me aparte de Vós”. Amo-Vos, Bondade infinita, e quero amar-Vos sempre nesta vida e durante toda a eternidade. — Ó minha Rainha e Advogada, Maria, guardai-me sempre debaixo de vosso manto e livrai-me do pecado.

Referências:
(1) Gl 4, 4
(2) Suma Teológica 2 2, q. 6, a. 4
(3) At 6, 8

 29 de Dezembro

Alegria trazida ao mundo pelo nascimento de Jesus Cristo

Evangelizo vobis gaudium magnum, quod erit omni populo: quia natus est vobis hodie Salvator – “Anuncio-vos um grande gozo, que será para todo o povo; e é que vos nasceu hoje o Salvador” (Lc 2, 10)

Sumário. Organizam-se grandes festejos num país, quando ao rei nasce seu filho primogênito. Quanto mais não devemos nós festejar o nascimento do Filho unigênito de Deus, que veio do céu para nos visitar. Talvez alguém deseje carregar o Menino Jesus nos braços; mas avivemos a nossa fé e lembremo-nos de que na santa comunhão recebemos, não somente em nossos braços, mas também dentro do nosso peito, o mesmo Jesus, que por nosso amor esteve deitado no presépio de Belém.

I. O nascimento de Jesus Cristo trouxe alegria geral ao mundo inteiro. É Ele o Redentor desejado durante tantos anos e com tamanho ardor, que por esta razão foi chamado o Desejado das gentes, o Desejado das colinas eternas. Eis que já veio, nascido numa gruta estreita. Façamos que o anjo nos anuncie o mesmo gozo que anunciou aos pastores, e que nos diga: Ecce enim evangelizo vobis gaudium magnum, quod erit omni populo: quia natus est vobis hodie Salvator — “Anuncio-vos um grande gozo, que será para todo o povo; e é que vos nasceu hoje o Salvador”. — Que festejos não se organizam num país, quando nasce ao rei seu filho primogênito! Muito mais devemos nós festejar o nascimento do Filho de Deus, que veio do céu para nos visitar, movido unicamente pelas entranhas da sua misericórdia: per víscera misericordiae Dei nostri, in quibus visitavit nos oriens ex alto (1).

Nós nos achávamos em estado de condenação, e eis que Jesus veio para nos salvar: Propter nostram salutem descendit de coelis — “Desceu dos céus para a nossa salvação”. Eis aí o Pastor, vindo para salvar da morte as suas ovelhas, dando a vida por amor delas. — Ego sum pastor bonus; bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis (2) — “Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas”. Eis aí o Cordeiro de Deus que veio sacrificar-se para nos obter a graça divina e fazer-se nosso libertador, nossa vida, nossa luz, e nosso alimento no Santíssimo Sacramento. Diz Santo Agostinho que, entre outras razões, Jesus quis ser posto numa manjedoura, onde os animais acham o pasto, para nos dar a entender que se fez homem também para se tornar nosso alimento.

Jesus nasce, por assim dizer, nasce cada dia no Santíssimo Sacramento por meio da consagração feita pelo sacerdote. O altar é como que o presépio, onde nos alimentamos com a sua própria carne. Talvez alguém deseje trazer o Menino Jesus nos braços, assim como o trouxe o velho Simeão. Mas a fé nos ensina que na santa comunhão temos, não somente em nossos braços, senão dentro do nosso peito, o mesmo Jesus, que esteve no presépio de Belém. Nasceu precisamente a fim de se dar a nós: Parvulus natus est nobis, et filius datus est nobis (3) — “Nasceu-nos uma criança, e foi-nos dado um filho”.

II. Erravi sicut ovis quae periit: quaere servum tuum (4) — “Andei errando como uma ovelha que se desgarrou; busca o teu servo”. Senhor, eu sou a ovelha que por ir atrás das minhas satisfações e dos meus caprichos, desgarrei miseravelmente; mas Vós, ó Pastor e também Cordeiro divino, baixastes do céu para me salvar, sacrificando-Vos como vítima, sobre a Cruz, em satisfação dos meus pecados. Que devo, pois, temer, se resolvo emendar-me? Não devo confiar inteiramente em Vós, meu Salvador, que nascestes precisamente a fim de me salvar? Ecce Deus, Salvator meus, fiducialiter agam, et non timebo (5) — “Eis aqui está Deus, meu Salvador, resolutamente obrarei e nada temerei”. Para me inspirar confiança, que penhor mais seguro de misericórdia podereis dar-me, depois da vossa própria pessoa? Ó meu querido Menino Jesus, quanto me aflige a lembrança de Vos ter ofendido. Tenho-Vos feito chorar na gruta de Belém. Mas, se Vós me viestes buscar, eis que me prostro aos vossos pés,’ e apesar de Vos ver humilhado e aniquilado nessa manjedoura, deitado sobre a palha, reconheço-Vos como meu supremo Senhor e Rei.

Ouço que os vossos doces gemidos me convidam a amar-Vos e me pedem o coração. Ei-lo, ó meu Jesus, deposito-o a vossos pés; transformai-o e abrasai-o, Vós que viestes ao mundo a fim de abrasar os corações em vosso santo amor. Ouço que lá de dentro dessa manjedoura me dizeis: Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo (6) — “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração.” E eu Vos digo: Ah! Jesus meu, se não Vos amar a Vós, que sois meu Senhor e meu Deus, a quem amarei? Vós dizeis que sois meu, porque nascestes a fim de Vos dar todo a mim; e eu recusarei ser vosso? Não, meu amado Senhor, dou-me todo inteiro a Vós e amo-Vos de todo o meu coração. Amo-Vos, amo-Vos, amo-Vos, ó meu Bem supremo, ó amor único da minha alma. Por favor, aceitai-me neste dia, e não permitais que eu ainda deixe de Vos amar.

Ó Maria, minha Rainha, pela consolação que tivestes, quando pela primeira vez contemplastes o vosso Filho nascido, e lhe destes os primeiros abraços, rogai por mim para que vosso Filho me aceite como propriedade sua e me prenda para sempre a si pelos laços do seu santo amor.

Referências:
(1) Lc 1, 78
(2) Jo 10, 11
(3) Is 9, 6
(4) Sl 118, 176
(5) Is 12, 2
(6) Mt 22, 37

 30 de Dezembro

Vida de tribulações que Jesus Cristo começou a levar desde o seu nascimento

Defecit in dolore vita mea, et anni mei in gemitibus – “A minha vida tem desfalecido com a dor, e os meus anos com os gemidos” (Sl 30, 11)

Sumário. A vida de Jesus Cristo foi um martírio contínuo, e mesmo um duplo martírio, porque tinha continuamente diante dos olhos todas as dores que haviam de atormentá-Lo até à morte. Entre todas aquelas dores, porém, a que mais o afligiu, foi a previsão dos nossos pecados e da nossa ingratidão depois de tamanho amor da sua parte. É, pois, verdade, ó Jesus, que com os meus pecados Vos tenho causado aflição durante toda a vossa vida!

I. Jesus Cristo podia salvar-nos sem padecer nem morrer; mas não quis. A fim de nos fazer conhecer até que ponto nos amava, quis escolher uma vida toda de tribulações. Por isso, o profeta Isaías o chamou: virum dolorum — “Homem das dores”, porque a vida de Jesus Cristo devia ser uma vida toda cheia de dores. A sua Paixão não teve seu princípio no tempo da sua morte, mas sim, no começo da sua vida.

Vede que Jesus, apenas nascido, é posto na manjedoura de uma estrebaria, onde tudo concorria para o atormentar. É atormentado na vista, que não descobre na gruta senão paredes grosseiras e negras. É atormentado no olfato, pelo fedor das imundícies dos animais que ali se acham. É atormentado no tato, pelas picadas da palha que lhe servia de cama. Pouco depois de nascido, vê-se obrigado a fugir para o Egito, onde passou vários anos da infância, na pobreza e no desprezo. Nem diferente foi a sua vida depois em Nazaré; e eis que finalmente termina a sua vida em Jerusalém, morrendo sobre uma cruz, pela veemência dos tormentos.

De sorte que a vida de Jesus foi um martírio contínuo, e mesmo um duplo martírio, por ter sempre diante dos olhos todos os sofrimentos que em seguida deviam atormentá-Lo até à morte. À soror Maria Madalena Orsini, queixando-se um dia a Jesus crucificado, disse-lhe:

“Mas, Senhor, Vós passastes somente três horas pregado na cruz, ao passo que eu já estou sofrendo vários anos” Jesus, porém respondeu-lhe: “Ó ignorante! Que estás dizendo? Desde antes de nascer sofri todas as dores da minha vida e da minha morte.”

II. Não foram precisamente as dores futuras que atormentaram Jesus Cristo, visto que de livre vontade aceitara os padecimentos. O que O afligiu foi a previsão dos nossos pecados e da nossa ingratidão depois de tão grande amor seu. Santa Margarida de Cortona não se cansava de chorar as ofensas feitas a Deus, até que um dia o confessor lhe disse: “Margarida, basta; não chores mais porque Deus já te perdoou.” A Santa, porém, respondeu: “Ah, meu Pai, como poderei deixar de chorar, sabendo que os meu pecados têm afligido o meu Jesus durante sua vida toda?

É, pois, verdade, ó meu doce Amor, que eu também, pelos meus pecados, Vos tenho afligido todo o tempo da vossa vida? Dizei-me agora, ó meu Jesus, o que tenho de fazer, para me poderdes perdoar; que de boa vontade o hei de fazer. Arrependo-me, ó Bem supremo, de todas as ofensas que Vos tenho feito. Arrependo-me e amo-Vos mais do que a mim mesmo. Sinto-me com um grande desejo de Vos amar, sois Vós que me destes este desejo; dai-me portanto também forças para Vos amar muito. Justo é que Vos ame muito, eu que tantas vezes Vos tenho ofendido.

Lembrai-me sempre o amor que me tendes mostrado, a fim de que a minha alma esteja sempre abrasada em vosso amor, sempre pense em Vós, não suspire senão por Vós, e só a Vós procure agradar. Ó Deus de amor, a Vós me entrego todo, eu que em outros tempos fui escravo do inferno. Aceitai-me por piedade e prendei-me com os laços de vosso amor. Meu Jesus, para o futuro quero sempre viver amando-Vos, e amando-Vos quero morrer.

Ó Maria, Mãe e Esperança minha, ajudai-me a amar o vosso e meu Deus amado; é esta a única graça que vos peço e de vós a espero.

 Para o último dia do ano

Devemos aproveitar o Tempo

Ecce breves anni transeunt, et semitam per qyuam non revertar ambulo – “Ve que passam os breves anos, e eu caminho por uma vereda pela qual não voltarei” (Jó 16, 23)

I. O tempo, sobre ser a coisa mais preciosa, porque é um tesouro que só neste mundo se acha, é ainda de mui curta duração. Ecce breves anni transeunt. Lembra-te de como se passaram depressa os doze meses do ano que hoje finda! – É, portanto, com razão que o Espírito Santo nos exorta a conservarmos o tempo, e não deixarmos perder-se um só momento sem o aproveitarmos bem. Mas, ai de nós! Quão diversamente vão as coisas! Ó tempo desprezado! Tu serás a coisa que os mundanos desejarão mais na hora da morte, quando ouvirem dizer que para eles não haverá mais tempo: Tempus non erit amplius.

E tu, irmão meu, em que empregas o teu tempo? Deus te concedeu a graça de teres chegado até ao dia de hoje, com preferência a tantos milhares e milhões de pessoas, talvez da tua idade, ou mesmo mais novas, talvez fortes como tu ou ainda mais robustos, com a mesma compleição que tu, ou talvez mais sadia. Elas morreram e tu estás vivo! Elas estão reduzidas à podridão e cinzas no túmulo e tu estás aqui meditando! Elas na eternidade, e muitas infelizmente no inferno, e tu ainda no tempo! Mas como é que passas o tempo? Em que coisas o empregaste até hoje?

Fase aqui aos pés de Jesus Cristo um exame geral da tua vida. Pondera por um lado as inúmeras graças com que Deus te tem cumulado especialmente no correr deste ano; por outro recorda as faltas, as imperfeições, quiçá os pecados, com que continuamente, desde o primeiro dia do ano até este último, tens ofendido o Senhor, retribuindo-lhe a liberdade infinita com ingratidão. – Ah! se não resgatares desde já o tempo inutilmente perdido, ou quiçá mal empregado, ele te causará remorsos amargosos, quando, no leito da morte, te achares próximo àquele grande momento do qual depende a eternidade!

II. Meu irmão, se, por desgraça, tiveres de reconhecer que passaste na tibieza o tempo do ano que se passou, procura passar no fervor ao menos este último dia. Agradece muitas vezes a Deus o ter-te conservado em vida até ao dia de hoje e pede-lhe perdão das negligências passadas no seu serviço. Visto que não sabes se viverás até ao dia de amanhã e se entrarás ainda no ano novo, põe hoje mesmo em ordem as coisas de tua consciência e purifica a tua alma por meio de uma confissão anual. Afinal, fase um propósito firme e eficaz de servires a Deus para o futuro com mais zelo, e de empregares melhor o ano vindouro. É assim que, no dizer do Apóstolo, andarás no caminho da salvação com circunspecção, e recobrarás o tempo: Videte quomodo caute ambuletis… redimentes tempus (1) – “Vede como andais prudentemente… remindo o tempo”.

“Ó Senhor, cuja misericórdia não tem limites, cuja bondade é um tesouro inesgotável, dou graças à vossa Majestade piedosíssima, por todos os benefícios que me tendes feito, e em particular, pelo tempo que me concedeis para chorar as minhas culpas, e reparar as minhas desordens. Quem sabe se o ano que hoje finda, não será talvez o último inteiro da minha vida? Não, não quero mais resistir aos vossos convites tão amorosos. Pesa-me, ó meu Bem supremo, de Vos ter ofendido e proponho fazer de hoje em diante contínuos atos de amor, afim de compensar o tempo perdido.

Como, porém, os mistérios da vida não me permitem dirigir os meus pensamentos sem interrupção para Vós, faço hoje o seguinte ajuste, que será válido durante todo o ano vindouro e todo o tempo da minha vida. Cada vez que levantar os olhos para contemplar o céu, tenho intenção de glorificar as vossas perfeições infinitas. Quantas vezes respirar, quero oferecer-Vos a paixão e o sangue de meu divino redentor, bem como os merecimentos de todos os Santos, para a salvação do mundo inteiro e em satisfação dos pecados que se cometerem.

Toda vez que bater no peito, quero amaldiçoar e detestar cada um dos pecados cometidos desde o princípio do mundo, e quisera poder repará-los com o meu sangue. Finalmente, a cada movimento das mãos, ou dos pés, ou de qualquer outra parte do corpo, tenciono submeter-me à vossa santíssima vontade, desejando que de conformidade com esta se façam todas as coisas. Para que este meu ajuste nunca mais seja violado, confirmo-o e selo-o com as cinco Chagas de Jesus Cristo, e deposito-o em vossas mãos, ó Mãe da perseverança, Maria” (2)

Referências:
(1) Ef 5, 15
(2) Esta fórmula de reta intenção foi feita por São Clemente Maria Hoffbauer, C. SS. R.

 Para o último dia do ano à tarde

Jesus Cristo tem feito e padecido tudo por nosso amor

Dilexit me, et tradidit semetipsum pro me – “Ele me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2, 20)

I. Se é verdade, ó meu Jesus, que por meu amor abraçastes uma vida penosa e uma morte amargosa, posso dizer com razão, que a vossa morte é minha, que são minhas as vossas dores, meus os vossos merecimentos, que, em suma,Vós mesmo sois meu, já que por meu amor Vos entregastes a tão grandes padecimentos. Ah, meu Jesus! Nada me aflige tanto como o pensar que houve um tempo em que Vós éreis meu, e eu voluntariamente Vos tenho perdido repetidas vezes. Perdoai-me e estreitai-me ao vosso peito, nem permitais que eu ainda torne a ofender-Vos. Amo-Vos de toda a minha alma. Vós quereis ser todo meu, eu quero ser todo vosso.

O Filho de Deus, por ser Deus verdadeiro, é infinitamente feliz. Contudo, observa Santo Tomás, Ele tem feito e padecido tanto por amor do homem, como se sem este não pudesse ser feliz: quasi sine ipso beatus esse non posset. Se Jesus Cristo, durante a sua vida terrestre, tivera de merecer a eterna bem-aventurança para si mesmo, que é que mais pudera fazer do que carregar-se de todas as nossas fraquezas, tomar sobre si todas as nossas misérias, para depois terminar a vida com uma morte tão dura e ignominiosa? Mas Jesus era inocente, santo e bem-aventurado em si mesmo; tudo quanto tem feito e padecido, tem-no feito a fim de merecer para nós a graça divina e o paraíso perdido. — Desgraçado de quem não Vos ama, ó Jesus meu, e não vive abrasado no amor de tão grande bondade!

II. Se Jesus Cristo nos houvera permitido, que lhe pedíssemos as provas mais manifestas do seu amor, quem jamais se teria animado a pedir-lhe, se fizesse criança semelhante às outras crianças, abraçasse todas as nossas misérias, se fizesse entre os homens, o mais pobre, o mais desprezado, o mais mal tratado, até morrer à força de tormentos sobre um lenho infame, amaldiçoado e abandonado de todos, mesmo do seu próprio Pai? Mas o que não nos animaríamos nem sequer a imaginar, Jesus o excogitou e fez.

Ó meu amado Redentor, peço-Vos que me concedais a graça, que para mim merecestes com a vossa morte. Amo-Vos e pesa-me de Vos ter ofendido. Tomai posse da minha alma; não quero que ela continue em poder do demônio. Quero que ela seja toda vossa, já que Vós a comprastes com o vosso sangue. Vós me amais a mim e eu quero só amar a Vós. Preservai-me do castigo de viver sem o vosso amor, e pelo mais castigai-me como quiserdes. Maria, meu refúgio, a morte de Jesus e a vossa intercessão são a minha esperança.
2ª dezena

 Janeiro

Dia 01 de Janeiro: A Circuncisão de Jesus e o Sacramento do Batismo

Domingo entre a Circuncisão (01/01) e a Epifania (06/01): Festa do Santíssimo Nome de Jesus

Dia 02 de Janeiro: Porque Jesus quis nascer criança

Dia 03 de Janeiro: Jesus envolto em faixas

Dia 04 de Janeiro: Jesus é alimentado

Dia 05 de Janeiro: O sono de Jesus Menino

Dia 06 de Janeiro: Epifania de Nosso Senhor Jesus Cristo

Dia 07 de Janeiro: Jesus chora

Dia 08 de Janeiro: Da vida humilde e desprezada que Jesus levou desde a meninice

Dia 09 de Janeiro: Misericórdia de Deus em baixar do céu para nos salvar com a sua morte

Dia 10 de Janeiro: Vida pobre que Jesus começou a levar desde o seu nascimento

Sábado da oitava da Epifania (sábado após 06/01): Solicitude maternal de Maria para com Jesus Cristo

 01 de Janeiro

A Circuncisão de Jesus e o Sacramento do Batismo

Consummati sunt dies octo, ut circuncideretur Puer – “Foram cumpridos os oito dias para ser circuncidado o Menino” (Lc 2, 21)

Sumário. A cerimônia da circuncisão era figura do sacramento do batismo. Podemos, por tanto, imaginar que Jesus Cristo, quando foi circuncidado, pensou em cada um de nós, e que oferecendo a seu divino Pai as primícias do seu sangue, desde então nos mereceu a graça de sermos regenerados pelo batismo. Oh, que dom inestimável é o do santo batismo! Como, porém, temos respondido a tamanho favor? Temos, por ventura, manchado a vestimenta branca da inocência?

I. Considera o Pai Eterno, que, tendo enviado seu Filho a fim de padecer e de morrer por nós, quer que no dia de hoje seja circuncidado e comece a derramar o seu sangue divino, para depois acabar de derramá-lo no dia da sua morte na cruz num, oceano de dores e desprezos. E porque? A fim de que esse Filho inocente pague assim as penas por nós merecidas. É, pois, com razão que a Igreja canta: Ó bondade admirável da misericórdia divina para conosco! Ó inestimável amor de compaixão! A fim de remires o homem entregaste teu Filho à morte! — Ó Deus eterno, quem seria capaz de fazer-nos esse dom infinito, senão Vós que sois a bondade infinita? E se, com o dom do vosso Filho, me destes o que mais caro possuíeis, justo é que eu miserável me dê todo a Vós.

Considera por outro lado o divino Filho, que, todo humilde e cheio de amor para conosco, abraça a morte amargosa, que lhe está destinada, para nos salvar, a nós pecadores, da morte eterna. De boa vontade começa hoje a satisfazer por nós à divina justiça, com o preço do seu sangue. — Nosso Senhor disse:

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida por seus amigos.” (1)

O amor, porém, de Jesus Menino foi muito além, porquanto, assim como diz São Paulo, Ele chegou a sacrificar a vida por nós, seus inimigos:

Cum inimici essemus, reconciliati sumus Deo per mortem Filii eius (2) — “Sendo inimigos de Deus, fomos com Ele reconciliados pela morte de seu Filho”

Portanto, ó meu Jesus, é por meu amor que aceitastes a morte; e que farei eu? Continuarei porventura a ofender-Vos com os meus pecados? Não, Redentor meu, não mais quero ser-Vos ingrato; hoje quero com todas as verás começar a amar-Vos de todo o meu coração. Vós, porém, ó Deus todo-poderoso, concedei-me a graça para Vos ser fiel.

“E já que me fizestes chegar ao começo deste ano, salvai-me pelo vosso poder, a fim de que no correr do mesmo não caia eu em nenhuma falta, e os meus pensamentos, palavras e obras tenham por único escopo fazer aquilo que com toda a justiça exigirdes de mim.” (3)

II. A cerimônia da circuncisão, no dizer dos Santos Padres, prefigurava o sacramento do batismo. É portanto bem a propósito considerarmos que Jesus Menino, quando se sujeitou à circuncisão, pensava em cada um de nós. Oferecendo então a Deus Pai as primícias do seu sangue, começou a merecer-nos a graça de sermos regenerados na fonte batismal. Oh, que dom inapreciável é o do santo batismo! Por meio d’Ele as nossas almas deixaram de ser escravas do demônio, condenadas ao inferno, e se tornaram filhas escolhidas de Deus e herdeiras ditosas do reino dos céus. — Mas, como é que nós temos respondido a tão grande favor?… Lancemos a vista sobre a nossa consciência e vejamos se jamais temos manchado a vestimenta branca da inocência, e prostrando-nos aos pés de Jesus Cristo renovemos os nossos votos do batismo. Para que depois os guardemos fielmente, consideremos cada dia que desponta, como se fosse o último da nossa vida. E, com efeito, meu irmão, quem sabe se ainda vereis o fim do ano que hoje começa?

Senhor meu amabilíssimo, prostrado na presença de vossa divina Majestade, agradeço-Vos o me haverdes adotado por filho no santo batismo. Quero hoje renovar (as promessas que Vos fiz naquele dia, e Vô-las ofereço tintas no sangue que Jesus por meu amor derramou na sua dolorosa circuncisão. Em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espirito Santo, protesto que de todo o coração renuncio a Satanás, às suas pompas e às suas obras. Pesa-me de haver tantas vezes profanado pelos meus pecados o caracter de cristão, e juro que para o futuro Vos quero permanecer fiel. Ó anjos do paraíso, e em particular vós, ó meu anjo da guarda, que um dia anotastes as minhas promessas, sêde hoje novamente testemunhas desta minha resolução. Antes quero morrer do que faltar à promessa do meu batismo, e viver um instante na inimizade de Deus. Vós, ó meu Jesus, dai-me a santa perseverança; fazei-o pela intercessão do Santo cujo nome tomei na pia batismal; fazei-o pelo amor de São José e de Maria Santíssima, que no dia da vossa circuncisão ficaram tão aflitos vendo-Vos derramar pela primeira vez o vosso preciosíssimo sangue.

Referências:
(1) Jo 15, 13
(2) Rm 5, 10
(3) Or. Eccl.

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OBS: Caso hoje seja domingo, faça a meditação "Domingo entre a Circuncisão e a Epifania: Festa do Santíssimo Nome de Jesus"

 Domingo entre 01 e 06 de Janeiro

Festa do Santíssimo Nome de Jesus

Vocatum est nomen eius Jesus, quod vocatum est ab Angelo, priusquam in utero conciperetur – “Foi-lhe posto o nome de Jesus, como o havia chamado o Anjo, antes de concebido” (Lc 2, 21)

Sumário. O divino Nome de Jesus é comparado pelo Espírito Santo com azeite, porque, assim como o azeite dá luz, alimenta e cura, assim o Nome de Jesus é luz para o espírito, alimento para o coração, medicina para a alma. Felizes de nós se formos sempre devotos deste grande Nome, e, juntamente com os de Maria e José, o tivermos frequentes vezes nos lábios, especialmente no tempo das tentações! Quem jamais se perdeu tendo invocado estes santíssimos Nomes na tentação?

I. O Nome de Jesus é um nome divino, anunciado a Maria da parte de Deus por São Gabriel: Et vocabis nomen eius Jesum (1) – “Pôr-lhe-ás o nome de Jesus”. Por isso foi chamado nome acima de todo outro nome (2), no qual só se acha a salvação: in quo oportet nos salvos fieri (3). – Este grande nome é comparado pelo Espírito Santo com azeite: Oleum effusum nomen tuum (4) – “O teu nome é como azeite derramado”. E com razão, diz São Bernardo; pois, assim o nome de Jesus é luz para o espírito, alimento para o coração e medicina para a alma.

É luz para o espírito. Com este nome converteu-se o mundo das trevas da idolatria para a luz da fé. Nós que nascemos em regiões onde antes da vinda de Cristo todos os nossos antepassados eram pagãos, todos nós o seríamos igualmente se o Messias não tivesse vindo para nos iluminar. Como devemos, portanto, agradecer a Jesus Cristo o dom da fé! O que seria de nós, se tivéssemos nascido na Ásia ou na África, entre os idólatras?

“Quem não crer, será condenado” – Qui non crediret, condemnabitur (5)

E assim, segundo todas as possibilidades, nós também havíamos de nos perder.

II. Em segundo lugar, o nome de Jesus é um alimento, que nutre os nossos corações. E de fato, porque este nome nos recorda o que Jesus tem feito para a nossa salvação. Por isso este nome nos consola nas tribulações, fortalece-nos para seguirmos o caminho da salvação, anima-nos nas desconfianças, e abrasa-nos em amor pela recordação de que o nosso Redentor tem padecido para nos salvar.

Finalmente este nome é medicina para a alma, porquanto nos torna fortes contra as tentações dos nossos inimigos. O inferno treme e foge ao ouvir a invocação deste santo Nome, segundo nos afirma o Apóstolo:

In nomine Iesu omne genu flectatur, coelestium, terrestrium et infernorum (6) – “Ao nome de Jesus dobre-se todo o joelho no céu, na terra e nos infernos”

Quem jamais se perdeu, depois de ter invocado nas tentações o nome de Jesus? Perde-se quem não chama Jesus em seu auxílio, ou deixa de invocá-lo quando a tentação continua (7).

III. Ó meu Jesus, se eu Vos tivera sempre invocado, nunca teria sido vencido pelo demônio. Perdi miseravelmente a vossa graça, porque nas tentações me descuidei de Vos chamar em meu auxílio. Ponho toda a minha esperança em vosso santo Nome: Omnia possum in eo qui me confortat (8) – “Tudo posso naquele que me fortalece”. Gravai, ó meu Salvador, gravai em meu pobre coração o vosso poderosíssimo Nome, afim de que, tendo-o sempre também na boca invocando-o em todas as tentações, que o inferno me prepara afim de me ver novamente seu escravo e separado de Vós. Em vosso nome acharei todo o bem. Nas aflições ele me consolará, pela lembrança que Vós tendes estado muito mais aflito por meu amor. Na desconfiança que me vier por causa dos meus pecados, animar-me-á, lembrando-me que viestes ao mundo exatamente para salvar os pecadores. Nas tentações o vosso nome me dará força, porque me recordará que Vós sois mais poderoso para me ajudar do que o inferno para me vencer; finalmente na minha frieza em vosso amor, o vosso nome restituir-me-á o fervor pela recordação do amor que me tendes tido.

Amo-Vos, ó meu Jesus; Vós sois, e como espero, sereis sempre o meu único amor. Ó Jesus meu, eu Vos dou todo o meu coração, só a Vós quero amar, e quero invocar-Vos o mais frequentemente possível. Quero morrer com o vosso nome nos lábios, porque é nome de esperança, nome de salvação, nome de amor.

– Ó Maria, se me tendes amor, eis aí a graça que me deveis impetrar: fazei com que eu invoque sempre o vosso nome, o de vosso filho e o de vosso castíssimo Esposo. Fazei que os vossos nomes dulcíssimos sejam a respiração de minha alma, e que sempre repita em vida, para depois repeti-lo na morte: Jesus e Maria, ajudai-me; Jesus e Maria, eu Vos amo!

+ Jesus, José e Maria, fazei que a minha alma expire em paz na vossa companhia (9).

Ó Pai Eterno, que constituístes a vosso Filho unigênito Salvador do gênero humano, e mandastes se lhe desse o nome de Jesus: concedei benigno que, venerando na terra seu santo nome, gozemos também de sua divina presença no céu. Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo, nosso Senhor.” (10)

Referências:
(1) Lc 1, 31
(2) Fl 2, 9
(3) At 4, 12
(4) Ct 1, 2
(5) Mc 16, 16
(6) Fl 2, 10
(7) 25 dias de indulgências para quem invoca o nome de Jesus e de Maria
(8) Fl 4, 13
(9) Indulgência de 300 dias, cada vez
(10) Or. fest.

 02 de Janeiro

Porque Jesus quis nascer criança

Parvulus enim natus est nobis, et filius datus est nobis – “Nasceu-nos uma criança; foi-nos dado um filho” (Is 6, 9)

Sumário. São vários os motivos pelos quais Jesus quis nascer criança. Primeiro, quis desta forma mostrar-nos a sua propensão e facilidade em dar-nos os seus bens. Quis, em segundo lugar, afastar de nós todo o temor ao vermo-Lo reduzido, por assim dizer, a um estado de impotência para nos castigar pelos nossos pecados. Mas sobretudo Jesus nasceu como criança para se fazer amar por nós, não somente de apreço, senão de ternura. Amemo-Lo, pois, de todo o coração, cheguemo-nos a Ele, e peçamos-Lhe toda a sorte de bens.

I. Considerai que ao fim de tantos séculos, depois de tantas súplicas e suspiros, o Messias, a quem os santos Patriarcas e Profetas não tinham sido dignos de verem, o Suspirado das gentes, o desejo das colinas eternas, o nosso Salvador, já veio, já nasceu e já se deu todo a nós: Parvulus natus est nobis, et filius datus est nobis — “Nasceu-nos uma criança; foi-nos dado um filho”.

O Filho de Deus se fez pequenino, para nos fazer grandes; deu-se a nós, a fim de que nós nos demos a Ele, veio mostrar-nos o seu amor a fim de que nós Lhe respondamos com o nosso. Façamos-Lhe acolhida afetuosa, amemo-Lo e recorramos a Ele em todas as nossas necessidades.

Puer facile donat. As crianças, diz São Bernardo, gostam de dar o que se lhes pede. Jesus veio como criança para se nos mostrar todo inclinado e propenso a comunicar-nos os seus bens.

“Nele estão encerrados todos os tesouros.” (1)
“O Pai tudo tem posto em sua mão.” (2)

Se desejamos luz, Ele veio para nos iluminar. Se queremos força para resistirmos aos inimigos, Ele veio exatamente para nos confortar. Se queremos o perdão e a salvação, ei-Lo que veio para nos perdoar e nos salvar. Se queremos, finalmente, o dom supremo do divino amor, Ele veio para abrasar-nos o coração. É sobretudo para este fim que se fez criança. Quis aparecer no meio de nós tanto mais amável, quanto mais pobre e humilde, quis tirar-nos todo o temor e ganhar o nosso amor, como observa São Pedro Crisólogo: Taliter venire debuit, qui voluit timorem pellere, quaerere caritatem.

Além disso, Jesus quis vir pequenino para ser de nós amado com amor não somente de apreço, senão também de ternura. Todas as crianças sabem ganhar o afeto de todos aqueles que as vêem; mas quem não amará com toda a ternura a um Deus feito criancinha, necessitado de leite, tiritante de frio, pobre, humilhado, abandonado; a um Deus que chora e está vagindo numa manjedoura sobre a palha? Isso fez o amante São Francisco exclamar: Amemus Puerum de Bethlehem; Amemus Puerum de Bethlehem. Vinde amar a um Deus feito criança, feito pobre, e tão amável que baixou do céu para se dar todo a vós.

II. Ó meu Jesus, tão amável e de mim tão desprezado, baixastes do céu, a fim de nos remirdes do inferno e Vos dardes todo a nós, e nós, como temos podido desprezar-Vos tantas vezes e virar-Vos as costas? Ó Deus, os homens mostram-se tão agradecidos às criaturas! Se alguém lhes faz qualquer favor, se alguém vem de longe a visitá-los, se se lhes dá alguma demonstração de afeto, não podem esquecê-lo e sentem-se obrigados a retribuí-lo. E depois são tão ingratos para convosco, que sois o seu Deus, que sois tão amável e que por seu amor não recusastes dar o sangue e a vida.

Mas, ai de mim, que tenho sido para convosco pior do que os outros, por ter sido mais amado de Vós e mais ingrato a vosso amor. Ah! Se tivésseis concedido a um herege, a um idólatra as graças que me dispensastes a mim, ele se teria tornado santo, e eu Vos tenho ofendido. Por piedade, esquecei as injúrias que Vos tenho feito. Mas, Vós já dissestes, que quando um pecador se arrepende, não mais Vos lembrais de todos os ultrajes recebidos (3). Se em outro tempo não Vos amei, para o futuro não quero senão amar-Vos. Vós Vos destes todo a mim e eu Vos dou toda a minha vontade; com esta amo-Vos, amo-Vos, amo-Vos; quero repetí-lo sempre: amo-Vos, amo-Vos. Repetindo isto quero viver, e assim quero morrer, exalando o espírito com estas doces palavras nos lábios: Meu Deus, amo-Vos. Desde o primeiro instante em que entrar na eternidade quero começar a amar-Vos com um amor contínuo, que durará sempre, sem que eu possa ainda deixar de Vos amar.

Entretanto, ó meu Senhor, meu único Bem e meu único Amor, resolvo antepor a vossa vontade a qualquer querer meu. Ainda que me oferecessem o mundo inteiro, não o quero. Não quero mais deixar de amar a quem tanto me tem amado; não quero mais dar desgosto a quem merece da minha parte um amor infinito. Ajudai-me, ó meu Jesus, com a vossa graça, a realizar este desejo. — Maria, minha Rainha, é à vossa intercessão que me reconheço devedor de todas as graças recebidas de Deus; não deixeis de interceder por mim. Vós que sois a Mãe da perseverança, obtende-me a perseverança final.

Referências:
(1) Col 2, 3
(2) Jo 3, 35
(3) Is 43, 25

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OBS: Caso hoje seja domingo, faça a meditação "Domingo entre a Circuncisão e a Epifania: Festa do Santíssimo Nome de Jesus"

 03 de Janeiro

Jesus envolto em faixas

Et pannis eum involvit – “Envolveu-o em faixas” (Lc 2, 7)

Sumário. Imaginemos ver a Maria que toma com reverência seu divino Filho, o adora, o beija e em seguida o envolve nas faixas. O santo Menino oferece obediente as mãos e os pés, e sentindo que lhe apertam as faixas, pensa nas cordas com que um dia será amarrado no Horto. Se um Deus assim se deixa enfaixar, não será por ventura justo que nos deixemos ligar também com os laços de seu amor, e nos desfaçamos de qualquer afeto terreno?

I. Imaginai verdes a Maria que, depois de ter dado à luz seu divino Filho, O toma com reverência nos braços, adora-O primeiro como seu Deus, e em seguida O enfaixa estreitamente: Membra pannis involuta, Virgo Mater alligat (1). Vêde como o Menino Jesus obediente oferece as mãozinhas, oferece os pés e se deixa enfaixar. Ponderai que, cada vez que o divino Infante se deixava enfaixar, pensava nas cordas com que um dia devia ser amarrado no Horto, naquelas que depois deviam prendê-lo à coluna, e nos pregos que deviam fixá-lo na cruz. Pensando assim, deixava-se de boa mente enfaixar, a fim de livrar as nossas almas dos laços do inferno.

Jesus, estreitado nas faixas, volve-se a nós e convida-nos a que nos unamos consigo pelos doces laços do amor.Volvendo-se em seguida a seu Eterno Pai diz:

“Meu Pai, os homens abusaram de sua liberdade e, revoltados contra Vós, tornaram-se escravos do pecado. Para compensar a sua desobediência, quero ser envolto e estreitado nestas faixas. Assim ligado, ofereço-Vos a minha liberdade, a fim de que o homem fique livre da escravidão do demônio. Aceito estas faixas, que me são caras, e mais caras ainda, porque são símbolos das cordas com que, desde agora, me ofereço a ser um dia amarrado e conduzido à morte para salvação dos homens”

Vincula illius alligatura salutaris (2) — “Os seus vínculos são ligadura de salvação”

As faixas de Jesus foram as ligaduras saudáveis para curar as chagas de nossas almas. — Portanto, ó meu Jesus, quisestes ser estreitamente envolto em faixas por meu amor, e eu me recusarei a fazer-me ligar pelos laços do vosso amor? Terei para o futuro ainda a coragem de me desligar dos vossos laços tão suaves e amáveis, para me fazer escravo do inferno? Meu Senhor, por amor meu estais ligado nesta manjedoura, quero sempre estar ligado em união convosco.

II. Dizia Santa Maria Madalena de Pazzi, que as faixas que nos devem prender são a firme resolução de nos unirmos a Deus pelo amor, desfazendo-nos ao mesmo tempo do afeto a qualquer coisa que não seja Deus. Parece que é para este mesmo fim que o nosso amante Jesus se quis deixar ficar, por assim dizer, ligado e prisioneiro, no Santíssimo Sacramento do altar, debaixo das espécies sacramentais, a fim de fazer as almas suas diletas, prisioneiras de seu amor.

Meu amado Menino, como poderei temer os vossos castigos, já que Vos vejo ligado estreitamente nas faixas, como que privando-Vos do poder de levantar as mãos para me punir? Com as faixas me dais a entender que não me quereis castigar, se eu quero quebrar os laços dos meus vícios e ligar-me a Vós. Sim, meu Jesus, quero rompê-los. Pesa-me de toda a minha alma, de me ter separado de Vós pelo abuso da liberdade que me destes. Vós me ofereceis outra liberdade mais bela, a que me livra do cativeiro do demônio e me faz aceitar no número dos filhos de Deus. Por meu amor Vos deixastes atar com essas faixas; eu quero ser cativo do vosso grande amor. Ó laços ditosos, ó formosas insígnias de salvação, que ligais as almas a Deus, por piedade, ligai também o meu pobre coração. Ligai-o tão fortemente, que para o futuro nunca mais se possa apartar do amor ao Bem supremo. Jesus meu, amo-Vos, a Vós me quero ligar, e Vos dou todo o meu coração, toda a minha vontade. Não quero mais deixar-Vos, ó meu amado Senhor.

Ó meu Salvador, para pagar o que eu estava devendo, quisestes não somente Vos deixar enfaixar por Maria, mas também permitistes que os algozes Vos ligassem como a um réu, e assim ligado Vos levassem pelas ruas de Jerusalém, para ser conduzido à morte, como um cordeiro que vai ao matadouro; quisestes ser pregado na cruz, e não a deixastes senão depois de deixardes de viver! Não permitais que ainda me separe de Vós, e assim fique outra vez privado da vossa graça e do vosso amor.

— O Maria, vós que um dia ligastes com as faixas vosso Filho inocente, ligai-me agora a vosso Jesus, a mim pecador, a fim de que não me afaste mais de seus pés, e um dia chegue a ter a ventura de entrar naquela pátria beata, onde já livre de todo temor nunca mais poderei separar-me do seu santo amor.

Referências:
(1) Hymn. s. Crucis Pangue lingua
(2) Eclo 6, 31

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OBS: Caso hoje seja domingo, faça a meditação "Domingo entre a Circuncisão e a Epifania: Festa do Santíssimo Nome de Jesus"

 04 de Janeiro

Jesus é alimentado

Quis mihi det te fratrem meum, sugentem ubera matris meae? – “Quem te dará a mim por irmão, que tomara o leite da minha mãe?” (Ct 8, 1)

Sumário. Quando o Menino Jesus foi envolto em paninhos, suspirou pelo alimento da Virgem Maria, e tomando-o já pensava em como havia de mudá-lo naquele sangue com que deveria um dia resgatar as almas sobre a cruz e alimentar nelas a vida da graça pela Comunhão. Roguemos à divina Mãe que nos alimente com o leite de uma devoção terna e amorosa à Infância de Jesus.

I. Depois que o Menino Jesus foi envolto nas faixas, pediu por vagidos a alimentação de Maria. A esposa dos Cânticos desejava ver seu irmãozinho tomando o alimento maternal — Quis mihi det te fratrem meum, sugentem ubera matris meae? Aquela esposa desejava-o, mas não foi atendida. Nós, ao contrário, temos a ventura de ver o Filho de Deus, feito homem e nosso irmãozinho, pedir a Maria o alimento próprio da sua idade. Que espetáculo era para o Paraíso ver o Verbo divino feito criança, nutrir-se com o leite que lhe oferecia uma virgenzinha, sua criatura! Aquele que nutre todos os homens e todos os animais da terra, ei-lo reduzido a tal estado de fraqueza e de pobreza, que precisa de um pouco de leite para sustentar a vida. Soror Paula Camaldulense, ao contemplar uma imagem de Jesus tomando leite, sentia cada vez o coração abrasado de terníssimo amor para com Deus.

Jesus, porém, alimentava-se poucas vezes por dia, e cada vez em pequena quantidade. Foi revelado à Soror Mariana, da ordem franciscana, que Maria Santíssima alimentava o Filho só três vezes cada dia. Ah! Como foi precioso para nós aquele leite que nas veias de Jesus Cristo devia mudar-se em sangue e assim preparar um banho salutar, no qual pudéssemos lavar as nossas almas! — Ponderemos ainda que Jesus tomava o leite a fim de nutrir este corpo que queria deixar-nos como nosso alimento na santa Comunhão. Ó meu pequenino Redentor, enquanto tomais alimento, estais pensando em mim; pensais em como aquele leite se transformará no sangue que um dia derramareis antes de morrer, a fim de resgatar por tão alto preço a minha alma e alimentá-la com o Santíssimo Sacramento, que é o leite salutar por meio do qual o Senhor conserva as nossas almas na vida da graça. Lac vestrum Christus est, diz Santo Agostinho, — O vosso leite é Jesus Cristo.

Ó meu amado Menino, ó Jesus meu, permiti que eu também exclame com a mulher do Evangelho:

Beatus venter qui te portavit, et ubera quae suxisti (1) — “Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos a que foste criado”

Bem-aventurada sois vós, ó divina Mãe por terdes tido a sorte feliz de alimentardes o Verbo encarnado. Por piedade: admiti-me, em companhia do vosso divino Filho, a receber de vós o leite de uma devoção terna e amorosa à infância de Jesus e a vós, minha amadíssima Mãe.

II. Ó dulcíssimo e amabilíssimo Jesus Menino! Vós sois o Pão do céu, que sustenta aos anjos; Vós dispensais alimentos a todas as criaturas. Como é, pois, que estais reduzido à necessidade de pedir a uma virgenzinha um pouco de leite para sustentardes a vida?

Ó amor divino! Como pudestes reduzir um Deus a tal estado de pobreza, que precisa pedir algum alimento? Mas já Vos entendo, ó meu Jesus: nessa gruta aceitais o leite de Maria a fim de mudá-lo em vosso sangue, e oferecê-lo um dia a Deus como sacrifício em satisfação pelos nossos pecados. Ó Maria, continuai a alimentar o vosso Filho, porque cada gota desse leite servirá para limpar a minha alma das suas culpas, e a nutri-la depois na santa Comunhão. Ó meu Redentor, como poderá deixar de Vos amar aquele que crê tudo que tendes feito e padecido pela nossa salvação? E eu, como me foi possível saber tudo isso e ser-Vos tão ingrato?

Mas, a vossa bondade é a minha esperança, porque me ensina que basta querer a vossa graça para obtê-la. Pesa-me, ó meu supremo Bem, de Vos ter ofendido e amo-Vos sobre todas as coisas. Ou, para dizer melhor, não amo nada senão a Vós, e só a Vós quero amar. Vós sois e sereis sempre o meu único bem, o meu único amor. Meu amado Redentor, concedei-me, Vô-lo peço, uma terna devoção à vossa santa infância, como a concedestes a tantas almas que com pensarem em Vós, ó Deus-Menino, se esqueciam de todas as coisas e, ao que parece, não pensavam em mais nada senão em Vos amar. Verdade é que elas são inocentes, e eu sou pecador; mas Vós Vos fizestes menino para Vos fazerdes amar também pelos pecadores. Pecador tenho sido; mas agora amo-Vos de todo o meu coração e nada mais desejo senão vosso amor.

— Ó Maria, concedei-me uma parte dessa ternura com que alimentastes a Jesus Menino.

Referências:
(1) Lc 11, 27

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OBS: Caso hoje seja domingo, faça a meditação "Domingo entre a Circuncisão e a Epifania: Festa do Santíssimo Nome de Jesus"

 05 de Janeiro

O sono de Jesus Menino

Ego dormio, et cor meum vigilat – “Eu durmo, e o meu coração vela” (Ct 5, 2)

Sumário. O sono do Menino Jesus era muito diferente do das outras crianças. Enquanto dormia, seu Corpo, a Alma, unida à Pessoa do Verbo, velava. Desde então pensava nas penas que devia depois sofrer por nosso amor. Roguemos ao Santo Menino, pelo merecimento daquele bendito sono, que nos livre do sono mortal dos pecadores e, em vez disso, nos conceda o sono dos justos, pelo qual a alma perde a lembrança de todas as coisas terrestres.

I. O sono de Jesus-Menino foi demasiadamente breve e doloroso. Servia-Lhe de berço uma manjedoura, a palha de colchão e de travesseiro. Assim o sono de Jesus foi muitas vezes interrompido pela dureza daquela caminha excessivamente dura e molesta, e pelo rigor do frio que reinava na gruta. De vez em quando, porém, a natureza sucumbia à necessidade e o Menino querido adormecia. Mas o sono de Jesus foi muito diferente do das outras crianças. O sono destas é útil à conservação da vida; não, porém, quanto às operações da alma, porque esta, privada do uso dos sentidos, fica reduzida à inatividade. Não foi assim o sono de Jesus Cristo: Ego dormio et cor meum vigilat. O Corpo repousava; velava, porém, a alma, que em Jesus era unida à Pessoa do Verbo, que não podia dormir nem ficar sopitada pela inatividade dos sentidos.

Dormia, pois, o santo Menino, mas enquanto dormia, pensava em todos os padecimentos que teria de sofrer por nosso amor, no correr de toda a sua vida e na hora da sua morte. Pensava nos trabalhos pelos quais havia de passar no Egito e em Nazaré, levando uma vida extremamente pobre e desprezada. Pensava particularmente nos açoites, nos espinhos, nas injúrias, na agonia e na morte desolada, que afinal devia padecer sobre a Cruz. Tudo isso Jesus oferecia ao Pai Eterno enquanto estava dormindo, a fim de obter para nós o perdão e a salvação. Assim nosso Salvador, durante o sono, estava merecendo por nós, reconciliava conosco seu Pai e alcançava-nos graças.

Roguemos agora a Jesus que, pelos merecimentos de seu beato sono, nos livre do sono mortal dos pecadores, que dormem miseravelmente na morte do pecado, esquecidos de Deus e do seu amor. Peçamos-Lhe que nos dê, ao contrário, o sono feliz da sagrada Esposa, da qual dizia: Eu vos conjuro… que não perturbeis à minha amada o seu descanso, nem a façais despertar, até que ela mesma queira (1). É este o sono que Deus dá às almas suas diletas, e que, no dizer de São Basílio, não é senão o supremo olvido de todas as coisas — summa verum omnium oblivio. Então a alma olvida todas as coisas terrestres, para só pensar em Deus e nos interesses da glória divina.

II. Ó meu querido e santo Menino, Vós estais dormindo, mas esse vosso sono como me abrasa em amor! Para nós o sono é figura da morte; mas em Vós é símbolo de vida eterna, porque, enquanto repousais, estais merecendo para mim a eterna salvação. Estais dormindo, porém o vosso coração não dorme, senão pensa em padecer e morrer por mim. Durante o vosso sono rogais por mim e me impetrais de Deus o descanso eterno do Paraíso. Mas enquanto não me levardes, como espero, para repousar junto de Vós no Céu, quero que repouseis sempre em minha alma.

Houve um tempo, ó meu Deus, em que Vos expulsei da minha alma. Vós, porém, tanto batestes à porta do meu coração, ora por meio do temor, ora com luzes especiais, ora com convites amorosos, que tenho a esperança de que já entrastes nele. Assim espero, digo, porque sinto em mim uma grande confiança de que já me perdoastes. Sinto também uma grande aversão e arrependimento das ofensas que Vos tenho feito; um arrependimento que me causa grande dor, mas uma dor pacífica, uma dor que me consola e me faz esperar que a vossa bondade já me perdoou. Graças Vos dou, ó meu Jesus, e peço-Vos que não Vos aparteis mais da minha alma. Sei que Vós não Vos apartareis enquanto eu não Vos repulsar. É esta exatamente a graça que Vos peço e que, com vosso auxílio, espero pedir-Vos sempre: não permitais que torne a expulsar-Vos de meu coração. Fazei que eu me esqueça de todas as coisas, a fim de só pensar em Vós, que sempre pensastes em mim e na minha salvação. Fazei que Vos ame sempre nesta vida, a fim de que a minha alma, expirando unida conVosco e em vossos braços, possa repousar eternamente em Vós sem receio de jamais Vos perder.

— Ó Maria, assisti-me na minha vida, assisti-me na hora da minha morte, para que Jesus sempre repouse em mim, e eu repouse sempre em Jesus.

Referências:
(1) Ct 2, 7

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OBS: Caso hoje seja domingo, faça a meditação "Domingo entre a Circuncisão e a Epifania: Festa do Santíssimo Nome de Jesus"

 06 de Janeiro

Epifania de Nosso Senhor Jesus Cristo

Vidimus enim stellam eius in oriente, et venimus adorare eum – “Vimos a sua estrela no Oriente, e viemos adorá-Lo” (Mt 2, 2)

Sumário. Jesus, apenas nascido, quis começar a comunicar-nos as graças da Redenção. Por meio de uma estrela chama os Magos, e na pessoa destes a todos nós, a fim de O venerarem. Os santos Reis põem-se logo a caminho, entram na gruta, adoram o santo Menino e oferecem-Lhe as suas ofertas místicas. Adoremo-Lo nós também, em união com os santos Reis, e ofereçamos-Lhe pelas mãos de Maria os nossos corações arrependidos e amantes.

I. Jesus nasce pobre numa lapinha: os anjos do céu, é verdade, reconhecem-No por seu senhor, mas os homens da terra deixam-No abandonado. Vêm apenas uns poucos pastores para O adorar. O Redentor, porém, já quer começar a comunicar-nos a graça da Redenção, e por isso começa a manifestar-se aos gentios que menos O conheciam. Manda uma estrela iluminar os santos Magos, para que venham conhecer e adorar o seu Salvador. Foi esta a primeira e também a maior graça que Jesus nos deu: a vocação à fé, à qual sucede a vocação à graça, de que os homens se achavam privados.

Sem demora os Magos se põem a caminho; a estrela acompanha-os até à gruta, onde está o santo Menino. Chegados ali, entram, e o que acham? Invenerunt Puerum cum Maria (1) — “Acharam o Menino com Maria”. Eles acham uma donzela pobre e um menino pobre envolto em paninhos, sem ninguém para o servir ou assistir. Mas como? Ao entrarem naquela humilde gruta, os santos peregrinos sentem uma alegria nunca antes experimentada; sentem seu coração atraído para aquele Menino pequenino. Aquela palha, aquela pobreza, aqueles vagidos de seu pequeno Salvador, ah! Que setas de amor para seus corações, que chamas felizes de amor neles se acendem! O Menino acolhe-os com sorriso amável, demonstrando assim o afeto com que os aceita entre as primeiras presas da sua Redenção.

Os santos Reis olham depois para Maria, que queda silenciosa, mas com semblante no qual reluz uma doçura celeste, acolhe-os e agradece-lhes o terem vindo os primeiros a reconhecer-lhe o Filho por seu soberano Senhor. Eis que os santos varões, silenciosos pelo respeito, adoram o Filho da Virgem e reconhecem-No como Deus, beijando-Lhe os pés e oferecendo-Lhe os seus presentes; ouro, incenso e mirra. Em união com os santos Magos, adoremos o nosso pequenino Rei Jesus e ofereçamos-Lhe todo o nosso coração.

II. Ó amável Menino Jesus, ainda que Vos veja nessa gruta, deitado sobre a palha, tão pobre e tão desprezado, a fé ensina-me que sois meu Deus, descido do céu para a minha salvação. Reconheço-Vos por meu soberano Senhor e meu Salvador, mas nada tenho para Vos oferecer. Não tenho ouro de amor, porque amei as criaturas e os meus caprichos, e não Vos amei a Vós que sois infinitamente amável. Não tenho incenso de oração, porque até hoje vivi miseravelmente esquecido de Vós. Não tenho mirra de mortificação, porquanto tantas vezes tenho desgostado a vossa infinita bondade. — Que poderei eu oferecer-Vos? Ofereço-Vos este meu coração, imundo e pobre como é; aceitai-o e transformai-o. Viestes sobre a terra exatamente para, com o vosso sangue, purificar os corações humanos do pecado e assim transformá-los de pecadores em santos. Dai-me Vós mesmo o ouro, o incenso e a mirra que desejais. Dai-me o ouro de vosso santo amor; dai-me o espírito da santa oração; dai-me o desejo e a força para me mortificar em todas as coisas que Vos possam desagradar. Estou resolvido a obedecer-Vos e a amar-Vos; mas Vós conheceis a minha fraqueza, dai-me a graça de Vos permanecer fiel.

Ó Virgem Santíssima, Vós acolhestes com tamanha benignidade e consolastes os santos Magos, acolhei-me e consolai-me também, agora que venho adorar vosso Filho e consagrar-me inteiramente a Ele. Minha Mãe, tenho confiança absoluta em vossa intercessão. Recomendai-me a Jesus. Em vossas mãos deposito a minha alma e a minha vontade; ligai-a para sempre ao amor de Jesus.

“E Vós, ó meu Deus, que por meio de uma estrela manifestastes no dia presente vosso Unigênito aos gentios: concedei propício, que visto já Vos conhecermos pela fé, cheguemos também a contemplar a beleza de vossa majestade. Fazei-o pelo amor desse mesmo Jesus Cristo, vosso Filho.” (2)

Referências:
(1) Mt 2, 11
(2) Or. Festi.

 07 de Janeiro

Jesus chora

Et lacrymatus est Iesus – “E Jesus chorou” (Jo 11, 35)

Sumário. O Menino Jesus chorava por duas razões. Em primeiro lugar chorava de compaixão para com os homens, que eram réus de morte eterna, e oferecia as suas lágrimas ao Eterno Pai, a fim de obter para eles o perdão. Chorava em segundo lugar de dor, vendo que, mesmo depois da Redenção tão grande número de pecadores continuariam a desprezar sua graça. Ah! Não agravemos mais as penas desse amabilíssimo Coração e consolemo-Lo, misturando as nossas lágrimas com as suas.

I. As lágrimas do Menino Jesus foram muito diferentes das que as outras crianças derramam quando nascem. Estas choram de dor, diz São Bernardo, mas Jesus não chora de dor, mas sim de compaixão para conosco, e de amor: Illi ex passione lugent, Christus ex compassione. Chorar alguém é sinal de grande amor. Por esta razão os Judeus, ao verem o Salvador chorar a morte de Lázaro, diziam: “Vede como o amava” — Ecce quomodo amabat eum (1). Da mesma forma os anjos, vendo as lágrimas de Jesus Menino, podiam dizer: Vede como nosso Deus ama os homens, pois por amor deles vemo-lo feito homem, feito criança, vemo-lo chorar.

Jesus chorava e oferecia as suas lágrimas ao Pai Eterno, para obter para nós o perdão dos nossos pecados. Aquelas lágrimas lavaram os meus crimes, dizia Santo Ambrósio, — Lacrymae illae mea delicta lavarunt. Com seus vagidos e gemidos Jesus suplicava misericórdia por nós, que estávamos condenados à morte eterna, e aplacava a indignação de seu Pai. Quanto interecederam a nosso favor as lágrimas do divino Menino! Como aceitas foram de Deus! Foi então que Deus Pai mandou anunciar pelos anjos que já queria fazer a paz com os homens e recebê-los em sua graça. Et in terra pax hominibus bonae voluntatis (2) — “Na terra paz aos homens de boa vontade”.

Jesus chora de amor; mas chora também de dor à vista de tão grande número de pecadores que, apesar de tantas lágrimas e de tanto sangue derramado para a salvação deles, não deixariam de desprezar a sua graça. Quem será tão cruel que, vendo um Deus Menino chorar as nossas culpas, não chore também e não deteste os pecados que tanto têm feito chorar o nosso amantíssimo Senhor? Ah! Não agravemos mais os padecimentos deste inocente Menino, mas consolemo-Lo misturando as nossas lágrimas com as suas. Ofereçamos a Deus as lágrimas de seu Filho, e roguemos-Lhe que pelos merecimentos delas nos perdoe.

II. Ó meu amado Menino Jesus, quando estáveis chorando na gruta de Belém, pensáveis em mim, porquanto o que Vos fazia chorar era a previsão dos meus pecados. É verdade, pois, ó meu Jesus, que, em vez de Vos consolar com o meu amor e a minha gratidão ao ver quanto tendes padecido pela minha salvação, agravei a vossa dor e a causa das vossas lágrimas. Se eu tivesse cometido menos pecados, teríeis chorado menos. Chorai ó Jesus, chorai; reconheço que tendes motivo para chorara prevendo a grande ingratidão dos homens, depois do tão grande amor vosso. Mas, já que chorais, chorai também por mim; as vossas lágrimas são a minha esperança. Eu também choro os desgostos que Vos tenho dado, ó Redentor meu; abomino-os, detesto-os e deles me arrependo de todo o meu coração.

Deploro todos os dias e todas as noites infelizes que passei em vossa inimizade e privado da vossa graça; porém, ó meu Jesus, para que serviriam as minhas lágrimas sem as vossas?

Pai Eterno, ofereço-Vos as lágrimas de Jesus Menino; perdoai-me por amor delas. E Vós, ó meu amado Salvador, oferecei a vosso Pai todas as lágrimas que em vossa vida derramastes por mim, e fazei com que me seja propício. Peço-Vos também, Amor meu, que eterneçais com as vossas lágrimas o meu coração e o abraseis no vosso santo amor. Quem me dera que de hoje em diante Vos consolasse tanto com o meu amor, quanto Vos fiz sofrer com os meus pecados! Concedei-me, ó Senhor, que os dias de vida que ainda me restam, não sirvam mais para Vos dar novos desgostos, senão parar chorar todos os que Vos tenho dado e para amar-Vos com todo o afeto da minha alma.

— Ó Maria, rogo-vos pela terna compaixão que sentistes ao ver o Menino Jesus chorando, que me impetreis uma dor contínua das ofensas que eu ingrato tenho feito.

Referências:
(1) Jo 11, 36
(2) Lc 2, 14

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OBS: Caso hoje seja sábado, faça a meditação "Sábado da oitava da Epifania: Solicitude maternal de Maria para com Jesus Cristo"

 08 de Janeiro

Da vida humilde e desprezada que Jesus levou desde a meninice

Et hoc vobis signum: invenietis infantem, pannis involutum, et positum in praesepio – “E este é o sinal que vô-lo fará conhecer: achareis um menino envolto em panos e posto em uma manjedoura” (Lc 2, 12)

Sumário. Todos os sinais que o Anjo deu aos pastores para acharem o Messias nascido foram sinais de humildade. O sinal pelo qual o reconhecereis, disse-lhes, é que achareis um menino, envolto em pobres paninhos, numa estrebaria, e deitado sobre a palha numa manjedoura de animais. Assim quis nascer o Rei do céu, porque veio para destruir o orgulho, a causa da perdição do homem. E apesar disso o homem continua orgulhoso e ambicioso.

I. Todos os sinais que o Anjo deu aos pastores para acharem o Salvador já nascido foram sinais de humildade. Et hoc vobis signum: invenietis infantem, pannis involutum et positum in praesepio. Eis o sinal para reconhecer o Messias nascido, disse o Anjo: achareis uma criança, envolta em pobres paninhos, numa estrebaria e deitada sobre a palha numa manjedoura de animais. Foi assim que quis nascer o Rei do céu, o Filho de Deus, porque vinha destruir o orgulho, que fora a causa da perdição do homem.

Os profetas já tinham predito que o nosso Redentor devia ser saciado de opróbrios e tratado como o homem mais vil do mundo. Quantos desprezos não teve Jesus de sofrer da parte dos homens! Foi qualificado de ébrio, de mágico, de blasfemo e de herege. E depois, quantas ignomínias sofreu na sua Paixão! Foi abandonado por seus próprios discípulos, dos quais um O vendeu por trinta dinheiros, outro negou tê-Lo jamais conhecido. Foi levado pelas ruas preso e amarrado como um malfeitor, açoitado como um escravo, qualificado de insensato e de rei de burla; foi esbofeteado, coberto de escarros, e finalmente fizeram-No morrer suspenso numa cruz, em meio de dois ladrões, como se fosse o mais celerado dos homens. Assim, diz São Bernardo, o mais nobre de todos foi tratado como se fosse o mais vil de todos. Acrescenta porém o Santo: Quanto mihi vilior, tanto mihi carior — Ó meu Jesus, quanto mais humilhado e desprezado Vos vejo, tanto mais amável Vos fazeis e amado.

II. Se quereis ser santo, esforçai-vos por imitar a vida humilde e desprezada de Jesus Cristo. Habituai-vos a antever de manhã tudo o que durante o dia possa contrariar o vosso amor próprio, e disponde-vos a sofrê-lo em paz por amor de Jesus Cristo, que tem sofrido coisas mais graves por vosso amor. Seria de grande proveito praticardes o excelente conselho que o P. Torres dava a seus penitentes:

“Rezai todos os dias um Pai-Nosso e uma Ave-Maria em louvor da vida desprezada de Jesus Cristo, e oferecei-vos a sofrer não somente em paz, senão também com alegria, por amor d’Ele, todos os desprezos e contrariedades que vos queira enviar, pedindo ao mesmo tempo o auxílio para Lhe serdes fiel”

Ó meu dulcíssimo Salvador, por meu amor abraçastes tantos desprezos, e eu não pude sofrer uma palavra injuriosa sem pensar logo em vingança! Eu que tantas vezes tenho merecido ser pisado aos pés dos demônios no inferno. Estou envergonhado de comparecer à vossa presença, pecador e orgulhoso como sou. Senhor, não me repilais da vossa presença, como tanto merecia. Dissestes que não desprezais um coração contrito e humilhado. Arrependo-me de todos os desgostos que Vos tenho causado. Perdoai-me, ó meu Jesus; não Vos quero mais ofender. Vós por meu amor sofrestes tantas injúrias, por amor de Vós quero também sofrer todas as injúrias que me serão feitas. Amo-Vos, ó meu Jesus, desprezado por minha causa, amo-Vos, meu Bem, acima de todo outro Bem. Ajudai-me a amar-Vos sempre e a sofrer todas as afrontas por vosso amor.

— Ó Maria, recomendai-me a vosso Filho, rogai a Jesus por mim.

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OBS: Caso hoje seja sábado, faça a meditação "Sábado da oitava da Epifania: Solicitude maternal de Maria para com Jesus Cristo"

 09 de Janeiro

Misericórdia de Deus em baixar do céu para nos salvar com a sua morte

Benignitas et humanitas apparuit Salvatoris nostri Dei – “Apareceu a benignidade e o amor de Deus nosso Salvador” (Tt 3, 4)

Sumário. Antes da vinda de Jesus Cristo, manifestou-se o poder de Deus na criação do mundo, a sabedoria divina manifestou-se na sua conservação; a misericórdia, porém, manifestou-se particularmente, quando Jesus tomou a natureza humana a fim de salvar, pelos seus padecimentos e morte, os homens perdidos. Com efeito, de que misericórdia maior podia o Filho de Deus usar para conosco do que tomando sobre si os castigos por nós merecidos? E, apesar disso, quantos pecadores há que não voltam a Deus por desconfiança da sua bondade!

I. Quando o Filho de Deus apareceu sobre a terra, viu-se quão grande é a bondade de Deus para conosco. Escreve São Bernardo, que primeiro se manifestou o poder de Deus em criar o mundo, a sua sabedoria em conservá-lo; mas a sua misericórdia manifestou-se, particularmente, quando o Filho de Deus tomou a natureza humana, a fim de salvar, pelos seus padecimentos e morte, os homens perdidos. Com efeito, que maior misericórdia podia o Filho de Deus mostrar-nos do que tomando sobre si os castigos por nós merecidos? Ei-lo nascido como criança, fraco e envolto em panos, deitado numa manjedoura, como que impossibilitado de mover-se e alimentar-se. É mister que Maria lhe dê um pouco de leite para lhe sustentar a vida. Vede-o depois no pretório de Pilatos, onde é preso a uma coluna com cordas, de que não podia livrar-se e açoitado da cabeça aos pés. Vede-o no caminho ao Calvário, onde pela extrema fraqueza e pelo peso da cruz que carrega, cai repetidas vezes por terra. Vede-o, finalmente, pregado no infame lenho, sobre o qual termina a vida à força de sofrimentos.

Pelo amor que nos teve, Jesus Cristo quer ganhar todo o amor dos nossos corações. Por isso, não quer enviar um anjo para nos remir, senão quer vir Ele mesmo para nos salvar com a sua Paixão. Se um anjo houvera sido nosso Redentor, o homem deveria dividir o seu coração, amando a Deus como seu Criador, e ao anjo como seu Redentor. Mas Deus, que quis possuir o coração do homem todo inteiro, assim como já era Criador do homem, quis também ser seu Redentor.

II. Ó meu amado Redentor! Onde estaria eu neste momento, se não me tivésseis suportado com tamanha paciência, e se me tivésseis deixado morrer quando me achava em estado de pecado? Já que me esperastes até agora, ó meu Jesus, perdoai-me, antes que me surpreenda a morte, réu qual sou de tantas ofensas que Vos tenho feito. Ah! Meu Deus, ai de mim, se para o futuro não Vos fosse fiel e, depois de tantas luzes recebidas, tornasse a trair-Vos! Estas luzes são o penhor de que quereis perdoar-me. Pesa-me, ó meu Bem supremo, de Vos ter injuriado tantas vezes e de Vos ter ofendido, a Vós que sois a bondade infinita. Confio em vosso Sangue para obter o perdão, e espero com segurança obtê-lo. Mas se tornasse a virar-Vos as costas, mereceria um inferno feito especialmente para mim.

Todavia é isto o que me faz temer, ó Deus de minha alma. Posso tornar a perder a vossa graça. Sei que repetidas vezes Vos tenho prometido fidelidade, e cada vez me revoltei novamente contra Vós. Ah! Senhor, não o permitais, não me deixeis cair na grande desgraça de me fazer outra vez vosso inimigo. Enviai-me qualquer castigo que quiserdes, mas não este: “Não permitais que me afaste de Vós” — Ne permittas me separari a te. Se virdes que jamais tenha ainda de ofender-Vos, deixai-me antes morrer. De boa vontade aceito a morte mais dolorosa, antes que ter de lamentar a miséria de mais uma vez me ver privado de vossa graça. Ne permittas me separari a te — “Não permitais que me afaste de Vós”. Repito-o, ó meu Deus, e fazei que o repita sempre: Não permitais que me afaste de Vós. Amo-Vos, ó meu amado Redentor; não quero mais separar-me de Vós. Pelos merecimentos da vossa morte, dai-me um grande amor, que me una tão fortemente a Vós, que eu não possa mais separar-me do vosso Coração.

— Ó Maria, minha Mãe, se eu tornar ainda a ofender meu Deus, temo que vós também me hajais de abandonar. Ajudai-me, pois, com as vossas orações; alcançai-me a santa perseverança e o amor de Jesus Cristo.

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OBS: Caso hoje seja sábado, faça a meditação "Sábado da oitava da Epifania: Solicitude maternal de Maria para com Jesus Cristo"

 10 de Janeiro

Vida pobre que Jesus começou a levar desde o seu nascimento

Propter vos egenus factus est, cum esset dives, ut illius inopia vos divites essetis – “Sendo rico, se fez pobre por vosso amor, a fim de que vós fosseis ricos pela sua pobreza” (2 Cor 8, 9)

Sumário. Se Jesus tivesse nascido em Nazaré, teria nascido pobre, sim; mas ao menos num quarto asseado e sem umidade, com um pouco de lume, paninhos aquecidos e um bercinho mais cômodo. Mas não; Jesus quis nascer naquela gruta fria e sem lume; quis que uma manjedoura lhe servisse de berço e um pouco de palha Lhe fosse colchão, a fim de padecer mais e ensinar-nos a santa pobreza. Aproveitemo-nos da lição e lembremo-nos de que, quem ama as comodidades, nunca será santo.

I. Deus dispôs que no tempo em que seu Filho devia nascer na terra, fosse lançada a ordem do imperador, que cada um fosse alistar-se na cidade da sua origem. E assim aconteceu que, de conformidade com o édito de César, São José tivesse de ir, com a sua santa Esposa, a Belém para ser alistado. Chegou então a hora do parto de Maria, que, por não achar acolhida em nenhuma outra casa, nem mesmo na hospedaria comum dos pobres, viu-se obrigada a passar a noite em uma gruta, e ali deu à luz o Rei do céu. Se Jesus tivesse nascido em Nazaré, teria nascido pobre, sim; mas ao menos teria tido um quarto asseado e sem umidade, um pouco de lume, paninhos aquecidos e um bercinho mais cômodo. Quis, porém, nascer naquela gruta fria e sem lume; quis que uma manjedoura lhe servisse de berço e um pouco de palha dura lhe fosse colchão.

Entremos na lapinha de Belém, mas entremos com fé. Se entrarmos sem fé, acharemos apenas uma criança pobre, que excita a nossa compaixão pela sua formosura amável, que está tiritando e chorando por causa do frio e da palha pungente. Se, ao contrário, entrarmos com fé e pensarmos que aquele Menino é o Filho de Deus, que por nosso amor veio à terra e sofre tanto para satisfazer pelos nossos pecados, como poderemos deixar de Lhe agradecer e de O amar?

II. Ó meu dulcíssimo Menino Jesus, como é possível, que, sabendo o que por meu amor padecestes, Vos tenha sido tão ingrato e causado tão graves desgostos? As lágrimas que derramastes e a pobreza que por meu amor escolhestes, me fazem esperar o perdão das injúrias que Vos tenho feito. Pesa-me, ó Jesus meu, de Vos ter virado as costas tantas vezes e amo-Vos sobre todas as coisas. Deus meus et omnia — “Meu Deus e meu tudo”. Meu Jesus, se em outros tempos meu coração se afeiçoou aos bens da terra, de hoje em diante Vós sereis o meu único tesouro. Ó Deus de minha alma, Vós sois um bem infinitamente mais estimável que qualquer outro bem. Vós sois digno de um amor infinito: amo-Vos e estimo-Vos mais do que todas as outras coisas, mais do que a mim mesmo. Vós sois o único objeto de todo o meu amor. Não desejo mais nada deste mundo; mas se pudesse ter um desejo, seria o de possuir todos os tesouros e todos os reinos da terra, a fim de me abdicar e me privar deles por vosso amor.

Vinde, ó meu Amor, vinde destruir em mim todos os afetos que não são para Vós. Fazei para o futuro que não olhe senão para Vós, não pense senão em Vós, não suspire senão por Vós. Tomara eu que o amor, que Vos levou a fazer-Vos criança e a morrer por mim, me faça morrer a todas as minhas inclinações, para não amar senão a vossa bondade infinita e para não desejar senão a vossa graça e o vosso amor. Meu amado Redentor, quando serei todo vosso, assim como Vós sois todo meu se eu o quero? Eu nem sequer sei como me dar convenientemente a Vós; por piedade, apoderai-Vos de mim, e fazei que eu viva tão somente para agradar-Vos. Espero tudo pelos merecimentos de vosso sangue, ó Jesus, e da vossa intercessão, ó minha querida Mãe Maria.

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OBS: Caso hoje seja sábado, faça a meditação "Sábado da oitava da Epifania: Solicitude maternal de Maria para com Jesus Cristo"

 Sábado da oitava da Epifania (após 06/01)

Solicitude maternal de Maria para com Jesus Cristo

Numquid oblivisci potest mulier infantem suum, ut non misereatur filio uteri sui? – “Pode acaso uma mulher esquecer-se de seu filhinho, de sorte que não tenha compaixão do filho de suas entranhas?” (Is 49, 15)

Sumário. Se em geral são indizíveis as solicitudes de uma mãe para com seus filhos, o que dizer das que a Santíssima Virgem teve para com Jesus Cristo, seu Filho e juntamente seu Criador? Se quisermos imitar a divina Mãe, nós também podemos ter as mesmas solicitudes para com nosso Senhor, não somente na pessoa do próximo que o represente, senão para com Ele mesmo, visto que está realmente presente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Visitemo-Lo amiudadas vezes e recebamo-Lo em nossos corações.

I. Se em geral são indizíveis as solicitudes de uma mãe qualquer para com seu filho, o que dizer então das que Maria teve para com o Menino Jesus, visto que em seu coração se uniu o amor natural mais perfeito ao supremo amor sobrenatural? Tanto que viu Jesus nascido na gruta de Belém, abraçou-O com ternura maternal, tomou-O nos braços, cobriu-O de beijos, e, segundo a revelação feita a Santa Brígida, procurou aquece-Lo com o calor do seu rosto e do seu peito. Em seguida, como refere São Lucas, envolveu-O em paninhos (1). Ó Deus, que grande estima devia a Santa Virgem conceber da pobreza, da humildade, da obediência, ao contemplar o Filho de Deus que estendia as suas mãozinhas para se deixar enfaixar!

Depois de O ter enfaixado, a divina Mãe chega o santo Menino a seu peito virginal para O alimentar com o seu leite. Enquanto assim O alimentava, repetia consigo, cheia de assombro: Ó caridade, ó amor incompreensível de um Deus para com os homens! — Que terão dito os anjos do paraíso vendo o Filho do Pai Eterno feito por nosso amor tão débil, que precisa de um pouco de leite para conservar a vida?

A pobre Virgem não possui penas nem lã a fim de preparar uma caminha para seu Filho. Por isso ajunta um pouco de palha numa manjedoura, onde O deitou. Apesar da dureza da cama e do rigor do frio, Jesus adormece no meio de tantas incomodidades, porque a necessidade vence a natureza. Mas nem por isso Maria descansa. Prostra-se diante daquele rude berço, contempla o rosto do divino Menino, adora-O, e não deixa de fazer continuamente atos de amor a seu Filho. — Unamos o nosso amor e as nossas adorações com o amor e as adorações do coração de Maria. Se nos tempos passados imitáramos o cruel Herodes, perseguindo até à morte o divino Filho e afligindo sua santíssima Mãe, peçamos humildemente a ambos que nos queiram perdoar.

II. As solicitudes maternais de Maria não se limitaram à infância de Jesus; continuaram, ou antes, iam aumentando na sua adolescência e idade viril. Com efeito, quanta aflição, quanta fadiga não sofreu a pobre Mãe durante a longa demora de Jesus no Egito, na volta para a Galiléia, na perda do Filho no templo, e durante os três anos do seu apostolado!

Considerando essas solicitudes maternais, sentis o vosso coração abrasado de amor a Jesus; experimentais uma santa inveja a São José, que foi o companheiro fiel da divina Mãe, e dizeis convosco: Oxalá tivesse a ventura de servir a meu bom Redentor! Consolai-vos; podeis ter a ventura de servir a Jesus, praticando a caridade para com o próximo, porquanto Jesus Cristo disse: Quandiu fecistis uni ex his fratribus meis minimis, mihi fecistis (2) — “Tudo que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes”. — Além disso, a fé ensina-vos que Jesus Cristo mora pessoalmente em nossas igrejas, dentro do Sacrário. Mostrai-vos, pois, solícitos para com o Santíssimo Sacramento, ornando os altares, visitando-O amiudadas vezes, propagando tão bela devoção e, sobretudo, recebendo-O dentro de vosso peito com digna preparação e ação de graças. Para este fim, cada vez que receberdes a santa Comunhão, e muito mais, se sois sacerdote, quando subirdes ao altar para celebrar a santa Missa, imaginai que a divina Mãe vos diz o que certo dia o Bem-aventurado João de Ávila disse a uma pessoa pouco devota: Por piedade, tratai melhor a Jesus Cristo, porque é filho de um bom Pai.

Ó Maria, agradeço-vos, tanto em meu nome como no de todo o gênero humano, toda a solicitude que tivestes para com o nosso divino Redentor Jesus e proponho seguir sempre os vossos santos exemplos. Pelo amor do mesmo Jesus Cristo, concedei-me a graça de vos ser fiel.

Referências:
(1) Lc 2, 7
(2) Mt 25, 40

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OBS: Se entre a Epifania (06/01) e este sábado houver um dia sem meditação própria, tome-se a do dia entre 02 e 05 de Janeiro no qual se celebrou a festa do Santíssimo Nome de Jesus.