O “ORA ET LABORA” (REZA E TRABALHA) PREGADO POR SÃO BENTO SE APLICA À VIDA DO LEIGO CATÓLICO DE FORMA GERAL?

Neste mês celebramos um dos santos mais conhecidos e venerados pelo mundo católico, São Bento de Núrsia, fundador dos beneditinos. Graças ao trabalho missionário de seus filhos espirituais, muitos povos bárbaros se converteram, sendo em boa medida responsável pela evangelização da Europa. Razão pela qual São Bento recebeu o título de “Padroeiro da Europa”. Após as invasões bárbaras, que levaram ao fim do Império Romano, os beneditinos tiveram um papel importante na civilização do velho continente.

O lema de São Bento “ora et labora” (reza e trabalha) se tornou uma via de santificação para todo o ramo beneditino. Nesse sentido, cabe perguntar se esse modelo de vida também é ideal ao simples fiel, ao leigo que não vive dentro de um mosteiro, mas busca viver o Evangelho em família, no trabalho, enfim, exposto às intempéries do mundo.

O lema “ora et labora” nos fala de duas realidades bem presentes na vida de um religioso: contemplação e ação. A vida espiritual de um monge ou uma freira necessariamente tem que estar alicerçada nessas duas pilastras, do contrário, tem-se um religioso incompleto. O mesmo se dá na vida de um leigo, pois mesmo vivendo no mundo, mesmo tendo a sua vida cheia de afazeres práticos (uma vida até bem agitada), ele não pode se descuidar de sua vida interior, da oração, leitura espiritual, frequência aos sacramentos, participação da Santa Missa, etc.

Dom Jean Baptiste Chautard, abade de Sept-fons, escreveu uma obra intitulada “A Alma de todo apostolado”. Grande autoridade em matéria de vida contemplativa, o autor aponta para o risco de um religioso, em meio aos seus afazeres práticos, descuidar da vida interior, abraçando um erro que ele denomina como “heresia das obras”. Ou seja, por não equilibrar bem a vida contemplativa e ativa, o religioso se afasta pouco a pouco da vida interior.

E como Dom Chautard define o que é vida interior? “Vida cristã, piedade, vida interior, santidade não diferem essencialmente; são os diversos graus de um só e mesmo amor; são o crepúsculo, a aurora, a luz, o esplendor de um mesmo sol. A minha vida interior há de ser pois a minha vida cristã aperfeiçoada. O essencial da vida cristã limita-se aos esforços necessários para conservar a graça santificante. A vida interior vai mais além. Visa o desenvolvimento desta graça, procura atrair graças atuais abundantes e corresponder a elas. Posso, pois, defini-la como o estado de atividade de uma alma que reage a fim de regular as suas inclinações naturais e se esforça por adquirir o hábito de julgar e de se dirigir em tudo consoante às luzes do Evangelho e os exemplos de Nosso Senhor.”

Em outro trecho, ele exprime como o fiel deve enxergar essas duas realidades que devem acompanhar a vida cristão, ação + vida interior: “O homem de fé aprecia as obras de um ponto de vista inteiramente diverso daquele que vive exteriormente. Vê nelas não tanto o aspecto aparente, como o papel que desempenham no plano divino e nos resultados sobrenaturais”.

Portanto, nossas vidas devem estar, sim, permeadas de oração e trabalho. Assim como um religioso que deixa o seu mosteiro para viver um determinado período em missão não pode se descuidar da vida contemplativa, sob pena de apostatar, assim também um leigo não deve descuidar da sua vida interior, sob pena de prevaricar e abandonar a prática cristã.

Marcos A. Fiorito

Teólogo e historiador

(Autoriza-se reprodução do artigo com citação da fonte e autor.)

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