Apresentação

“Toda Santidade consiste em amar a Deus e todo o amor a Deus consiste em fazer a sua vontade”

Apresentamos aqui a coleção de meditações católicas diárias escritas por Santo Afonso de Ligório. Obra esta compilada em 3 Tomos e que compreendem todos os dias e festas do ano, todas tiradas de suas mais de 120 obras publicadas. Para facilitar e organizar todo o conteúdo, colocaremos as meditações separadas por tempo, assim, tornar-se-á mais fácil de encontrar um artigo desta preciosa obra deste grande Santo da nossa Santa Igreja dentro do Pocket Terço.

Essas meditações são para o Tempo da Páscoa, desde o Primeiro Domingo da Páscoa (Domingo da Ressurreição), passando pela Novena de Pentecostes (em Honra ao Divino Espírito Santo) até o Domingo de Pentecostes.

Recomendamos que faça essas meditações seguindo a Meditação Dirigida disponível aqui no aplicativo. Quando chegar no momento de realizar a leitura meditada, volte aqui para ler.

Fonte:
LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921.

(rumoasantidade.com.br/meditacoes-santo-afonso)
1ª parte

 Primeira Semana da Páscoa

Domingo: A ressurreição de Jesus Cristo e a esperança do Cristão

Segunda-feira: A ressurreição dos corpos no Juízo universal

Terça-feira: No céu goza-se uma felicidade perfeita

Quarta-feira: Necessidade da perseverança

Quinta-feira: Da Comunhão Sacrílega

Sexta-feira; Conformidade com a vontade de Deus a exemplo de Jesus Cristo

Sábado: Aparição de Jesus ressuscitado a sua Mãe Maria Santíssima

 Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor

A ressurreição de Jesus Cristo e a esperança do Cristão

Haec dies quam fecit Dominus: exultemus et laetemur in ea – “Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Sl 117, 24)

Sumário. Façamos um ato de fé viva na ressurreição de Jesus Cristo; cheguemo-nos a Ele em espírito para Lhe beijar as chagas glorificadas, e regozijemo-nos com Ele por ter saído do sepulcro vencedor da morte e do inferno. Lembrando-nos em seguida que a ressurreição de Jesus é o penhor e a norma da nossa, avivemos nossa esperança, e ganhemos ânimo para suportar com paciência as tribulações da vida presente. Lembremo-nos, porém, que para ressuscitarmos gloriosamente com Jesus Cristo devemos primeiro morrer com Ele a todos os afetos terrestres.

I. O grande mistério que em todo o tempo pascal, e especialmente no dia de hoje, deve ocupar as almas amantes de Deus, e enchê-las de dulcíssima esperança, é a felicidade de Jesus ressuscitado. Já meditamos que Jesus, no tempo de sua Paixão, perdeu inteiramente as quatro espécies de bens que o homem pode possuir na terra. Perdeu os vestidos até a extrema nudez; perdeu a reputação pelos desprezos mais abomináveis; perdeu a florescente saúde pelos maus tratos; perdeu finalmente a vida preciosíssima pela morte mais horrível que se pode imaginar. Agora porém, saindo vivo do fundo do sepulcro, recebe com lucro abundantíssimo tudo quanto perdeu.

O que era pobre, ei-Lo feito riquíssimo e Senhor de toda a terra. O que a si próprio se chamava verme e opróbrio dos homens, ei-Lo coroado de glória, assentado à direita do Pai. O que pouco antes era o Homem das dores e provado nos sofrimentos, ei-Lo dotado de nova força e de uma vida imortal e impassível. Finalmente o que tinha sido morto do modo mais horrível, ei-Lo ressuscitado pela sua própria virtude, dotado de sutileza, de agilidade, de clareza, feito as primícias de todos os que dormem com a esperança de ressuscitarem também um dia à imitação de Cristo: Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium (1)

Detenhamos-nos aqui para tributar a nosso Chefe divino as devidas homenagens. Façamos um ato de fé viva na sua ressurreição, e cheguemo-nos a Ele para beijarmos em espírito os sinais de suas cinco chagas glorificadas. Alegremo-nos com Ele, por ter saído do sepulcro, vencedor da morte e do inferno, e digamos com todos os santos: “O Cordeiro que foi imolado por nós, é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção.” (2)

II. Regozijemo-nos com Jesus Cristo; mas regozijemo-nos também por nós mesmos, porquanto a sua ressurreição é o penhor e a norma da nossa, se ao menos, como diz São Paulo, morrermos primeiro interiormente ao afeto das coisas terrestres: Si commortui sumus, et convivemus (3) — “Se morrermos com Ele, com Ele também viveremos”. Ó doce esperança! “Virá a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus” (4); e então pelo poder divino retomaremos o mesmo corpo que agora temos, mas formoso e resplandecente como o sol. Nós também ressuscitaremos!

A esperança da futura ressurreição é o que consolava o santo Jó no tempo de sua provação. “Eu sei”, disse ele, e nós, digamos o mesmo no meio das cruzes e tribulações da vida presente: “eu sei que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia surgirei da terra; e serei novamente revestido de minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus… esta minha esperança está depositada no meu peito.” (5)

Meu amabilíssimo Jesus, graças Vos dou que pela vossa morte adquiristes para mim o direito à posse de tão grande bem, e hoje pela vossa ressurreição avivais a minha esperança. Sim, espero ressurgir no último dia, glorioso como Vós, não tanto por meu próprio interesse, como para estar para sempre unido convosco, e louvar-Vos e amar-Vos eternamente. É verdade que pelo passado Vos ofendi com os meus pecados; mas agora arrependo-me de todo o coração e pela vossa ressurreição peço-Vos que me livrais do perigo de recair na vossa desgraça: Per sanctam resurrectionem tuam, libera me, Domine — “Pela vossa santa ressurreição, livrai-me, Senhor”.

“E Vós, Eterno Pai, que no dia presente nos abristes a entrada da eternidade bem-aventurada, pelo triunfo que vosso Unigênito alcançou sobre a morte: aumentai com o Vosso auxílio os desejos que a vossa inspiração nos instila” (6). Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e de Maria Santíssima.

Referências:

(1) 1Cor 15, 20
(2) Ap 5, 12
(3) 2Tm 2, 11
(4) Jo 5, 28
(5) Jó 19, 25
(6) Or.festi curr.

 Segunda-feira na Oitava da Páscoa

A ressurreição dos corpos no Juízo universal

Haec dies quam fecit Dominus: exultemus et laetemur in ea – “Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Sl 117, 24)

Sumário. É um ponto da nossa fé que todos nós ressurgiremos; porém não todos de maneira igual, mas cada um segundo a vida que tiver levado em terra. Felizes de nós, se agora nos aplicarmos à mortificação do nosso corpo, a fim de guardá-lo submisso ao espírito. Retomá-lo-emos ressurgido segundo a medida da idade plena de Cristo e dotado de dons perfeitíssimos. Excederá o sol em claridade, na agilidade os ventos, e em sutileza e impassibilidade será igual aos anjos.

I. Porque o último fim do homem é a beatitude e esta não se pode gozar na vida presente, o Senhor dispôs que se possa obter na outra, onde será eterna. O homem porém, no dizer de Santo Tomás, não seria plenamente feliz, se a alma não se unisse ao corpo, porquanto, sendo o corpo parte natural da natureza humana, a alma dele separada seria apenas uma parte do homem e não o homem inteiro. Por isso é que no derradeiro dia haverá a ressurreição universal: Canet tuba, et mortui resurgent — “A trombeta soará, e os mortos ressuscitarão”.

Ao som da trombeta as almas formosas dos bem-aventurados descerão do céu, para se unirem a seus corpos, com os quais serviram a Deus. Ressuscitarão, como diz São Paulo, em estado de homem perfeito, segundo a medida da idade plena de Cristo (1). Além de serem dotados de sentidos perfeitíssimos, os quais terão cada qual a sua recompensa particular, serão ornados de quatro qualidades ou dotes.

Em primeiro lugar, os corpos dos bem-aventurados serão impassíveis; por isso não somente estarão livres da morte e da corrupção, mas também de qualquer lesão, de sorte que, se fossem enviados ao inferno, nenhuma pena poderiam padecer. — Em segundo lugar serão sutis, isto é, como que espiritualizados, de forma que a alma governará o corpo à maneira de espírito, porque este lhe obedecerá perfeitamente. — Em terceiro lugar os corpos dos bem-aventurados serão ágeis, podendo ser movidos e levados pela alma para qualquer parte, sem obstáculo, com máxima e quase imperceptível ligeireza. — O quarto dote finalmente será a claridade, em virtude da qual o corpo glorificado despedirá de si uma luz admirável, muito mais brilhante do que a do sol, mas sem deslumbrar a vista. — Se, além disso, alguém tiver dado a vida por Jesus Cristo, ou conservado intacta a açucena da pureza, ou pela pregação tiver sido para outros mestres da salvação, receberá a auréola de Mártir, de Virgem ou de Doutor. — Feliz daquele que, mortificando-se na vida presente, for digno de receber um dia em seu corpo todos esses dons, que agora nem sabemos avaliar devidamente!

II. Ecce mysterium vobis dico: omnes quidem resurgemus, sed non omnes immutabimur (2) — “Eis que vos digo um mistério: todos nós ressuscitaremos, mas nem todos seremos mudados”. Palavras terríveis, mas verdadeiras! Porquanto, como Jesus Cristo mesmo disse, posto que todos os que estiverem nos sepulcros tenham de ressuscitar ao ouvir a voz do Filho de Deus, todavia haverá entre eles grande diferença. Os que obraram o bem, sairão para a ressurreição da vida; mas os que obraram o mal, sairão ressuscitados para a condenação (3).

Minha alma, é certo que naquele dia tu também ressuscitarás; mas qual será a tua sorte?… achar-te-ás no número dos escolhidos ou dos réprobos?… Se queres estar entre os primeiros, é mister, como diz o Apóstolo, que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós andemos em novidade de vida (4). Esta ressurreição espiritual se deve manifestar na reforma de nossa conduta. — Por isso o espírito deve ocupar-se só com o pensamento da eternidade; os olhos só se devem abrir para as coisas celestiais; as mãos só devem servir para praticar o bem, e os nossos afetos devem seguir alegremente o caminho dos mandamentos divinos. Numa palavra, como diz o mesmo Apóstolo: Si consurrexistis cum Christo, quae sursum sunt, quaerite… quae sursum sunt sapite, non quae super terram (5) — “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são lá do alto… tende gosto pelas coisas que são lá do alto, não pelas que estão na terra”.

Meu amabilíssimo Jesus, creio na ressurreição da carne no último dia, porque Vós revelastes; e porque a creio, bem como as demais verdades que a Igreja me propõe para crer, quisera dar por ela o meu sangue e a minha vida. Ah, Senhor, pela vossa santa ressurreição, dai-me a graça de mortificar aqui na terra o meu corpo; fazei que viva casto e longe de todos os prazeres proibidos, a fim de ter um dia parte na ressurreição gloriosa dos escolhidos. Amo-Vos, Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas, de todo o coração. Pesa-me de Vos haver ofendido. Não permitais que Vos torne a ofender; fazei que Vos ame sempre, e depois, disponde de mim segundo o vosso agrado. † Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

Referências:

(1) Ef 4, 13
(2) 1Cor 15, 51
(3) Jo 5, 29
(4) Rm 6, 4
(5) Cl 3, 1

 Terça-feira na Oitava da Páscoa

No céu goza-se uma felicidade perfeita

Satiabor cum apparuerit gloria tua – “Saciar-me-ei, quando aparecer a tua glória” (Sl 16, 15)

Sumário. Posto que no mundo se encontrem muitas coisas formosas, não são, todavia perfeitas, e sempre deixam alguma coisa para desejar. Se, porém, tivermos a ventura de entrar no céu, o nosso coração estará perfeitamente satisfeito nessa ditosa pátria. Ali nada haverá que possa desagradar, e haverá tudo aquilo que se possa desejar. Ah, meu Jesus! Peço-Vos o céu, não tanto para Vos gozar, como para Vos amar de todo o coração.

I. São Bernardo, falando do paraíso, diz: Ó homem, se queres saber o que seja a pátria bem-aventurada, fica sabendo que ali nada há que desagrade, e que se encontra tudo aquilo que se possa desejar; Nihil est quod nolis; totum est quod velis. — Se bem que nesta terra haja alguma coisa que agrada aos nossos sentidos, quantas coisas não há que afligem? Se agrada a luz do dia, aflige a escuridão da noite. Se agradam a amenidade da primavera, a abundância do outono, afligem o frio do inverno e o calor do verão. Acrescentai a isso os sofrimentos na enfermidade, as perseguições da parte dos homens, as privações da pobreza. Acrescentai as angústias interiores, os temores, as tentações dos demônios, as dúvidas da consciência, a incerteza da salvação.

Mas quando os bem-aventurados entram no céu, não terão mais nada a sofrer: Absterget Deus omnem lacrimam ab oculis eorum (1). Deus enxugará de seus olhos todas as lágrimas derramadas sobre a terra; e não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais haverá dor; porquanto as coisas d’outrora desapareceram. — No céu não há doença, nem pobreza, nem incômodos. Deixam de existir a alternação dos dias e das noites, do frio e do calor; é um dia perpétuo e sempre sereno, uma primavera contínua e sempre deliciosa. Ali não há perseguições, nem ciúmes; neste reino de amor, todos os habitantes se amam mútua e ternamente e cada qual goza da ventura dos outros, como se fosse a própria. Não há receios, porque a alma confirmada na graça já não pode pecar; nem perder a seu Deus.

Ó meu Jesus, pelo sangue que derramastes por mim, fazei-me digno de entrar um dia na pátria bem-aventurada. Não mereço o paraíso, mas o inferno, porque Vos hei ofendido tantas vezes pelos meus pecados; porém, a vossa morte me faz esperar de possuí-Lo um dia.

II. Totum est quod velis. No céu não somente nada há que desagrade, mas encontra-se tudo quanto se possa desejar. Ali tudo é novo e saciará os nossos desejos: Ecce nova facio omnia (2) — Eis que faço novas todas as coisas. Os olhos se deslumbrarão com a vida daquela cidade, cuja beleza é perfeita. Que maravilha não nos causaria a vista de uma cidade cujas ruas fossem calçadas de cristal, cujas casas fossem palácios de prata, ornados de cimalhas de ouro e de festões de flores! Oh, quanto mais bela ainda é a cidade celeste! Que delicioso não será ver todos os seus habitantes vestidos com pompa real, porque todos efetivamente são reis, como os chama Santo Agostinho: Quot cives, tot reges! Que será o ver a Maria, que aparecerá mais bela que todo o paraíso! Que será o ver o Cordeiro divino! Um dia Santa Teresa viu apenas uma mão de Cristo e ficou arrebatada em êxtase à vista de tão grande beleza.

Os perfumes suavíssimos e incomparáveis do paraíso regalarão o olfato. O ouvido será deleitado pelas harmonias celestes. Um anjo deixou um dia ouvir a São Francisco um único som da música celeste, e o Santo julgou morrer de contentamento. O que não será ouvir todos os santos e todos os anjos cantarem em coro os louvores de Deus? In saecula saeculorum laudabunt te (3) — “Eles te louvarão pelos séculos dos séculos”. O que não será ouvir Maria celebrar as glórias de Deus! A voz de Maria, diz São Francisco de Sales, é no céu o que é num bosque a do rouxinol, que vence a de todas as aves. Numa palavra, o paraíso é a reunião de todos os gozos que se podem desejar.

Ó meu Deus! Eu desejo e Vos peço o paraíso, não tanto para Vos gozar, como para Vos amar. Suplico-Vos, para glória de vossa misericórdia, fazei que os bem-aventurados vejam abrasado em vosso amor um pecador que tantas vezes Vos ofendeu. Tomo a resolução de ser d’aqui por diante todo vosso e de não pensar senão em Vos amar. — Assisti-me com a vossa luz e a vossa graça, que me dê força para executar esta resolução que Vós mesmo pela vossa bondade me inspirais. — Ó Maria, vós que sois a Mãe da perseverança, impetrai-me a fidelidade em minha promessa.

Referências:

(1) Ap 21, 4
(2) Ap 21, 5
(3) Sl 83, 5

 Quarta-feira na Oitava da Páscoa

Necessidade da perseverança

Qui autem perseveraverit usque in finem, hic salvus erit – “Quem perseverar até o fim, será salvo” (Mt 24, 13)

Sumário. Meu irmão, puseste agora mãos à obra; começaste a viver bem. Dá por isso graças ao Senhor. Lembra-te, porém, que ao que começa a recompensa é apenas prometida, mas é dada somente ao que persevera até ao fim. Quantos começarem bem, talvez melhor do que tu, mas depois acabaram mal e agora ardem no inferno! Para obteres a perseverança, deves em primeiro lugar pedi-la a Deus, e de teu lado deves empregar os meios mais apropriados.

I. São muitos os que começam, diz São Jerônimo, mas são poucos os que perseveram. Um Saul, um Judas, um Tertuliano começaram bem, mas acabaram mal, porque não perseveram no bem. Devemos saber, continua o mesmo Santo, que Deus não pede somente o começo de vida boa, mas quer também o fim: o fim é que alcançará a recompensa. — Diz São Boaventura que a coroa se dá somente à perseverança: Sola perseverantia coronatur. Pelo que São Lourenço Justiniani chama a perseverança porta do céu: coeli ianuam. Ora, não poderá entrar no paraíso quem não der com a porta.

Agora, meu irmão, abandonaste o pecado, e crês com razão ter recebido o perdão. És, pois, amigo de Deus; sabe todavia que não estás ainda salvo. E quando estarás salvo? Quando tiveres perseverado até ao fim: Que perseveraverit usque in finem, hic salvus erit. Começaste a viver bem: agradece-o ao Senhor; mas avisa-te São Bernardo que a recompensa celeste é somente prometida ao que principia, mas é somente dada ao que persevera. Não basta olhar só ao fim: é preciso ir após ele até alcançá-lo, segundo a expressão do Apóstolo: Sic currite, ut comprehendatis (1) — “Correi de tal modo que o alcanceis”.

Já meteste a mão ao arado, principiaste a viver bem; mas agora, mais do que nunca, teme e treme: “Empenhai-vos na obra de vossa salvação com temor e tremor” (2), diz o Apóstolo. E por quê? Porque se olhares para trás — o que não permita Deus! — e voltares para a vida de pecado, Deus te declarará excluído do céu: Nemo mittens manum ad aratrum et respiciens retro, aptus est regno Dei (3) — “Nenhum que mete a sua mão ao arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”.

II. A perseverança tão necessária para a salvação é um dom todo gratuito de Deus, que nós nunca podemos merecer. Mas, como ensina Santo Agostinho, obtê-la-ão da misericórdia divina todos os que lh’a pedem e por seu lado empregam os meios próprios para levar uma vida bem ordenada.

— Se queres perseverar e salvar-te, frequenta os santíssimos Sacramentos; faze todos os dias uma meditação e ouve uma santa missa; visita todos os dias a Jesus sacramentado e examina a tua consciência. Tem sobretudo grande devoção a Nossa Senhora, que se chama a Mãe da perseverança. Consagra-te também muitas vezes inteiramente ao Senhor, e dize-Lhe com ternura, especialmente de manhã, antes de te dares às ocupações:

† “Ó Deus eterno, eis-me aqui prostrado em presença de vossa infinita majestade, e adorando-Vos humildemente, consagro-Vos todos os meus pensamentos, palavras e obras deste dia, e tenho tensão de fazer tudo por vosso amor, para vossa glória, para cumprir a vossa divina vontade, para Vos servir, louvar, e bendizer, para ser iluminado acerca dos mistérios de nossa santa fé, para assegurar a minha salvação e esperar na vossa misericórdia, para satisfazer à vossa divina justiça pelos meus muitos e gravíssimos pecados, em sufrágio das almas santas do purgatório e para obter para todos os pecadores a graça de uma verdadeira conversão.

“Numa palavra, tenho a intenção de fazer tudo em união com as intenções puríssimas que em sua vida tiveram Jesus e Maria, todos os santos do céu e todos os justos da terra. Quisera que me fosse possível assinar esta minha intenção com o meu próprio sangue e repeti-la a cada instante tantas vezes, quantos são os instantes de toda a eternidade. Recebei, ó meu Deus amado, esta minha boa vontade; dai-me a vossa santa bênção com a graça eficaz de nunca cometer um pecado mortal em toda a minha vida, e particularmente neste dia, no qual desejo e tenciono ganhar todas as indulgências que possa ganhar, e assistir a todas as missas que hoje vão ser celebradas no mundo inteiro, aplicando-as todas em sufrágio das almas santas do purgatório, a fim de que sejam livradas daquelas penas. Assim seja.” (4)

Referências:

(1) 1Cor 9, 24
(2) Fl 2, 12
(3) Lc 9, 62
(4) Indulg. de 100 dias cada dia, e indulgência plenária para quem a recitar durante um mês inteiro, com tanto que se confesse, comungue e ore segundo as intenções do Sumo Pontífice.

 Quinta-feira na Oitava da Páscoa

Da Comunhão Sacrílega

Qui manducat et bibit indigne, iudicium sibi manducat et bibit, non diiudicans corpus Domini – “O que come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não fazendo discernimento do corpo do Senhor” (1Cor 11, 29)

Sumário. Antes de te aproximares da Mesa eucarística, examina sempre a tua consciência, e se por desgraça tiveres remorso de alguma falta grave, purifica a tua alma pela confissão sacramental. Quanto às culpas veniais, esforça-te por tirá-las de tua alma, ao menos as que forem deliberadas, e afasta de ti tudo o que não seja Deus. Ai daquele que comunga indignamente! Torna-se réu do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, e portanto come-O e bebe-O para a sua própria condenação.

I. Consideremos o enorme pecado que comete aquele que se atreve a chegar-se à sagrada mesa com pecado mortal na alma. Este pecado é tão enorme, que São João Crisóstomo, comparando-lhe todos os demais, não acha outro igual, e diz que quem o comete, especialmente sendo sacerdote, é muito pior do que o próprio demônio: Multo daemonio peior est qui, peccati conscius, accedit ad altare. São Pedro Damião explica a razão dizendo: “Se com os outros pecados ofendemos a Deus em suas criaturas, com este ofendemo-Lo em sua própria pessoa.”

Que dirias do perverso que tirando a sacrossanta Hóstia da Âmbula sagrada, a atirasse a um vil monturo? Pior do que isso, diz São Vicente Ferrer, faz aquele que tem a ousadia de comungar sacrilegamente; porque, de certo modo, atenta contra o corpo de Jesus Cristo, obriga esta vítima inocente a morar em seu coração cheio de corrupção, entrega o Cordeiro imaculado nas mãos dos demônios que o insultam da mais horrenda maneira.

Pelo que Santo Agostinho compara os sacrílegos aos pérfidos Judeus, que crucificaram o nosso Redentor. Com esta diferença, porém: que os Judeus crucificaram ao Senhor da glória enquanto era terrestre e mortal, e os sacrílegos crucificam-No agora que reina no céu; aqueles só uma vez se atreveram a crucificá-Lo, estes renovam o deicídio freqüentes vezes; aqueles se tinham declarado inimigos figadais de Cristo, estes traem-No ao mesmo tempo que, pelo menos exteriormente, O reconhecem por seu Deus, simulando reverência e devoção, e imitando a Judas, abusam do sinal de paz: Osculo Filium hominis tradis (1) — “Com um beijo entregas o Filho do homem”.

É disso que Jesus se queixa sobretudo, pela boca de Davi: Si inimicus meus maledixisset mihi, sustimissem utique (2). Se um inimigo, parece dizer Jesus Cristo, me tivesse ultrajado, eu o suportaria com menos pena; mas tu, meu íntimo, meu ministro e príncipe entre o povo; tu, a quem dei tantas vezes a minha carne para sustento: tu me vendes ao demônio por um capricho, por uma vil satisfação, por um punhado de terra?

II. Mas ai do sacrílego! Ai de quem tem a ousadia de tornar-se réu do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, chegando-se indignamente à Mesa sagrada! Falando o Senhor com Santa Brígida a respeito daqueles infelizes, repetiu-lhe as palavras proferidas com relação ao pérfido Judas: Bonum erat ei, si natus non fuisset homo ille (3) — Seria melhor para eles se nunca houvessem nascido. Sim, porque, como diz São Paulo: “Quem come este pão e bebe este cálice do Senhor indignamente, come-O e bebe-O para sua própria condenação: iudicium sibi manducat et bibit.”

Meu irmão, a fim de que não te suceda tamanha desgraça, segue o aviso do mesmo Apóstolo: Probet autem seipsum homo (4) — “Examine-se, pois, a si mesmo o homem”. Examina a tua conduta, e se a consciência te acusar de alguma grave culpa, purifica-a por meio de uma boa Confissão sacramental, antes de tomar o alimento da vida eterna. — Quanto às culpas veniais, deves tirar da alma ao menos as cometidas deliberadamente e expulsar do coração tudo que não é Deus. É o que, na interpretação de São Bernardo, significam as palavras que Jesus Cristo disse aos apóstolos, antes de lhes dar a comunhão na última ceia: Qui lotus est non indiget nisi ut pedes lavet (5) — “Aquele que está lavado, não tem necessidade de lavar senão os pés”.

Meu dulcíssimo Jesus, oh! Pudesse eu lavar com minhas lágrimas, e até com meu sangue, as almas infelizes em que o vosso amor é tão ultrajado no santíssimo Sacramento! Oh, pudesse fazer com que todos os homens se abrasem em vosso amor! Mas, se isto não me é concedido, desejo ao menos, Senhor, e proponho visitar-Vos muitas vezes e receber-Vos em meu coração, para Vos adorar, como de presente o faço, em reparação dos desprezos que recebeis dos homens neste diviníssimo mistério. Ó Pai Eterno, acolhei esta fraca homenagem que hoje Vos rende o mais miserável dos homens, em reparação das injúrias feitas a vosso divino Filho sacramentado; acolhei-a unida com a honra infinita que Jesus Cristo Vos deu sobre a Cruz e Vos dá ainda todos os dias no santíssimo Sacramento. E vós, minha Mãe Maria, obtende-me a santa perseverança.

Referências:

(1) Lc 22, 48
(2) Sl 54, 13
(3) Mt 26, 24
(4) 1Cor 11, 28
(5) Jo 13, 10

 Sexta-feira na Oitava da Páscoa

Conformidade com a vontade de Deus a exemplo de Jesus Cristo

Descendi de coelo, non ut faciam voluntatem meam, sed voluntatem eius qui misit me – “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38)

Sumário. É tão agradável a Deus o sacrifício da nossa própria vontade, que Jesus Cristo desceu sobre a terra para nos ensinar a maneira de o fazer e em toda a sua vida não fez outra coisa senão dar-nos disso as mais sublimes lições com as suas palavras e com os seus exemplos. Eis, portanto, o que devemos ter em mira em todas as nossas ações: conformar a nossa vontade com a divina, especialmente no que mais repugna ao amor próprio. Vale mais um Bendito seja Deus, dito nas adversidades, do que mil agradecimentos na prosperidade.

I. É certo que a nossa salvação consiste em amar a Deus, nosso supremo Bem; porque a alma que não O ama, já não vive, mas está morta (1). A perfeição, porém, do amor consiste em conformar a nossa vontade com a divina; pois que, como diz o Aeropagita, o efeito principal do amor é unir as vontades dos que se amam, de sorte que não tenham senão um só coração e uma só vontade.

É isto o que antes de mais nada com as suas palavras e com os seus exemplos veio ensinar-nos Jesus Cristo, que nos foi dado por Deus tanto para ser nosso Salvador como nosso modelo. Pelo que o Apóstolo escreve que as primeiras palavras de Jesus, ao entrar no mundo, foram estas: Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam (2) — “Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade”. Meu Deus, recusastes as hóstias e oblações dos homens; não Vos agradaram os holocaustos que Vos ofereciam pelos seus pecados. Quereis que Vos sacrifique morrendo este meu corpo, que Vós mesmo me haveis dado. Eis-me aqui, Senhor, estou pronto para fazer a vossa santíssima vontade.

No correr de sua vida, Jesus Cristo tem manifestado diversas vezes a sua submissão e conformidade de vontade, dizendo: Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, senão a d’Aquele que me enviou. Quis que conhecêssemos o grande amor a seu Pai pelo ver ir à morte por obediência à vontade d’Este. Por isso disse aos apóstolos: Para que conheça o mundo que amo ao Pai, e assim como me ordenou o Pai, assim faço: Levantai-vos; vamo-nos d´aqui (3).

Depois no horto de Getsêmani, parece que o Senhor, opresso pelo temor, pelo aborrecimento e pela tristeza, não sabe fazer outra oração senão esta: Meu Pai, não seja como eu quero, mas sim como Tu (4). Meu Pai, se não pode passar este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade (5). — Numa palavra, é tão grande a excelência da conformidade com a vontade de Deus, e Jesus Cristo exige tão rigorosamente que a pratiquemos, que protesta ter por seus discípulos somente aqueles que cumprem a vontade divina (6).

II. Se agrada tanto o Deus o sacrifício de nossa vontade, que enviou à terra seu próprio Filho para nos ensinar a maneira de a sacrificarmos, tinha razão o santo abade Nilo de dizer que nas nossas orações não devemos pedir a Deus que faça o que nós queremos, mas que nos dê a graça para bem fazermos o que Ele quer. — É a isso que se devem dirigir todos os nossos desejos, devoções, meditações e comunhões: o cumprimento da vontade divina, especialmente naquilo que repugna mais ao nosso amor próprio. Lembremo-nos sempre do que costumava dizer o Bem-aventurado João de Ávila: Um só Bendito seja Deus, nas adversidades, vale mais do que mil agradecimentos na prosperidade.

Toda a minha desgraça, ó meu Deus, foi não querer sujeitar-me no passado à vossa santa vontade. Detesto e amaldiçôo mil vezes esses dias e momentos em que, para seguir a minha vontade, me opus à vossa, ó Deus de minha alma. Eu Vô-la consagro agora sem reserva e quero unir esta minha oferta à que vosso divino Filho fez de si mesmo e continua a fazer sobre os nossos altares. Recebei-a, ó meu Senhor, e ligai-me de tal modo ao vosso amor, que nunca mais me possa revoltar contra Vós.

Amo-Vos, bondade infinita, e pelo amor que Vos tenho me ofereço todo a Vós. Disponde de mim, e de tudo o que me pertence, como Vos aprouver. Resigno-me em tudo à vossa divina vontade. Preservai-me da desgraça de contrariar as vossas disposições, e depois fazei de mim segundo a vossa vontade. Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, atendei-me. Meu Jesus, escutai-me pelos merecimentos da vossa Paixão. E vós, o Maria Santíssima, ajudai-me; obtende-me a graça de executar a vontade divina, na qual consiste toda a minha salvação e nada mais de vós desejo.

Referências:

(1) Lc 22, 48
(2) Sl 54, 13
(3) Mt 26, 24
(4) 1Cor 11, 28
(5) Jo 13, 10

 Sábado na Oitava da Páscoa

Aparição de Jesus ressuscitado a sua Mãe Maria Santíssima

Secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuae laetificaverunt animam meam – “Segundo as muitas dores que provou o meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma” (Sl 93, 19)

Sumário. Era de justiça que Maria Santíssima, que mais do que qualquer outro tomou parte na Paixão de Jesus Cristo, fosse também a primeira a gozar da alegria da sua ressurreição. Imaginemos vê-la no momento em que lhe aparece o divino Redentor glorificado, acompanhado de grande multidão de Santos, entre os quais São José, São Joaquim e Santa Ana. Oh! Que ternos abraços! Que doces colóquios! Alegremo-nos com a nossa querida Mãe e digamos-lhe: Regina coeli, laetare, alleluia — “Rainha dos céus, alegrai-vos, aleluia!”.

I. Entre as muitas coisas que Jesus Cristo fez e os Evangelistas passaram em silêncio, deve, com certeza, ser contada a sua aparição a Maria Santíssima logo em seguida à sua ressurreição. Nem necessidade havia de referi-la, porquanto é evidente que o Senhor, que mandou honrar pais e mães, foi o primeiro a dar o exemplo, honrando sua Mãe com a sua presença visível. Demais, era de inteira justiça que o divino Redentor glorificado fosse, antes de mais ninguém, visitar a Santíssima Virgem; a fim de que, antes dos outros e mais do que estes, participasse da alegria da ressurreição quem mais do que os outros participara da paixão.

Um dia e duas noites a divina Mãe ficou entregue à dor pela morte do Filho, mas firme e imóvel na fé da ressurreição; e quando começou a alvorecer o terceiro dia, posta em altíssima contemplação, começou com ardentes suspiros a suplicar ao Filho que abreviasse a sua vinda.

Enquanto está assim absorta nos seus veementíssimos desejos, eis que o seu divino Filho se lhe manifesta em toda a sua glória e claridade; fortalecendo-lhe a vista, tanto a do corpo como a da alma, para que fosse capaz de ver e de gozar a divindade. Oh! Com tão bela aparição como não devia sentir-se satisfeita e contente! Quão ternamente não deviam abraçar-se Filho e Mãe! Quão doces e sublimes não devia ser os colóquios que trocavam!

Avizinhemo-nos, em espírito, de Nossa Senhora, que é também nossa Mãe, e roguemos-lhe que nos permita beijar as chagas glorificadas de Jesus Cristo. — Colhamos deste mistério, como são recompensados por Deus aqueles que acompanham Jesus até ao Calvário, quer dizer, que Lhe são fiéis nas tribulações. Cada um pode fazer suas as palavras da Bem-aventurada Virgem: Secundum multitudinem dolorum meorum, consolationes tuae laetificaverunt animam meam — “Segundo as minhas muitas dores, as tuas consolações alegraram a minha alma”.

II. Em companhia de Jesus, seu Filho, a divina Mãe viu grande número de Santos, entre os quais o seu Esposo São José, e os seu santos pais, Joaquim e Ana. — Alegraram-se todos com ela, reconhecendo-a por verdadeira Mãe de Deus e agradecendo-lhe os trabalhos e dores sofridas pela Redenção de todos. — Oh! Que satisfação não devia sentir a Virgem, vendo o fruto da Paixão do Filho em tantas almas resgatadas do limbo. Enquanto ela se regozija com Jesus Cristo por tão grande conquista, os anjos ali presentes, ledos e jubilosos, solenizam o dia cantando com melodia celeste: Regina Coeli, laetare, alleluia — “Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia”. Unamo-nos aos coros dos anjos, unamo-nos com todos os fiéis da Igreja, para nos congratularmos com a divina Mãe, e cantemos também: Regina Coeli, laetare, alleluia.

“Rainha do céu, alegrai-vos; porque o que merecestes trazer em vosso puríssimo seio, ressuscitou como disse. Alegrai-vos, mas ao mesmo tempo, rogai por nós, para que sejamos dignos de ir cantar um dia no reino da glória o eterno alleluia.

“É o que vos peço também, ó Eterno Pai. Sim, meu Deus, Vós que Vos dignastes alegrar o mundo com a ressurreição do Vosso Filho e Senhor nosso Jesus Cristo, concedei-nos, Vos suplicamos, que pela Virgem Maria, sua Mãe, alcancemos os prazeres da vida eterna. Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo.” (1)

Referências:

(1) Antífona tempo pascoal
2ª parte

 Segunda Semana da Páscoa

Domingo: Só em Deus se acha a verdadeira paz

Segunda-feira: Da caridade fraterna

Terça-feira: Vaidade do mundo

Quarta-feira: A pena que terá no inferno quem se condenar por ter perdido a vocação

Quinta-feira: Jesus no Santíssimo Sacramento, o melhor dos amigos

Sexta-feira: É mister sofrer tudo para agradar a Deus

Sábado: Maria Santíssima, modelo de caridade para com o próximo

 Segundo Domingo da Páscoa - Domingo da Divina Misericórdia

Só em Deus se acha a verdadeira paz

Venit Iesus, et stetit in medio, et dixit eis: Pax vobis – “Veio Jesus, e pôs-se no meio e disse-lhes: A paz seja convosco” (Jo 20, 9)

Sumário. Assim é: só em Deus se acha a verdadeira paz; porque, tendo Deus criado o homem para si, o Bem infinito, só Ele pode fazê-lo contente. Quem quiser gozar esta paz, deve repelir de seu coração tudo que não seja Deus, que feche as portas dos sentidos a todas as criaturas e viva como que morto aos afetos terrestres. É isto exatamente o que o Senhor quis dar a entender aos apóstolos, quando, aparecendo para lhes anunciar a paz, quis ambas as vezes entrar aonde estavam os apóstolos, estando as portas fechadas..

I. Refere São João que, achando-se os apóstolos juntos numa casa, Jesus Cristo ressuscitado entrou ali, posto que as portas estivessem fechadas, e pondo-se no meio, disse-lhes duas vezes: A paz seja convosco. Repetiu as mesmas palavras oito dias depois, aparecendo-lhes mais uma vez, estando fechadas as portas. Pax vobis — “A paz seja convosco”. — Com estas palavras quis Jesus Cristo dar-nos a entender “que Ele é a nossa paz; Ele que dos dois fez um, desfazendo em sua carne, com o sacrifício de sua vida, o inconsistente muro de separação, as inimizades”. (1)

Com efeito: só em Deus se acha a verdadeira paz; porque, tendo Deus criado o homem para si mesmo, o Bem infinito, só Ele pode plenamente satisfazê-lo. Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui (2) — “Deleita-te no Senhor, e te outorgará as petições de teu coração”. Quando alguém acha as suas delícias só em Deus e não busca coisa alguma fora d’Ele, Deus cuidará em satisfazer-lhe todos os desejos do coração.

Insensatos portanto são aqueles que dizem: Bem-aventurado o que pode gastar dinheiro à vontade! Que pode mandar nos outros! Que pode gozar os prazeres que deseja. Loucura! Bem-aventurado é somente o que ama a Deus, o que diz deveras que Deus só lhe basta. A experiência demonstra bem patentemente, que muitos dos que o mundo chama felizes, por grandes que sejam as suas riquezas e altas as suas dignidades, todavia levam vida infeliz, nunca estão contentes, jamais gozam um dia de verdadeira paz. Ao contrário, tantos bons religiosos que vivem num deserto ou numa gruta, sujeitos a enfermidades, à fome, ao frio, estão contentes e exultam de alegria. E porque? Porque eles só se ocupam com Deus, Deus os consola. Ah! A paz que o Senhor faz provar a quem O ama, está acima de todas as delícias que o mundo pode dar! Pax Dei quae exsuperat omnem sensum (3).

II. Gustate et videte, quoniam suavis est Dominus (4) — “Provai e vede quão suave é o Senhor”. Ah, mundanos! Exclama o Profeta, porque desprezais a vida dos santos, sem que a tenhais experimentado? Experimentai-a uma só vez: afastai-vos do mundo, dai-vos a Deus, e vereis quanto melhor sabe Ele consolar-vos do que todas as grandezas e delícias que andais procurando para vossa perdição. — Verdade é que também os santos sofrem na vida presente grandes tribulações; mas com a resignação à vontade de Deus, nunca perdem a paz. Numa palavra, eles estão acima das adversidades e vicissitudes deste mundo, e por isso vivem sempre numa tranquilidade imperturbável.

Mas quem quiser estar sempre unido com Deus e gozar continua paz, deve banir do coração tudo que não seja Deus, guardar as portas dos sentidos fechadas a todas as criaturas e viver como que morto aos afetos terrestres. É exatamente o que o Senhor quis dar a entender, quando, na aparição aos apóstolos, entrou duas vezes, como narra o Evangelho, estando fechadas as portas: cum fores essent clausae. “Em sentido místico”, explica Santo Tomás, “devemos aprender disso que Jesus Cristo não entra em nossas almas enquanto não tivermos fechado as portas dos sentidos.”

Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, ajudai-me a romper todos os laços que me prendem ao mundo. Fazei com que eu não pense em outra coisa senão em Vos agradar. Felizes daqueles a quem só Vós bastais! Senhor, dai-me a graça de não buscar nada fora de Vós e de não desejar senão o vosso amor. Por vosso amor renuncio também as consolações espirituais. Nada mais desejo senão cumprir a vossa vontade e dar-Vos gosto. “Fazei, ó Deus todo poderoso, com que havendo concluído a celebração das festas pascais, pela vossa graça conserve, na vida e costumes, o espírito das mesmas.” (5)

— Ó Mãe de Deus, Maria, recomendai-me a vosso Filho, que não vos nega nada.

Referências:

(1) Ef 2, 14
(2) Sl 36, 4
(3) Fl 4, 7
(4) Sl 33, 9
(5) Or. Dom. curr.

 Segunda-feira da segunda semana da Páscoa

Da caridade fraterna

Diliges proximum tuum tamquam teipsum – “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12 ,31)

Sumário. Ninguém pode amar a Deus sem que tenha amor ao próximo, porquanto o amor de Deus e o do próximo nascem da mesma caridade, e o mesmo preceito que nos obriga ao primeiro, obriga-nos também ao segundo. Examinemos em que estima tivemos até agora um preceito tão importante, e, se porventura tivermos de reconhecer faltas, façamos firme propósito de ser para o futuro mais exatos, lembrando-nos que da observância da caridade depende o sermos cristãos, não só de nome, mas de fato..

I. Não se pode amar a Deus sem amar ao mesmo tempo ao próximo. O mesmo preceito que nos manda o amor para com Deus, manda-nos igualmente o amor para com os nossos irmãos: Et hoc mandatum habemus a Deo, ut, qui diligit Deum, diligat et fratrem suum (1) — “Nós temos de Deus este mandamento, que o que ama a Deus, ame também a seus irmão”. D’onde infere Santo Tomás de Aquino, que da mesma caridade nasce o amor para com Deus e o para com o próximo, porque a caridade nos faz amar tanto a Deus como ao próximo, visto que assim o quer o próprio Deus. — Deste modo compreende-se o que São Jerônimo refere de São João Evangelista. Perguntando-lhe os seus discípulos, porque tão repetidas vezes lhes recomendava o amor fraternal, respondeu o Santo: “Porque é o preceito do Senhor; sendo bem observado, basta para a salvação.”

Certo dia Santa Catarina de Sena disse ao Senhor: “Meu Deus, quereis que eu ame ao meu próximo; mas eu não posso amar senão a Vós.” Respondeu-lhe o nosso Salvador: “Minha filha, aquele que me ama, ama todas as coisas que eu amo.” — Com efeito, quem ama alguma pessoa, ama também os parentes, os servos, as imagens e até as vestes da pessoa amada, pela razão que esta ama tais coisas. E porque é que nós devemos amar ao próximo? Porque aqueles a quem amamos são objeto da benevolência de Deus.

Por isso escreve São João que é mentiroso o que diz que ama a Deus e odeia a seu irmão (2). Ao contrário, diz Jesus Cristo que aceitará como feita a si próprio a caridade de que usarmos para com o mais pequenino de seus irmãos, que tais são os nossos próximos (3). — Examina-te aqui, se tens até agora tido na devida estima o preceito tão importante da caridade, e toma a resolução de seres mais exato para o futuro. Lembra-te que da observância deste preceito depende o seres cristão não só de nome, mas também de fato: In hoc cognoscent omnes, quia discipuli mei estis: si dilectionem habueritis ad invicem (4) — “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”.

II. Induite vos ergo, sicut electi Dei, viscera misericordiae (5) — “Vós, como escolhidos de Deus, revesti-vos de entranhas de misericórdia”. Eis aí o que, segundo São Paulo, deve fazer o cristão para conservar a caridade para com o próximo. Ele diz: induite: revesti-vos, de caridade. Assim como o homem leva para toda parte o seu vestido, que o cobre inteiramente, assim deve levar consigo a caridade em todas as suas ações e cobrir-se todo inteiro com ela. Diz ainda: induite viscera misericordiae — “revesti-vos de entranhas de misericórdia”. O cristão deve revestir-se, não somente de caridade, mas de entranhas de caridade, o que quer dizer que deve ter para com os seus irmãos tão grande ternura de afeto, como se cada um fosse o seu predileto particular.

Quem ama vivamente uma pessoa, pensa sempre bem dela, alegra-se pela sua prosperidade e entristece-se pelos seus males, como se fossem os próprios. Quando a pessoa amada comete uma falta, que empenho em defendê-la, ao menos em diminuir-lhe a culpa! Quando, ao contrário, faz algum bem, o amigo se desfaz em louvores e enaltece-a até às estrelas. Eis o que faz a paixão. Ora, o que a paixão faz nas pessoas mundanas, deve fazê-lo em nós a santa caridade, e não só para com aqueles que nos fazem bem, mas ainda para com aqueles que nos tenham ofendido.

Ah, meu Redentor, quão longe estou de me parecer convosco! Vós não fostes senão caridade para com os vossos perseguidores, e eu rancoroso e odiento para com o meu próximo! Vós rogastes com tanto amor pelos que Vos crucificaram, e eu só penso em tomar vingança de quem me desagradou! Perdoai-me, ó meu Jesus, não quero mais ser o que fui. Proponho firmemente imitar-Vos de hoje em diante, custe o que custar; proponho amar a quem me ofende e fazer-lhe bem. Dai-me a graça de Vos ser fiel.

— Ó Maria, Mãe de Deus, rogai a Jesus por mim; dai-me uma parte de vosso amor para com o próximo; a vossa proteção é a minha esperança.

Referências:

(1) 1 Jo 4, 21
(2) 1 Jo 4, 20
(3) Mt 25, 40
(4) Jo 13, 35
(5) Cl 3, 12

 Terça-feira da segunda semana da Páscoa

Vaidade do mundo

Quid prodest homini, si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? – “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma” (Mt 16, 26)

Sumário. Os nossos parentes e amigos que estão na eternidade, lá da outra vida nos recomendam que não diligenciemos alcançar neste mundo senão os bens que nem mesmo a morte nos faz perder. Com efeito, de que aproveita ganharmos o mundo inteiro, se depois perdermos a alma? Perdida a alma, perdemos tudo! Penetrados desta grande máxima, quantos jovens se resolveram a encerrar-se nos claustros, quantos anacoretas a viver nos desertos, quantos mártires a dar a vida por Jesus Cristo!.

I. Um filósofo antigo, de nome Aristipo, fez em certa ocasião uma viagem por mar. O navio naufragou e o filósofo perdeu todos os seus bens, mas arribou felizmente à praia. Como era muito conhecido pelo seu saber, os habitantes do país o indenizaram de tudo que tinha perdido. Pelo que escreveu depois aos amigos da pátria que, avisados pelo seu exemplo, se premunissem somente daqueles bens que nem com o naufrágio se perdem. É isto exatamente o que lá do outro mundo nos recomendam os parentes e amigos que estão na eternidade: isto é, que não diligenciemos alcançar neste mundo senão os bens que nem a morte nos faz perder.

De que nos serve, diz Jesus Cristo, ganhar o mundo inteiro, se na morte, perdida a alma, perdemos tudo? Quid prodest homini, si universum mundum lucretur? Penetrados desta grande máxima, quantos jovens resolveram encerrar-se nos claustros, quantos anacoretas foram viver no deserto, quantos mártires deram a vida por Jesus Cristo! — Com esta máxima Santo Inácio de Loyola ganhou muitas almas para Deus; especialmente a bela alma de São Francisco Xavier, que estando em Paris se entregava a projetos mundanos. “Francisco”, disse-lhe um dia o Santo, “pensa que o mundo é traidor, que promete e não cumpre. Ainda quando cumprisse o que te promete, nunca poderia contentar-te o coração. Suponhamos que te contente: quanto tempo durará a tua felicidade? Mais que a vida? E afinal, o que poderás levar para a eternidade? Há porventura algum rico que tenha levado consigo uma moeda sequer, ou um criado para a sua comodidade? Há porventura algum rei que tenha levado consigo um fio de púrpura como distintivo?”

Tocado destas reflexões, Francisco renunciou ao mundo, seguiu Santo Inácio; e se fez santo. Vanitas vanitatum — “Vaidade das vaidades!” — era assim que Salomão chamava a todos os bens do mundo, depois de não se ter recusado prazer algum dos que o mundo pode oferecer: Vanitas vanitatum, et omnia vanitas (1) — “Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade!”

II. Procuremos viver de maneira que se nos não possa dizer na morte o que foi dito àquele egoísta do Evangelho: Stulte, hac nocte animam tuam repetent a te, quae autem parasti, cuius erunt? (2) — “Insensato, vais morrer, e que será feito dos bens que amontoaste?” Procuremos ser ricos não em bens mundanos, mas em Deus, em virtudes e em merecimentos, bens estes que nos acompanharão para sempre no céu. Numa palavra, cuidemos adquirir o grande tesouro do amor divino; pois que, no dizer de Santo Agostinho, embora estejamos de posse de todas as riquezas, seremos os mais pobres do mundo, senão possuirmos a Deus; o pobre, porém, que possui a Deus pelo amor, possui tudo.

Ah, meu Jesus, meu Redentor! Graças Vos dou por me terdes feito conhecer o meu desvairamento e o mal que fiz, voltando as costas a quem por mim sacrificou o sangue e a vida. Em verdade que não merecíeis da minha parte ser tratado como Vos tratei. Se a morte me surpreendesse nesta hora, que haveria em mim senão pecados e remorsos de consciência, que me fariam morrer em grande inquietação? Meu Salvador, confesso que fiz mal abandonando-Vos, o supremo Bem, pelas miseráveis satisfações deste mundo. Do fundo do coração me arrependo. Ah! Por essa dor que Vos fez morrer na cruz, dai-me tão grande dor de meus pecados que me faça chorar durante o resto da minha vida os agravos que contra Vós cometi. Meu Jesus, meu Jesus, perdoai-me; prometo nunca mais desagradar-Vos e amar-Vos sempre.

Senhor, não sou mais digno de vosso amor, porque o desprezei tanto no passado; mas Vós dissestes que amais a quem Vos ama: Ego diligentes me diligo (3). Amo-Vos; amai-me, pois, também. Não quero mais estar na vossa desgraça. Renuncio a todas as grandezas e gozos do mundo, contanto que me ameis. Meu Deus, atendei-me por amor de Jesus Cristo. Ele Vos pede que não me repilais do vosso coração. A Vós me consagro sem reserva; sacrifico-Vos a minha vida, as minhas satisfações, os meus sentidos, a minha alma, o meu corpo, a minha vontade e liberdade. Aceitai-me; e não me desprezeis, como o merecia, por ter tantas vezes desprezado a vossa amizade.

— Virgem Santíssima e minha Mãe, Maria, pedi a Jesus por mim; em vossa intercessão deposito toda a minha confiança.

Referências:

(1) Ecle 1, 2
(2) Lc 12, 20
(3) Pv 8, 17

 Quarta-feira da segunda semana da Páscoa

A pena que terá no inferno quem se condenar por ter perdido a vocação

Pro eo quod abiecisti sermonem Domini, abiecit te Dominus, ne sis rex – “Como tu rejeitaste a palavra do Senhor, o Senhor te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1 Rs 15, 23)

Sumário. O remorso de ter perdido por própria culpa qualquer grande bem, ou de ter sido causa de algum grande mal, é uma pena tão grande, que ainda nesta vida causa tormentos indizíveis. Qual não será, pois, no inferno o tormento de um religioso que se vir condenado àquele cárcere, por ter perdido a vocação, e sem esperança de poder remediar a sua eterna ruína? Desgraçado de mim! Exclamará desesperado; podia ser um príncipe no paraíso e tornei-me um dos réprobos mais infelizes!.

I. O remorso de ter perdido por própria culpa algum grande bem, o de ter chamado voluntariamente sobre si qualquer grande mal, é um apena tão grande, que ainda nesta vida causa um tormento insofrível. Imagina, pois, que tormento terá no inferno um jovem, chamado por Deus, por favor singular, ao estado religioso, quando conhecer que, se obedecera a Deus, teria adquirido no paraíso um lugar distinto, e em vez disso se vir encerrado naquele cárcere de tormentos, sem esperança de remédio à sua ruína eterna!

É este o verme que, sempre vivo, sempre lhe roerá o coração com um contínuo remorso: Vermis eorum non moritur (1) — “O seu verme não morre”. Ele dirá então: Ó insensato que fui! Podia fazer-me um grande santo; se tivera obedecido, agora estaria salvo; e eis que em vez disso, por minha própria culpa, por um nada, estou condenado, e condenado sem remédio!

Conhecerá então o miserável para sua maior pena, e verá no dia do juízo universal colocados à direita de Jesus e coroados como santos, conhecerá, digo, e verá tantos companheiros seus, que obedeceram à vocação divina, e deixando o mundo, se recolheram à casa de Deus, a que ele também tinha sido chamado. Ver-se-á então apartado do consórcio dos bem-aventurados, e relegado no meio da chusma inúmera dos miseráveis réprobos, porque foi desobediente à voz de Deus. É certo que o pensamento de sua vocação lhe será no inferno como que outro novo inferno.

II. Já se sabe, como atrás se considerou, que à infelicíssima troca do céu com o inferno se expõe facilmente aquele que, para seguir o seu capricho, volta as costas ao chamamento divino. Por isso, meu irmão, já que foste chamado a fazer-te santo na casa de Deus, considera a que grande perigo te havias de expor, se voluntariamente perdesses a tua vocação. Esta vocação, que Deus te deu em sua infinita bondade, a fim de te apartar do meio dos fiéis comuns e de te dar um lugar entre os príncipes do paraíso, tornar-se-ia por tua culpa, se lhe fosses infiel, como que um inferno à parte para ti. Escolhe portanto, porque Deus Jesus Cristo põe na tua mão a escolha; escolhe: ou ser um grande rei no paraíso, ou então um condenado mais desesperado que os outros, no inferno.

Não, meu Deus, não permitais que eu Vos desobedeça e Vos seja infiel. Vejo a vossa bondade para comigo, e Vos agradeço, porque, em vez de me expulsardes da vossa face e de me desterrardes para o inferno, por mim tantas vezes merecido, me chamais a fazer-me santo e preparais para mim um lugar excelente no paraíso. Vejo que mereceria uma dupla pena se não correspondesse a esta graça, que não é concedida a todos. Senhor, quero obedecer-Vos; eis-me aqui, sou vosso, e vosso quero ser sempre.

De boa vontade aceito todas as penas e incômodos da vida religiosa a que me convidais. O que vem a ser estas penas em comparação com as penas eternas que tenho merecido? Eu já estava perdido pelos meus pecados; agora me dou todo a Vós. Disponde de mim e de minha vida como Vos aprouver.

Aceitai, ó Senhor, um condenado ao inferno, como eu era, a servir-Vos e amar-Vos nesta vida e na outra. Quero amar-Vos tanto quanto tenho merecido estar no inferno a odiar-Vos, ó Deus infinitamente amável. O Jesus meu, Vós despedaçastes as cadeias com que o mundo me tinha preso a si; Vós me livrastes da escravidão de meus inimigos. Meu amor, quero amar-Vos muito, e pelo amor que Vos tenho, quero servir-Vos sempre, e obedecer-Vos. — Minha advogada, Maria, agradeço-vos por me terdes impetrado esta misericórdia. Ajudai-me e não permitais que eu torne a ser ingrato a meu Deus, que tanto me tem amado. Obtende de Deus que eu morra sem que haja de ser infiel a tão grande graça.

Referências:

(1) Mc 9, 43

 Quinta-feira da segunda semana da Páscoa

Jesus no Santíssimo Sacramento, o melhor dos amigos

Amicus fidelis medicamentum vitae et immortalitatis – “O amigo fiel é um medicamento de vida e de imortalidade” (Eclo 6, 16)

Sumário. Bem suave é estar a gente na companhia de um amigo querido: e será possível que nós, neste vale de lágrimas, não achemos consolação perto do melhor de nossos amigos que nos pode encher de todos os bens? Eis que no Santíssimo Sacramento nos podemos entreter com Jesus à nossa vontade, abrir-Lhe o nosso coração, expor-Lhe as nossas necessidades, pedir-Lhe graças. Aproximemo-nos, pois, de Jesus com grande confiança e amor, unamo-nos a Ele, e peçamos-Lhe sobretudo a graça de O podermos amar sempre com todas as nossas forças..

I. Bem suave é estar a gente na companhia de seu amigo querido; e não nos será suave, neste vale de lágrimas, estarmos na companhia do melhor de nossos amigos, de um amigo que pode encher-nos de todos os bens, nos ama apaixonadamente e por isso se deixa ficar continuamente conosco? Eis que no Santíssimo Sacramento nos podemos entreter com Jesus à nossa vontade, abrir-Lhe o nosso coração, expor-Lhe as nossas necessidades, pedir-Lhe graças. Podemos, numa palavra, neste mistério tratar com o Rei do céu com toda confiança e singeleza.

Foi nimiamente feliz José, quando Deus, como atesta a Sagrada Escritura, se dignou descer por sua graça ao cárcere para consolá-Lo: Descendit cum illo in foveam, et in vinculis non dereliquit eum (1) — “A divina Sabedoria desceu com Ele ao fosso, e não o deixou nas cadeias”. Mas muito mais felizes somos nós por termos sempre conosco, nesta miserável terra, nosso Deus feito homem, que, com o coração cheio de amor e de misericórdia, nos honra com sua presença real a cada instante de nossa vida.

Que consolo é para um pobre encarcerado ter um amigo terno, que vai entreter-se com ele, o consola, lhe anima a esperança, procura para ele socorro e cuida em aliviá-lo no seu infortúnio? Eis aqui está o nosso bom amigo Jesus Cristo, que neste Sacramento nos anima com estas palavras: “Ecce ego vobiscum sum omnibus diebus” (2) — Convosco estou todos os dias. Eis-me aqui todo para vós, vindo do céu à vossa prisão de propósito para vos consolar, ajudar e por em liberdade. Acolhei-me, fiquemos sempre juntos, uni-vos a mim; que então não sentireis mais o peso de vossas misérias, e depois vireis comigo para o meu reino, onde vos farei plenamente felizes.

II. A toda alma que o visita no Santíssimo Sacramento, Jesus diz como outrora o Esposo dos Cânticos: Surge propera, amica mea, et veni (3) — “Levanta-te, apressa-te, minha amada, e vem”. Surge, levanta-te de tua miséria, pois aqui estou para te enriquecer com minhas graças. Propera, aproxima-te, não temas minha divina majestade, que se humilhou neste Sacramento para dissipar teu temor e te inspirar confiança. Amica mea, tu não és mais minha inimiga, mas minha amiga, já que me amas e eu te amo. Formosa mea, a minha graça te fez tão bela à minha vista. Et veni, vem pois, a mim, vem lançar-te nos meus braços, e pede-me com toda confiança o que de mim queres. — Vamos, pois, a Jesus com muita confiança e amor, unamo-nos a Ele e roguemos-Lhe graças.

Ó Verbo eterno, feito homem e sacramento por meu amor, quanta deve ser a minha alegria, quando penso que estou diante de Vós, que sois meu Deus, a Majestade suprema, a bondade infinita, diante de Vós, que tão ternamente amais a minha alma! Ó vós, almas que amais a Deus, onde quer que estejais, no céu ou na terra, amai-O também por mim. Ó Maria, minha Mãe, ajudai-me a amar ao meu Deus. E Vós, amantíssimo Senhor, fazei com que eu ponha em Vós todos os meus afetos. Tornai-Vos senhor de toda a minha vontade, possui-me todo inteiro. Consagro-Vos o meu espírito, para que se ocupe somente com a vossa bondade; consagro-Vos também o meu corpo, para que me auxilie a Vos agradar; consagro-Vos a minha alma, para que seja toda vossa.

Quisera, ó Amado de meu coração, que todos os homens conhecessem a ternura do amor que lhes tendes, para que todos vivessem unicamente para Vos honrar e agradar, como desejais e mereceis. Ah! Viva ao menos eu enlevado sempre no amor de vossa beleza infinita. Quero no futuro fazer tudo que puder para Vos ser agradável. Resolvido estou a fugir de tudo que souber Vos desagradar, custe o que custar, ainda que haja de perder a vida. Oh quão ditoso seria, se tudo perdesse para Vos ganhar, ó meu Deus, meu tesouro, meu amor, meu tudo!

Referências:

(1) Sb 10, 13
(2) Mt 28, 20
(3) Ct 2, 10

 Sexta-feira da segunda semana da Páscoa

É mister sofrer tudo para agradar a Deus

Caritas patiens est… omnia suffert… omnia sustinet – “A caridade é paciente… tudo sofre… tudo suporta” (1 Cor 13, 4)

Sumário. Para se tornarem agradáveis a Deus, os santos desapossaram-se de seus bens, renunciaram às mais altas dignidades da terra e acolheram como tesouros as enfermidades, as perseguições, e despojamento de tudo, e a morte mais dolorosa e triste. E que fazemos nós para um fim tão sublime? Ó miséria! Recusamo-nos até a sofrer com paciência um leve incômodo, uma pequena contrariedade, um desprezo, uma palavra mordaz. Quão diferentes dos santos somos nós!.

I. A maior preocupação, para não dizer única, dos santos foi: desejarem com todo o afeto sofrer por amor de Deus todo o trabalho, todo o desprezo e toda a dor a fim de tornarem-se desta sorte agradáveis ao Coração divino que tanto merece ser amado e tanto nos ama. — Com efeito, toda a perfeição e todo o amor de uma alma para com Deus consiste em sempre procurar o agrado de Deus e fazer o que mais Lhe agrada. Ó feliz de quem sempre pudesse dizer com Jesus Cristo: Ego quae placita sunt ei facio semper (1) — “Eu faço sempre o que Lhe agrada.”

Que honra mais sublime, que consolação maior pode ter uma alma, do que fazer qualquer trabalho, ou aceitar alguma pena, alguma enfermidade, com o pensamento de dar assim gosto a Deus? Temos sobeja obrigação de dar gosto ao Deus que nos amou tanto, nos deu tudo o que possuímos, e, não satisfeito com dar-nos tantos bens, chegou a dar-se a si mesmo, primeiro sobre a cruz, na qual morreu por nosso amor, e depois no Santíssimo Sacramento do altar, no qual se nos dá todo inteiro pela santa comunhão, de sorte que não Lhe resta mais nada para dar.

Para se tornarem agradáveis a Deus, os santos não souberam que fazer. Quantos jovens não deixaram o mundo para se darem inteiramente ao Senhor! Quantas donzelas, mesmo de estirpe régia, não renunciaram consórcios com os personagens mais altos, para se encerrarem num convento! Quantos anacoretas não se internaram no fundo dos desertos ou em espeluncas, para pensarem somente em Deus! Ainda para darem gosto a Deus, quantos mártires não aceitaram os açoites, os ferros em brasa e os tormentos mais cruéis dos tiranos! Numa palavra, por amor de Deus, os santos desapossaram-se de seus bens, renunciaram às dignidades mais altas da terra, e acolheram, como se fossem tesouros, as enfermidades, as perseguições, o despojamento de tudo e a morte mais dolorosa e triste. E para um fim tão sublime nós nos recusaremos a sofrer com paciência um leve incômodo, uma pequena contrariedade, um desprezo, uma palavra mordaz?

II. Se temos verdadeiro amor a Deus, devemos preferir a sua satisfação à aquisição de todas as riquezas, das glórias mais altas e de todas as delícias da terra e mesmo do paraíso. Pôs-nos o Senhor neste mundo a fim de que nos apliquemos a agradar-Lhe e promover a sua glória. O beneplácito de Deus deve, pois, ser o único alvo de todos os nossos desejos, de todos os nossos pensamentos e obras. Com efeito, é bem digno de ser contentado em todas as coisas o Coração de Deus, que tanto nos ama e é tão solícito por nosso bem.

Ó meu Senhor, como foi possível que eu, ingrato, em vez de Vos dar gosto, Vos tenha causado tantos desgostos? Mas o horror que me inspirais das ofensas que Vos fiz, me faz esperar que me queirais perdoar. Perdoai-me e não permitais que torne a ser ingrato para convosco. Ah, meu Jesus, oxalá nunca Vos tivesse ofendido! Se pudesse nascer outra vez, quisera amar-Vos sempre! Mas o que foi feito, já se não pode desfazer. O que posso fazer é consagrar-Vos toda a vida que me resta. Eu Vô-la dou toda e me consagro todo a vosso amor. Afetos terrestres, saí do meu coração, cedei o lugar a meu Deus, que o quer possuir todo. — Sim, possui-me todo, ó meu Redentor, meu amor, meu Deus. Daqui por diante não quero pensar senão em Vos agradar; ajudai-me com a vossa graça; a minha esperança está em vossos méritos. Aumentai em mim cada vez mais o vosso amor e o desejo de Vos dar gosto. Fazei com que eu vença tudo para Vos agradar. In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum (2) — “Em ti, Senhor, esperei, eternamente não serei confundido”.

— Ó Rainha do céu e minha Mãe Maria, atraí-me todo para Jesus Cristo.

Referências:

(1) Jo 8, 29
(2) Sl 30, 1

 Sábado da segunda semana da Páscoa

Maria Santíssima, modelo de caridade para com o próximo

Hoc mandatum habemus a Deo: ut qui diligit Deum, diligat et fratrem suum – “Nós temos de Deus este mandamento, que o que ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 Jo 4, 21)

Sumário. O amor para com o próximo nasce do amor para com Deus. Ora, como nunca existiu, nem jamais existirá, quem mais que Maria Santíssima amasse a Deus, assim nem houve, nem haverá, quem mais que a Santíssima Virgem tenha amado e ame o próximo. Basta saber que esta sua caridade a levou a oferecer à morte, entre as dores mais acerbas, e pela nossa salvação, o seu Filho unigênito. Felizes de nós se soubermos imitar uma Mãe tão carinhosa. Ela usará para conosco da mesma caridade que tivermos para com o próximo..

I. O amor para com Deus e para com o próximo nos é imposto no mesmo preceito: Nós temos de Deus este mandamento, diz São João, que o que ama a Deus, ame também a seu irmão. A razão é óbvia, diz Santo Tomás; porque quem ama a Deus, ama todas as coisas amadas por Deus. Mas visto que não existiu, nem jamais existirá, quem mais que Maria amasse a Deus, também não houve, nem haverá, quem mais que a Santíssima Virgem tenha amado o próximo. Sobre esta passagem dos Cânticos: Ferculum fecit sib rex Salomon… media caritate constravit, propter filias Ierusalem (1) —– “O rei Salomão fez para si uma liteira… revestiu-a de caridade por causa das filhas de Jerusalém”, o Padre Cornélio a Lapide diz que esta liteira foi o seio de Maria, no qual habitou o Verbo incarnado, enchendo sua Mãe de caridade, a fim de que auxiliasse a qualquer que a ela recorresse.

Vivendo neste mundo, foi Maria tão cheia de caridade, que socorria os necessitados, mesmo sem que lho pedissem; como fez precisamente nas bodas de Caná, quando pediu ao Filho o milagre do vinho, expondo-Lhe a aflição daquela família: Vinum non habent (2) — “Eles não tem vinho”. — Oh, quanto ela se apressava quando se tratava de socorrer o próximo! Quando, por ofício de caridade, visitou a casa de Isabel, foi com pressa às montanhas: abiit in montana cum festinatione (3). Não pode, porém, demonstrar melhor a sua grande caridade que oferecendo à morte o seu Filho pela nossa salvação, pelo que São Boaventura diz: “Maria amou o mundo de tal modo, que deu por ele o seu Filho unigênito.”

Esta caridade de Maria para conosco não é menor agora que ela está no céu; muito ao contrário, como diz o mesmo São Boaventura, ali muito se tem aumentado, porque conhece melhor as nossas misérias. Pobres de nós, se Maria não rogasse a nosso favor! Revelou Jesus Cristo à Santa Brígida que, se as súplicas da divina Mãe não intercedessem por nós, não haveria esperança de misericórdia.

II. Bem-aventurado aquele (diz a divina Mãe), que presta atenção aos meus preceitos e observa a minha caridade, para depois, à minha imitação, praticá-la com os outros: Beatus homo qui audit me (4) — “Bem-aventurado o homem que me ouve”. Afirma São Gregório Nazianzeno que, para adquirirmos o afeto de Maria, não há coisa melhor do que usar caridade para com o próximo. Por isso, assim como Deus nos exorta: Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso (5); assim parece que Maria diz a todos os seus filhos: Sede misericordiosos, assim como é misericordiosa a vossa Mãe.

É certo que segundo a caridade que nós usarmos para com o próximo, Deus e Maria a usarão para conosco, conforme diz Jesus Cristo, que nos medirá com a mesma medida com que tivermos medido aos outros (6). — Numa palavra, conclui o Apóstolo, a caridade para com o próximo é útil para tudo, e nos faz felizes nesta vida e na outra, porque tem a promessa da vida presente e da futura (7); e quem socorre os necessitados faz com que o próprio Deus lhe fique sendo devedor (8).

Ó Mãe de misericórdia, vós sois cheia de caridade para com todos; não vos esqueçais de minhas misérias. Vós as conheceis. Recomendai-me a Deus, que nada vos nega. Alcançai-me a graça de poder imitar-vos na santa caridade tanto para com Deus como para com o próximo. — E Vós, ó meu Jesus, tende piedade de mim; perdoai-me todos os desgostos que Vos dei, particularmente pela minha pouca caridade com o próximo. Perdoai-me, Senhor, e não me entregueis à mercê das minhas paixões, como mereceria. Se prevedes que para o futuro eu tenho de Vos ofender novamente, deixai-me antes morrer agora, que espero estar na vossa graça. Fazei-o pelos merecimentos da caridade de Maria Santíssima, vossa querida Mãe.

Referências:

(1) Ct 3, 9
(2) Jo 2, 3
(3) Lc 1, 39
(4) Pv 8, 34
(5) Lc 6 ,36
(6) Lc 6, 38
(7) 1 Tm 4, 8
(8) Pv 19, 17
3ª parte

 Terceira Semana da Páscoa

Domingo: Jesus, o bom Pastor

Segunda-feira: Motivos que temos de honrar a São José

Terça-feira: Convivência de São José com Jesus e Maria

Quarta-feira: Nosso Pai São José

Quinta-feira: Da oração depende a nossa salvação

Sexta-feira: Da morte

Sábado: Do amor que são José teve a Jesus e Maria

 Terceiro Domingo da Páscoa

Jesus, o bom Pastor

Ego sum pastor bonus. Bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis – “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas” (Jo 10, 11)

Sumário. O ofício de um bom pastor não é outro senão guiar as suas ovelhas para bons pastos e defendê-las contra os lobos. Mas, ó meu dulcíssimo Redentor, que pastor levou jamais a sua bondade tão longe como Vós, que quisestes dar a vida por nós, vossas ovelhas, e nos livrastes dos castigos merecidos? Não satisfeito com isso, quisestes ainda, depois da morte, deixar-nos o vosso corpo na santa Eucaristia, para sustento de nossas almas. Quem, pois, não Vos amará com todo o afeto? Mas infelizmente muitos Vos pagam com a mais negra ingratidão..

I. Assim diz Jesus Cristo mesmo no Evangelho deste dia: Ego sum pastor bonus — “Eu sou o bom pastor”. O ofício de um bom pastor não é outro senão guiar as suas ovelhas para bons pastos e defendê-las contra os lobos. Mas, ó meu dulcíssimo Redentor, que pastor levou jamais a sua bondade tão longe como Vós, que quisestes dar o vosso sangue e a vida para salvar as vossas ovelhas, que somos nós, e livrar-nos dos castigos merecidos? Vós mesmo, diz São Pedro, levastes os nossos pecados em vosso corpo pregado na cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas vossas chagas fomos curados: Cuius livore sanati estis (1). Para nos curar de nossos males, este bom Pastor tomou a si todas as nossas dívidas e pagou-as com o seu próprio corpo, morrendo de dor sobre a cruz.

Este excesso de amor de Jesus para conosco, as suas ovelhas, fazia Santo Inácio Mártir arder do desejo de dar a vida por Jesus Cristo, dizendo, assim como se lê numa carta sua: Amor meus crucifixus est — “O meu amor foi crucificado.” Quis o santo dizer: Como! Meu Deus quis morrer crucificado por meu amor, e eu poderei viver sem desejo de morrer por Ele? – Com efeito, que grande coisa fizeram os mártires dando a vida por Jesus Cristo, que morreu por amor deles! Ah! A morte que Jesus Cristo padeceu por eles, suavizava-lhes todos os tormentos, os açoites, os cavaletes, as unhas de ferro, as fogueiras e as mortes mais dolorosas.

Não se contentou, porém, o nosso bom Pastor com dar a vida pelas suas ovelhas; ainda depois de sua morte quis deixar-lhes na santíssima Eucaristia o seu próprio corpo, já sacrificado uma vez na cruz, a fim de que fosse o alimento e sustento das suas almas. O ardente amor que nos dedicava, diz São João Crisóstomo, levou-O a unir-se a nós e fazer-se uma coisa conosco: Semetipsum nobis immiscuit, ut unum quid simus.

II. “O mercenário”, assim continua o Evangelho, “e o que não é pastor, vê o lobo vindo e deixa as ovelhas e foge; e o lobo rouba e dispersa as ovelhas. O mercenário foge, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas.” Não é assim que faz Jesus Cristo, o bom pastor, ou antes o melhor de todos os pastores. Cada vez que vê as suas ovelhas assaltadas pelo lobo infernal e estas lhe bradam por socorro, logo acode a defendê-las e a combater por elas.

Quando vê uma ovelha tresmalhada, que não faz? Quantos meios não emprega para reavê-las? Jesus Cristo não deixa de buscá-la enquanto não a achar. E depois de a achar, a põe contente sobre seus ombros, chama aos seus amigos e vizinhos (isto é, os Anjos e os Santos), e convida-os a alegrarem-se com Ele, por ter achado a ovelha que se tinha perdido: Congratulamini mihi, quia inveni ovem meam quae perierat (2) — Quem, pois, não amará com todo o afeto a este bom Senhor, que se mostra tão amoroso mesmo para com os pecadores que lhe viraram as costas e quiseram voluntariamente perder-se?

Ah, meu amável Salvador! Eis aqui a vossos pés uma ovelha perdida: afastei-me de Vós, mas Vós não me abandonastes; fizestes todo o empenho para me reaver. Que seria de mim, se Vós não tivésseis pensado em me buscar? Ai de mim, que passei tanto tempo longe de Vós! Pela vossa misericórdia espero agora estar na vossa graça. Se outrora fugia de Vós, já não desejo outra coisa senão amar-Vos e viver e morrer abraçado aos vossos pés. Mas enquanto vivo, estou em perigo de Vos abandonar. Por piedade, prendei-me com os laços de vosso santo amor e não permitais que em tempo algum eu me desprenda de Vós.

— “Ó Pai Eterno, que pela humilhação de vosso Filho levantastes o mundo prostrado, concedei-me alegria perpétua, para que, assim como me livrastes da morte eterna, me façais gozar dos prazeres eternos.”(3) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e de Maria Santíssima, minha querida Mãe.

Referências:

(1) 1 Pd 2, 24
(2) Lc 15, 6
(3) Or. Dom. curr.

 Segunda-feira da terceira semana da Páscoa

Motivos que temos de honrar a São José

Constituit eum dominum domus suae, et principem omnis possessionis suae – “Constituiu-o senhor de sua casa, e príncipe de tudo que possuía” (Sl 104, 21)

Sumário. Tomemos a São José por nosso protetor especial e não nos esqueçamos de honrá-lo cada dia e de nos recomendar a ele. Honrando ao santo Patriarca, imitaremos os exemplos de Jesus e Maria, que foram os primeiros a honrarem-no sobre esta terra. Além disso, pelo intermédio do Santo obteremos os favores mais assinalados, porquanto a experiência demonstra que São José obtém de Deus para seus devotos tudo que quer e os socorre em suas necessidades..

I. O exemplo de Jesus Cristo, que nesta terra quis honrar tão grandemente a São José, era bastante para inspirar a todos uma grande devoção a este preclaro Santo. Desde que o Pai Eterno designou São José para fazer as suas vezes juntos de Jesus, Jesus sempre o considerou e o respeitou como pai, obedecendo-lhe pelo espaço de vinte e cinco ou trinta anos: Et erat subditus illis (1) — E lhes estava sujeito. O que quer dizer que em toda aquela série de anos a única ocupação do Redentor foi obedecer a Maria e a José.

A José competia em todo aquele tempo exercer o ofício de governar, como cabeça que era da pequena família; a Jesus, como súdito, o ofício de obedecer. De sorte que Jesus não dava um passo, não praticava coisa alguma, não tomava alimento, não ia repousar, senão segundo as ordens de São José. Punha a mais atenciosa diligência em escutar e executar tudo o que lhe era imposto. — “O meu Filho”, assim revelou o Senhor a Santa Brígida, “era tão obediente, que quando José dizia: Faze isto, ou faze aquilo, logo o executava.” E Gerson acrescenta que em Nazaré “Jesus muitas vezes preparava a comida, buscava água, lavava a vasilha, mesmo varria a casa”.

Esta humilde obediência de Jesus ensina-nos que a dignidade de São José é superior à de todos os Santos, exceção feita da divina Mãe. Pelo que um douto autor escreve com razão: “É justíssimo que seja muito honrado pelos homens aquele que de tal maneira foi elevado pelo Rei dos reis.” (2) — Jesus mesmo recomendou a Santa Margarida de Cortona que fosse particularmente devota de São José, por ser ele quem o alimentou em sua vida: “Eu quero”, disse-lhe (e imaginemos que nos diz o mesmo), “que cada dia pratiques algum obséquio especial a meu amantíssimo pai nutrício, São José.”

II. Para compreendermos as grandes mercês que São José faz aos seus devotos, basta referir o que a este respeito diz Santa Teresa:

“Não me lembro (é a Santa quem fala) de lhe ter pedido alguma coisa sem que ma tenha obtido. Causaria assombro se eu enumerasse todas as graças que o Senhor me concedeu por intermédio deste Santo, e todos os perigos, tanto para o corpo como para a alma, dos quais me livrou. Aos demais Santos parece que o Senhor lhes deu o serem protetores numa só necessidade particular; a experiência, porém, faz ver que São José é protetor universal. Parece que Jesus nos quer dar a entender que, assim como ele na terra se submeteu voluntariamente a São José, também no céu faz tudo que o Santo lhe pede. O mesmo conheceram também outras pessoas, às quais aconselhei que se lhe recomendassem.

“Quisera persuadir a todos (continua a Santa) a serem devotos deste Santo, pela experiência adquirida dos grandes favores que ele obtém de Deus. Não conheço pessoa que honrando-o de uma maneira particular, não se visse progredir muito na virtude. Desde muitos anos lhe peço na sua festa uma graça especial e sempre a tenho conseguido. A quem não me quiser crer, peço pelo amor de Deus que faça a experiência.”

“Tomemos pois”, exorta-nos Gerson, “tomemos São José por nosso especial protetor e poderoso intercessor”, e não deixemos de nos recomendar-lhe cada dia e várias vezes por dia. Multipliquemos as nossas orações nestes dias de sua festa, pratiquemos em sua honra alguma mortificação e digamos muitas vezes:

† “Lembrai-vos, ó puríssimo Esposo de Maria Virgem, ó doce Protetor meu São José, que jamais se ouviu dizer que alguém tivesse invocado a vossa proteção, e implorado o vosso socorro, e não fosse por vós consolado. Com esta confiança, venho à vossa presença, a vós fervorosamente me recomendo. Ah! Não desprezeis a minha súplica, pai putativo do Redentor, mas dignai-vos de a acolher piedosamente. Assim seja.” (3)

Referências:

(1) Lc 2, 51
(2) Card. Camer.
(3) Indulg. de 300 dias.

 Terça-feira da terceira semana da Páscoa

Convivência de São José com Jesus e Maria

Descendit cum eis et venit Nazareth, et erat subditus illis – “Desceu (Jesus) com eles e veio para Nazaré, e lhes estava sujeito” (Lc 2, 51)

Sumário. Que bela sorte foi a de São José por ter vivido tantos anos em companhia de Jesus e Maria! Naquela família, não se tratava senão da maior glória de Deus; não havia outros pensamentos ou desejos senão a vontade de Deus; não se falava senão sobre o amor que Deus tem aos homens e que os homens devem a Deus. Oh! Se nós também soubéssemos aproveitar-nos da oportunidade, teríamos igualmente a ventura de viver com Jesus, presente na Santíssima Eucaristia. Procuremos portanto visitá-Lo frequentemente e unamos os nossos afetos aos de Maria e José!.

I. Jesus, depois de ser encontrado no templo por Maria e José, voltou com eles para a casa de Nazaré, e viveu ali com José, até à morte deste, obedecendo-lhe como a seu pai. Considera a santa vida que José ali levou em companhia de Jesus e Maria. Naquela família não havia outro empenho senão a maior glória de Deus, não havia outro pensamento e desejo senão o agrado de Deus, não se conversava senão sobre o amor que os homens devem a Deus e que Deus tem aos homens; particularmente por ter enviado ao mundo o seu Unigênito para sofrer e terminar a vida num mar de dores e de desprezos pela salvação do gênero humano.

Ah, com que lágrimas de ternura não deviam Maria e José, tão bem entendidos nas divinas Escrituras, falar na presença de Jesus sobre a sua dolorosa paixão e morte! Com que ternura não deviam, conversando, recordar que, segundo a profecia de Isaías, o objeto de seu amor havia de ser um dia o homem de dores e de desprezos; que os inimigos haviam de desfigurá-Lo a ponto de não mais ser conhecido pelo mais formoso que era; que haviam de rasgar-Lhe de tal forma as carnes pelos açoites, que seria como que um leproso todo coberto de chagas e feridas; que seu amado Filho havia de sofrer tudo com paciência, sem querer abrir a boca para queixar-se de tantos ultrajes, que se deixaria levar à morte como um cordeiro, e finalmente seria pregado num madeiro infame entre dois ladrões, para terminar a vida pela força dos tormentos. — Considera que afetos de compaixão e de amor deviam ser despertados por tais colóquios no coração de José.

II. Avivemos a nossa fé! Nós também, à imitação de São José, podemos viver continuamente na companhia de Jesus Cristo, porquanto está verdadeiramente presente no Santíssimo Sacramento do altar. Procuremos, portanto, fazer-lhe cada dia uma visita, e, sendo possível, mais de uma. Achando-nos na presença de Jesus sacramentado, pensemos na sua dolorosa Paixão e unamos os nossos afetos aos de São José e de Maria Santíssima. Todos os Santos estiveram abrasados no amor de Jesus sacramentado e de sua Paixão e assim fizeram-se Santos.

Ó santo Patriarca José, pelas lágrimas que derramastes contemplando antecipadamente a Paixão de vosso Jesus, alcançai-me contínua e terna memória dos tormentos de meu Redentor. E pelas santas chamas de amor que estes pensamentos e colóquios acendiam em vosso coração, obtende-me uma centelha dele para minha alma, a qual, por seus pecados, tanto contribuiu para as dores de Jesus. — Ó Maria, vós que tanto padecestes em Jerusalém à vista dos tormentos e da morte de vosso querido Filho, impetrai-me uma grande dor de meus pecados.

E Vós, meu dulcíssimo Jesus, que padecestes tanto e morrestes por meu amor, fazei com que nunca me esqueça da vossa caridade. Meu Salvador, vossa morte é a minha esperança. Creio que morrestes por mim. Pelos vossos merecimentos espero salvar-me. Amo-Vos de todo o meu coração, amo-Vos sobre todas as coisas, amo-Vos mais que a mim mesmo. Amo-Vos e por amor de Vós estou pronto a sofrer toda a pena. Detesto, mais que todos os outros males, o desgosto que tenho causado a Vós, meu supremo Bem. Não desejo mais outra coisa senão amar-Vos e agradar-Vos. Ajudai-me, meu Senhor, não permitais que eu torne a separar-me de Vós.

 Quarta-feira da terceira semana da Páscoa

Nosso Pai São José

Ite ad Ioseph, et quidquid ipse vobis dixerit, facite – “Ide a José e fazei tudo que ele vos disser” (Gn 41, 55)

Sumário. Aos outros Santos Deus concedeu o poderem proteger numa necessidade especial; mas a São José, como atesta a experiência, concedeu o ser protetor em todas as necessidades. O nosso Santo não somente tem vontade de auxiliar-nos, mas de certa maneira obrigação, pois que por nossa causa foi ele elevado a sua alta dignidade. Imaginemos portanto que o Senhor, vendo as nossas aflições, nos diz o que o Faraó disse ao povo do Egito no tempo da fome: Se quiserdes ser socorridos, ide a José!

I. Deus concedeu aos demais Santos o serem protetores numa necessidade especial; mas a São José concedeu o ser protetor universal. Assim disse Santo Tomás, e Santa Teresa acrescenta que a experiência assim o demonstra. Socorrer em todas as necessidades quer dizer que São José socorre a todos que se lhe recomendam. Prova evidente disso acha-se na ordem da Igreja que de todos seja realizado o Ofício do Patrocínio de São José, onde se diz: Sperate in eo, omnis congregatio populi, effundite coram illo corda vestra (1) — “Esperai nele, toda a congregação do povo; derramai diante dele os vossos corações”.

O nosso Santo nos socorrerá não somente por inclinação de vontade, mas ainda de certa maneira reconhece-se obrigado a proteger todos os fiéis, e especialmente os que a ele recorrem; porquanto é por causa deles que recebeu a honra insigne de fazer às vezes de pai junto a Jesus. Se não fora necessária a Redenção, São José ficara privado de tão grande honra. Tendo-lhe Deus recomendado o cuidado do Redentor, encarregou-o no mesmo tempo do cuidado de todos os remidos, a fim de que nos assista e nos ajude a conseguirmos o fruto da Redenção, que é a salvação eterna.

Quão poderoso é o patrocínio de São José, avalie-se pelo fato que, juntamente com Maria, gozou da familiaridade mais íntima de Jesus Cristo. Os validos mais íntimos dos monarcas terrestres têm mais influência para obterem graças. Devemos por isso crer que, como a santidade de São José, exceção feita da de Maria, excede a de todos os demais Santos, assim a intercessão de São José, depois da de Maria, é mais poderosa para com Deus do que a intercessão de qualquer outro Santo.

Acresce que a divina Mãe, como querendo recompensar o amor que São José lhe teve, e os serviços que lhe prestou em vida, faz todo o empenho para que os rogos de seu santo Esposo sejam atendidos, pelo que, quem se assegura a proteção de José, goza ao mesmo tempo a de Maria.

II. Imaginemos que o Senhor, vendo-nos oprimidos pelas nossas misérias, nos diz o que Faraó disse ao povo do Egito, no tempo da grande falta de trigo: Ite ad Ioseph — Ide a José, se quiserdes ser consolados.

— Consagremo-nos portanto hoje de uma maneira especial a São José; ponhamo-nos debaixo da sua proteção valiosíssima e recorramos a ele cada dia, ou antes muitas vezes cada dia, em cada necessidade. Roguemos-lhe também pelas necessidades da santa Madre Igreja.

† “Ó glorioso São José, escolhido por Deus para ser o pai putativo de Jesus, puríssimo Esposo de Maria sempre Virgem, e chefe da sagrada Família, escolhido por isso pelo Vigário de Cristo, para ser o celeste Padroeiro e Protetor da Igreja fundada por Jesus: com a maior confiança imploro neste instante o vosso auxílio poderoso para a Igreja militante. Protegei de um modo especial, com amor verdadeiramente paterno, ao Sumo Pontífice, a todos os bispos e sacerdotes, unidos na santa fé de Pedro. Sêde o defensor de todos aqueles que, entre as angústias e tribulações desta vida, trabalham para a salvação das almas, e fazei com que todos os povos se submetam com docilidade à Igreja, para todos o meio indispensável de salvação.

“Dignai-vos, ó amadíssimo São José, aceitar a consagração que de mim mesmo vos faço. A vós me consagro inteiramente, a fim de que sejais sempre meu Pai, meu Protetor, meu Guia no caminho da salvação. Impetrai-me uma grande pureza de coração e grande amor à vida interior. Fazei com que, a vosso exemplo, todas as minhas ações se dirijam para a maior glória de Deus em união com o Coração divino de Jesus, com o Coração imaculado de Maria e convosco. Finalmente rogai por mim a fim de que possa ter parte na paz e alegria que gozastes na vossa santa morte.” (2)

“E Vós, Senhor, que na vossa inefável providência Vos dignastes escolher o bem-aventurado José para esposo de vossa santíssima Mãe, concedei-me propício, que mereça ter como intercessor no céu aquele a quem na terra venero como meu Protetor.” (3) Fazei-o pelo amor de Jesus e Maria.

Referências:

(1) Resp. II Noct.
(2) Indulg. de 300 dias.
(3) Or. festi curr.

 Quinta-feira da terceira semana da Páscoa

Da oração depende a nossa salvação

Si quis vestrum indiget sapientia, postulet a Deo, qui dat omnibus affluenter, et non improperat – “Se alguém de vós necessita de sabedoria, suplique-a de Deus, que a todos dá liberalmente, e não impropera” (Tg 1, 5)

Sumário. A oração é não só útil à salvação, mas mesmo necessária, porque de um lado somos incapazes de fazer obras boas sem o auxílio de Deus, e do outro, o Senhor, ainda que nos queira dar este auxílio, de ordinário não o dá senão a quem ora. Se, pois, queremos salvar-nos, devemos orar até à morte, pois desde que cessemos de orar, estaremos perdidos. Devemos orar não só por nós mesmos, como também pelo próximo e especialmente pelos pecadores e pelas almas do purgatório..

I. A oração não só é útil à salvação, mas também necessária. Pelo que Deus, querendo salvar-nos, nos impõe o preceito da oração: Oportet semper orare et non deficere (1) — “Importa orar sempre e não cessar”. A razão desta necessidade de nos recomendarmos muitas vezes a Deus, baseia-se na nossa impotência para fazer, sem o auxílio divino, uma boa obra qualquer (2), mesmo para concebermos algum bom pensamento (3), e daí para nos defender contra o demônio, que não deixa de andar ao redor de nós para nos tragar.

É verdade; foi erro de Jansênio, condenado pela Igreja, o dizer que nos é impossível guardar certos mandamentos e que algumas vezes nos falta a graça para podermos observá-los. Deus é fiel, diz São Paulo, e não permitirá que sejamos tentados acima de nossas forças (4). Mas é igualmente verdade que Deus quer ser rogado; quer que nas tentações a Ele recorramos a fim de obtermos a graça para resistir. “Deus quer dar as suas graças”, diz Santo Agostinho, “mas, especialmente no tocante à perseverança, não a dará senão a quem a pedir.” E em outra parte acrescenta: “Lex data est, ut gratia quaereretur; gratia data est, ut lex impleretur — A lei foi dada para que se procure a graça; a graça foi dada para que se cumpra a lei”. O que exprimiu muito bem o Concilio de Trento quando disse: “Deus não manda coisas impossíveis; mas mandando, exorta-nos a que façamos o que está ao nosso alcance, e que peçamos o que excede nossas forças, a fim de que possa vir em nosso auxílio.” (5)

Numa palavra, o Senhor está todo disposto a dar-nos o seu auxílio, para não sermos vencidos; mas só dá este auxílio àqueles que o invocam no tempo das tentações, especialmente nas tentações contra a castidade, como disse o Sábio: Et ut scivi, quoniam aliter non possem esse continens, nisi Deus det… adii Dominum et deprecatus sum illum (6) — “Como eu sabia que de outra maneira não podia ter continência, se Deus ma não desse… recorri ao Senhor, e fiz-Lhe a minha súplica”.

II. Oremos, pois, e oremos com confiança. Jesus Cristo está agora assentado num trono de graças para consolar a todos os que a Ele recorrem e diz: Petite et dabitur vobis (7) — “Pedi e ser-vos-á dado”. No dia do juízo Jesus estará também assentado num trono, mas num trono de justiça. Que loucura seria a daquele que, podendo ser aliviado de suas misérias indo agora a Jesus, que oferece as suas graças, quisesse somente dirigir-se a Ele quando for juiz e não tiver mais misericórdia?

Avisa-nos São Tiago: “Se alguém de vós necessita de sabedoria, suplique-a de Deus, que a todos dá liberalmente, e não impropera… Mas suplique com fé, nada duvidando.” Por sabedoria se entende aqui o saber salvar a alma, e para que tenhamos tal sabedoria, se diz que devemos pedi-la a Deus. E Deus nô-la dará, e nô-la dará superabundantemente, mais do que nós pedimos. — Se quisermos salvar-nos, é mister que até à morte oremos, dizendo: Meu Deus, ajudai-me! † Meu Jesus, misericórdia! † Doce Coração de Maria, sede minha salvação! — No dia em que deixamos de rezar, estaremos perdidos.

Roguemos por nós mesmos e pelos pecadores, especialmente pelos que estão em agonia e hão de morrer neste dia. Esta oração agrada muito a Deus. Roguemos também cada dia pelas almas do purgatório; estas santas prisioneiras são em extremo gratas a quem ora por elas. — Em todas as nossas orações, peçamos a Deus as graças pelos merecimentos de Jesus Cristo, porquanto Ele mesmo nos ensina que nos será dado tudo quanto pedirmos a Deus em seu nome: Amen, amen, dico vobis: si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis (8) — “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vô-la dará”.

— Meu Deus, eis o que antes de tudo Vos peço pelos méritos de Jesus Cristo: fazei que em toda a minha vida, e especialmente no tempo das tentações, me recomende a Vós e implore o vosso auxílio por amor de Jesus e Maria. — Virgem Santíssima, obtende-me esta graça, da qual depende a minha salvação.

Referências:

(1) Lc 18, 1
(2) Jo 15, 5
(3) 2 Cor 3, 5
(4) 1 Cor 10, 13
(5) Sess. 6, c. 11.
(6) Sb 8, 21
(7) Mt 7, 7
(8) Jo 16, 23

 Sexta-feira da terceira semana da Páscoa

Da morte

Estole parati; quia qua nescitis hora Filius hominis venturus est – “Estai preparados; porque, não sabeis a hora em que o Filho do homem há de vir” (Mt 24, 44)

Sumário. A morte é certa, mas não se sabe quando virá. Quantas mortes são repentinas! Quantos à noite têm ido deitar-se sãos e pela manhã apareceram mortos! Não pensavam morrer assim, mas morreram; e se estavam em pecado, acham-se agora ardendo no inferno, onde estarão por toda a eternidade. Para que não nos suceda a mesma desgraça, aproveitemos o conselho de Jesus Cristo, e preparemo-nos para morrer bem, antes que a morte venha: Estote parati — “Estai preparados”.

I. Considera como há de acabar esta vida. Já está decretada a sentença: hás de morrer. A morte é certa, mas não se sabe quando virá. Que é preciso para morrer? Uma síncope cardíaca, uma veia que se rompa no peito, uma sufocação catarral, um vômito de sangue, um bicho venenoso que te morda, uma febre, uma chaga, uma inundação, um tremor de terra, um raio, basta para te tirar a vida.

A morte virá surpreender-te quando menos o pensares. Quantos à noite foram deitar-se sãos e pela manhã foram encontrados mortos! Não pode o mesmo acontecer a ti? Tantos que morreram repentinamente, não pensavam morrer assim; mas morreram. E se estavam em pecado, onde estarão por toda a eternidade? — Seja, porém, como for, o certo é que há de chegar um tempo em que para ti o dia se fará noite: verás o dia e não verás a noite seguinte. Virei como um ladrão, de emboscada e desapercebido, diz Jesus Cristo. Teu bom Senhor avisa-te com tempo, porque deseja a tua salvação.

Corresponde, pois, aos avisos de Deus e aproveita-te deles, prepara-te para bem morrer, antes que chegue a morte: Estote parati — “Estai preparados”. Então não é tempo de te preparares, mas de estares preparado. É certo que hás de morrer. Há de acabar para ti a cena deste mundo, e não sabes quando. Quem sabe se será dentro de um ano?… Dentro de um mês?… Quem sabe se amanhã ainda estarás vivo? — Meu Jesus, iluminai-me e perdoai-me. Ai de mim! Que me resta de tantos pecados que cometi? O coração aflito, a alma agravada, o inferno merecido, o céu perdido. Ah, meu Deus e meu Pai, prendei-me com os laços de vosso amor.

II. Considera como na hora da morte te acharás estendido no leito, assistido de sacerdote que encomendará a tua alma a Deus, dos parentes que estarão chorando, tendo à cabeceira o Crucifixo, na mão a vela mortuária e próximo a entrar na eternidade. Sentirás a cabeça atormentada de dores, os olhos enevoados, a língua seca, a garganta apertada, o peito oprimido, o sangue gelado, a carne consumida, o coração traspassado. — Terás de deixar tudo, e pobre e nu serás atirado a uma cova onde apodrecerás. Ali os vermes te roerão todas as carnes, e de ti nada restará senão uns ossos descarnados e um pouco de pó fétido, e nada mais. Abre uma cova e vê a que está reduzido aquele ricaço, aquele avarento, aquela mulher vaidosa. É assim que acaba a vida!

Desgraçado de mim, que tantos anos não pensei senão em ofender-Vos, ó Deus de minha alma! Agradeço-Vos as luzes que agora me comunicais, e prometo-Vos mudar de vida. Meu Jesus, não atendais à minha ingratidão, mas atendei ao amor que Vos fez morrer por mim. Se eu perdia vossa graça, Vós não perdestes o poder de ma restituir. Tende, pois, piedade de mim! Perdoai-me e dai-me a graça de Vos amar, porque prometo de hoje em diante não querer amar senão a Vós.

Ó meu querido Redentor, entre tantas criaturas possíveis escolhestes-me para Vos amar; eu também Vos escolho, ó Bem supremo, para Vos amar sobre todas as coisas. Vós ides adiante com a vossa cruz: não quero deixar de seguir-Vos com a cruz que queirais dar-me a carregar. Abraço todas as mortificações e trabalhos, que me sejam enviados por Vós. Contanto que não me priveis de vossa graça e me façais morrer uma boa morte, estou satisfeito. — Maria, minha esperança, obtende-me de Deus a perseverança e a graça de amá-Lo, e não vos peço mais nada.

 Sábado da terceira semana da Páscoa

Do amor que São José teve a Jesus e Maria

Iacob autem genuit Ioseph, virum Mariae, de qua natus est Iesus – “Jacó gerou a José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus” (Mt 1, 16)

Sumário. A longa familiaridade de pessoas amantes faz muitas vezes resfriar o amor, porque, quanto mais tratam uns com outros, tanto mais conhecem os defeitos mútuos. Mas não foi assim com São José. Quanto mais convivia com o divino Redentor e com a Santíssima Virgem, tanto mais chegou a conhecer-lhes a santidade. Concluamos disso quanto devia amar aqueles queridos penhores de seu coração, gozando tão longos anos a sua companhia. Roguemos ao santo Patriarca, que nos comunique uma parte de seu amor a Jesus e Maria; e ao mesmo tempo esforcemo-nos por imitá-lo, pela consideração de suas grandezas.

I. Considera em primeiro lugar o amor que José teve a Jesus. Já que Deus destinou o Santo a servir de pai ao Verbo humanado, com certeza infundiu-lhe no coração um amor de pai, e de pai de um filho tão amável, e que ao mesmo tempo era Deus. O amor de José não foi, portanto, um amor puramente humano, como o dos outros pais, mas um amor sobre-humano, visto que na mesma pessoa via seu Filho e seu Deus.

Bem sabia José, pela certa revelação divina recebida do Anjo, que o Menino, que via continuamente em sua companhia, era o Verbo divino, feito homem por amor dos homens, mas especialmente dele. Sabia que o Verbo mesmo o havia escolhido entre todos para guarda de sua vida que queria ser chamado seu Filho. Considera, de que incêndio de amor não devia estar abrasado o coração de José, ao considerar tudo isso e ao ver seu Senhor, que lhe servia como oficial, ora abrindo e fechando a loja, ora ajudando-o a serrar a madeira, ora manejando a plaina ou o machado, ora ajuntando os cavacos e varrendo a casa; numa palavra, que lhe obedecia em tudo que lhe mandava, e não fazia nada sem o consentimento daquele que considerava como seu pai.

Que afetos não deviam ser despertados no coração de José, quando o tinha nos braços, o acariciava, ou recebia as carícias daquele doce Menino! Quando escutava as palavras de vida eterna, que foram como outras tantas setas a ferirem-lhe o coração! Especialmente quando observava os santos exemplos de todas as virtudes que o divino Menino lhe dava! — A longa convivência de pessoas que se amam mutuamente, muitas vezes resfria o amor; porque, quanto mais convivem, tanto mais descobrem mutuamente os defeitos. Não foi assim com São José: quanto mais convivia com Jesus, tanto mais lhe descobria a santidade. Conclui disso, quanto deve ter amado a Jesus, cuja companhia gozou, na opinião dos autores, pelo espaço de vinte e cinco ou trinta anos!

II. Considera em segundo lugar o amor que São José teve à sua santa Esposa. Era ela a mais perfeita entre todas as mulheres, a mais humilde, a mais mansa, a mais pura, a mais obediente e a mais amante de Deus, como nunca houve nem haverá outra entre todos os homens e anjos. Era, pois, merecedora de todo o amor de José, que era tão amante da virtude. Acrescenta a isso o amor com que se via amado por Maria, que certamente preferia no amor seu Esposo a todas as criaturas. José considerava-a como a predileta de Deus, escolhida para ser Mãe do Filho unigênito. Considera quão grande devia, por todos estes títulos, ser o afeto que o coração justo e grato de José devia nutrir para com a sua Esposa amabilíssima.

Meu santo Patriarca, alegro-me com vossa ventura e grandeza, por serdes julgado digno da convivência com Maria Santíssima e de governar como pai a Jesus e de vos fazer obedecer por aquele a quem o céu e a terra obedecem. Ó meu Santo, visto como um Deus vos quis servir, também eu quero pôr-me no número de vossos servos. De hoje em diante quero servir-vos, honrar-vos e amar-vos como a meu senhor. Aceitai-me debaixo de vosso patrocínio e ordenai-me o que quiserdes. Sei que tudo que me queirais impor será para meu bem e para glória de meu e vosso Redentor. São José, rogai a Jesus por mim. Ele certamente não vos negará nada, depois de ter obedecido na terra a todas as vossas vontades. Dizei-Lhe que me perdoe as ofensas que Lhe tenho feito. Dizei-Lhe que me desprenda das criaturas e de mim mesmo, que me abrase em seu amor e depois faça de mim conforme a sua vontade. — E vós, ó Maria Santíssima, pelo amor que vos teve São José, acolhei-me debaixo do vosso manto e rogai a vosso santo Esposo que me aceite como seu servo.

Meu querido Jesus, Vós que para pagar as minhas desobediências, quisestes humilhar-Vos e obedecer a um homem, suplico-Vos pela obediência que na terra mostrastes a São José, concedei-me a graça de obedecer de hoje por diante a todos os vossos divinos desejos. Pelo amor que tivestes a José e pelo que ele Vos teve, dai-me um grande amor a Vós, bondade infinita, digna de ser amada de todo o coração. Esquecei as injúrias que Vos fiz e tende piedade de mim. Amo-Vos, Jesus, meu amor, amo-Vos, meu Deus, e quero amar-Vos sempre.
4ª parte

 Quarta Semana da Páscoa

Domingo: O pensamento da eternidade

Segunda-feira: Da tibieza

Terça-feira: O nada dos bens do mundo

Quarta-feira: A salvação é a única coisa necessária

Quinta-feira: A igreja onde está Jesus Sacramentado é o santuário mais augusto

Sexta-feira: Quem ama Jesus Cristo deve odiar o mundo

Sábado: Maria Santíssima, modelo de pobreza

 Quarto Domingo da Páscoa

O Pensamento da Eternidade

Cogitavi dies antiquos, et annos aeternos in mente habui – “Pensei nos dias antigos, e tive na mente os anos eternos” (Sl 76, 6)

Sumário. Feliz de quem vive tendo sempre em mira a eternidade e pensa que em breve o paraíso ou o inferno será a morada de sua alma! Este pensamento infundiu a milhões de mártires a coragem para darem a sua vida por Jesus Cristo; fez tantos jovens, mesmo príncipes e reis, encerrarem-se nos claustros. Quanto mais eficaz não será, pois, para nos desprender dos miseráveis bens da terra e fazer-nos carregar com paciência as cruzes que Deus nos envia? Quem pensa na eternidade e não se converte a Deus, perdeu ou o juízo ou a fé.

I. O pensamento da eternidade é chamado por Santo Agostinho o grande pensamento: Magna cogitatio. Este pensamento fez com que todos os tesouros e grandezas da terra se afigurassem aos santos como que palhas, lodo, fumo e monturo. Este pensamento inspirou tantos anacoretas a retirarem-se para desertos e grutas, tantos jovens nobres e mesmo reis e príncipes reinantes a encerrarem-se nos claustros. Este pensamento deu a tantos mártires coragem para sofrer os cavaletes, as unhas de ferro, as grelhas em brasa e a morte pelo fogo.

Não, não é para esta terra que fomos criados; o fim para o qual Deus nos pôs neste mundo, é que pelas nossas boas obras mereçamos possuir a vida eterna: Finem vero, vitam aeternam (1) — “E por fim a vida eterna”. Pelo que Santo Euquério disse que o único negócio em que devemos cuidar na vida presente , é a eternidade. Se assegurarmos este negócio, seremos felizes para sempre; se o errarmos, seremos para sempre infelizes.

Feliz de quem vive tendo sempre em mira a eternidade, pela fé viva que dentro em breve tem de morrer e entrar na eternidade! Iustus ex fide vivit (2) — “O justo vive pela fé”. A fé faz o justo viver na graça de Deus, dá vida à alma desprendendo-a dos afetos terrenos, e lembrando-lhe os bens eternos que Deus promete aos que O amam. — Dizia Santa Teresa que todos os pecados provêem da falta de fé. Pelo que, a fim de vencermos as paixões e as tentações, é mister que frequentemente avivemos a nossa fé, dizendo: Credo vitam aeternam — “Creio na vida eterna”. Creio que depois desta vida, que em breve acabará para mim, há a vida eterna, ou cheia de gozos ou cheia de sofrimentos, uma das quais me tocará segundo os meus méritos ou deméritos. Costumava por isso Santo Agostinho dizer que o que crê na eternidade e não se converte a Deus, perdeu o juízo ou a fé.

II. “Ai dos pecadores”, exclama São Cesário, “ai daqueles que entram na eternidade sem a terem conhecido, por não terem querido pensar nela! Ó infelizes! Para eles a porta do inferno se abrirá para os deixar entrar, não para os deixar sair.” Santa Teresa repetia às suas religiosas: Minhas filhas, uma alma, uma eternidade! Queria dizer: Minhas filhas, temos uma só alma; perdida esta, tudo está perdido; e perdida esta uma vez, está perdida para sempre. Numa palavra, de nosso último suspiro na hora da morte dependerá, se seremos felizes para sempre, ou para sempre em desespero.

Roguemos, pois, ao Senhor, que nos aumente a fé: Domine, adauge fidem (3) — “Senhor, aumentai a minha fé”, porquanto, se não estivermos firmes na fé, tornar-nos-emos piores do que um Lutero ou um Calvino. Ao contrário, um vivo pensamento da eternidade que nos espera, pode fazer-nos santos. — Quando tivermos que sofrer alguma enfermidade ou perseguição, lembremo-nos do inferno, que temos merecido pelos nossos pecados. Desta maneira toda a cruz se nos afigurará leve, e daremos graças ao Senhor dizendo: Misericordiae Domini, quia non sumus consumpti (4) — “Misericórdias são do Senhor o não termos sido consumidos”. Digamos também com Davi: Se o Senhor não se tivesse compadecido de mim, estaria eu no inferno desde o dia em que O ofendi pelo pecado mortal (5). Eu já estava pedido, mas Vós, ó Deus de misericórdia, estendestes para mim a vossa mão e me tirastes do inferno: Tu autem eruisti animam meam, ut non periret (6) — “Tu livraste a minha alma para ela não perecer”.

Meu Deus, Vós sabeis quantas vezes tenho merecido o inferno; mas apesar disso, quereis que tenha confiança, e quero esperar em Vós. Os meus pecados me atemorizam, mas a vossa morte e a promessa de perdoardes a quem se arrepende inspiram-me confiança. Nos tempos passados Vos desprezei, mas agora amo-Vos sobre todas as coisas e detesto mais que todos os outros males, o ter-Vos ofendido. Meu Jesus, tende piedade de mim; Maria, Mãe de Deus, intercedei por mim. “Ó Deus, que com a luz da vossa verdade iluminais aos que erram, para que possam tornar ao caminho da justiça, concedei a todos os cristãos, que rejeitem quanto se opõe à santidade deste nome, e sigam quanto com ele se conforma” (7).

Referências:

(1) Rm 6, 22
(2) Gl 3, 11
(3) Lc 17, 5
(4) Lm 3, 22
(5) Sl 93, 17
(6) Is 38, 17
(7) Or. Dom. curr.

 Segunda-feira da quarta semana da Páscoa

Da Tibieza

Quia tepidus es, et nec frigidus nec calidus, incipiam te evomere ex ore meo – “Porque és morno, e nem frio nem quente, começarei a vomitar-te da minha boca” (Ap 3, 16)

Sumário. A verdadeira tibieza consiste em que a alma cai em pecados veniais plenamente voluntários, dos quais pouco se arrepende, e que menos ainda se esforça por evitar, dizendo que são coisas de pouca monta. Temamos cair nesta tibieza, porque é semelhante à febre héctica, que não inspira muito cuidado, mas é tão maligna que não deixa quase esperança de cura. Infeliz da alma que faz as pazes com os pecados, posto que leves; a desgraçada irá de mal a pior. Sendo ela tão avarenta para com Deus, como pode pretender que o Senhor seja liberal para com ela?

I. Há duas espécies de tibieza, uma inevitável, outra evitável. A inevitável é a da qual na vida presente nem conseguem isentar-se as almas espirituais, que pela fragilidade humana não podem evitar que não caiam de vez em quando, sem vontade plenamente deliberada, em alguma falta leve. Desta espécie de culpas nenhum homem pode ficar livre sem uma graça especialíssima, que foi somente concedida à Mãe de Deus, porque a nossa natureza humana ficou corrompida pelo pecado original. – Deus permite tais manchas até mesmo nos Santos, para conservá-los humildes. Muitas vezes sentem-se estes frios, aborrecidos e desgostosos em seus exercícios de devoção, e em semelhante tempo de aridez caem facilmente em muitos defeitos, ao menos indeliberados.

Quem estiver em tal estado, não omita as suas devoções habituais, nem perca o ânimo, nem creia que já caiu na tibieza, porque isso não é propriamente tibieza. A tibieza verdadeira e deplorável é a que faz a alma cair em pecados veniais plenamente refletidos, de que quase não se arrepende e que se esforça menos ainda por evitar, sob o pretexto de que são coisas de pouca monta o ofender a Deus? Dizia Santa Teresa a suas religiosas: Minhas filhas, Deus vos livre do pecado cometido refletidamente, por leve que ele seja.

Dizem: os pecados veniais não nos privam da graça de Deus. Quem fala desta maneira, está em grande perigo de ver-se um dia cair em pecado mortal e privado da graça divina. Escreve São Gregório, que quem cai em pecados veniais deliberados e habituais sem fazer caso deles e sem pensar em emendar-se, nunca para no sítio em que caiu, mas afinal cairá no precipício: Nunquam illic anima quo cadit iacet. – As enfermidades mortais não provêm sempre de graves desordens, mas de muitas desordens leves e continuadas. Do mesmo modo a queda de certas almas em pecados graves, muitas vezes provem do hábito de pecar venialmente, pois este torna a alma tão débil, que, quando assaltada por alguma tentação mais forte, não tem força para resistir, e cai.

II. Que spernit modica, paulatim decidet (1) – “Quem despreza as coisas pequenas, de pouco a pouco cairá”. Quem não faz caso das quedas leves, facilmente se verá um dia caído num precipício. Diz o Senhor: Porque és tépido, começarei a vomitar-te de minha boca (2). Estou a vomitar-te, quer dizer, para abandonar-te, ou ao menos te privarei dos auxílios divinos especiais que são necessários para te conservar na graça. – Compreendamos bem este ponto. O Concílio de Trento condena àquele que diz que nós podemos perseverar na graça sem um auxílio especial e extraordinário de Deus; mas este auxílio especial Deus o negará com justiça àquele que comete de olhos abertos pecados veniais, sem fazer caso deles. Qui parce seminat parce et metet (3) – “Quem pouco semeia, pouco colhe”. Se nós formos avarentos para com Deus, como podemos esperar que Deus seja liberal para conosco?

Infeliz, portanto, da alma que fez as pazes com os pecados, posto que veniais; irá de mal a pior. As paixões, arraigando-se cada vez mais, facilmente obcecarão a alma, e um cego facilmente cairá num precipício, quando menos o suspeita. Temamos, pois, cair na tibieza. A tibieza voluntária é qual febre héctica, que inspira pouco cuidado, mas é tão maligna, que dificilmente dela se sara.

Senhor, tende piedade de mim. Vejo que já mereço ser vomitado por Vós por causa das muitas imperfeições com que Vos sirvo. Ai de mim! É por isso que me vejo sem amor, sem confiança, e sem desejos. Meu Jesus, não me abandoneis; estendei a vossa mão poderosa e tirai-me do abismo da tibieza em que caí. Fazei-o pelos méritos de vossa Paixão, na qual confio. – Virgem Santíssima, os vossos rogos podem levantar-me; rogai por mim (4).

Referências:

(1) Eclo 19, 1
(2) Ap 3, 16
(3) 2 Cor 9, 6
(4) “Posto que seja difícil um tíbio emendar-se, não faltam remédios para os que quiserem usar deles. Estes remédios são:
1. Resolver-se a sair a todo custo de tão lastimoso estado.
2. Fugir das ocasiões das quedas, sem o que não há esperança de emenda.
3. Recomendar-se frequentemente a Deus, pedir-Lhe fervorosamente que dê forças para livrar-se de um estado tão deplorável; e não deixar de rezar, enquanto se não esteja inteiramente fora de todo o perigo.”

 Terça-feira da quarta semana da Páscoa

O nada dos bens do mundo

In manu eius statera dolosa, calumniam dilexit – “Na sua mão está uma balança enganosa; amou a calúnia” (Os 12, 7)

Sumário. É preciso pesar os bens na balança de Deus e não na do mundo enganador. Olhemos não somente os bens que possui tal Senhor, mas atentemos também no que leva consigo na morte. Perguntemos a todos esses ricos, sábios, príncipes e imperadores, que entraram na eternidade e estão queimando no inferno: Que vos restou das pompas, delícias e riquezas gozadas na terra? Todos respondem: “Nada! Os nossos gozos passaram qual sombra, e nada nos resta senão uma eterna desesperação.” Sirva a desgraça dos outros de exemplo para nós!

I. É preciso pesar os bens na balança de Deus e não na do mundo, que é enganadora. Os bens do mundo são desprezíveis, porque não nos satisfazem a alma e acabam depressa. “Os meus dias”, dizia lamentando o santo homem Jó (1), “foram mais velozes do que um cursor; passaram como navios carregados de frutos, como uma águia que se precipita sobre a presa.” Com efeito, os dias de nossa vida passam e fogem, e que nos fica por fim dos gozos da terra? Pertransierunt quase naves – “Passaram como navios”. Os navios não deixam nenhum vestígio da sua passagem; sulcam as ondas agitadas do mar, mas pouco depois já não se vê vestígio algum, nem mesmo o sulco que a sua quilha abriu nas ondas.

Peguntemos a tantos ricos, sábios, príncipes e imperadores, que já entraram na eternidade, o que lhes ficou das pompas, delícias e grandezas gozadas nesta terra. Todos respondem: “Nada! Absolutamente nada!” Ó homem, exclama Santo Agostinho, quid hic habet attendis; quid secum fert atende. Vós vos limitais a contemplar os bens que no mundo possuiu aquele grande senhor; atentai antes no que leva consigo na hora da morte. O que é senão um cadáver infecto e uma mortalha, ambos sujeitos à mesma podridão?

Quando morre algum dos grandes do mundo, apenas se fala dele algum tempo, para logo depois cair no ouvido: Periit memoria eorum cum sonitu (2) – “A sua memória pereceu como som”. E se porventura estes desgraçados caem no inferno, que fazem ali, que dizem? Choram e dizem: Quid profuit nobis superbia aut divitiarum iactantia? – Que fruto colhemos do fausto e das riquezas? Tudo passou como sombra, e só nos resta a mágoa, o pesar e a desesperação eterna. Transierunt omnia illa tamquam umbra (3).

II. Filii huius saeculi prudentiores filiis lucis sunt (4) – “Os filhos deste século são mais prudentes do que os filhos da luz”. Coisa maravilhosa! Quão grande é a prudência dos mundanos no que diz respeito às coisas da terra! Que passos não dão para adquirirem um emprego, uma fortuna! Quantos cuidados têm para conservarem a saúde do corpo! Escolhem os meios mais apropriados, o mais hábil médico e os melhores remédios, o mais puro ar. Mas que descuido no que diz respeito à alma! E no entanto é certo que a saúde, as dignidades, as riquezas devem acabar um dia, ao passo que a alma e a eternidade não acabarão nunca.

Consideremos além disso, diz Santo Agostinho, no muito que os homens sabem sofrer para coisas amadas pecaminosamente. Que não sofre o vingativo, o ladrão, o licencioso para alcançar o seu pravo intento? E depois para a alma nada querer sofrer!

Meu Jesus, agradeço-Vos por me terdes feito conhecer a vaidade do mundo. Abomino e detesto sobre todos os males as ofensas que Vos fiz, e com o vosso auxílio proponho antes morrer mil vezes do que tornar a ofender-Vos. Ó Pai eterno, tende piedade de mim pelo amor de Jesus Cristo. Olhai para vosso Filho morto sobre a cruz. Sanguis eius super nos (5). – Venha sobre mim esse divino Sangue para lavar a minha alma. Ó Rei de meu coração: adveniat regnum tuum (6) – venha a mim o vosso reino. Estou resolvido a repelir todo afeto que não seja para Vós. Amo-Vos sobre todas as coisas; vinde a reinar só em minha alma; fazei que Vos ame e não ame senão a Vós. Desejo agradar-Vos o mais possível e contentar-Vos plenamente no resto de minha vida.

Ó meu Pai, dignai-Vos abençoar este meu desejo, e dai-me a graça de ficar sempre unido convosco. Consagro-Vos todos os meus afetos, e de hoje por diante quero pertencer só a Vós, meu tesouro, minha paz, minha esperança, meu amor, meu tudo; espero tudo de Vós pelos méritos de vosso Filho. – Minha Rainha e Mãe, Maria, valei-me com a vossa intercessão. Mãe de Deus, rogai por mim.

Referências:

(1) Jo 9, 25-26. Cf. Sb 5, 10
(2) Sl 9, 7
(3) Sb 5, 9
(4) Lc 16, 18
(5) Mt 27, 25
(6) Mt 6, 10

 Quarta-feira da quarta semana da Páscoa

A salvação é a única coisa necessária

Porro unum est necessarium – “Uma só coisa é necessária” (Lc 10, 42)

Sumário. Não é preciso que neste mundo sejamos cumulados de dignidades, que tenhamos riquezas, boa saúde, gozos terrestres; é necessário tão somente que nos salvemos. Não há meio termo: se não nos salvarmos, seremos condenados; estaremos ou sempre felizes no céu, ou sempre infelizes no inferno! Por isso avisa-nos o Senhor, que amontoemos tesouros, já não neste mundo, mas no céu, onde a ferrugem e os vermes não os consomem, nem os desenterram e roubam os ladrões.

I. Não é necessário que neste mundo sejamos cumulados de dignidades, que tenhamos riquezas, boa saúde e gozos terrestres; mas necessário é que nos salvemos. Não há meio termo: se não nos salvarmos, seremos condenados. Depois desta breve vida seremos ou para sempre felizes no paraíso, ou para sempre desgraçados no inferno.

Quantos mundanos, que outrora gozaram abundância de riquezas e honras, foram elevados às mais altas dignidades, quiçá a tronos, estão agora no inferno! Ali todas as prosperidades gozadas neste mundo só lhes servem para sua maior dor e desesperação. – Eis o que nos avisa o Senhor: Nolite thesaurizare vobis thesauros in terra – Não queirais ajuntar tesouros na terra; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem a ferrugem e os vermes, e onde os ladrões não os desenterram nem roubam (1). Todos os bens terrestres se perdem na hora da morte; mas os bens espirituais são tesouros incomparavelmente mais preciosos e duram eternamente.

Deus manifestou-nos a vontade de que todos sejam salvos, e a todos dá o auxílio para se salvarem. Quem se perder, perder-se-á por culpa própria, e isto será a sua pena mais grave no inferno. Vindicta carnis impii, ignis et vermis (2) – “A vingança da carne do ímpio será o fogo e o verme”. O fogo e o verme roedor (isto é, o remorso da consciência), serão os algozes do réprobo para vingança de seus pecados; mas o verme roedor o atormentará eternamente muito mais que o fogo. – Que dor não causa neste mundo a perda de um objeto de valor, de um diamante, de um relógio, de uma bolsa com dinheiro, mormente quando a perda se deu por descuido próprio? A lembrança da perda faz perder o apetite e o sono, posto que haja esperança de remediá-la de outra maneira. Qual não será então o tormento do réprobo ao lembrar-se que por sua culpa própria perdeu o seu Deus e o paraíso, sem esperança de poder ainda possuí-los?

II. Ergo erravimus (3) – “Logo nos extraviamos do caminho”. Eis aí o que fará os desgraçados réprobos chorarem eternamente: extraviamo-nos do caminho perdendo-nos voluntariamente, e não há mais remédio para o nosso erro. Para todas as desgraças que nos podem sobrevir neste mundo, acha-se com o tempo algum remédio, ou na mudança das circunstâncias ou ao menos na santa resignação à vontade divina. Mas chegados que formos à eternidade, nenhum remédio nos poderá valer, se para desgraça nossa tivéssemos errado o caminho do céu.

Por isso exorta-nos o apóstolo São Paulo a que nos empenhemos na obra da salvação com temor e tremor, isto é, com medo de a perdermos: Cum metu et tremore vestram salutem operamini (4). Este medo fará com que andemos com cautela no caminho do céu e fujamos das ocasiões perigosas e nos recomendemos continuamente a Deus, e deste modo sermos salvos. Roguemos ao Senhor, queira gravar bem fundo em nosso espírito este pensamento, que do último suspiro na hora da morte dependerá o sermos eternamente bem-aventurados ou eternamente desgraçados sem esperança de remédio.

Ó meu Deus, tenho muitas vezes desprezado a vossa graça; mas o Profeta assegura-me que sois misericordioso para com aquele que Vos procura: Bonus est Dominus animae quaerenti illum (5). Outrora fugia de Vós, mas agora Vos procuro; não desejo e não amo senão a Vós; por piedade, não me desprezeis, lembrai-Vos do sangue que por mim derramastes. Esse sangue e a vossa intercessão, ó Mãe de Deus, Maria, são todas as minhas esperanças.

Referências:

(1) Mt 6, 19
(2) Eclo 7, 19
(3) Sb 5, 6
(4) Fl 2, 12
(5) Lm 3, 25

 Quinta-feira da quarta semana da Páscoa

A igreja onde está Jesus Sacramentado é o santuário mais augusto

Elegi et sanctificavi locum istum, ut… permaneant oculi mei et cor meum ibi cunctis diebus – “Escolhi e santifiquei este lugar… para nele estarem fixos os meus olhos, e o meu coração, em todo o tempo” (2 Cr 7, 16)

Sumário. Os peregrinos experimentam grande ternura em visitar a Casa Santa de Loreto, ou os lugares da Terra Santa onde Jesus nasceu, habitou, morreu e foi sepultado. Muito maior, porém, deve ser a nossa devoção quando estamos numa igreja em presença de Jesus Cristo mesmo, oculto no Santíssimo Sacramento. Com efeito, não há santuário mais devoto e consolador do que uma igreja a na qual está Jesus sacramentado. Todavia a maior parte dos homens o deixam quase sempre só e abandonado!

I. Oh! Que ternura experimentam os peregrinos ao visitar a Casa Santa de Loreto ou os lugares da Terra Santa, a Gruta de Belém, o Calvário, o santo Sepulcro, onde Jesus habitou, morreu, foi sepultado! Mas quanto mais terna não deve ser a nossa devoção quando nos achamos numa igreja, em presença do próprio Jesus, que está no Santíssimo Sacramento! Costumava o Bem-aventurado João de Ávila dizer que não conhecia santuário mais devoto e mais consolador do que uma igreja na qual se acha Jesus sacramentado. Por sua vez o Padre Balthazar Alvares chorava ao ver os palácios dos grandes cheios de gente, e as igrejas, onde está Jesus Cristo, vazias e abandonadas.

Meu Deus! Se o Senhor se tivesse deixado ficar em uma só igreja da terra, por exemplo, na de São Pedro em Roma, e ali quisesse dar audiência só num dia do ano, quantos peregrinos, quantos personagens grandes, quantos monarcas procurariam ter a ventura de se achar ali em tal dia, afim de prestarem homenagem ao Rei do céu, voltado à terra! Que tabernáculo precioso, de ouro e ornado de pedrarias não lhe seria preparado! Com que profusão de luzes não se havia de solenizar em tal dia a permanência de Jesus Cristo! Mas não, diz o Redentor, não quero morar em uma só igreja, nem por um dia do ano somente; não exijo tamanha riqueza nem tantas luzes; quero morar continuamente em todos os tempos e lugares, onde quer que vivam os meus fiéis, afim de que todos me achem com facilidade e sempre, na hora que quiserem.

Ah! Se Jesus Cristo não tivesse concebido tão grande fineza de amor, quem jamais pudera excogitá-la? – Se na Ascensão do Senhor ao céu alguém Lhe tivesse digo: Senhor, se quereis demonstrar-nos o vosso amor, ficai conosco sobre os altares debaixo das espécies de pão, afim de que possamos achar-Vos quando quisermos; não seria semelhante pergunta tida por excessivamente temerária? Mas o que nenhum homem podia imaginar, o nosso Salvador o excogitou e executou.

II. Grande Deus! Como correspondem os homens a um Deus que parece como que enlouquecido pelo amor que lhes tem?… Ao menos tu, meu irmão, procura com a tua devoção dar desagravo de tamanha ingratidão, e, quanto o permite a tua condição, procura com palavras e exemplos excitar os outros a visitarem frequentes vezes o grande Santuário, onde se acha Jesus Cristo presente em pessoa.

Ó Jesus, meu Redentor, ó amor de minha alma, quanto Vos custou o desejo de morardes conosco nesse Sacramento! Primeiro Vos foi preciso sofrer a morte, antes de poder residir em nossos altares, e depois devíeis sofrer tantos ultrajes nesse Sacramento para nos dardes as vantagens de vossa presença! E nós, entretanto, tão lentos e descuidados somos em visitar-Vos, embora saibamos que desejais nossas visitas, para nos cumulardes de bens, quando estamos na vossa presença. Perdoai-me, Senhor, pois que eu também sou do número desses ingratos. De agora em diante quero visitar-Vos freqüentemente e ficar na vossa presença o mais que puder, para Vos oferecer meus agradecimentos, testemunhar meu amor e pedir vossas graças, pois é para isto que ficastes na terra, encerrado nos tabernáculos, feito nosso prisioneiro de amor.

Amo-Vos, ó bondade infinita; amo-Vos, ó Deus de amor; amo-Vos, ó Bem supremo, o mais amável de todos os bens. Fazei com que me esqueça de mim mesmo, me esqueça de tudo, para não pensar senão no vosso amor e empregar todo o tempo de vida que me resta em dar-vos gosto. Fazei com que no futuro não tenha maiores delícias do que em ficar a vossos pés. Abrasai-me todo no vosso santo amor! – Ó Maria, minha Mãe, obtende-me um grande amor ao Santíssimo Sacramento; e quando me virdes cair na negligência, recordai-me a promessa que faço, agora, de ir visitá-lo todos os dias.

 Sexta-feira da quarta semana da Páscoa

Quem ama Jesus Cristo deve odiar o mundo

Mihi autem absit gloriari nisi in cruce Domini nostri Iesu Christi, per quem mihi mundus crucifixus est et ego mundo – “Longe esteja de mim o gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6, 14)

Sumário. Jesus Cristo quis morrer crucificado para nos livrar do amor ao mundo perverso. Tendo-nos chamado ao seu amor, quer que nos coloquemos acima das promessas e ameaças do mundo. Quer que não façamos caso nem das censuras do mundo nem das suas aprovações, e nos alegremos por sermos odiados e perseguidos como o próprio Jesus. Para alcançarmos um fim tão elevado, habituemo-nos a prever já de manhã as contrariedades e os desprezos que nos possam vir do correr do dia, e preparemo-nos para os sofrer com paciência.

I. Quem ama a Jesus Cristo com amor verdadeiro, alegra-se quando se ve tratado pelo mundo assim como foi tratado Jesus Cristo, que por ele foi odiado, vituperado e perseguido até morrer de dor, suspenso num patíbulo infame. – O mundo é diametralmente oposto a Jesus Cristo: e por isso, odiando a Jesus, odeia a todos os que o servem. Pelo que o Senhor animava os seus discípulos a sofrerem com paz as perseguições, dizendo-lhes que, já que tinham abandonado o mundo, não podiam deixar de ser dele odiados (1).

Ora, como as almas amantes de Deus são para o mundo objeto de ódio, assim o mundo deve ser objeto de ódio para quem ama a Deus. Dizia São Paulo: Mihi absit gloriari nisi in cruce Domini nostri Iesu Christi, per quem mihi mundus crucifixus est et ego mundo – “Esteja longe de mim o gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”. O mundo abominava o Apóstolo, assim como se abomina um homem condenado e morto na cruz; mas de igual maneira São Paulo abominava o mundo: mihi mundus crucifixus est. – Jesus quis morrer crucificado pelos nossos pecados, para livrar-nos do amor ao mundo perverso (2). Já que Jesus nos chamou ao seu amor, quer que nos coloquemos acima das promessas e das ameaças do mundo. Quer que não façamos mais caso nem de suas censuras, nem de suas aprovações.

Afim de chegarmos ali, representemo-nos, na nossa meditação, todos os desprezos, contrariedades e perseguições que nos possam sobrevir, e ofereçamo-nos com grande coragem a sofrê-los por amor de Jesus Cristo, não somente em paz, mas também com alegria de espírito. Procedendo desta maneira, estaremos na ocasião mais dispostos a aceitá-los. Mas sobretudo devemos pedir a Deus, que nos faça esquecer inteiramente o mundo, e alegrarmo-nos quando nos virmos rejeitados pelo mundo.

II. Para que sejamos inteiramente de Deus, não basta que nós abandonemos o mundo; é além disso mister desejarmos que o mundo nos abandone e nos esqueça de todo. Alguns abandonam o mundo, mas não deixam de querer ser por ele louvados, ainda que seja só pelo terem abandonado. Alimentado este desejo de serem estimados pelo mundo, fazem com que o mundo ainda viva neles.

Como o mundo odeia os servos de Deus, e odeia por isso os seus bons exemplos e máximas santas, assim nós devemos odiar todas as máximas do mundo, como sejam: bem-aventurado o rico; bem-aventurado o que não sofre e se diverte, infeliz o que é maltratado e perseguido dos outros! Numa palavra, se desejamos agradar a Deus só, devemos viver em contínua desavença com o mundo, que, na palavra do Apóstolo, não pode deixar de ser inimigo de Deus (3).

Sim, meu Jesus crucificado e morto por mim, só a Vós quero agradar. Que mundo, que riquezas, que dignidades! Quero que Vós, meu Redentor, sejais todo o meu tesouro; a minha riqueza é o amar-Vos. Se me quereis pobre, quero ser pobre; se me quereis humilhado, enfermo e desprezado de todos, aceito tudo de vossas mãos; a vossa vontade será sempre a minha única consolação. Mas eis aqui a graça que Vos peço: fazei que em tudo quanto me acontecer, eu me não afaste, nem sequer uma linha, da vossa santa vontade, e Vos ame de todo o meu coração.

Sei que não mereço esta graça depois de Vos ter virado tantas vezes as costas pelo amor das criaturas, mas, meu Senhor, Vós dissestes que não sabeis desprezar um coração contrito e humilhado, e eu arrependo-me de todo o coração e quisera morrer de dor. – Atendei-me, meu Jesus, fazei que nunca me afaste da vossa santa vontade e Vos ame de todo o coração. Esta mesma graça vos peço, ó grande Mãe de Deus e minha Mãe, Maria

Referências:

(1) Jo 15, 19
(2) Gl 1, 4
(3) Rm 8, 7

 Sábado da quarta semana da Páscoa

Maria Santíssima, modelo de pobreza

Si vis perfectus esse, vade, vende quae habes, et da pauperibus; …et veni, sequere me – “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobre; …depois vem, e segue-me” (Mt 19, 21)

Sumário. O divino Redentor, para nos ensinar a desprezar os bens do mundo, quis sempre ser pobre nesta terra. E a Santíssima Virgem seguiu-lhe o exemplo, mostrando-se a sua discípula mais perfeita, porque ela também nasceu, viveu e morreu na maior pobreza. Somos nós também amantes de tão bela virtude e dos incômodos que a acompanham?… Esforcemo-nos a todo custo por imitar a nossa querida Mãe, lembrando-nos de que o que ama as comodidades e as riquezas, nunca será santo.

I. O nosso amoroso Redentor, para nos ensinar a desprezar os bens mundanos, quis ser pobre neste mundo. Por isso Jesus exorta a todo aquele que queira segui-Lo a que venda todos os seus haveres e distribua o produto entre os pobres: Si vis perfectus esse, vade, vende quae habes, et da pauperibus… et veni, sequere me – “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres… depois vem e segue-me”. Eis como Maria, a sua discípula mais perfeita, lhe seguiu exatamente o exemplo. Afirma o bem-aventurado Canisio, que a Santíssima Virgem, com a herança de seus pais, teria podido viver muito comodamente, mas preferiu ficar pobre, reservando para si uma pequena parte, e distribuindo o mais em esmolas ao templo e aos pobres.

Querem muitos escritores que Maria tivesse feito também voto de pobreza, e sabe-se que ela mesma revelou a Santa Brígida, que desde o principio de sua vida prometera no coração nunca possuir alguma coisa no mundo: A principio vovi in corde meo, nihil umquam possidere in mundo. – Os dons que recebeu dos santos Magos não foram certamente de pouco valor, mas distribuiu-os todos aos pobres, como atesta São Bernardo. Isto se deduz também de que ela, indo ao templo, não ofereceu o cordeiro, que era a oferta das pessoas abastadas (1), mas duas rolas ou dois pombinhos (2), a oferta dos pobres. Maria mesma disse a Santa Brigida:

“Tudo o que podia obter, eu dava-o aos pobres, e não reservei nada para mim, senão um tênue alimento e o vestido.”

Por amor à pobreza a Virgem não duvidou desposar-se com um pobre oficial, qual foi São José, e depois sustentar-se com o trabalho de suas mãos, fiando ou cosendo, como atesta São Boaventura. Numa palavra, as riquezas do mundo foram para Maria como que lodo, e ela sempre viveu pobre e morreu pobre. Na morte não se sabe que deixasse outra coisa além de duas pobres vestes, que deu a duas mulheres que a haviam servido em vida (3).

II. Quem ama os bens do mundo, nunca se fará santo, dizia São Filipe Neri. E Santa Teresa acrescentava: É justo que quem vai atrás das coisas perdidas, também se perca. por outro lado, dizia a mesma Santa que a virtude de pobreza é um bem que encerra todos os outros bens. – Disse a virtude de pobreza, a qual, como observa São Bernardo, não consiste em ser somente pobre, mas em amar a pobreza. Pelo que Jesus Cristo disse: Beati pauperes spiritu – “Bem-aventurados os pobres de espírito” (4). Bem-aventurados, sim, porque aqueles que não querem senão a Deus, em Deus acham todos os bens, e encontram na pobreza o seu paraíso na terra.

Amemos, pois, aquele único bem em que se acham todos os bens, conforme exortava Santo Agostinho, e peçamos ao Senhor com Santo Ignácio: Meu Deus, dai-me somente o vosso amor com a vossa graça, e sou bastante rico. E quando nos aflige a pobreza, consolemo-nos com o pensamento que Jesus e sua divina Mãe foram também pobres como nós.

Ah, minha Mãe Santíssima, bem tivestes razão de dizer que em Deus estava a vossa alegria: Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo (5) – “E meu espírito alegrou-se em Deus meu Salvador”, porque neste mundo não ambicionastes nem amastes outro bem senão Deus. Trahe me post te (6). Senhora, desapegai-me do mundo e arrastai-me atrás de vós, para amar só àquele que só merece ser amado.

– E Vós, ó meu Jesus, vinde pelo vosso amor consumir em mim todos os afetos que não sejam para Vós. Fazei com que no futuro eu não atenda senão a Vós, não pense senão em Vós, não suspire senão por Vós. Fazei, numa palavra, com que imitando a virtude de vossa querida Mãe e minha grande Rainha, eu morra a todos os bens da terra e a todas as minhas inclinações, para não amar senão a vossa bondade infinita e não desejar senão a vossa graça e o vosso amor.

Referências:

(1) Lv 12, 6
(2) Lc 2, 24
(3) Apost. Metaph.
(4) Mt 5, 3
(5) Lc 1 ,47
(6) Ct 1, 3
5ª parte

 Quinta Semana da Páscoa

Domingo: A tristeza os Apóstolos e as desolações espirituais

Segunda-feira: A morte despoja-nos de tudo

Terça-feira: A glória imensa que gozam no céu os religiosos

Quarta-feira: Remorso do condenado: podia salvar-me tão facilmente

Quinta-feira: A Santa Missa é um meio seguro para obter as misericórdias divinas
Sexta-feira: Felicidade de quem se conforma com a vontade de Deus

Sábado: Poder de Maria Santíssima para nos defender nas tentações

 Quinto Domingo da Páscoa

A tristeza os Apóstolos e as desolações espirituais

Expedit vobis, ut ego vadam; si non abiero, Paraclitus non veniet ad vos – “É conveniente a vós que eu vá, porque, se não for, não virá a vós o Paráclito” (Jo 16, 7)

Sumário. Posto que as desolações espirituais sejam a provação mais sensível para as almas amantes de Deus, são também lances da divina Providência para promover o maior proveito espiritual, porquanto deste modo as confirma na virtude e as enriquece com merecimentos. Portanto, se jamais te achares no estado de desolação, imagina-te, para teu consolo, que Jesus Cristo te diz o que disse aos apóstolos, como se refere no Evangelho de hoje: É conveniente para vós que eu me afaste com a minha presença sensível.

I. Os apóstolos que se entristeciam ao saber que dentro em breve Jesus Cristo havia de deixá-los com a sua presença sensível, são uma imagem viva daquelas almas eleitas que se julgam abandonadas por Deus, quando se acham desoladas. Consolem-se, porém, essas pobres almas; porque, ainda que as desolações espirituais sejam a provação mais dolorosa para seu coração, não deixam por isso de ser um lance da divina Providência que só deseja o proveito espiritual. Pode-se-lhes, portanto, dizer o que o Senhor disse aos Apóstolos para os consolar: Expedit vobis ut ego vadam – “É conveniente a vós que eu vá.”

São Bernardo, escrevendo a uma dessas almas desoladas, diz: “Ó esposa, não temas se o Esposo esconde algum tempo o seu rosto; visto que só o faz para teu proveito espiritual.” – Jesus se retira primeiro para ver se o amamos, porquanto o amor se manifesta não tanto em seguir àquele que nos acaricia, como em correr atrás de quem foge de nós, e em servir a Deus à custa própria, quer dizer, com aridez e sem alguma doçura sensível. – Jesus esconde-Se ainda para melhor nos confirmar na virtude. Por meio disto mortifica o nosso amor próprio que se deleitava naquele gosto sensível, chamado por São João da Cruz gula espiritual. Livra-nos do perigo de nos ensoberbecermos e de nos julgarmos acima dos outros por causa daquelas doçuras. Finalmente fornece-nos a ocasião para suspirarmos por Deus e para O procurarmos com maior anseio.

Numa palavra, com as desolações o Senhor nos faz não somente correr, mas voar no caminho da perfeição, e faz-nos adquirir tesouros imensos de merecimentos para o céu. – Digo francamente o que me ensinou a experiência: pouca confiança tenho nas almas que nadam em doçuras espirituais se primeiro não tiverem passado pelo caminho das penas interiores. Acontece não raras vezes que tais almas vão bem enquanto duram as consolações; mas, quando provadas com aridez, largam tudo e entregam-se à vida tíbia.

II. Meu irmão, se vieres a achar-te no estado de desolação, não dês ouvido ao demônio que te sugerirá que Deus te abandonou. Muito menos deves deixar de fazer as tuas orações e mais exercícios espirituais, muito embora experimentes agonias mortais. – Se receias que Deus te está castigando assim pelas tuas infidelidades, aceita o castigo em paz. Entretanto, remove as causas de tua desolação; tira o afeto às criaturas, tira a dissipação de espírito. Numa palavra, no tempo da desolação, deves humilhar-te pensando que mereceste ser tratado assim. Conforma-te com a vontade de Deus, a quem agrada mais o amor terno; e unindo as tuas penas às que Jesus Cristo padeceu no horto e na cruz, dize-Lhe sinceramente: Fiat voluntas tua (1) – “Faça-se a tua vontade.”

Ó meu Pai celestial, se não pode passar este cálice sem que eu o beba, seja feita a vossa vontade! Pobre de mim, ó Senhor, visto que outras trevas, outros tremores, outros abandonos deveriam ser os meus, por causa das injúrias que Vos fiz. Deveria caber-me em sorte o inferno, onde, separado de Vós para sempre, e inteiramente abandonado de Vós, deveria chorar eternamente, sem ainda Vos poder amar. Ó meu Jesus, aceito qualquer pena, mas não esta. Vós sois digno de um amor infinito; demais me obrigastes a Vos amar. Não, não quero viver sem Vos amar. Amo-Vos, Bem supremo; amo-Vos de todo o meu coração, e não quero senão amar-Vos.

Reconheço que esta minha boa vontade é toda uma dádiva da vossa graça. Mas, meu Senhor, completai a vossa obra; amparai-me sempre até à minha morte; dai-me força para vencer as tentações e de me vencer a mim mesmo, e por isso fazei com que sempre me recomende a Vós. – “E Vós, Eterno Pai, concedei-me a graça de amar o que mandais, e de desejar o que prometeis; afim de que, entre as vicissitudes da vida presente, meu coração sempre esteja fixo ali, onde se acham as verdadeiras alegrias.” (2) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e pela intercessão de Maria Saníssima.

Referências:

(1) Mt 26, 42
(2) Or. Dom. curr.

 Segunda-feira da quinta semana da Páscoa

A morte despoja-nos de tudo

Divitias, quas devoravit, evomet, et de ventre illius extrahet eas Deus – “Vomitará as riquezas que devorou, e Deus lh´as fará sair das entranhas” (Jó 20, 15)

Sumário. Os mundanos só consideram felizes os que podem gozar os bens deste mundo, os prazeres, as riquezas e as grandezas. Mas a morte põe fim a todos estes gozos terrestres, porque então tudo se há de deixar. Vê esse grande do mundo, cortejado hoje, temido e quase adorado; amanhã, quando estiver morto, será desprezado de todos, não se fará mais caso de suas ordens; será expulso de seu palácio e atirado a uma cova para apodrecer. Entretanto que será de sua alma?… Desgraçada, se vier a cair no inferno!

I. Os mundanos só consideram felizes aqueles que gozam os bens deste mundo, os prazeres, as riquezas e as grandezas; mas a morte põe fim a todos estes gozos terrestres. Quae est vita vestra? Vapor est ad modicum parens (1) – “Que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco”. Os vapores que a terra exala, erguendo-se ao ar, por efeito dos raios do sol, oferecem às vezes agradável aspecto; que tempo, porém, dura isto? Ao menor vento, tudo desaparece. Vê esse grande mundo, cortejado hoje, temido e quase adorado; amanhã, quando estiver morto, será desprezado, amaldiçoado, calcado aos pés.

Na morte é preciso deixar tudo. O irmão do grande servo de Deus, Thomaz Kempis, felicitava-se de ter construído uma casa magnífica. Houve, porém, um amigo que lhe notou um defeito. Qual é? Perguntou ele. – O defeito, respondeu o amigo, é terdes feito a porta. – O que? Replicou, a porta será um defeito? – Sim, acrescentou o amigo, porque um dia deverás sair por essa porta, morto, e assim deixar a casa e tudo o mais.

Que espetáculo ver arrancar tal grande de seu plácio, para nunca mais entrar nele, e ver outros tomarem posse de seus móveis, de seus tesouros e de todos os seus outros bens! Os criados deixam-no na tumba com um vestido que é apenas suficiente para lhe cobrir o corpo. Já não há quem o estime, nem quem o lisonjeie; já não se faz caso das ordens que deixou. – Saladino, que conquistou muitos reinos da Ásia, ordenou, ao morrer, que quando lhe levassem o corpo para a sepultura, fosse um homem diante do esquife, levando suspensa de uma lança uma mortalha e gritando: Aqui está tudo o que Saladino leva para a cova. Numa palavra, a morte priva o homem de todos os bens deste mundo: Finis venit, venit finis (2) – “O fim vem, vem o fim”.

II. Senhor meu Jesus Cristo, já que me iluminastes para conhecer que tudo que o mundo estima não passa de fumo e loucura, dai-me força para me desapegar dele, antes que dele me separe a morte. Que desgraçado tenho sido! Quantas vezes, por miseráveis prazeres e outros bens da terra, Vos ofendi, a Vós que sois um Bem infinito! Ó meu Jesus, ó médico celeste, lançai os olhos sobre minha pobre alma, olhai as numerosas fendas que me fiz com os meus pecados, e tende piedade de mim. Si vis, potes me mundare (3). Sei que me quereis e podeis curar; mas para me curar quereis que me arrependa das injúrias que Vos fiz. Pois bem, arrependo-me de todo o coração; curai-me agora que me podeis curar: Sana animam meam, quia peccavi tibi (4).

Eu Vos esqueci; mas Vós, Senhor, não me esquecestes; e agora dizeis-me que quereis perdoar-me as injúrias que Vos fiz, se eu as detestar: Omnium iniquitatum eius non recordabor (5). Oh! Detesto-as e abomino-as mais que todos os males. Esquecei, pois, meu Redentor, esquecei todas as amarguras que Vos causei. No futuro quero perder tudo, mesmo a vida, antes que perder a vossa graça. De que me serviriam todos os bens da terra sem a vossa graça?

Ajudai-me, por piedade! Sabeis quanto sou fraco. O inferno não deixará de me tentar; já se prepara para se lançar em mil assaltos contra mim e me tornar de novo seu escravo. Ó meu Jesus, não me abandoneis! Daqui em diante quero ser escravo de vosso amor. Sois o meu único Senhor, Vós me criastes, Vós me resgatastes, Vós me haveis amado mais do que qualquer outro, Vós sois o único digno de ser amado, e a Vós só quero amar. – Ó minha Rainha e Mãe, Maria, ajudai-me com a vossa intercessão, e obtende para mim a santa perseverança.

Referências:

(1) Zc 4, 15
(2) Ez 7, 2
(3) Mt 8, 2
(4) Sl 40, 5

 Terça-feira da quinta semana da Páscoa

A glória imensa que gozam no céu os religiosos

Omnis qui reliquerit domum, vel fratres, aut sorores, aut patrem, aut matre… propter nomem meum, centuplum accipiet, et vitam aeternam possidebit – “Todo o que deixar por amor de meu nome, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe… receberá o centuplo, e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 20)

Sumário. O paraíso é chamado coroa de justiça, porque ali o Senhor premia conforme o merecimento de cada um. Considera, portanto, qual será a glória reservada aos bons religiosos que sacrificaram tudo por amor de Deus e em particular a própria vontade que é o sacrifício mais agradável. Um religioso ganha pela observância de sua regra mais em um mês do que uma pessoa secular ganha num ano inteiro por todas as suas mortificações e orações.

I. Considera em primeiro lugar que o religioso, morrendo em sua ordem, dificilmente se condena. Diz São Bernardo: “É fácil o caminho da cela ao céu. Raras vezes alguém desce da cela ao inferno.” A razão disso é, como diz o Santo, que “dificilmente um religioso persevera até à morte se não é do número dos eleitos ao paraíso”. Pelo que São Lourenço Justiniano chamava a religião porta do paraíso, grande sinal de predestinação.

Considera, além disto, que no dizer do Apóstolo, o paraíso é coroa de justiça; porque Deus, ainda que remunere todas as nossas boas obras mais abundantemente do que elas merecem, todavia premia à proporção dos merecimentos de cada um: Reddet unicuique secundum opera eius (1) – “Retribuirá a cada um segundo as suas obras”. Disso se pode concluir quão grande será a recompensa que Deus dará no céu aos bons religiosos se atenderdes aos grandes merecimentos que eles todos os dias vão adquirindo. O religioso dá a Deus todos os bens que possuia na terra e se contenta em viver realmente pobre sem possuir coisa alguma. O religioso renuncia ao afeto dos parentes, dos amigos e da pátria, para se unir mais a Deus. O religioso mortifica-se continuamente privando-se de muitas coisas que poderia gozar no século.

O religioso finalmente dá-se a si mesmo e todo a Deus dando-Lhe a própria vontade pelo voto de obediência. A vontade própria é a coisa mais cara que temos, e é esta que Deus nos pede mais que qualquer outra coisa; pede-nos o coração, isto é, a vontade: Praebe, fili mi, cor tuum mihi (2) – “Meu filho, dá-me teu coração”. Quem serve a Deus no século, dar-lhe-á as suas coisas, mas um religioso, dando a Deus a própria vontade, dá toda a sua pessoa, de forma que com verdade pode dizer: Senhor, tendo-Vos dado a minha vontade, nada mais tenho a dar-Vos.

II. Afirma Santo Anselmo que o religioso, contanto que guarde as suas regras, adquire merecimentos com tudo o que faz: não só quando faz oração, quando confessa, quando prega, quando jejua ou pratica outras mortificações, mas ainda quando toma alimento, quando varre a sua cela, quando dorme e quando se recreia, porque fazendo tudo por obediência, em tudo isso faz a vontade de Deus. – Santa Maria Madalena de Pazzi dizia que é oração tudo o que se faz por obediência. Pelo que São Luiz de Gonzaga costumava dizer que na religião se anda num barco à vela, em que se viaja sem o trabalho de remar. Oh, quanto mais ganhará um religioso, observador de suas regras, por espaço de um mês, do que um secular com todas as suas penitências e orações durante um ano inteiro!

É possível, ó meu Deus e meu verdadeiro amador, que Vós tanto desejeis o meu bem e ser amado de mim, e que eu miserável tão pouco deseje amar-Vos e dar-Vos gosto? Para que me favorecestes com tantas graças e me tirastes do mundo para Vós? Meu Jesus, já Vos entendo: Vós me amais muito e quereis que eu também Vos ame muito e seja todo vosso nesta vida e na outra. Quereis que meu amor não seja dividido entre Vós e as criaturas; mas seja todo para Vós, meu único Bem, digno de amor infinito. Ah, meu Senhor, meu tesouro, meu tudo, desejo e anhelo amar-Vos devéras e não amar senão a Vós!

Graças Vos dou por este desejo que me inspirais; guardai-o e aumentai-o sempre em mim. Fazei com que eu Vos dê gosto e Vos ame quanto desejais cá na terra afim de que depois vá amar-Vos no paraíso, face a face e com todas as minhas forças. Eis tudo o que Vos peço: quero amar-Vos, e para Vos amar ofereço-me a padecer qualquer pena. Quero fazer-me santo, não para gozar mais no paraíso, mas para mais Vos agradar, meu amado Senhor, e para Vos amar mais durante a eternidade. Atendei-me, Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo. – Maria, minha Mãe, valei-me pelo amor desse vosso Filho; vós sois minha esperança, de vós espero todo o bem.

Referências:

(1) Mt 16, 27
(2) Pv 23, 26

 Quarta-feira da quinta semana da Páscoa

Remorso do condenado: podia salvar-me tão facilmente

Transiit messis, finita est aestas, et nos salvati non sumus – “O tempo da ceifa é passado, o estio findou-se, e nós não fomos salvos” (Jr 8, 20)

Sumário. O que mais que o fogo cruciará o réprobo no inferno é ter que dizer consigo: Se eu tivesse feito para Deus tanto quanto fiz para condenar-me, seria um grande santo; agora, ao contrário, hei de ser infeliz para sempre! – Meu irmão, quem sabe se este cruel remorso não virá a ser o teu lá no abismo infernal, se não mudares de vida? Apressa-te, pois, sem perda de tempo: remedeia o mal feito e resolve-te a empregar todos os meios para assegurar-te a salvação eterna.

I. Apareceu certo dia um condenado a Santo Umberto e disse-lhe que o que mais atormentava no inferno era a lembrança do pouco pelo que se tinha condenado e do pouco que tivera de fazer para se salvar. O mesmo nos afirma o Angélico Santo Tomás: “A principal pena dos condenados”, diz ele, “será o verem que se perderam por um nada, e que podiam, com suma facilidade, adquirir a glória do paraíso, se o houvessem querido.” – É pois verdade, dirá então o desgraçado réprobo, se eu me tivesse mortificado para não ver aquele objeto, se tivesse vencido o respeito humano, se tivesse evitado tal ocasião, tal companheiro, tal conversação, não me teria condenado. Se me tivesse confessado cada semana, se tivesse perseverado na congregação, se todos os dias tivesse feito leitura espiritual, se me tivesse recomendado a Jesus e Maria, não teria recaído. Tantas vezes tomei a resolução de assim fazer, mas nunca a executei; ou comecei a fazê-lo e depois me descuidei e assim me condenei.

Este remorso será aumentado com a lembrança dos bons exemplos que lhe davam os bons amigos e companheiros; e mais ainda com a vista dos favores que Deus lhe concedeu para a salvação: dons naturais, como sejam a saúde, a fortuna, os talentos, que Deus lhe deu para se santificar fazendo deles bom uso; dons também sobrenaturais: tantas luzes, inspirações, convites, tantos anos concedidos para reparação das faltas cometidas. Mas o desgraçado verá que no triste estado em que se acha, já não há tempo para remediar o mal.

Dirá gemendo com os seus companheiros no desespero: Transiit messis, finita est aestas, et nos salvati non sumus – “O tempo da ceifa é passado, o estio findou-se, e nós não fomos salvos”. A hora da salvação passou para mim; estou irreparavelmente perdido. Oh! Se todos estes trabalhos que passei para me perder fossem feitos para Deus, ter-me-ia tornado um grande santo! Agora, que me resta senão mágoas e remorsos que me atormentarão eternamente? Sim, mais cruciante do que o fogo e todos os outros tormentos do inferno será para o réprobo o ter de reconhecer: podia ser feliz para sempre; e serei eternamente desgraçado!

II. Meu irmão, se no passado nós também temos merecido estar com aqueles infelizes para chorarmos desesperados no inferno é preciso que reparemos o mal que fizemos; é preciso que mudemos, quanto antes, de vida. Não digas: quero fazê-lo mais tarde. O inferno está cheio de almas que falavam assim; mas veio a morte e agora não têm mais tempo para o fazer. Deves, portanto, resolver-te e dizer: quero salvar-me a todo custo. Perca eu tudo: bens, amigos e vida, contanto que não perca minha alma.

Sobretudo examinemo-nos muitas vezes para ver se porventura nos tenhamos afrouxado na devoção para com Maria Santíssima, e roguemos-lhe que aumente sempre em nós o seu amor. Qui operantur in me, non peccabunt; qui elucidant me, vitam aeternam habebunt (1) – “Os que obram por mim não pecarão, e os que me esclarecerem, terão a vida eterna”. É o que afirma de si mesma a divina Mãe, é o que confirma a experiência contínua. É impossível que se perca um devoto de Maria, que a honra fielmente e a ela se recomenda.

Ah, meu Jesus, como pudestes suportar-me tanto? Tantas vezes Vos voltei às costas e nunca deixastes de me procurar! Tantas vezes Vos ofendi e sempre me haveis perdoado! Tornei a ofender-Vos e Vós também tornastes a perdoar-me! Por piedade, dai-me uma parte da dor que sofrestes no horto de Gethsemani por causa de meus pecados, que então Vos fizeram suar sangue. Arrependo-me, querido Redentor meu, arrependo-me de ter retribuído tão mal o vosso amor. Ó malditos gostos, detesto-vos e amaldiçôo-vos; vós me fizestes perder a graça de meu Senhor.

Meu amado Jesus, amo-Vos agora sobre todas as coisas; e por vosso amor renuncio a todas as minhas satisfações ilícitas e proponho antes morrer mil vezes do que Vos tornar a ofender. Por esse terno afeto com que me amastes sobre a cruz e sacrificastes por mim a vossa vida divina, peço-Vos que me deis luz e força para resistir às tentações e implorar o vosso auxílio quando for solicitado para o mal. – Ó Maria, minha esperança, vós que podeis tudo junto de Deus, impetrai-me a santa perseverança; obtende-me a graça de nunca me separar do seu santo amor. Obtende-me também uma terna devoção para convosco, ó minha santíssima Mãe.

Referências:

(1) Eclo 24, 30

 Quinta-feira da quinta semana da Páscoa

A Santa Missa é um meio seguro para obter as misericórdias divinas

Ipse (Iesus) est propitiatio pro peccatis nostris – “Ele (Jesus) é a propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 2, 2)

Sumário. A Santa missa é por excelência a oração propiciatória e a reparadora; é ela que continuamente atrai sobre nós as divinas misericórdias e impede a divina justiça de tomar as vinganças merecidas pelos nossos pecados. Eis porque, depois da vinda de Jesus Cristo, não se vêem mais aqueles castigos tão frequentes e tão formidáveis que se observam na antiga Lei. Tomai, pois, a resolução de assistir cada dia e com a devida atenção ao santo sacrifício, mesmo à custa de algum incômodo ou de algum interesse temporal.

I. Considera que a Santa Missa é um sacrifício propiciatório, isto é, que torna Deus propício para nos perdoar não só as penas temporais, que ficam a pagar depois do perdão da culpa, mas também a própria culpa. Quanto à pena, a Missa perdoa-a diretamente, pelo menos em parte, não só aos vivos, mas também às almas dos defuntos. Pelo que São Jerônimo afirma:

“Cada Missa celebrada com devoção faz sair diversas almas do purgatório.”

Quanto às culpas, perdoa-as, posto que só indiretamente, e as perdoa todas, por mais graves que sejam, conforme a declaração do Concílio de Trento: Peccata etiam ingentia dimittit (1). O que quer dizer que, por meio do Sacrifício do Altar, concede a graça, pela qual o homem é levado a arrepender-se e a purificar-se no Sacramento da Penitência. – Santa Matilde viu um dia que a Santíssima Virgem amolecia um diamante mergulhando-o no Sangue do Coração de Jesus. Com tal visão, o Senhor lhe quis dar a entender que não há coração tão duro que não fique amolecido só com ser tingido no Sangue do Cordeiro Divino, que Se imola sobre o Altar.

Pobres de nós, se não houvesse este grande Sacrifício, que é por excelência a oração expiatória e reparadora; que continuamente atrai sobre nós as divinas misericórdias e impede a justiça divina de exercer a vingança merecida pelas nossas culpas! – Eis porque, depois da vinda de Jesus Cristo, não se vêem mais os castigos tão frequentes e formidáveis que se observam na antiga Lei. Pela mesma razão tem o demônio procurado tantas vezes, e procura ainda sempre, por meio dos hereges, fazer desaparecer do mundo a Missa. Faz dos hereges os precursores do anticristo que, conforme a profecia de Daniel, antes de mais nada, abolirá o Santo Sacrifício do Altar (2).

II. “Oh, quem me dera poder assistir a mais uma Missa!” É o que exclamava uma pobre pecadora no leito de morte, e perguntada pelo porque, respondeu: Quer me parecer que então se havia de acalmar todas as minhas inquietações. Vendo o Sacerdote que eleva ao Céu o cálice com o Sangue preciosíssimo, diria eu ao Pai Eterno: Senhor, é grande a minha dívida, mas eis aí a minha satisfação. O Sangue inocente do Redentor, oh, quanto melhor implora para mim a vossa misericórdia, do que o sangue de Abel bradava por vingança contra Caim!

Meu irmão, há de chegar talvez o dia em que tu também, prestes a morrer, ou (pior ainda) atormentado nas chamas devoradoras do purgatório, exclamarás: Oh, quem me dera assistir a mais uma Missa! Mas então não haverá mais tempo para o fazer. Aproveita, pois, o tempo que Deus te dá agora, e toma a resolução de assistir cada dia ao divino Sacrifício, e de assistir com devoção, oferecendo-o pelos fins para que foi instituído.

† “Senhor, Deus todo-poderoso, eis me aqui, prostrado diante de Vós, para aplacar e honrar a vossa Majestade Divina em nome de todas as criaturas. Mas como poderei fazê lo sendo tão miserável e pecador como sou?! Mas posso e quero fazê-lo, sabendo que Vos gloriais de ser chamado Pai das misericórdias, e por nosso amor destes vosso Filho Unigênito que Se sacrificou por nós sobre a Cruz, e sobre os nossos altares renova continuamente por nós o sacrifício de Si mesmo. Eis porque eu, posto que pecador, mas pecador arrependido, pobre mas rico em Jesus Cristo, me apresento diante de Vós, e com fervor de todos os Anjos e Santos, com os afetos do Coração Imaculado de Maria, Vos ofereço em nome de todas as criaturas as Missas que são celebradas hoje, com todas as que já foram celebradas e serão celebradas até ao fim do mundo.

Tenciono renovar a presente oferta todos os instantes deste dia e de toda a minha vida, para tributar à vossa infinita Majestade uma homenagem e uma glória dignas de Vós, para aplacar a vossa indignação e satisfazer à vossa Justiça pelos nossos muitos pecados, para Vos render graças proporcionadas aos vossos benefícios e implorar a vossa misericórdia para mim, para todos os pecadores, para todos os fiéis vivos e defuntos, para a Igreja universal, e principalmente para seu Chefe visível, o Sumo Pontífice Romano, e finalmente também para os pobres cismáticos, hereges e infiéis, afim de que eles também se convertam e se salvem.” Ó doce Coração de Maria, sêde a minha Salvação.

Referências:

(1) Trid. Seas. 22, c. 2.
(2) Dn 12, 11

 Sexta-feira da quinta semana da Páscoa

Felicidade de quem se conforma com a vontade de Deus

Acquiesce igitur ei, et habeto pacem, et per haec habebis fructus optimos – “Submete-te, pois, a Ele, e terás paz; e assim colherás excelentes frutos” (Jó 22, 21)

Sumário. Uma alma não pode ter maior satisfação do que vendo todos os seus desejos cumpridos. Ora, quem não quer senão o que Deus quer, vê realizados todos os seus desejos, pois que tudo acontece por vontade de Deus. Eis aqui portanto o grande meio para sermos sempre felizes mesmo neste mundo: entreguemo-nos inteiramente e para sempre à vontade divina e imaginemos que o Senhor diz a cada um de nós o que disse a Santa Catarina de Sena: Pensa tu em mim, e eu pensarei em ti.

I. Quem se conserva unido à vontade de Deus, goza, mesmo neste mundo, uma paz inalterável: Non contristabit iustum quidquid ei acciderit (1) – “Não entristecerá ao justo coisa alguma que lhe acontecer”. Com efeito, a maior satisfação que uma alma pode gozar, é ver todos os seus desejos cumpridos. Ora, quem deseja só o que Deus quer, tem tudo que quer, porque tudo acontece por vontade de Deus. Faça frio ou calor, caia chuva ou sopre vento, o que vive em união com a vontade de Deus, diz sempre: Quero este frio, este calor, etc., porque Deus o quer assim. Aconteça-lhe um revés, uma perseguição, venha-lhe a enfermidade ou a morte, ele dirá sempre: Quero ser pobre, perseguido, doente, quero mesmo morrer, porque é esta a vontade de Deus.

O que descansa na vontade divina e se compraz em tudo quanto faz o Senhor, é como se estivesse acima das nuvens: vê a seus pés a tempestade enfurecida, sem se deixar perturbar por ela. Tal é a paz, que, segundo o Apóstolo, está acima de todo o entendimento, exsuperat omnem sensum (2); que é superior a todas as delícias do mundo: paz constante, que não sofre nenhuma vicissitude. – Homo sanctus in sapientia manet, sicut sol; stultus sicut luna mutatur (3). O insensato (isto é, o pecador) é inconstante como a lua, que ora cresce, ora diminui. Hoje estará rindo, amanhã chorando; hoje de bom humor e todo manso, amanhã triste e furioso; numa palavra, varia conforme o bom ou mau estado de seus negócios. Mas o justo é como o sol, sempre uniformemente tranquilo, aconteça o que lhe acontecer; porque a sua paz consiste em conformar-se com a vontade de Deus, que não quer senão o nosso bem, ainda quando nos manda cruzes e nos castiga.

É verdade que na parte sensitiva não deixará de sentir nas contrariedades alguma pena e tristeza; mas na parte superior sempre reinará a paz, que lhe servirá para sofrer tudo com resignação. Numa palavra: assim como a madeira indicada pelo Senhor a Moisés mudava as águas amargosas em doces, assim a vontade de Deus torna doces todas as tribulações. Santa Maria Magdalena de Pazzi, só ao ouvir falar na vontade de Deus, ficava arrebata em êxtases, e dirigindo-se às suas religiosas dizia:

“Não sentis quanta doçura encerra esta palavra: vontade de Deus?”

II. Se nós também quisermos ser felizes, entreguemo-nos sempre e em tudo nas mãos de Deus, que é tão solícito do nosso bem e nos ama a ponto de não poupar o próprio Filho, mas de entrega-Lo à morte da cruz para a salvação de todos (4). Tanto mais que a vontade de Deus há de se fazer necessariamente, e os insensatos que Lhe querem resistir, carregarão a cruz, talvez mais pesada, mas sem fruto e sem paz: Voluntati eius quis resistet? (5) – “Quem resistirá à vontade de Deus?” – Repito-o: entreguemo-nos a Deus, e imaginemos que e o Senhor nos diz o que disse a Santa Catarina de Sena:

“Pensa em mim, e eu pensarei em ti.”

Cuidemos, além disso, em nos familiarizarmos com algumas passagens da Escritura, que nos podem ajudar a viver sempre unidos à vontade de Deus. Dilectus meus mihi, et ego illi (6) – O meu amado pensa em meu bem, e eu não quero pensar senão em agradar-Lhe e em unir-me sempre com a sua santa vontade. Domine, quid me vis facere? (7) – Senhor, dizei-me o que quereis que faça? Quero fazer tudo o que Vos agradar. Ecce ancilla Domini (8) – Eis-me aqui; a minha alma é vossa escrava; mandai e sereis obedecido. Tuus sum ego, salvum me fac (9) – Salvai-me, Senhor, e depois fazei de mim segundo a vossa vontade; sou vosso e não meu. – Quando nos sobrevier alguma dificuldade mais grave, digamos logo: Ita, Pater, quoniam sic fuit placitum ante te (10) – Meu Deus, assim Vos agradou, assim seja feito.

Sobretudo seja-nos cara a terceira petição do Pai Nosso: Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu (11). Digamo-la a miúdo com afeto, e repitamo-la muitas vezes. Felizes de nós, se vivermos e morrermos dizendo: Fiat, fiat voluntas tua! – “Faça-se, sim, faça-se a vossa vontade!”

– Ó meu Jesus, é o que proponho fazer em todo o resto de minha vida; Vós, porém, ajudai-me a ser-Vos fiel. – Ó grande Mãe de Deus e minha Mãe Maria, a vós também peço esta mesma graça.

Referências:

(1) Pv 12, 21
(2) Fl 4, 7
(3) Eclo 27, 12
(4) Rm 8, 32
(5) Rm 9, 19
(6) Ct 2, 16
(7) At 9, 6
(8) Lc 1, 38
(9) Sl 118, 94
(10) Mt 11, 26
(11) Mt 6, 10

 Sábado da quinta semana da Páscoa

Poder de Maria Santíssima para nos defender nas tentações

Inimicitias ponam inter te et mulierem … Ipasa conteret caput tuum – “Porei inimizade entre ti e a mulher… Ela te esmagará a cabeça” (Gn 3, 15)

Sumário. Com muita razão a Santíssima Virgem é comparada a um exército posto em ordem de batalha, porque ela sabe ordenar o seu poder e a sua misericórdia para confusão dos inimigos infernais e benefício dos seus devotos. Felizes de nós, se nas tentações recorrermos sempre a esta divina Mãe, invocando o seu doce nome juntamente com o de Jesus. O obséquio mais agradável a Maria é: recomendarmo-nos muitas vezes a ela e metermo-nos debaixo da sua proteção: Sub tuum praesidium confugimos, sancta Dei Genitrix – “Sob tua proteção nos refugiamos, ó santa Mãe de Deus!”

I. Maria Santíssima não é só Rainha do céu e dos Santos, mas também do inferno e dos demônios, por tê-los vencido intrepidamente com as suas virtudes. Todos os Santos Padres concordam em dizer que a Bem-aventurada Virgem é aquela mulher poderosa, prometida por Deus desde o princípio do mundo, a qual, juntamente com o Filho, deveria estar em perpétua inimizade com a serpente infernal e, a seu tempo, havia de lhe esmagar a cabeça, abatendo-lhe o orgulho. Por isso Lúcifer se vê constrangido a ficar prostrado debaixo dos pés de Maria. – O espírito maligno, para vingar a sua derrota, vira toda a sua sanha contra os devotos da divina Mãe; esta, porém, não permite que lhes cause o menor dano.

Maria foi figurada na coluna, ora de nuvem, ora de fogo, que guiava o povo escolhido para a terra prometida (1). A coluna representava os dois ofícios que a Virgem exercita continuamente para o nosso bem. Como nuvem, ela nos protege do ardor da divina justiça, e como fogo, nos defende dos demônios. Assim como os homens caem na terra quando um raio do céu lhes parece cair sobre eles, assim caem abatidos os espíritos rebeldes só ao ouvirem o nome de Maria.

Pela mesma razão a Virgem é chamada pelo divino Esposo terrível contra o poder do inferno: como um exército bem ordenado: Terribilis ut castrorum acies ordinata (2). Ela sabe ordenar bem o seu poder, a sua misericórdia e os seus rogos para confusão dos inimigos e benefício dos seus servos, que nas tentações invocam o seu poderosíssimo socorro. Como foi revelado a Santa Brígida, o orgulhoso Lúcifer antes queria que se lhe multiplicassem as penas do que ver-se dominado pelo poder de uma mulher. Feliz, pois, aquele que nas lutas com o inferno recorre sempre à divina Mãe e invoca o belo nome de Maria.

II. Habitua-te à bela prática de invocar sempre os nomes santíssimos de Jesus e Maria em todas as tuas necessidades, nos perigos de ofenderes a Deus e especialmente nas tentações contra a pureza (3). Digo que entre todos os obséquios que possamos prestar à Santíssima Virgem, nenhum agrada tanto a nossa Mãe como o recorrermos frequentemente à sua intercessão e colocarmo-nos debaixo da sua poderosa proteção: Sub tuum praesidium confugimos, sancta Dei Genitrix – “Sob a tua proteção nos refugiamos, santa Mãe de Deus”.

Eis aqui a vossos pés, ó Maria, minha esperança, este pobre pecador, que tantas vezes por sua culpa se fez escravo do inferno. Reconheço que me deixei vencer pelos demônios, porque não recorri a vós, meu refúgio. Se eu tivesse recorrido sempre a vós, e vos tivesse invocado, nunca teria caído. Espero, Senhora minha amabilíssima, que por vosso intermédio já estou livre das mãos do demônio e que Deus me perdoou. Mas temo que no futuro venha a cair de novo no cativeiro do inferno. Sei que meus inimigos ainda não perderam a esperança de me tornar a vencer. Já me preparam nossos assaltos e novas tentações. Ah! Minha Rainha e meu refúgio, ajudai-me metei-me debaixo de vosso manto; não permitais que torne a ser escravo dos demônios.

Sei que vos me ajudareis e me fareis vitorioso, sempre que eu vos invocar. É este, porém, o meu receio, receio de que nas tentações eu me esqueça de chamar por vós. Eis, portanto, a graça que vos peço e de vós espero, oh Virgem Santíssima, que eu me lembre sempre de vós, especialmente quanto estiver em luta com o demônio. Fazei com que então não deixe de vos invocar frequentemente, dizendo: Maria, ajudai-me, ajudai-me, Maria! – E quando chegar finalmente o dia da minha última contenda com o inferno, na hora da minha morte, ah, Senhora e Rainha, assisti-me então muito mais e lembrai-me de vos invocar então com mais frequência, com os lábios ou com o coração, afim de que, com o vosso dulcíssimo nome e com o de vosso Filho Jesus na boca, possa ir bendizer-vos e louvar-vos, para nunca mais me apartar dos vossos pés por toda a eternidade, lá no paraíso.

Referências:

(1) Pv 12, 21
(2) Fl 4, 7
(3) Indulgência de 25 dias cada vez que se invoca devotamente o santíssimo nome de Jesus, e outros tantos pela devota invocação do nome de Maria.
6ª parte

 Sexta Semana da Páscoa

Domingo: As promessas de Deus e a eficácia da oração

Segunda-feira: Quem deseja a salvação, deve temer a condenação

Terça-feira: Infeliz de quem peca contando com o perdão

Quarta-feira: O dia da desilusão

Quinta-feira: Festa da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Sexta-feira: 1º Dia da Novena de Pentecostes – O amor é um fogo que abrasa

Sábado: 2º Dia da Novena de Pentecostes – O amor é uma luz que esclarece

 Sexto Domingo da Páscoa

As promessas de Deus e a eficácia da oração

Amen, amen dico vobis: si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis – “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16, 23)

Sumário. Considera como o divino Redentor engrandece a eficácia da oração: Em verdade, em verdade vos digo: que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará. Nem é só neste lugar, mas em muitos outros lugares do Antigo e Novo Testamento, que Deus promete ouvir a quem o roga. Animo pois, e nunca deixemos de recorrer ao Senhor. Peçamos sempre as graças no nome e pelo amor de Jesus Cristo. E para sermos atendidos mais facilmente, valhamo-nos da intercessão de Maria.

I. Considera como o divino Redentor engrandece no Evangelho deste dia a eficácia da oração. Em verdade, em verdade vos digo: que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará. E não é somente neste lugar, mas em muitos outros, tanto do Antigo como do Novo Testamento, que Deus promete ouvir a quem o roga. Pela boca de Jeremias diz: “Dirigi-te a mim pela oração, e te atenderei.” (1) Nos Salmos repete: “Chama-me em teu auxílio, e livrar-te-ei.”(2) No Evangelho de São Lucas acrescenta: “Pedi, e dar-se-vos-á …, porque todo aquele que pede, recebe.”(3) No Evangelho de São João, Jesus diz: “Tudo o que me pedirdes em meu nome, fá-lo-ei.” (3) “Pedi tudo que quiserdes, que logo vos será concedido.” (4) E assim há muitas outras passagens.

Por isso o Profeta nos incita a rezar, afirmando-nos que: “o Senhor é suave e benigno e todo misericórdia para os que o invocam” (5). E mais ainda anima-nos São Thiago, dizendo: “Si quis vestrum indiget sapientia, postulet a Deo, qui dat omnibus affluenter” (6). – “Se alguém de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente”. Diz este Apóstolo que, quando se ora ao Senhor, este abre as mãos e dá mais do que se Lhe pede. Nec improperat, e não impropéra; parece, ao contrário, que se esquece de todas as ofensas que lhe foram feitas. – Numa palavra, é tão grande a eficácia da oração, que nos pode obter tudo; porque, como diz São João Clímaco, a oração faz de algum modo violência a Deus, obrigando-o a conceder-nos tudo o que Lhe pedimos: Oratio pie, Deo vim infert.

A razão desta eficácia, segundo a explicação de São Leão, é que Deus por sua natureza é uma bondade infinita, e por isso tem um extremo desejo de nos fazer participar de seus bens, e é maior o desejo de Deus de nos fazer bem, do que o nosso de receber. Deus, portanto, não pode deixar de atender a quem o roga; o que leva Santa Maria Madalena de Pazzi a afirmar que Deus, por assim dizer, contrai obrigações com a alma que a ele recorre, porque lhe fornece o ensejo de dispensar as graças conforme almeja o seu coração

II. Injustamente se queixam alguns, como se o Senhor não os quisesse atender; muito ao contrário, observa São Bernardo, eles mesmos se acham em falta, deixando de Lhe pedir as graças. – Disso parece exatamente que Jesus Cristo se queixou quando, repreendendo docemente a seus discípulos e na pessoa deles a todos nós, acrescenta: “Até agora não pedistes nada em meu nome; pedi e obtereis, a fim de que o vosso gozo seja perfeito”: Petite et accipietis, ut gaudium vestrum sit plenum. Como se dissesse: Não vos queixeis de mim, se não tendes sido completamente felizes; queixai-vos antes de vós mesmos, porque não me pedistes graças.

Animo pois, meu irmão, e não deixemos nunca de recorrer a nosso bom Deus, que, particularmente no Sacramento do altar, dá audiência a todos, e está sempre com as mãos cheias de graças para as distribuir a quem as pede. Notemos, porém, as palavras: in nomine meo – “em meu nome”. Pedir em nome de Jesus, não somente quer dizer pedir com confiança nos merecimentos de Jesus, mas também pedir coisas úteis para a nossa eterna salvação. Pelo que Santo Agostinho diz: Não pede em nome de Jesus Cristo, quem pede coisas prejudiciais a própria salvação.

Ó Pai eterno, adoro-Vos, reconheço-Vos por fonte de todo o bem, e graças Vos dou pelos muitos benefícios que me concedestes. Especialmente Vos agradeço a luz pela qual me fizestes conhecer que toda a minha salvação consiste na oração. Quero responder ao vosso convite e Vos peço em nome de Jesus Cristo que me concedais uma grande dor dos meus pecados e a perseverança na vossa graça. “Fazei também, ó meu Deus, que pela vossa inspiração eu conheça o que é reto, e pela vossa graça o execute” (7). Bem sei que não mereço esses favores, mas vosso Filho os prometeu a quem Vo-los pede pelos seus merecimentos, e é pelos merecimentos de Jesus Cristo que Vo-lo peço, e espero obtê-los.

– Ó Maria, vossas orações obtêm tudo quanto pedem; rogai por mim.

Referências:

(1) Jr 33, 3
(2) Sl 49, 15
(3) Lc 1, 9-10
(4) Jo 14, 14
(5) Jo 15, 7
(6) Sl 85, 5
(7) Or. Dom. curr.

 Segunda-feira da sexta semana da Páscoa

Quem deseja a salvação, deve temer a condenação

Cum metu et tremore vestram salutem operamiui – “Trabalhai em vossa salvação com medo e tremor” (Fl 2, 12)

Sumário. Avisa-nos São Paulo que devemos trabalhar em nossa salvação não só com medo, mas com tremor, visto que se trata da eternidade. Se na hora da morte estivermos na graça de Deus, tudo estará seguro: seremos felizes para sempre. Se, ao contrário, a morte nos achar em pecado mortal, com que desespero confessaremos: Desviei-me do caminho e já não há remédio em toda a eternidade! Meu irmão, aproveitemo-nos do aviso. Quem sabe se esta meditação não é para mim o último convite… Quem sabe se não morreremos repentinamente!

I. São Paulo nos previne que devemos trabalhar em nossa salvação não só com medo, mas com tremor; porquanto quem não teme e treme pela sua salvação, não se salvará: Cum metu et tremore vestram salutem operamini. Um rei da Sicília, para fazer compreender a um simples cidadão o receio que o dominava no trono, o mandou sentar à mesa com uma espada suspensa por um fio delgado sobre a cabeça, de modo que, nesta terrível situação, mal podia comer um bocado. Coisa igual se dá conosco: todos nós estamos em semelhante perigo, pois que, de um instante para outro, pode cair sobre nós a espada da morte, da qual depende a nossa eterna salvação.

Trata-se da eternidade. Si ceciderit lignum ad austrum aut ad aquilonem, in quocumpque loco ceciderit, ibi erit (1) – “Se a árvore cair para a parte do sul ou para a do norte, em qualquer lugar onde cair, aí ficará”. Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma, que então poderá dizer: “Tudo está seguro, já não posso mais perder a Deus, serei feliz para sempre!” Mas se a morte achar a alma em estado de pecado, com que desespero não exclamará: “Ergo erravimus! (2) Desviei-me do caminho e para a minha aberração já não há remédio em toda a eternidade!”

Foi este receio que fez o Bem-aventurado João de Ávila, apóstolo de Espanha, dizer quando lhe anunciaram a aproximação da morte: “Oxalá tivesse mais um pouco de tempo para me preparar para a morte!” Foi o mesmo temor que fez o Abade Agathon dizer, posto que morresse depois de longos anos de penitência:

“Que será feito de mim? Quem conhece os juízos de Deus?” Santo Arsênio tremia igualmente à vista da morte, e perguntando-lhe seus discípulos a causa, respondeu: “Meus filhos, este temor não é novo em mim, tive-o sem cessar durante toda a minha vida.”

Mais que ninguém tremia o santo homem Jó, quando exclamava:

Quid faciam, cum surrexerit ad iudicandum Deus? (3) – “Que farei, quando o Senhor se levantar para me julgar? E Quando me interrogar, que lhe responderei?”

E tu, meu irmão, que poderias responder a Jesus Cristo se ele te deixasse morrer neste instante e te chamasse perante o seu tribunal?

II. Meu irmão, quem sabe se a meditação que estás lendo, não é o último convite que Deus te faz? Preparemo-nos, portanto, quanto antes para a morte, afim de que não nos colha de improviso. Diz Santo Agostinho que Deus nos oculta o último dia da vida para que estejamos todos os dias preparados para morrer: Latet ultimus dies, ut observentur omnes dies.

Ah, meu Deus, quem houve jamais que me tenha amado mais do que Vós? E a quem tenho eu mais desprezado e injuriado do que a Vós? Ó Sangue, ó Chagas de Jesus, Vós sois a minha esperança. Pai Eterno, não repareis nos meus pecados; olhai as chagas de Jesus Cristo, olhai vosso Filho querido, que morre de dor por amor de mim, e Vos pede que me perdoeis. Arrependo-me, ó meu Criador, de Vos ter ofendido, e sinto-o mais que qualquer outro mal. Vós me criastes para que Vos ame, e vivi como se me tivésseis criado para Vos ofender. Por amor de Jesus Cristo, perdoai-me e dai-me a graça de Vos amar. Outrora eu resistia à vossa vontade; mas agora não quero mais resistir; quero fazer tudo que me ordenardes.

Ordenais-me, ó Senhor, que deteste os ultrajes que Vos fiz; pois bem, detesto-os de todo o coração. Ordenais que tome a resolução de não Vos ofender mais; eis que resolvo antes perder mil vezes a vida do que a vossa graça. Ordenais que Vos ame de todo o coração; ah sim! De todo o coração Vos amo, e não quero amar senão a Vós; de hoje em diante sereis o meu único bem, o meu único amor. Peço-Vos, e de Vós espero obter, a santa perseverança. – Meu Pai, pelo amor de Jesus Cristo, fazei com que eu Vos seja fiel e Vos diga sempre com São Boaventura: Sois o meu bem-amado, o meu único amor: Unus est dilectus meus, unus amor meus. Não, não quero que a minha vida sirva para Vos dar desgosto; quero que me sirva somente para chorar as mágoas que Vos causei, e para Vos amar. – Maria, minha Mãe, vós rogais por todos os que se vos recomendam; rogai também por mim a Jesus.

Referências:

(1) Ecle 11, 3
(2) Sb 5, 6
(3) Jó 31, 14

 Terça-feira da sexta semana da Páscoa

Infeliz de quem peca contando com o perdão

Effugium peribit ab eis, et spes illorum abominatio animae – “Não lhes ficará refúgio e a esperança deles será abominação de sua alma” (Jó 11, 20)

Sumário. Deus suporta, mas não suporta sempre. Quando se encheu a medida dos pecados que Deus quer perdoar, lança mão dos castigos mais formidáveis. Se Deus suportasse sempre, ninguém se condenaria, mas é opinião comum, que a maior parte dos adultos, incluindo os cristãos, se condenam. Infelizes de nós portanto, se pecarmos na esperança do perdão e abusarmos da misericórdia de Deus, para o ultrajar mais! Seremos irreparavelmente condenados para sempre, como se condenaram tantos outros nossos iguais.

I. Escreve São Bernardo que a esperança do perdão, que os pecadores têm quando pecam, não atrai a misericórdia de Deus, mas sim a sua maldição. Pelo que São João Crisóstomo nos avisa: Tomai cuidado, porque não é Deus que vos promete misericórdia, mas antes o monstro insaciável do inferno, afim de que desta maneira pequeis mais livremente. E Santo Agostinho acrescenta: Sperant ut peccent; vae a perversa spe! Ai daqueles que não esperam afim de que Deus lhes perdoe os pecados de que se arrependem, mas esperam que, ao passo que continuam a pecar, Deus tenha piedade deles. – Quantas almas se não deixaram enganar e se perderam por esta vã esperança! Diz ainda o Santo. Tal esperança é uma abominação aos olhos de Deus: Spes illorum abominatio. Longe de mover o Coração de Deus à misericórdia, irrita-O para castigar mais depressa o culpado, assim como um criado irritaria a seu amo se o ofendesse porque é bom. Diz São Bernardo que Lúcifer foi tão depressa castigado por Deus porque se revoltou com a esperança de não ser punido. O rei Manassés foi pecador; mas converteu-se em seguida e Deus lhe perdoou. Amon, filho de Manassés, vendo o pai tão facilmente perdoado, entregou-se à vida desregrada na esperança do perdão; mas para Amon não houve misericórdia. Diz também São João Crisóstomo que Judas se perdeu porque pecou confiado na clemência de Jesus Cristo: Fidit in lenitate Magistri.

Numa palavra: se Deus suporta, não suporta sempre. Se Deus suportasse sempre, ninguém se condenaria. No entanto, a opinião mais comum é de que a maior parte dos adultos, incluindo os cristãos, se condenam: Lata porta et spatiosa via est, quae ducit ad perditionem, et multi intrant per eam (1) – “Larga é a porta e espaçosa a estrada que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela”. Infeliz, portanto, de quem abusa da misericórdia de Deus para o ultrajar mais! Perder-se-á irreparavelmente para todo o sempre.

II. Meus irmãos, escreve São Paulo, não vos enganeis; de Deus não se zomba: aquilo que o homem semear, isso colherá (2). O que semeia pecados, não tem a esperar senão os castigos do inferno. Seria zombar de Deus o querer continuar a ofendê-Lo e depois desejar o paraíso.

Ai de mim, ó Senhor, que por tantos anos não pensei senão em Vos ofender. Estes anos já se foram, talvez já esteja próxima a minha morte e que acho em mim senão motivos de tristeza e remorsos de consciência? Quem me dera Vos tivesse servido sempre, ó meu Senhor! Insensato que fui! Já há tantos anos que vivo nesta terra e em vez de adquirir merecimentos para a vida futura, tenho-me carregado de dívidas para com a justiça divina. Meu querido Redentor, dai-me luz e força para ajustar as minhas contas. Talvez a minha morte não esteja longe. Quero preparar-me para o momento que decidirá da minha felicidade ou desgraça eterna. Agradeço-Vos o terdes esperado por mim até agora. Já que me dais tempo para reparar o mal que fiz, eis-me aqui, ó meu Deus: dizei-me o que quereis que eu faça.

Quereis, ó Senhor, que me arrependa das ofensas feitas? Arrependo-me e detesto-as de toda a minha alma. Quereis que empregue os anos ou dias de vida que me restam, em Vos amar? Ah! Quero fazê-lo. Meu Deus, no passado tomei muitas vezes a resolução de o fazer, mas as minhas promessas se tornaram outras tantas traições. Mas, meu Jesus, não quero mais ser ingrato depois de tantos favores que me destes. Se agora não mudo de vida, como poderei na hora da morte esperar o perdão e o céu? Agora estou firmemente resolvido a Vos servir com todas as veras. Dai-me força; não me desampareis.

Permiti, pois, que Vos ame, ó Deus, digno de infinito amor. Aceitai o traidor que agora arrependido se abraça com os vossos pés, Vos ama e Vos suplica misericórdia. Amo-Vos, † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas, amo-Vos de todo o coração, amo-Vos mais que a mim mesmo. Sou vosso; disponde de mim e de tudo que é meu, segundo a vossa vontade; dai-me a perseverança em Vos obedecer, dai-me vosso amor e depois fazei de mim o que quiserdes.

– Maria, minha Mãe, minha esperança e meu refúgio, a vós me recomendo, a vós entrego a minha alma; rogai a Jesus por mim.

Referências:

(1) Mt 7, 13
(2) Gl 6, 7-8

 Quarta-feira da sexta semana da Páscoa

O dia da desilusão

Dormierunt somnum suum, et nihil invenerunt omnes viri divitiarum in manibus suis – “Dormiram o seu sono e nada acharam nas suas mãos todos estes homens de riquezas” (Sl 75, 6)

Sumário. O dia da morte é chamado dia de desilusão, porque nesse dia de verdade, à luz da vela mortuária, se vêem as coisas deste mundo bem diferentes do que agora nos aparecem. Se, pois, quisermos avaliar bem as honras, as dignidades, os prazeres, as riquezas, imaginemos estar no leito de morte; contemplemos dali os bens deste mundo e digamos: No fim da vida não se fará caso de tudo isso, mas somente daquilo que nos acompanha para a eternidade: De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro?

I. Coisa maravilhosa! Quão grande é a prudência dos mundanos no que diz respeito aos bens da terra! Quantos passos não dão para adquirirem tal emprego, tal fortuna! Quantos cuidados para conservar a saúde do corpo! Mas que descuido pelo que diz respeito à alma; para a eternidade nada querem fazer! E no entanto é certo que a saúde, as dignidades, as riquezas devem acabar um dia, ao passo que não tem fim nem a alma nem a eternidade.

Mais cedo ou mais tarde chegará o dia da desilusão. Ó Deus, ao clarão da vela mortuária conhece-se a verdade e confessam os mundanos a sua loucura. Então não há nenhum que não exclame: Ah! Porque não deixei tudo para me santificar! – O papa Leão XI dizia na hora da morte: Melhor fora para mim ter sido porteiro num convento do que papa. Onório III, também papa, dizia igualmente na hora da morte: Antes tivesse ficado na cozinha de meu convento para lavar a louça.

Filippe II, rei de Espanha, estando para morrer, mandou chamar o filho, e entreabrindo as vestes seaes, mostrou-lhe o peito roído de vermes, dizendo:

– Príncipe, vê como se morre, e aonde vêm a parar as grandezas do mundo.

Depois exclamou:

– Quem me dera ter sido simples frade de qualquer ordem e não monarca!

Ao mesmo tempo mandou lançar ao pescoço uma corda da qual pendia uma cruz de madeira, e tendo disposto tudo para a morte, acrescentou:

– Meu filho, quis que estivesses presente a este ato para veres bem como na morte o mundo trata os próprios reis. Quem tiver vivido melhor, achará lugar melhor junto de Deus.

Esse filho, depois Filippe II, quando por sua vez estava para morrer na idade de 23 anos, disse:

– Meus vassalos, não faleis no meu elogio fúnebre senão no que estais vendo agora. Dizei que na morte de nada serve ser rei, senão para sentir maior tormento de o haver sido.

Em seguida exclamou:

– Prouvera a Deus que nunca tivesse sido rei e tivesse vivido num deserto no serviço de Deus! Poderia apresentar-me agora com mais confiança ao seu tribunal e não correria tamanho risco de me condenar.

De que servem, porém, tais desejos na hora da morte, senão para maior mágoa e desespero do que não amou a Deus durante a vida?

II. Com razão dizia Santa Teresa: Não se deve fazer caso das coisas que acabam com a vida; a verdadeira vida consiste em viver de tal modo que não se tenha de recear a morte. Se desejamos ver o que valem os bens da terra, consideremo-los com os olhos fitos na morte e digamos: as honras, as dignidades, os prazeres, as riquezas acabarão um dia: assim atendamos em nos fazer santos e ricos daqueles bens que nos acompanharão para a eternidade e nos tornarão contentes para sempre.

Ah, meu Redentor, padecestes tantos sofrimentos e ignomínias por meu amor, e eu amei tanto os prazeres e bens passageiros deste mundo, que por causa deles cheguei a calcar aos pés a vossa graça. Mas se Vós, quando eu Vos desprezava, não deixastes de me procurar, não posso temer, ó meu Jesus, que me repeleis agora que Vos procuro e Vos amo de todo o coração e me arrependo mais de Vos ter ofendido do que se tivesse sofrido qualquer outra desgraça.

Ó Deus de minha alma, de hoje em diante não Vos quero mais dar o menor desgosto que seja. Fazei-me saber o que Vos desagrada e nem por todos os bens do mundo quero fazê-lo. Fazei-me saber o que Vos agrada e pronto, estou a fazê-lo. Quero amar-Vos com todas as veras. Aceito, oh Senhor, todas as dores, humilhações, cruzes que me vierem de vossas mãos; dai-me somente a resignação necessária. Hic ure, hic seca, vos direi com Santo Agostinho. Castigai-me nesta vida, afim de que na outra Vos possa amar eternamente. – Maria, minha Mãe, a vós me recomendo; não deixeis de rogar a Jesus por mim.

 Quinta-feira da sexta semana da Páscoa

Festa da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo

(tradicionalmente esta Festa é celebrada na Quinta-feira, mas no Brasil, a pedido da CNBB, por concessão da Santa Sé, algumas Festas de Nosso Senhor são transferidas para o Domingo, como é o caso)

Dominus Iesus, postquam locutus est eis, assumptus est in coelum, et sedet a dextris Dei – “O Senhor Jesus, depois que lhes falou, foi assunto ao céu, e está sentado à direita de Deus” (Mc 16, 19)

Sumário. Como a águia ensina os filhos a voarem, assim, no mistério de hoje, Jesus Cristo nos exorta a elevarmos o nosso vôo e a acompanhá-Lo ao céu, se não com o corpo, ao menos com nosso afeto. Desprendamos os nossos corações desta terra e suspiremos pela pátria celestial, onde se acha a nossa felicidade: esperando, como diz o Apóstolo, a adoção de filhos de Deus, a redenção do nosso corpo. Entretanto tenhamos sempre diante dos olhos os exemplos da vida mortal do Redentor e imitemos as suas belas virtudes, em particular a sua humildade e doçura.

I. O lugar que competia a Jesus ressuscitado, era o céu, que é a morada das almas e dos corpos bem-aventurados. Quis Jesus, todavia, permanecer quarenta dias sobre a terra e aparecer repetidas vezes a seus discípulos para os certificar da sua ressurreição e instruí-los nas coisas relativas à sua Igreja: Loquens de regno Dei (1) – “Falando do reino de Deus”. – Tendo desempenhado esta nobre missão, quis o Senhor, antes de deixar a terra, mostrar-se mais uma vez aos apóstolos em Jerusalém; e depois de lhes exprobrar suavemente a sua dureza, por não acreditarem na sua ressurreição, ordenou-lhes que fossem para o Monte das Oliveiras, o lugar onde tinha começado a sua Paixão, afim de que compreendessem que o verdadeiro caminho para ir ao céu é o dos sofrimentos. Depois, cercado de cento e vinte pessoas, repetiu-lhes mais uma vez o que já lhes havia ordenado, especialmente que fossem pregar o Evangelho pelo mundo inteiro; feito o que o divino Redentor levantou as mãos e os abençoou.

Em seguida, como medita São Boaventura (2), Jesus abraça a sua santíssima Mãe e aperta-a contra o coração, anima e conforta os seus discípulos, que, entre lágrimas, Lhe beijam os pés e com as mãos levantadas e o semblante extraordinariamente majestoso e amável, coroado e vestido como rei, se eleva lentamente ao céu, levando em sua companhia as numerosíssimas almas justas, livradas do limbo. – A esta vista todos os presentes ajoelham novamente e Jesus mais uma vez os abençoa. Afinal uma nuvem subtrai o divino Triunfador à sua vista, e Jesus vai sentar-se à direita do Pai, onde não cessa de ser nosso medianeiro e advogado.

Avivemos a nossa fé, e contemplemos o júbilo que a entrada triunfal de Jesus causou no paraíso: alegremo-nos com o nosso divino Chefe e unamos os nossos afetos aos de Maria Santíssima e dos santos discípulos.

II. Como a águia ensina seus filhos a voarem, assim, no mistério de hoje, Jesus Cristo nos exorta a elevar o nosso vôo e acompanhá-Lo ao céu, senão com o corpo, ao menos com os afetos. Desprendamos os nossos corações da terra, e suspiremos pela pátria celeste, onde se acha a nossa felicidade: esperando, como diz o Apóstolo, a adoção de filhos de Deus, a redenção de nosso corpo (3). Entretanto, tenhamos sempre diante dos olhos os exemplos da vida mortal do Senhor; imitando a sua humildade e mansidão, o seu espírito de mortificação, a sua caridade e o seu zelo pela glória divina. – Numa palavra, despojamo-nos do homem velho, revestindo-nos das virtudes de Jesus Cristo, que são como que o manto, que, à imitação de Elias, ele deixou para seus discípulos, quando subiu ao céu.

Para vencermos todas as dificuldades que se encontram no caminho do Senhor, recordemos muitas vezes a grande verdade que os anjos ensinaram hoje aos discípulos, que, arrebatados, olhavam o céu, para o qual acabava de subir o seu amado mestre: Jesus Cristo voltará um dia à terra com a mesma majestade e glória, como Juiz dos vivos e dos mortos: Sic veniet, quemadmodum vidistis eum euntem in coelum (4).

Meu querido Redentor Jesus, regozijo-me pelo vosso triunfo glorioso e rogo-vos que arranqueis de meu coração todo o afeto aos bens miseráveis desta terra, para não suspirar senão pelos do paraíso, que vós merecestes para mim pela vossa paixão. – A mesma graça peço de Vós, ó Pai Eterno. “Concedei-me que, assim como creio firmemente que vosso Filho unigênito e nosso Redentor subiu hoje ao céu, assim possa continuamente morar ali com o meu espírito e os meus desejos.” (5)

– Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e pela intercessão de Maria Santíssima.

Referências:

(1) At 1, 3
(2) Med. vit. Chr.
(3) Rm 8, 23
(4) At 1, 11
(5) Or. festi. curr.

 Sexta-feira da sexta semana da Páscoa

O amor é um fogo que abrasa

1º Dia da Novena do Espírito Santo

Et apparuerunt illis dispertitae linguae, tamquam ignis – “E apareceram-lhes repartidas umas como que línguas de fogo” (At 2, 3)

Sumário. A novena do Espírito Santo é a primeira de todas, porque foi celebrada pelos santos apóstolos e por Maria Santíssima no Cenáculo, entre muitos prodígios. Lembremo-nos de que ao divino Paraclito é atribuído especialmente o dom do amor. Convém, portanto, que nesta novena consideremos o grande valor do amor divino. Em primeiro lugar, o amor é aquele fogo que inflamou todos os Santos a fazerem grandes coisas para Deus. Se quisermos também ficar abrasados, apliquemo-nos sempre, mas em particular nestes dias, à oração, que é a fornalha onde o fogo do amor se acende.

I. Deus ordenou na antiga Lei que o fogo ardesse continuamente no seu altar: Ignis autem in altari semper ardebit (1). Diz São Gregório que os altares de Deus são nossos corações, onde Ele quer que o fogo de seu santo amor arda sem cessar. Por isso o Eterno Pai, não satisfeito de nos ter dado Jesus Cristo, seu Filho, para nos salvar por sua morte, quis dar-nos ainda o Espírito Santo, para que habitasse em nossas almas, e as conservasse continuamente abrasadas de amor.

Jesus mesmo declarou que descera à terra exatamente para inflamar com este fogo sagrado os nossos corações, e que o seu único desejo era vê-lo aceso: Ignem veni mittere in terram, et quid volo, nisi ut accendatur? (2) Eis aqui porque, esquecendo as injúrias e ingratidões dos homens, logo que subiu ao céu, nos enviou o Espírito Santo. – Assim, ó Redentor amadíssimo, na vossa glória, como nos vossos sofrimentos e humilhações, nos amais sempre?

Pela mesma razão o Espírito Santo quis aparecer no Cenáculo sob a forma de línguas de fogo: Et apparuerunt illis dispartitae linguae, tamquam ignis (3) – “E apareceram-lhes repartidas umas como que línguas de fogo”. Por isso também a Igreja nos faz rezar com estas palavras:

“Ó Senhor, fazei que o vosso divino Espírito nos inflame com o fogo que Jesus Cristo veio trazer sobre a terra e que desejou tão ardentemente ver brilhar nela.”

– Foi este amor o fogo que inflamou os santos a fazerem grandes coisas para Deus: a amar os inimigos, a desejar os desprezos, a despojar-se de todos os bens terrenos e a abraçar com alegria os tormentos e a morte. O amor não pode ficar ocioso e nunca diz: Basta. A alma que ama a Deus, quanto mais faz por seu Amado, mais quer fazer ainda para mais lhe agradar e ganhar mais e mais a sua afeição.

II. O Espírito Santo acende o fogo do amor divino por meio da meditação: In meditatione mea exardescet ignis (4) – “Na minha meditação se acenderá o fogo”. Se então desejamos arder em amor para com Deus, amemos a oração; ela é a feliz fornalha em que o coração se abrasa neste ardor celeste.

Meu Deus, até aqui nada fiz por Vós, que tão grandes coisas haveis feito por mim. Ah! Quanto a minha frieza Vos deve mover a rejeitar-me! Peço-Vos, ó Espírito Santo: Fove quod est frigidum – Aquecei o que está frio. Livrai-me da minha frieza e inspirai-me um grande desejo de Vos agradar. Renuncio a todas as minhas satisfações, e antes quero morrer do que dar-Vos o menor desgosto. – Aparecestes sob a forma de línguas de fogo; consagro-Vos a minha língua, para que não Vos ofenda mais. Ó Deus, Vós me destes a língua para Vos louvar e dela me tenho servido para Vos ultrajar e levar os outros também a ofender-Vos! Arrependo-me de toda a minha alma.

Ah! Pelo amor de Jesus Cristo, que na sua vida Vos honrou tanto com a sua língua, fazei com que de agora em diante não cesse de Vos honrar, celebrando vossos louvores, invocando-Vos muitas vezes, falando da vossa bondade e do amor infinito que mereceis. Amo-Vos, meu soberano bem; amo-Vos, ó Deus de amor. – Ó Maria, sois vós a Esposa mais querida do Espírito Santo; obtende-me este fogo divino.

Referências:

(1) Lv 6, 12
(2) Lc 12, 49
(3) At 2, 3
(4) Sl 38, 4
*. Os fiéis que nestes dias, ou em qualquer outro tempo do ano, fizerem a Novena em honra do Espírito Santo, podem ganhar cada dia 300 dias de indulgência, e uma indulgência plenária, debaixo das condições de costume, num dos dias da Novena ou da oitava que a segue.

 Sábado da sexta semana da Páscoa

O amor é uma luz que esclarece

2º Dia da Novena do Espírito Santo

Ilumina oculos meos, me unquam obdormiam in morte – “Ilumina os meus olhos, para que eu não durma jamais na morte” (Sl 12, 4)

Sumário. Um dos maiores males que nos causou o pecado de Adão é o obscurecimento da nossa razão pelo efeito das paixões que nos ofuscam o espírito. Ora, o ofício do Espírito Santo é exatamente dissipar as trevas do pecado e ao mesmo tempo fazer-nos conhecer a vaidade do mundo, a importância da salvação eterna, o valor da graça e o amor imenso que Deus merece pela sua bondade e misericórdia. Se queremos ser iluminados, recorramos muitas vezes ao divino Paráclito.

I. Um dos maiores danos que nos causou o pecado de Adão é o obscurecimento da nossa razão pelo efeito das paixões que nos ofuscam o espírito. Muito desgraçada é a alma que se deixa dominar por alguma paixão! A paixão é uma nuvem, um véu, que nos impede de ver a verdade. Como pode fugir do mal aquele que o não conhece!? E este obscurecimento da nossa razão aumenta em proporção do número dos nossos pecados.

Mas o Espírito Santo, que é chamado lux beatíssima – luz bemfazeja, com os seus esplendores divinos, não somente abrasa os nossos corações no seu santo amor, como também dissipa as nossas trevas, e nos faz conhecer a vaidade dos bens terrenos, o valor dos eternos, a importância da salvação, o preço da graça, a bondade de Deus, o amor infinito que ele merece e o imenso amor que nos tem.

Animalis homo non percipit ea quae sunt Spiritus Dei (1) – “O homem animal não percebe as coisas que são do Espírito de Deus”. O homem chafurdado no lamaçal dos prazeres mundanos pouco percebe as verdades da fé. Eis porque o infeliz tem amor ao que devia odiar e odeia ao que devia amar. Santa Maria Madalena de Pazzi exclamava: O amor não é conhecido! O amor não é amado! Santa Teresa dizia igualmente que Deus não é amado porque não é conhecido. Também os santos pediam sem cessar ao Senhor luz e mais luz: Emitte lucem: ilumina tenebras meas: revela oculos meos – “Enviai vossa luz: dissipai minhas trevas: abri meus olhos”; porque, sem sermos esclarecidos, não podemos evitar os precipícios nem achar a Deus.

II. Como fruto desta meditação tomemos a resolução de recorrer muitas vezes ao Espírito Santo nas dificuldades que encontramos não somente nos negócios espirituais da alma, mas também nos corporais, especialmente nas de mais graves consequências. Lembremo-nos, porém, de que Deus não nos comunicará sempre as suas luzes imediatamente; as mais das vezes se servirá, para tal fim, dos nossos Superiores e Pais espirituais que ele deixou como seus representantes na terra: Que vos audit, me audit, et qui vos spernit me spernit (2) – “Quem vos ouve, a mim ouve, e quem vos despreza, a mim despreza”.

Santo e divino Espírito, creio que sois verdadeiramente Deus, e um só Deus com o Pai e o Filho. Adoro-Vos e reconheço-Vos por autor de todas as luzes com as quais me fizestes conhecer o mal que fiz ofendendo-Vos e quanto sou obrigado a amar-Vos. Graças Vos dou e me arrependo sumamente de vos haver ofendido. Merecia que me abandonásseis nas minhas trevas, mas vejo que ainda não me abandonastes.

Ó Espírito eterno, continuai a esclarecer-me e a fazer-me conhecer sempre melhor a vossa bondade infinita e dai-me força para Vos amar no futuro de todo o meu coração. Ajuntai graça à graça, para que eu fique docemente unido a Vós e obrigado a não amar senão a Vós. Eu Vo-lo suplico pelos merecimentos de Jesus Cristo. Amo-Vos, ó meu soberano Bem, amo-Vos mais que a mim mesmo. Quero ser todo vosso; recebei-me e não permitais me afaste mais de Vós. – Ó Maria, minha Mãe, assisti-me sempre por vossa intercessão.

Referências:

(1) 1 Cor 2, 14
(2) Lc 10, 16
7ª parte

 Sétima Semana da Páscoa

Domingo da Ascensão do Senhor: 3º Dia da Novena de Pentecoste – O amor é uma água que apaga a sede

Segunda-feira: 4º Dia da Novena de Pentecoste – O amor é um orvalho que fertiliza

Terça-feira: 5º Dia da Novena de Pentecoste – O amor é um repouso que restaura as forças

Quarta-feira: 6º Dia da Novena de Pentecoste – O amor é uma virtude que fortifica

Quinta-feira: 7º Dia da Novena de Pentecoste – Pelo amor a alma torna-se morada de Deus

Sexta-feira: 8º Dia da Novena de Pentecoste – O amor é um vínculo

Sábado: 9º Dia da Novena de Pentecoste – O amor é um tesouro que encerra todos os bens

 Domingo da Ascensão do Senhor

O amor é uma água que apaga a sede

3º Dia da Novena do Espírito Santo

Qui biberit ex aqua, quam ego dabo ei, non sitiet in aeternum – “Aquele que beber da água que eu lhe der, não terá jamais sede” (Jo 4, 13)

Sumário. É com razão que Deus se queixa de tantas almas que vão mendigar junto às criaturas alguns miseráveis e curtos prazeres, e o abandonam, Bem infinito e fonte de todas as alegrias. Nós ao menos não sejamos tão insensatos: apaguemos a nossa sede com as águas do santo amor de Deus, e o nosso coração estará perfeitamente satisfeito. Lembremo-nos, porém, de que a chave que nos abre os canais desta água desejável é a santa oração, que nos alcança todos os bens em virtude da promessa de Jesus Cristo: Pedi e recebereis.

I. O amor é chamado também fonte de água viva – “fons vivus, ignis, caritas”. O nosso Redentor disse à mulher Samaritana: Aquele que beber da água que eu lhe der, não terá jamais sede – non sitiet in aeternum (1). O amor é, pois, uma água que mata a sede; aquele que ama a Deus sinceramente, não busca nem deseja coisa alguma fora de Deus, porque em Deus acha todos os bens. Assim, contente com possuir a Deus, repete sempre na alegria de seu coração: Deus meus et omnia – “Meu Deus e meu tudo”. Ó meu Deus, Vós sois o meu único bem. – Mas Deus queixa-se de tantas almas que vão mendigar junto das criaturas alguns miseráveis e curtos prazeres, e o abandonam, Bem infinito e fonte de todas as alegrias: Me dereliquerunt, fontem aquae vivae, et foderunt sibi cisternas; cisternas dissipatas, quae continere non valent aquas (2) – “Eles me abandonaram, a mim que sou a fonte de água viva, e cavaram para si cisternas, que não podem reter a água”.

Aí está, porque o Senhor que nos ama, e deseja ver-nos contentes, nos clama a todos: Si quis sitit, veniat ad me (3) – “Se alguém tem sede, venha a mim”. Quem deseja a verdadeira felicidade, venha a mim, dar-lhe-ei o Espírito Santo, que o fará feliz nesta vida e na outra: Qui credit in me, sicut dicit Scriptura, flumina de ventre eius fluent aquae vivae – Sentirá correr de seu próprio seio rios de água viva, como os profetas anunciaram.

Aquele, pois, que crê em Jesus Cristo, e o ama, será enriquecido de tantas graças, que de seu coração, ou de sua vontade, que é como seio da alma, fluirão fontes de santas virtudes, que o ajudarão não somente a conservar a própria vida, mas ainda a comunicá-la aos outros. A água misteriosa de que fala Nosso Senhor, é precisamente o Espírito Santo, o amor substancial, que Jesus prometeu enviar-nos do céu depois da sua ascensão: Hoc autem dixit de Spiritu, quem accepturi erant credentes in eum; nondum enim erat Spiritus datus, quia Iesus nondum erat glorificatus (4) – “Isto disse ele acerca do Espírito, que haviam de receber os que cressem nele; porque ainda o Espírito não fora dado, por não ter sido ainda Jesus glorificado”.

II. A chave que abre os canais desta água desejável, é a oração, pela qual obtemos todos os bens em virtude da divina promessa: Petite et accipietis (5) – “Pedi e recebereis”. Somos cegos, pobres e fracos; mas a oração nos consegue a luz, a riqueza e a força da graça. Com a oração só podemos tudo, dizia São Teodoreto. Oratio, cum una sit, omnia potest. Aquele que ora, recebe tudo que deseja. Deus quer dar-nos suas graças, mas quer ser rogado.

Domine, da mihi hanc aquam (6). Meu Jesus, dir-Vos-ei com a Samaritana, dai-me desta água de vosso amor, que me faça esquecer a terra, e viver para Vós, ó amável Infinito. Riga quod est aridum – “Regai o que é seco”. Minha alma é uma terra seca, que não produz senão abrolhos e espinhos de pecados; ah! Inundai-a com as águas da vossa graça, para que produza algum fruto para vossa glória, antes que a morte me arrebate deste mundo.

Ó fonte de água viva, ó Bem supremo, quantas vezes Vos deixei pelas águas lodosas desta terra, que me privaram do vosso amor! Ah! Não ter eu morrido antes de Vos ofender! Mas, no futuro, não quero mais buscar nada fora de Vós. Ó meu Deus, socorrei-me e fazei com que Vos seja fiel. – Maria, minha Esperança, cobri-me sempre com vosso manto.

Referências:

(1) Jo 4, 13
(2) Jr 2, 13
(1) Jo 7, 37
(1) Jo 7, 39
(1) Jo 16, 24
(1) Jo 4, 15

 Segunda-feira da sétima semana da Páscoa

O amor é um orvalho que fertiliza

4º Dia da Novena do Espírito Santo

Fluat´ut ros eloquium meum, quase imber super herbam – “Distilem como orvalho as minhas palavras, como chuva sobre a erva” (Dt 32, 2)

Sumário. Por duas razões o amor é chamado orvalho. Primeiro, porque torna a alma fecunda em bons desejos e boas obras; segundo, porque tempera o ardor das más inclinações e tentações. Se queremos receber este orvalho celestial, apliquemo-nos à oração mental e nunca deixemos de a fazer, ao menos uma vez por dia. Um quarto de hora de meditação basta para apagar o fogo do ódio ou do amor desordenado, por ardente que seja. Ao contrário, a quem não ama a oração, é moralmente impossível vencer as paixões.

I. A Igreja manda-nos pedir ao Espírito Santo, que purifique nossos corações e os torne fecundos por seu salutar orvalho: Sancti Spiritus corda nostra mundet infusio, et sui roris intima aspersione foecundet. O amor faz a alma fecunda em bons desejos, santas resoluções e boas obras: tais são as flores e os frutos da graça do Espírito Santo. – O amor é chamado também orvalho, porque tempera o ardor das más inclinações e tentações. Por isso se diz do Espírito Santo que Ele modera o ardor e refrigera – “In aestu temperies, dulce refrigerium”.

Este salutar orvalho desce sobre nossos corações durante a oração. Um quarto de hora de meditação basta para apagar o fogo do ódio ou do amor desordenado, por ardente que seja. A santa meditação é a adega misteriosa de que fala a Esposa dos Cantares: Introduxit me rex in cellam vinariam, ordinavit in me caritatem (!) – “O rei me introduziu na sua adega, ordenou em mim a caridade”. Aí é que nos enchemos da caridade bem ordenada, pela qual amamos ao próximo como a nós mesmos, e a Deus sobre todas as coisas. Quem ama a Deus, ama a oração, e a quem não ama a oração, é moralmente impossível vencer as próprias paixões.

II. Para que não sejamos oprimidos pelos ardores das más inclinações, e afim de que o Espírito Santo possa fertilizar as nossas almas com o orvalho dos seus dons, tomemos hoje a forte resolução de fazer cada dia ao menos uma meia hora de oração mental. São João Crisóstomo compara a oração mental a uma fonte no meio de um jardim; porque sem ela todas as virtudes murcham, ao passo que com ela se conservam frescas e amenas, e se aperfeiçoam constantemente.

Assim como quem sai de um jardim faz um ramalhete das flores que mais o encantam, assim, segundo o aviso de São Francisco de Sales, devemos ao sair da meditação compor um como que ramalhete dos pensamentos que mais nos impressionaram, e durante o dia avivá-los de tempos a tempos, mesmo durante as nossas ocupações.

Ó santo e divino Espírito, não quero mais viver para mim mesmo; em Vos amar e agradar quero empregar tudo que me resta da vida. Com este fim Vos peço que me concedais o dom da oração mental. Vinde a meu coração, e ensinai-me Vós mesmo a praticá-la como se deve. Dai-me a força de não deixá-la por tédio no tempo da aridez; dai-me o espírito de oração, isto é, a graça de sempre orar e de fazer aquelas orações que sejam mais agradáveis ao vosso divino Coração. – Por meus pecados me havia perdido; mas por tantos sinais de vossa ternura, reconheço que quereis a minha salvação e santificação. Quero santificar-me para Vos agradar e amar mais a vossa infinita bondade. Amo-Vos, ó meu soberano Bem, meu amor, meu tudo, e porque Vos amo, dou-me todo a Vós. – Ó Maria, minha esperança, protegei-me.

Referências:

(1) Ct 2, 4

 Terça-feira da sétima semana da Páscoa

O amor é um repouso que restaura as forças

5º Dia da Novena do Espírito Santo

In pace in idipsum dormiam et requiescam – “Em paz dormirei nele mesmo e repousarei” (Sl 4, 9)

Sumário. O efeito principal do amor é unir a vontade da pessoa que ama, à do objeto amado, tanto na prosperidade como na adversidade. Para uma alma que ama a Deus, consolar-se nas humilhações, dores e perdas que sofre, basta saber que o Senhor quer vê-la suportar tal pena. Dizendo somente: Assim o quer meu Deus, acharemos a paz e o contentamento no meio das tribulações e sob o peso da cruz.

I. O amor se chama: In labore requies, in fletu solatium – “Alívio nas penas, consolação nas lágrimas”. O amor é um repouso que recreia, porque o ofício principal do amor é unir a vontade da pessoa que ama, à do ser amado. Para consolar-se de todas as humilhações que recebe, dores que sofre, perdas que padece, uma alma que ama a Deus, só precisa conhecer a vontade de seu amado que deseja vê-la suportar tal pena.

Dizendo somente: Assim o quer meu Deus, ela acha paz e contentamento no meio de todas as tribulações. Esta é a paz divina que transcende todos os prazeres dos sentidos: Pax Dei, quae exsuperat omnem sensum (1). Santa Maria Magdalena de Pazzi sentia-se inundada de alegria só com o pronunciar das palavras: vontade de Deus.

Nesta vida cada um deve levar sua cruz; mas, diz Santa Teresa: A cruz é dura para quem a arrasta, não, porém, para aquele que a abraça. Assim é que o Senhor sabe ao mesmo tempo ferir e curar, segundo a expressão de Jó: Vulnerat et medetur (2). Por sua doce unção, o Espírito Santo torna suave e amável até os opróbrios e tormentos. – Ita, Pater, quoniam sic fuit placitum ante te (3) – “Sim, meu Pai, seja, feita a vossa vontade”. Assim orou Jesus Cristo e nós também devemos repetir estas palavras do Salvador todas as vezes que a adversidade nos visitar: Sim meu Pai, assim seja, porque é vossa vontade. Quando trememos sob ameaça de alguma desgraça temporal, repitamos sempre:

“Fazei, ó meu Deus: aceito desde já tudo que fizerdes. Protesto que quero viver onde Vós quiserdes, sofrer tudo o que quiserdes e morrer quando quiserdes”.

É também utilíssimo oferecer-se muitas vezes a Deus no decurso do dia, como o fazia Santa Teresa.

II. Ah! meu Deus, quantas vezes, para fazer a minha própria vontade, contrariei a vossa e cheguei a desprezá-la. Disto me aflijo mais que de todos os males. De aqui em diante quero de todo o coração amar-vos e obedecer-vos. Loquere, Domine, quia audit servus tuus (4) – “Falai, Senhor, vosso servo vos escuta”. Dizei o que quereis de mim; quero fazer em tudo a vossa santa vontade. Este será para sempre o meu santo desejo, pois sois o meu único amor. Ajudai a minha fraqueza, ó Espírito Santo. Vós sois a mesma bondade; como, portanto, posso amar outro tesouro senão a vós? Conjuro-vos, atraí para vós, pela doçura de vosso amor, todos os afetos do meu coração. Renuncio a tudo para dar-me a vós sem reserva.

† “Recebei, Senhor, toda a minha liberdade. Aceitai a minha memória, a minha inteligência e toda a minha vontade. Tudo o que tenho e possuo fortes vós que me destes; venho vo-Lo restituir e tudo entregar ao vosso beneplácito. Dai-me somente o vosso amor com a vossa graça e bastante rico sou, nada mais vos peço”(5). – Faço o mesmo pedido a vós, ó Mãe do Belo Amor, Maria, e espero que m’o obtereis pela vossa poderosa intercessão.

Referências:

(1) Fl 4, 7
(2) Jó 5, 18
(3) Mt 11, 26
(4) 1 Rs 3, 10
(5) 300 dias de indulg. uma vez por dia.

 Quarta-feira da sétima semana da Páscoa

O amor é uma virtude que fortifica

6º Dia da Novena do Espírito Santo

Fortis est ut mors dilectio – “O amor é forte como a morte” (Ct 8, 6)

Sumário. Quanto se trata de agradar ao objeto amado, o amor vence tudo; não há dificuldade que resista ao amor; porque, aquele que ama, não sente o sofrimento, ou se o sente, o ama. O sinal, pois, mais certo para conhecer se uma pessoa ama deveras a Deus é a sua fidelidade na adversidade como na prosperidade. Dizemos que amamos a Deus, mas até agora que fizemos por ele? Como suportamos as cruzes que nos manda para nosso bem?

I. Assim como não há força criada que resista à morte, assim não há dificuldades que não ceda ao ardor de uma alma amante. Quando se trata de agradar ao objeto amado, o amor vence tudo, perdas, desprezos, dores. Nada é bastante duro para resistir ao fogo do amor, diz Santo Agostinho: Nihil tam durum, quod non amoris igne vincatur. O sinal mais certo, pois, para conhecer se uma pessoa ama deveras a Deus, é sua fidelidade em amar na adversidade como na prosperidade.

Dizia São Francisco de Sales que Deus é tão amável quando nos aflige, como quando nos consola, porque faz tudo por amor e até quando mais nos aflige nesta vida é que nos testemunha mais o seu amor. São João Crisóstomo julgava São Paulo mais feliz nos ferros que arrebatado ao terceiro céu.

Também os santos mártires se regozijavam no meio dos tormentos e agradeciam ao Senhor como um grande favor que lhes dispensava o terem que sofrer por seu amor. E os outros santos, que não acharam tiranos para os atormentar, tornaram-se carrascos de si mesmos pelas penitências com que se castigaram, afim de se fazerem agradáveis a Deus. Aquele que ama, diz Santo Agostinho, não sente sofrimento, ou se o sente, o ama: In eo quod amatur, aut non laboratur, aut ipse labor amatur.

II. Ó Deus de minha alma, digo que vos amo; mas que faço por vosso amor? Nada. É então um sinal de que não vos amo, ou vos amo muito pouco. Meu Jesus, enviai-me o Espírito Santo, que me venha dar a força de sofrer e fazer alguma coisa por vosso amor antes de minha morte. Ah! Meu amado Redentor, não permitais que eu morra neste estado de frieza e ingratidão em que eu tenho vivido até hoje. Concedei-me a graça de amar os sofrimentos, depois de tantos pecados que me tornaram digno do inferno.

Ó meu Deus, todo bondade e todo amor, desejais habitar em minha alma onde tantas vezes vos expulsei; vinde, estabelecei nesta vossa morada, dominai nela e fazei-a toda vossa. Amo-vos, ó meu Senhor, e já que vos amo, comigo estais, como São João m´o afirma: Qui manet in caritate, in Deo manet, et Deus in eo (1) – “Aquele que mora no amor permanece em Deus e Deus nele”. Se, pois, estais comigo, aumentai em mim as chamas de vosso amor, fortificai as cadeias que me prendem a vós, afim de que eu suspire somente por vós, busque somente a vós, e assim unido convosco, não me separe jamais do vosso amor. Ó meu Jesus, quero ser vosso, todo vosso. – Ó minha Advogada e Rainha, Maria, alcançai-me o santo amor e a perseverança.

Referências:

(1) 1 Jo 4, 16

 Quinta-feira da sétima semana da Páscoa

Pelo amor a alma torna-se morada de Deus

7º Dia da Novena do Espírito Santo

Ego rogabo Patrem, et alium Paraclitum dabit vobis, ut maneat vobiscum in aeternum – “Rogarei a meu Pai, e ele vos enviará outro Consolador, afim de que more sempre convosco” (Jo 14, 16)

Sumário. É esta a magnífica promessa de Jesus Cristo em favor daquele que O ama: Se me amais, rogarei ao Pai, e ele vos enviará o Espírito Santo, afim de que more sempre convosco. Deus, portanto, habita na alma que O ama. Lembremo-nos, porém, de que Deus é cheio de zelos. Quer habitar só na alma, e não está contente, se não o amamos de todo o coração e queremos dividir o nosso amor entre ele e as criaturas.

I. O Espírito Santo é chamado Hóspede das almas: “Dulcis hospes animae”. É o efeito da magnífica promessa de Jesus Cristo em favor daquele que O ama: “Se me amais, guardai os meus mandamentos; e rogarei ao Meu Pai, e Ele vos enviará outro consolador, o Espírito Santo, afim de que more sempre convosco: “Ut maneat vobiscum in aeternum”. Sim, sempre, porque o Espírito Santo não desampara nunca uma alma, a não ser que seja expulso por ela: “Non deserit, nisi deseratur”.

Deus portanto, habita em toda a alma de que é amado; mas declara não ficar satisfeito, se não o amamos de todo o nosso coração. Escreve Santo Agostinho, que o senado romano se recusou a admitir Jesus Cristo no número dos deuses, dizendo que Ele é um Deus soberbo que quer ser adorado com exclusividade. Isto é verdade: Nosso Senhor não aceita rival num coração que O ama; quer habitar nele só e ser amado mais que todos. Se Ele não se vê amado acima só, tem, por assim dizer, segundo a expressão de São Tiago, zelos das criaturas com que é dividido esse coração, que ele deseja só para si: “Ad invidiam concupiscit vos Spiritus qui habitat in vobis” (1). Numa palavra, como diz São Jerônimo: Jesus é um Deus cheio de zelos: Zelotypus est Iesus.

É este o motivo porque o Esposo celeste louva a alma que, semelhante à rola, vive na solidão escondida do mundo: “Pulchrae sunt genae tuae, sicut turturis” (2). Não quer que o mundo tenha parte no amor desta alma, deseja-a toda inteira para si. Se ele ainda louva a sua Esposa, chamando-a jardim fechado – Hortus conclusus, soror mea sponsa (3) – , é porque ela não deixa entrar em seu coração nenhum afeto terreno. Ah! Jesus não merece todo o nosso amor? “Totum tibi dedit, nihil sibi reliquit”, diz São João Crisóstomo: Ele nos deu tudo, seu sangue e sua vida; mais do que isto não podia nos dar.

II. Se queremos que Deus habite em nossa alma com a plenitude de sua graça, consagremo-la hoje de novo toda inteira e sem reserva a seu serviço e repitamos esta nossa consagração muitas vezes durante o dia, especialmente na oração mental, na santa comunhão e na visita ao Santíssimo Sacramento.

Lembremo-nos de que há três meios principais pelos quais uma alma se pode dar toda a Deus. Primeiro, evitar todas as faltas deliberadas, ainda que pequenas, e para este fim reprima o mais insignificante desejo desordenado e mortifique a satisfação dos sentidos. Segundo, escolher, entre as coisas boas, a melhor, que mais agrade a Deus. Terceiro, aceitar com paz e gratidão, das mãos do Senhor, tudo o que mortifica o nosso amor próprio e em particular os desprezos. Lembremo-nos de que tem mais valor aos olhos de Deus um desprezo sofrido em paz e por amor a Ele, do que mil mortificações e mil práticas.

Ó meu Deus, bem vejo que me quereis todo para Vós. Tanta vezes Vos expulsei da minha alma. Mesmo assim não Vos dedignais de nela entrar e unir-Vos a mim. Ah! Tomai agora posse de todo o meu ser; dou-me inteiramente a vós. Aceitai-me, ó meu Jesus, e não permitais que eu viva de agora em diante um instante sequer sem vosso amor. Vós me buscais, e eu não busco senão a Vós. Quereis minha alma, e ela só Vos quer a Vós. Vós me amais, e eu também vos amo; e já que me amais, prendei-me tão perfeitamente convosco, que não me aparte mais de vós. – Ó Rainha do céu e minha querida Mãe, Maria, em vós ponho minha confiança.

Referências:

(1) Zc 4, 5
(2) Ct 1, 9
(3) Ct 4, 12

 Sexta-feira da sétima semana da Páscoa

O amor é um vínculo

8º Dia da Novena do Espírito Santo

Super omnia autem caritatem habete, quod est vinculum perfectionis – “Acima de tudo, tende e caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3, 14)

Sumário. Antes da vinda de Jesus Cristo, os homens afastavam-se de Deus, e aferrados à terra, recusavam unir-se ao seu Criador. Mas nosso amável Senhor enviou-nos o Espírito Santo, afim de que, assim como Ele é o vínculo indissolúvel que une o Pai ao Verbo Eterno, assim una nossas almas a Deus pelo amor. Procuremos, pois, estar fortemente ligados por este vínculo de perfeição, e não correremos mais risco de nos afastar de Deus. Antes de tudo, porém, é necessário que livremos nosso coração de todos os laços que o prendem ao mundo.

I. Assim como o Espírito Santo, amor incriado, é o laço indissolúvel que une o Pai e o Verbo Eterno, assim é este mesmo Espírito que une nossas almas a Deus. A caridade, diz Santo Agostinho, é uma virtude que nos une a Deus: Caritas est virtus coniungens nos Deo. Daí este grito de alegria de São Lourenço Justiniano: Ó Amor, tu és então um vínculo de tal maneira forte, que pudeste encadear um Deus e uni-Lo a nossas almas! O caritas, quam magnum est vinculum tuum, quo Deus ligari potuit! – Os laços do mundo são laços de morte, mas os de Deus são laços de vida e salvação: Vincula illius alligatura salutares (1). Porquanto são vínculos de amor, e o amor nos une a Deus, nossa única e verdadeira vida.

Antes da vinda de Jesus Cristo os homens separavam-se de Deus; aferrados à terra, recusavam unir-se ao seu Criador; mas o Senhor, cheio de ternura, os atraiu a si pelos laços de amor, como tinha prometido por Oséas: In funiculis Adam traham eos, in vinculis caritatis (2) – “Eu os atrairei com cordas de Adão, com os vínculos da caridade”. Estes laços são os seus benefícios: luzes, apelos ao seu amor, promessas do paraíso; mais é sobretudo o dom que nos fez de Jesus Cristo no sacrifício da cruz e no Sacramento do altar, e enfim, o dom de Espírito Santo. Por isso exclama o Profeta: Solve vincula colli tui, captiva filia Sion (3) – “Rompe as cadeias de teu pescoço, filha cativa de Sião”. Ó alma, criada para o céu, desfaze-te dos laços da terra para te unires a Deus pelos laços do santo amor.

II. Caritatem habete, quod est vinculum perfectionis (4) – “Tende a caridade, que é o vínculo da perfeição”. O amor é um laço que reúne todas as virtudes, e torna a alma perfeita. Daí a seguinte palavra de Santo Agostinho: Ama, et fac quod vis – Ama a Deus e faze o que queres, porque quem ama a Deus tem cuidado de evitar tudo que causa desgosto ao objeto de seu amor e procura agradar-lhe em tudo.

Dulcíssimo Jesus, muito me haveis obrigado a amar-Vos; muito Vos custou obter o meu amor. Ingratíssimo seria eu, se Vos amasse pouco, ou dividisse o meu coração entre Vós e as criaturas, depois que por mim derramastes vosso sangue e sacrificastes vossa vida! Quero desapegar-me de tudo, e por em Vós só todos os meus afetos. Muito fraco sou para executar esta resolução; Vós, que me a inspirais, dai-me a força de a cumprir.

Amadíssimo Jesus meu, feri meu pobre coração com a suave seta do vosso amor, para que não cesse de arder no desejo de Vos possuir e consumir-me de amor para convosco. A Vós procure sempre, a Vós só deseje, a Vós ache sempre. Ó meu Jesus, só a Vós quero e nada mais. Fazei com que eu repita sempre durante a minha vida, e sobretudo na hora da minha morte: Meu Jesus, só a Vós quero e nada mais. – Ó Maria, minha Mãe, fazei com que de hoje em diante eu não queira senão a Deus.

Referências:

(1) Eclo 6, 31
(2) Os 11, 4
(3) Is 52, 2
(4) Cl 3, 14

 Sábado da sétima semana da Páscoa

O amor é um tesouro que encerra todos os bens

9º Dia da Novena do Espírito Santo

Infinitus thesaurus est hominibus; quo qui usi sunt, participes facti sunt amicitiae Dei – “Ela é um tesouro infinito para os homens; do qual os que usaram têm sido feitos participantes da amizade de Deus” (Sb 7, 14)

Sumário. O coração humano está sempre procurando bens capazes de torná-lo feliz. Enquanto se dirige às criaturas para os obter, nunca se satisfaz, por mais que receba. Ao contrário, um coração que só quer a Deus, acha logo a felicidade, porque o Senhor lhe satisfará todos os desejos e o fará contente mesmo no meio das maiores tribulações. Felizes de nós, se conhecemos o grande tesouro do amor divino e procuramos obtê-lo a todo custo, desapegando-nos das coisas criadas!

I. O amor é o tesouro de que fala o Evangelho, o qual nos cumpre adquirir a custo de tudo mais. A razão é porque ele é realmente aquele bem infinito que nos faz participante da amizade de Deus. Aquele que acha Deus, acha tudo que pode desejar: Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui (1) – “Deleita-te no Senhor, e Ele te concederá as petições do teu coração”. O coração humano está sempre procurando bens capazes de torná-lo feliz. Enquanto se dirige às criaturas para os obter, nunca se satisfaz, por mais que receba. Ao contrário, um coração que só quer a Deus, Deus lhe satisfará todos os desejos. Quais são com efeito os homens mais felizes da terra, senão os santos? E porque? Porque só querem e buscam a Deus.

Estando um príncipe a caçar, vi um solitário percorrendo a floresta, e perguntou-lhe o que fazia nesse deserto. Mas vós, Senhor, retorquiu logo o anacoreta, que vindes buscar aqui? – Eu, acudiu o príncipe, ando em busca de caças – E eu, tornou o solitário, busco a Deus.

O tirano que martirizou São Clemente de Ancira, ofereceu-lhe ouro e pedras preciosas para conseguir que ele renegasse a Jesus Cristo; mas o santo, dando um profundo suspiro, exclamou: Pois que! Um Deus posto em paralelo com um pouco de lama! – Feliz de quem conhece o tesouro do divino amor e procura obtê-lo! Quem o conseguir, despojar-se-á por si mesmo de tudo, para não possuir senão a Deus. “Quando o fogo pega na casa”, dizia São Francisco de Sales, “lançam-se todos os utensílios pela janela”. E o Padre Segneri, o moço, grande servo de Deus, tinha costume de dizer: “O amor divino é um roubador que nos tira todos os afetos terrenos ao ponto de exclamarmos então: Senhor, que desejo senão a vós?” Deus cordis mei, et pars mea Deus in aeternum (2) – “Deus de meu coração, e a minha porção, Deus, para sempre”.

II. Ó mundanos insensatos, exclama Santo Agostinho, ó homens, aonde ides para contentar o vosso coração? Bonum quod quaeritis, ab ipso est. Aproximai-vos de Deus, recuperai a sua graça, buscai o seu amor, porque só Ele pode dar-vos a felicidade que andais procurando – Nós ao menos não sejamos tão insensatos, e como nos exorta o mesmo santo Doutor, de hoje em diante, busquemos unicamente o amor de Deus, busquemos o único bem, no qual estão encerrados todos os outros: Quaere unum bonum, in quo sunt omnia bona. Mas não podemos achar este bem, sem renunciar a todo o afeto pelas coisas da terra, como o ensina Santa Teresa: Desapega o teu coração das criaturas e acharás a Deus.

Meu Deus, no passado não foi a Vós que busquei, mas busquei a mim mesmo e às minhas satisfações; e por elas me apartei de Vós, que sois o Bem supremo. Mas Jeremias me consola, assegurando-me que sois só bondade para os que Vos buscam – Bonus est Dominus animae quaerenti illum (3). Amadíssimo Senhor meu, compreendo o mal que fiz deixando-Vos, e arrependo-me de todo o coração. Vejo que sois um tesouro de valor infinito; não querendo deixar inútil esta luz, renuncio a tudo, e escolho-Vos para único bem dos meus afetos.

Ó meu Deus, meu amor, meu tudo, por vós suspiro. Vinde, ó Espírito Divino, e com o santo fogo do vosso amor, consumi em mim todo o afeto de que não sois o objeto. Fazei-me todo vosso, e que tudo vença para Vos agradar. Ó Maria, minha advogada e Mãe, ajudai-me com as vossas orações.

Referências:

(1) Sl 36, 4
(2) Sl 72, 25
(3) Lm 3, 25
8ª parte

 Domingo de Pentecostes

Amor de Deus para com os homens na missão do Espírito Santo

Et repleti sunt omnes Spirit Sancto, et coeperunt loqui variis linguis – “E foram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas” (At 2, 4)

Sumário. No sacramento da Confirmação todos nós recebemos o mesmo Espírito Santo que Maria Santíssima e os apóstolos receberam hoje tão abundantemente. Consideremos o amor que neste sublime mistério nos mostraram as três Pessoas divinas apesar dos maus tratos que o mundo infligiu a Jesus Cristo. Já que o amor se paga com amor, roguemos ao Espírito divino, que nos abrase o coração com suas felizes chamas, e nos conceda que com a língua louvemos a Deus e o façamos louvar pelos outros.

I. Antes de partir desta terra, o divino Redentor prometeu várias vezes aos apóstolos, que, uma vez voltado para o céu, havia de pedir ao Pai lhes mandasse outro Consolador, o Espírito de verdade, que ficaria sempre com eles. Eis que hoje Jesus cumpre fielmente a sua promessa.

Refere São Lucas que “quando se completaram os dias de Pentecostes, todos os discípulos estavam juntos no mesmo lugar e perseveravam unanimamente na oração com as mulheres e Maria, a Mãe de Jesus. E veio de repente do céu um ruído, como de vento que soprasse com ímpeto e encheu toda a casa onde estavam sentados. E lhes apareceram repartidas umas como que línguas de fogo que repousaram sobre cada um deles. E foram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em várias línguas conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem“.

Consideremos aqui o amor que Deus nos mostrou em tão sublime mistério, porquanto no sacramento da Confirmação nós temos recebido o mesmo Espírito Santo, o Consolador, que Maria Santíssima e os apóstolos receberam hoje tão abundantemente e de um modo tão admirável. O Pai Eterno, não satisfeito de nos ter dado seu Filho divino, quis ainda dar-nos o Espírito Santo afim de que habitasse sempre em nossas almas e conservasse nelas aceso o fogo sagrado do amor. O mesmo faz o Filho Eterno, não obstante os maus tratos que os homens lhe infligiram na terra.

O Espírito Santo, pois, desce ao Cenáculo em forma de línguas de fogo, para nos ensinar que por nosso amor assumiu o ofício amoroso de dirigir as línguas dos apóstolos e dos seus sucessores, na pregação do Evangelho. Apareceu também em forma de chamas, para insinuar que alumiará os espíritos, purificará os corações e estimulará as vontades de todos os fiéis, para trabalharem na santificação própria e na dos outros. Oh! Que grande amor da parte da Santíssima Trindade!

II. Amor se paga com amor. Visto, pois, que ao mistério deste dia toda a Santíssima Trindade se esmerou em nos patentear o amor que Deus nos tem, justo é que o amemos com todas as nossas forças. Roguemos, portanto, ao Espírito Santo queira ascender em nossos corações as chamas sagradas do seu amor.

Ó Espírito Santo, divino Paráclito, pai dos pobres consolador dos aflitos, santificador das almas, eis-me aqui prostrado em vossa presença, para Vos adorar com a mais perfeita submissão. Creio firmemente que sois Deus eterno, da mesma substância com o Pai e o Filho divino, e amo-Vos com todos os meus afetos sobre todas as coisas. Ingrato e insensível a vossas santas inspirações, tantas vezes Vos ofendi pelos meus pecados. Peço-Vos humildemente perdão e pesa-me sumamente ter-Vos desagradado, ó Bem supremo.

Ofereço-Vos o meu pobre coração e peço-Vos queirais purificá-lo com a água de vida eterna, e fertilizá-lo com o orvalho celestial, afim de que seja morada digna de Deus e só em Deus ache repouso. Sois fogo; abrasai-me de vosso santo amor; sois um laço, prendei-me com os laços de caridade; sois força; dai-me forças contra os espíritos malignos. Sois finalmente o tesouro de todo o bem; enriquecei-me com todos os vossos dons celestiais, assim como enriquecestes a alma de Maria Santíssima e dos santos apóstolos.

A mesma graça peço-a de Vós, ó Eterno Pai. “Vós, que no presente dia ensinastes os corações dos fiéis com a luz do Espírito Santo, dai-nos pelo mesmo Espírito o conhecimento e o amor do que é reto, e que sempre gozemos da sua consolação” (1). Fazei-o pelo amor de Jesus e Maria.

Referências:

(1) Or. Dom. curr.